Documents

A Crise e Os Dilemas Da Política Econômica

Description
Macroeonomia
Categories
Published
of 25
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  1 A crise e os dilemas da política econômica Maryse Farhi 1  Resumo : A crise financeira iniciada em meados de 2007 no segmento de crédito imobiliário nos EUA perdura até os dias de hoje. Em sua primeira fase, que se estende até o início de 2009, verificou-se uma convergência das políticas macroeconômicas das  principais economias. Mas, já partir da segunda fase, de efêmera recuperação econômica e que vai até o início de 2010, surgiram marcadas divergências nessas  políticas, com a Europa optando por uma estrita contração fiscal. Tais divergências acenturam-se na terceira fase, caracterizada por nova recessão em diversas economias européias ou acentuada redução do crescimento em outros países. Abstract:  The financial crisis that started in mid-2007 in the sector of mortgage lending in the U.S. is still ongoing. In its first phase, which went on until early 2009, there was a convergence of macroeconomic policies of the major countries. But already from the second phase of ephemeral economic recovery that extended till the beginning of 2010, there were marked differences in these policies, with Europe opting for a strict fiscal contraction. Such divergences were even more accentuated in the third phase, characterized by a new recession in several European economies or marked reduction in growth in other countries. Introdução A crise financeira iniciada em meados de 2007 no segmento de crédito imobiliário nos EUA foi grave o suficiente para ser qualificada como “a mais séria e destrutiva desde 1929”  pelo comitê de Larosière (2009), estabelecido pela União Europeia para avaliar seus aspectos e implicações. Apesar de uma menor intensidade, essa crise apresenta outras particularidades que a aproximam da Grande Depressão da década de 1930, tais como sua duração 2 , sua abrangência internacional e a incontornável necessidade de voltar a regulamentar o setor financeiro (Griffith-Jones, 2010). Dessa forma, não parece estranho que diversos economistas (Stiglitz, 2010; Aizenman e Pasricha, 2010; Krugman, 2009; Rhodes e Steller, 2010) tenham passado a designar a recente crise como sendo a Grande Recessão. Da mesma forma, a recuperação das principais economias desenvolvidas que se seguiu a essa crise financeira tem poucos traços em comum com as retomadas econômicas verificadas desde a 2ª Guerra Mundial, que foram muito mais rápidas e acentuadas. Pelo contrário, a atual recuperação vem sendo comparada à que ocorreu durante a Grande Depressão, caracterizada por um baixo dinamismo, insuficiente para recuperar o nível de emprego. Importa aqui ressaltar que a crise da década de 1930 não foi um episódio de dez anos de declínio econômico contínuo, mas sim constituída por dois períodos recessivos distintos - agosto de 1929 até março de 1933 e maio de 1937 até a Segunda Guerra Mundial. Entre essas duas recessões ocorreu um período de recuperação econômica que, entretanto, foi insuficiente para impedir que a taxa de desemprego permanecesse acima dos 10% (Bernanke, 2000). Passados quase cinco anos da sua eclosão da crise financeira, ela continua  provocado acentuada deterioração das condições macroeconômicas. As economias 1  Professora doutora do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora visitante do Ipea 2  Nas maiores economias desenvolvidas, a forte recessão suscitada por essa crise terminou em meados de 2009. Assim, segundo o  Business Cycle Dating Committee do  National Bureau of Economic Research (NBER) (fundado em 1920 como um grupo privado sem fins lucrativos de pesquisas econômicas e encarregado pelo governo americano de determinar o início e o fim das recessões), nos Estados Unidos, ela terá durado de dezembro de 2007 a junho de 2009, a mais longa recessão desde a depressão de 1929.    2 avançadas estão muito longe de se recuperar, a americana com um crescimento tímido e insuficiente para melhorar o nível de emprego, e os países europeus passando por estagnação e, em vários casos, nova recessão. Em todos esses países, continuam existindo ameaças de novas quedas do produto e do emprego e de mais episódios de instabilidade financeira. As relações de causalidade entre a crise financeira e o agravamento desses desequilíbrios permitem afirmar que se trata de um mesmo e único episódio. À semelhança da Grande Depressão, a crise atual também pode ser decomposta, analiticamente, em três fases. A primeira iniciou-se em meados de 2007, com a elevação da inadimplência e a desvalorização dos imóveis e dos ativos financeiros associados às hipotecas americanas de alto risco (  subprime ) e culminou com a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, em setembro de 2008, que lhe conferiu um caráter sistêmico. Nessa fase, tudo parecia indicar que as lições da Grande Depressão tinham sido aprendidas, permitindo evitar a repetição dos erros de política econômica que tinham então contribuído para seu aprofundamento e sua extensão. Apesar de suas raízes teóricas muito distintas, essas lições tinham um importante elemento em comum: todas preconizavam uma intensa intervenção do Estado em oposição às políticas de laissez-faire e às diretrizes das políticas macroeconômicas recomendadas pelo mainstream  econômico (definição na qual se enquadra o Fundo Monetário Internacional - FMI). A segunda fase abrangeu o ano de 2009 e o início de 2010. Ela se caracterizou  por uma recuperação dos preços dos ativos e por expectativas de uma próxima retomada econômica, em função das políticas fiscais e monetárias adotadas no período anterior. O  bom desempenho dos mercados financeiros levaram os bancos à percepção do business as usual   e a exercer pressões para evitar ou atenuar as mudanças na supervisão e regulação financeira. Mas, foi igualmente o período em que a crise financeira teve o maior impacto na economia como um todo, com forte queda do nível de atividade e alta do desemprego. Esse descompasso conduziu à cristalização do ressentimento popular em relação aos imensos programas de socorro às instituições financeiras (comparado com os parcos recursos destinados a programas sociais no período) e à falta de mecanismos ou de vontade política para impedir o pagamento de milionários bônus a seus dirigentes. Tal ressentimento está na base do lançamento de diversos documentários, livros de divulgação e artigos na imprensa sobre a atuação das grandes instituições financeiras no período que antecedeu a crise. Também deu srcem à criação de comissões parlamentares de inquérito e ao surgimento do movimento “Occupy Wa ll Street”. A expansão maciça dos déficits públicos e dos balanços de bancos centrais para combater a crise era, então, amplamente considerada como excepcional e temporária. De fato muitos governos e bancos centrais, desconfortáveis com a situação, começaram a partir do segundo semestre de 2009 a falar sobre uma estratégia de saída . Mas, as reversões provaram ser muito mais complexas do que se previa, com os déficits  públicos prosseguindo sua trajetória de ampliação diante da forte queda de receitas ocasionada pelo baixo nível da atividade econômica. Foi, igualmente, nesta fase que as  políticas macroeconômicas começaram a divergir entre a Europa mostrando-se muito mais preocupada com os desequilíbrios fiscais do que com um crescimento econômico sustentável como os Estados Unidos. Já a terceira fase vem se desenvolvendo a partir do início de 2010. Essa fase caracteriza-se por enveredar pelo caminho de nova contração econômica, com grande  potencial de contagiar o conjunto da economia internacional. A esperada recuperação econômica mostrou ser anêmica, devido, por um lado, às políticas macroeconômicas  3 contracionistas na Europa e, por outro lado, à necessidade das instituições financeiras e das famílias de prosseguir no processo de redução de suas dívidas.  Nos Estados Unidos, o Fed passou a adotar políticas monetárias não convencionais para incentivar o crescimento econômico e reduzir o desemprego, comprando títulos para injetar dinheiro na economia. Mas, nessa fase da crise, a epicentro passou a ser a União Monetária Europeia (UME) que resvalava para uma crise das dívidas soberanas, marcada pela desconfiança dos mercados financeiros em relação à capacidade de honrar os compromissos financeiros de diversos países da região. Em alguns casos, o período de boom ou de bolha anterior havia ocultado muitas mazelas econômicas e encorajado o aumento do ritmo dos gastos públicos. Mas, em outros casos, as srcens dessa deterioração da situação fiscal estavam diretamente ligadas à crise financeira: custo fiscal das operações de resgate financeiro, perdas de receitas causadas pela recessão e renúncias fiscais discricionárias tomadas para estimular a atividade econômica.  Nesse contexto, as políticas macroeconômicas contracíclicas foram abandonadas  pelos países europeus que definiram a volta ao equilíbrio fiscal como sua grande  prioridade. Tal prioridade não ficou confinada aos países da zona euro que  permaneceram na linha de mira dos mercados como a Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha. Ela se estendeu a outros países não visados pelos mercados como a Alemanha e a França bem como a países que, embora pertençam à Comunidade Europeia não aderiram à moeda única, como a Inglaterra e a Hungria. A convergência dos objetivos macroeconômicos para a busca do equilíbrio fiscal nos países europeus exprimiu-se pela imposição de políticas de forte restrição fiscal. Essas semelhanças suscitam fundadas suspeitas de que essa crise assemelha-se ao movimento verificado no início da década de 1930, usualmente caracterizado como uma “dupla recessão” ( double dip recession ). Schiller (2010) utiliza uma definição de dupla recessão que contempla um horizonte temporal relativamente longo. “Esse fenômeno se inicia por uma recessão na qual o desemprego sobe para um nível elevado e, em seguida, se reduz num ritmo demasiadamente lento. Antes que o nível de emprego volte ao patamar normal, ocorre uma segunda recessão. Enquanto nova recuperação econômica não se completar, estaremos numa dupla recessão, mesmo se houver anos entre as duas quedas. No último século, houve apenas uma dupla recessão, com essa definição, e ela foi séria. Tudo começou com a recessão 1929-1933, que foi seguida por outra recessão em 1937-38. Entre essas quedas, a taxa de desemprego nunca se estabeleceu abaixo de 12,2 por cento. Essas duas recessões, separadas por quatro anos, são agora geralmente agrupadas como um único evento, a Grande Depressão.”  Á semelhança do ocorrido na década de 1930 3 , visões divergentes sobre a recuperação após a crise nas principais economias desenvolvidas têm levado a políticas macroeconômicas muito distintas. Essa divergência contraria o que se constatou na  primeira fase da crise, em que os participantes do Grupo dos 20 (G20) 4  coordenaram 3    Na Grande Depressão, políticas macroeconômicas divergentes contribuíram para a extensão e aprofundidade da crise. Elas estavam essencialmente ligadas à política cambial, com alguns países abandonando o padrão ouro, enquanto outros tentavam mantê-lo a qualquer custo. A evolução histórica mostrou que os países que abandonaram primeiro o padrão ouro foram capazes de aumentar sua base monetária e seus preços, provocando uma depreciação cambial e tendo recuperação mais rápida do que aqueles que mantiveram esse regime cambial por mais tempo e foram forçados à deflação (Bernanke, 1994).   4  Criado em 1999 e formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias desenvolvidas e emergentes do mundo mais a União Europeia. O G-20 é um fórum de cooperação e de consulta sobre assuntos do sistema financeiro internacional. Seus membros representam  4 suas políticas macroeconômicas e afirmaram conjuntamente os princípios das reformas a serem adotadas no intuito de prevenir nova ocorrência de eventos semelhantes.  Nas fases seguintes da crise, as divergências ressurgiram e passaram a constituir - agora como então - um fator agravante da tênue recuperação econômica, já que os  países se engajaram em políticas do tipo “cada um por si” ou “salve - se quem puder”, levando a desvalorizações competitivas. Essas divergências estão, sobretudo, relacionadas à avaliação dos riscos das economias resvalarem para novo episódio recessivo. As autoridades econômicas das principais economias desenvolvidas estão confrontadas a um dilema: manter os estímulos macroeconômicos por temor a uma dupla recessão e/ou a um processo de deflação ou retirar parte ou a totalidade desses estímulos, por considerar que o déficit das contas públicas chegou a um ponto crítico e que seu controle tornou-se prioritário. Essa divergência de políticas macroeconômicas condiciona a evolução da economia mundial e pode agravar seus desequilíbrios. Mas, os dados apontam que, embora as intervenções públicas tenham tido algum sucesso em reverter o processo de deflação de ativos, nenhuma das políticas adotadas tem sido capazes de atingir os objetivos fixados: seja para resolver os desequilíbrios fiscais, seja para restaurar um crescimento econômico sustentado e reduzir os elevados níveis de desemprego. Este insucesso suscita a hipótese que, face à magnitude da crise do capitalismo com dominância financeira ( market led  ), instrumentos fiscais e monetários estão atingindo seu limite. Em outras palavras, quando a crise atinge mercados financeiros que se tornaram maiores que os Estados, a correlação de forças é favorável aos mercados e sua  busca de rentabilidade a qualquer custo, fazendo com que as intervenções públicas  possam se mostrar insuficientes. Nesse contexto, o risco de um double dip  apresenta contornos mais ameaçadores já que se defronta com instrumentos anticíclicos em rápido esgotamento. Esse texto propõe-se a examinar esse conturbado período e a discutir os diagnósticos diferenciados e as distintas medidas de política econômica adotadas pelas  principais economias desenvolvidas. Após esta breve introdução, o texto será composto de mais três seções. Na primeira, será abordada a convergência das políticas macroeconômicas anticíclicas adotadas no auge da crise bem como suas bases teóricas. A segunda parte examinará as profundas divergências nessas políticas, surgidas no  período que se seguiu à crise, em particular entre a União Europeia e os Estados Unidos. Por fim, a terceira parte será consagrada a uma breve conclusão. 1  –   Crise   e Convergência das Políticas Macroeconômicas  No ápice da crise, tudo parecia indicar que as lições da Grande Depressão tinham sido aprendidas, permitindo evitar a repetição dos erros de política econômica que tinham então contribuído para seu aprofundamento e sua extensão. Apesar de suas raízes teóricas muito distintas, essas lições tinham um importante elemento em comum: todas preconizavam uma intensa intervenção do Estado em oposição às políticas de laissez-faire e às diretrizes das políticas macroeconômicas recomendadas pelo mainstream  econômico (definição na qual se enquadra o Fundo Monetário Internacional - FMI). Antes da crise, tais diretrizes decorriam do “consenso macroeconômico”, oriundo da convergência entre as correntes novoclássica e novokeynesiana em torno da crença que, de um lado, a economia de mercado seria capaz de levar à estabilidade macroeconômica e que, de outro lado, as políticas econômicas seriam ineficientes  porque antecipadas pelos agentes. Esta crença encontrou respaldo político nos governos  perto de 90% do PIB mundial, 80% do comércio internacional - incluindo o comércio entre países da União Europeia - e dois terços da população do planeta.
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks