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A EVOLUCAO FISICA E SOCIAL DA ILHA DO FOGO EM ILHEU DE CONTENDA

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    IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 1 A EVOLUÇÃO FÍSICA E SOCIAL DA ILHA DO FOGO EM  ILHÉU DECONTENDA   LIMITES DA FICÇÃO E UNIVERSO REAL EVOCADOGLÓRIA DE BRITOUNIVERSIDADE ABERTAResumo As obras de Teixeira de Sousa (1919) constroem um universo regional no qual se move todo um conjuntode figuras representativas de uma classe social em decadência, a burguesia branca de antigos donos dailha, gradualmente absorvida pela preponderância socioeconómica dos mestiços e mulatos.  Ilhéu de Contenda (1978) constitui um marco narrativo na ficção realista cabo-verdiana e fornece umtratamento preciso sobre o surgimento dos fenómenos perturbadores de um equilíbrio secularmenteestabelecido e sobre a dramática transição para uma nova forma de sociedade.Ao longo do romance, o narrador postula sobre a génese desta substituição e vai delineando aspropriedades intrínsecas à nova composição social que prenunciam os traços essenciais da identidadefoguense. ---------------- Falar de  Ilhéu de Contenda (1978) implica falar simultaneamente de váriasquestões relacionadas quer com o contexto do aparecimento desta obra, quer com ascaracterísticas da própria narrativa. Trata-se do primeiro romance de Henrique Teixeirade Sousa (1919) que até então só tinha publicado ensaios e contos, constituindo, porconseguinte, um marco fundador da sua obra romanesca que actualmente conta comsete títulos.José Luís Hopfer Almada (1997, 179) considera este romance como “uma balizado segundo realismo da ficção cabo-verdiana, pela sua novidade no que diz respeito aoaprofundamento da questão social que se inicia com a primeira geração claridosa ” i .Aliás  Ilhéu de Contenda faz parte de uma trilogia que integra os romances  Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992) na qual o escritor recria e retoma diferentesmomentos da sociedade da ilha do Fogo, sua terra natal, cronologicamente distribuídospor um período que vai do fim da escravatura ao período da pós-independência,abrangendo um ciclo completo.    IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 2 Nesta perspectiva, a obra cimenta alguns indícios de uma ruptura com a escritada Claridade,  já anteriormente manifestados por outros escritores, entre os quaisdestacamos Gabriel Mariano (1928), Luís Romano (1922) e Pedro Duarte (1924).Uma outra questão que se poderá abordar na leitura da obra, reside na determinação dasua filiação ao um determinado tipo de romance ou a um movimento literário. SegundoArnaldo França (1998, 206) “a perspectiva da obra não é estranha à experiência neo-realista portuguesa no quadro económico-social das personagens”. Estas dividem-se emestratos sociais distintos e evoluem no sentido inverso da luta pelo acesso a um poderlocal, conquistado com os dólares americanos da emigração. Aquele autor considera queos romances da trilogia de Teixeira de Sousa são os únicos textos da ficção cabo-verdiana em que se pode verificar uma análise dialéctica e uma oposição de classes, naqual a cor da pele intervém como elemento de discriminação.  Ilhéu de Contenda ficciona a decadência da classe aristocrática da ilha do Fogo,gradualmente absorvida pela preponderância socioeconómica dos mulatos e mestiços. Oromance articula o relato da última geração da saga familiar dos Medina da Veiga comas várias configurações do auge e queda dos antigos donos da ilha, determinada porfactores de ordem económica e histórico-social: a extinção da escravatura e domorgadio, a emigração e a alteração do rumo do comércio internacional e nacional. Asignificação da ruína daquela família é construída no conjunto dos três romances quecompõem a trilogia, pela mediação do olhar dos narradores e das personagens sobre amudança irrevogável da sociedade. As reflexões críticas, sociais e políticas sobre meioséculo de história da ilha do Fogo, tecidas ao longo das narrações reenviam para umvasto conjunto de uma referências espácio-temporais, associadas a uma realidade sócio-histórica anterior e exterior à escrita do romance ii , assegurando alguma conformidadecom o domínio exofórico.O tipo de narrativa, centrado numa escolha consciente de temas e ambientes deetapas determinantes da história da ilha do Fogo, bem como o processo de narração, queconsiste em confiar a uma personagem central (inventada ou não) acontecimentospassados, actualizados de forma viva e crítica, conferem uma certa verosimilhança aouniverso referencial evocado nos romances. Esta trilogia fornece uma imagem global deuma sociedade e da vida de uma época sob a forma de “pequenos pormenores    IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 3 concretos”, sugerindo o “efeito de real” barthiano iii . Todavia, se a descriçãopormenorizada de acontecimentos, figuras e lugares participa na construção de umsistema de representação que poderemos aproximar da enunciação realista, também écerto que o empenhamento e a reflexão crítica se manifestam relevantes na interpretaçãoda evolução socioeconómica e cultural do Fogo. De entre alguns factores determinantesdo carácter histórico de uma narração, que não cabe desenvolver neste trabalho,nomeadamente, a distância entre o tempo da escrita e do enunciado, as formas e registoslinguísticos da representação (“ressurreição” iv ) de épocas históricas e de seresdesaparecidos, Martin Kuester considera que “a presença de uma consciência históricanuma situação historicamente condicionada se revela fundamental” v . Nesta concepção,tanto os narradores como as personagens implicados na intriga dos romances da trilogiaatrás referidos emitem juízos, interrogações e até perplexidade perante a mudança,inscrevendo na narrativa uma consciência crítica da realidade social. Nesta lógica,podemos conferir a alguns factos e personagens da diegese, não só uma representaçãode uma existência com um fundo verídico, como um carácter interpretativo no qual seinscreve a ideologia do texto. O escritor, numa entrevista dada a Michel Laban (s.d.,215), revela o seu processo de criação do romance, comparando-o a uma sinfonia: “O fio melódico é a personagem principal, enquadrada numa orquestraçãocomplexa, constituída pelo meio e pelas restantes personagens. Falando em personagens,estas são na sua totalidade enumeradas, nomeadas, caracterizadas física e psicologicamente.As personagens são geralmente criadas a partir de pessoas conhecidas, às vezes duas, trêspessoas, fundidas numa única personalidade”. O recurso concertado a elementos e códigos do mundo real, garante a naturezarealista do texto, construído a partir de um sistema de relações referências precisas econhecidas que se revelam fiáveis no contexto socio-histórico representado.Do mesmo modo, se poderia colocar a questão das fronteiras que delimitam aHistória passada da contemporânea e a qualidade do “histórico” no romance (C.Bernard, 1996, 68-69), por oposição ao imaginado.  Ilhéu de Contenda centra-se naruína de uma família, paradigma da queda do grupo da aristocracia branca do Fogo.  Na    IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 4  Ribeira de Deus foca a evolução urbana (física e económica) de S. Filipe e oprotagonismo da classe popular na vida social.  Xaguate reconstrói as transformaçõesfísicas, sociais e humanas da ilha, tecidas pelo olhar retrospectivo e avaliativo de umemigrante que, após cinquenta anos de diáspora na América, regressa definitivamenteao país natal. Nestas ficções, os índices do “histórico” em  Ilhéu de Contenda denotamum maior efeito de coerência na recomposição dos acontecimentos particulares e geraisancorados na História da ilha, assegurados pela proximidade da ficção com as grandesmudanças e conflitos ocorridos na época evocada. Os sinais da transição Em  Ilhéu de Contenda , a intriga tece-se a partir da morte de Nha Caela, viúva dePedro Simplício da Veiga, antigos donos de sobrados, comércio e propriedadesagrícolas. É assegurada por Eusébio, o protagonista do romance e filho mais novo docasal. A estrutura da obra baseia-se num conjunto de setenta e seis capítulos curtos,ligando uma sequência de episódios, nos quais se desenvolvem situações, práticas,comportamentos e sentimentos que introduzem o leitor numa época de transição daHistória da ilha do Fogo. Ou seja, num passado, recomposto, ressuscitado, revestido dedinâmica e de mimetismo vi . O leitor é convidado a presenciar as circunstâncias deespaço e de tempo que geraram os factos narrados e até a ouvir as palavras e apresenciar os gestos dos seres que nelas estiveram envolvidos. Este efeito realista éconstruído pela introdução de um olhar que escolhe, organiza, explica e comenta ouniverso referencial, supostamente verídico.Assim, a decadência da família do Medina da Veiga é representada como umfenómeno paradigmático da mudança irreversível e trágica das famílias “de gentebranca” que ocorreu em Cabo Verde, e de forma mais exacerbada na ilha do Fogo, naprimeira metade do século vinte. Os primeiros sinais desta mudança já se deixamentrever no romance  Na Ribeira de Deus , que reconstitui o período cronológico anteriorao de  Ilhéu de Contenda . A desagregação e queda deste grupo dominante, deascendência europeia, e a emergência de uma classe de mulatos enriquecidos com aemigração nos E.U.A., responsáveis pela nova ordem física e social constituem umatemática tratada nas três obras da trilogia de Teixeira de Sousa, acima referidas. Mas é
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