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A Literatura Brasileira Muito Além Do Futebol e Do Samba _ Cultura _ EL PAÍS Brasil

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  18/02/2017 A literatura brasileira muito além do futebol e do samba | Cultura | EL PAÍS Brasilhttp://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html?rel=mas 1/5 CULTURA   A literatura brasileira muito além do futebol e do samba Brasil é uma ilha cultural cuja literatura transcende seus estereótiposSeus escritores e escritoras têm o desafio de refletir a imensa diversidade do país em suaspáginas 31 JUL 2016 - 20:26 BRT Em meados de julho, todo ano, a linda cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, abriga o festival literário maisimportante do Brasil. Os casarões de mais de 300 anos da época do comércio do ouro e as ruas de traçadocolonial, calçadas de pedras quase assassinas para os tornozelos dos transeuntes, se transformam em umaespécie de radiografia não de todo infiel do panorama do livro brasileiro. É o melhor lugar para tentar descobrirpara onde vai a literatura brasileira —se é que vai para algum lugar. Também para saber se os romances e ensaiosde hoje ou de depois de amanhã refletem ou refletirão o convulso e depressivo estado que atravessa o país: àsportas dos Jogos Olímpicos, com uma presidenta, Dilma Rousseff, afastada de seu cargo por um processo ainda em andamento de impeachment  e semi-exilada em seu próprio palácio residencial, e outro presidente emexercício, Michel Temer, à espera de tomar as rédeas do poder de forma definitiva em um mês. Quando a históriaentra pela porta, a literatura se joga pela janela? LITERATURA› Ilustração: Setanta. ANTONIO JIMÉNEZ BARCA  18/02/2017 A literatura brasileira muito além do futebol e do samba | Cultura | EL PAÍS Brasilhttp://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html?rel=mas 2/5   MAIS INFORMAÇÕES Ler ficção nos tornamais empáticos Saramago dizia queo primeiro Nobel emportuguês deveriaser para JorgeAmado Flip 2016 chega aofim com mulheres epoesia no pódio Rodrigo Lacerda (Rio de Janeiro, 1969), editor, historiador e escritor, é um dos romancistasque passeiam por Paraty. É autor, entre outros, de um romance celebrado, Outra vida , no qualrelata o desmoronamento de um casamento enquanto espera um ônibus que vai levá-los parafora de São Paulo. Lacerda afirma que o chacoalhada político e social do Brasil “é muitorecente para que já apareça nos romances”. Mas acrescenta: “Apesar disso, hoje há uminteresse pelos tempos da ditadura, e isso sim se pode aproximar do tema da crise queestamos vivendo, como se se sobrepusessem”. E acrescenta: “Nesta nova queda deautoestima que agora estamos sofrendo, os dois temas se unem na sensação de queestivemos perto de chegar lá, mas que o chão voltou a se abrir e caímos de novo no inferno. Otrem passou. Temos que esperar outro. Não tem jeito”.O escritor acrescenta então outra característica da atual literatura brasileira: “Há alguns anos, uma especialistaelaborou um censo dos personagens de ficção e 90% eram homens, universitários, que moravam em grandescidades (Rio de Janeiro e mais ainda São Paulo) e que tinham problemas típicos dessa classe social. Ou seja:escrevemos sobre nós mesmos”.Isso é especialmente cruel em um país tão diverso social, racial, geográfica e até climaticamente como o Brasil:uma geografia cruzada de mundos e até de épocas diferentes que se justapõe e se retroalimenta em um territóriomágico. A vida de um professor da Universidade de São Paulo não tem absolutamente nada a ver com a de umtrabalhador sem terra do estado do Maranhão, nem a deste com a de um índio de um dos mil rios amazônicos oucom a de um boiadeiro do Sul ou do Oeste do país.Luiz Ruffato, de 55 anos, escritor e articulista na imprensa, autor, entre outros, de Eles eram muito cavalos , umromance experimental que descreve, em capítulos curtos e eletrizantes, a vida na interminável São Paulo, temuma explicação triste: “A ficção atual brasileira reflete os problemas, a vida e as preocupações da classe socialque teve acesso aos estudos no Brasil. Cada um escreve sobre sua aldeia, sua cidade, seu entorno, e com issotenta ser universal. Mas no Brasil, no entanto, não há escritores vindos de outro mundo além do nosso e isso dizmuito sobre a desigualdade que impera do país”. A enfermeira Bruna Siqueira lê um livro no Aterro doFlamengo, no Rio. /LEONARDO WEN O estudante Victor Caplin lê um livro nas pedras doArpoador, na praia de Ipanema (Rio). /LEONARDO WEN  18/02/2017 A literatura brasileira muito além do futebol e do samba | Cultura | EL PAÍS Brasilhttp://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html?rel=mas 3/5   Alguma coisa se move, no entanto, em algumas favelas do Rio ou de São Paulo. Incipiente ainda, carente segundoalguns de autêntico fôlego literário, um grupo de escritores nascidos e criados ali começam a publicar e a viajarpor aí mostrando sua obra. Um de seus expoentes é Reginaldo Ferreira da Silva, Ferrez , de 40 anos, morador dobairro periférico do Capão Redondo, em São Paulo. Seu último livro é o volume explosivo e combativo de contos Os ricos também morrem , no qual narra as histórias de seus vizinhos. Em uma entrevista a este jornal, explicou: “Éum livro pensado para ser comentado na rua, para que riam quando comentam. Eu não tenho mais nada além daspessoas lendo minhas histórias e comentando comigo, rindo quando conto para elas. Não são histórias reais, maso tom e o modo de falar são. São daqui”. A música como modelo 90% dos personagens de romances são homens, urbanos e universitários, algo cruel emum país tão diverso e desigual socialmente Há também um elemento que pode intimidar os escritores brasileiros na hora de abordar um tema mais amploque o de sua própria vida e o dos que rodeiam o escritor: a realidade brasileira costuma com frequência derrotarqualquer um que a enfrente a partir da ficção. Em O dono do morro , um livro sobre a vida do narcotraficante Nemda Rocinha, o jornalista britânico Misha Glenny conta a história, entre outras incríveis, de Chico-Bala, o macacomascote do líder que passeava vestido de caubói e acabou sequestrado pela política.Já a blogueira e escritora Julia Wähmann, de 35 anos, cita a votação do impeachment na Câmara como exemplode algo inimaginável para um escritor de ficção. “A abordagem de conceber em um romance a votação doCongresso que afastou Dilma Rousseff do poder, com os políticos votando pela mãe, pela esposa, pela tia... não iapassar pela cabeça de ninguém”, explica. “Em meu primeiro livro escrevi uma história muito pouco brasileira,centrada na dança contemporânea. Mas, por outro lado, também é a história de uma brasileira que viaja.”O escritor e professor de literatura Flávio Carneiro, de 54 anos, concorda com essa desvantagem diante darealidade extraordinária de todos os dias no Brasil, mas alerta para o reducionismo: “Desde os anos 80, há muitasliteraturas brasileiras, incluindo uma literatura de entretenimento, herdeira de Machado de Assis, do folhetim, queeu defendo”. Carneiro é autor de uma série de romances policiais que se passam no Rio de Janeiro. “Até há algunsanos, no Brasil, o escritor Ruben Fonseca, autor de romances policiais, era considerado subliteratura. Agora é umclássico”, acrescenta. A estudante universitária Jessica Rabelo lê um livro naBiblioteca Nacional do Rio de Janeiro. /LEONARDO WEN  18/02/2017 A literatura brasileira muito além do futebol e do samba | Cultura | EL PAÍS Brasilhttp://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html?rel=mas 4/5   Carneiro tem razão. É perigoso tentar reduzir a literatura de um país-continente, onde se produzem muitasnovelas urbanas paulistas como as de Ruffato, mas que também produz joias estranhas como  A queda do céu ,escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert sobre o que lhe contou seu amigo de anos, o xamã da tribo indígenayanomami Davi Kopenawa, um texto citado por algum escritor como um volume imprescindível para compreendera realidade brasileira.No que todos os escritores concordam é com a pouca repercussão internacional da literatura brasileira. Oprimeiro prêmio Nobel em língua portuguesa (e único até agora) é do escritor português José Saramago. Nãohouve nenhum brasileiro. As traduções dos romances brasileiros são raras e difíceis de encontrar na Espanha,Estados Unidos ou França. Ou, pelo menos, muito mais difíceis de encontrar do que as de seus contemporâneoshispano-americanos. Todos têm consciência de que vivem em uma ilha linguística enorme, mas uma ilha, afinal. Etodos criticam a bastante escassa e contraditória promoção cultural dos sucessivos governos brasileiros. Háquem aponte também, como a escritora Noemi Jaffe, que muitas vezes as editoras estrangeiras buscam umconjunto de estereótipos (futebol, samba, favela...) dos quais muitos escritores justamente tentam escapar. LIVROS, LEITORES E ANALFABETOS -Habitantes do Brasil: 205 milhões. -Índice de analfabetismo:  o Brasil é o oitavo país do mundo com mais analfabetos (cerca de 14 milhões, segundo dadosda Unesco de 2014). 38% dos analfabetos latino-americanos são brasileiros. - Número de títulos editados:  60.829 em 2014 e 52.427 em 2015 (uma redução de 13,81%). - Tiragem média:  4.500 cópias para uma tiragem média inicial a nível nacional. - Porcentagem de traduções de línguas estrangeiras:  4.781 títulos traduzidos; 47.646 nacionais (9,11% do total em2015). -Número de editoras:  Mais de 750 segundo o último estudo da Câmara Brasileira do Livro. - Número de livrarias:  3.095, uma por cada 64.954 habitantes em 2014 (a Unesco recomenda 1 pela cada 10.000). 55%estão no Sudeste, 19% no Sul, 16% no Nordeste, 6% no Centro-Oeste e 4% no Norte. - Número de bibliotecas públicas:  6.949 espalhadas nos 26 Estados e no Distrito Federal. - Títulos mais vendidos em 2015:  Ficção: Cinquenta Tons de Cinza  , de E. L. James (174.796 cópias). Não ficção:  Jardim secreto , de Johanna Basford (719.626 cópias). Todos esses autores olham com uma ponta de inveja para a proteção universal da música brasileira, essacontínua fonte popular de ritmo e harmonia que a cada geração vê brotar um ou vários gênios. Ricardo deCarvalho ,  o Chacal , velho poeta que ia à agora bela cidade de Paraty nos tempos em que por lá não havia “senãocachorros vagabundos e bêbados no porto”, recorda que boa parte da cultura brasileira, a que vem dos índios que Imagens da seção de literatura brasileira da Libreria Cultura. /LEONARDO WEN
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