Documents

A Relação Homem e Mundo Na Cosmologia Absurdista de Albert Camus. Danilson Da Silva Barbosa e José Carlos Da S

Description
Neste artigo, propomos uma reflexão acerca do modo como o mundo se apresenta para o homem, procurando identificar as marcas de uma “cosmologia absurdista”. Assumindo a via da interface filosofia-literatura, própria do pensamento de Albert Camus, queremos mostrar que a razão é incapaz de compreender a lógica intramundana.
Categories
Published
of 10
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A RELAÇÃO HOMEM E MUNDO NA COSMOLOGIA ABSURDISTA DE ALBERT CAMUS  Danilson da Silva Barbosa 1  José Carlos da S. Simplício 2 Resumo:  Neste artigo,  propomos uma reflexão acerca do modo como o mundo se apresenta para ohomem, procurando identificar as marcas de uma “cosmologia absurdista”. Assumindo a viada interface filosofia-literatura, própria do pensamento de Albert Camus, queremos mostrar que a razão é incapaz de compreender a lógica intramundana. Palavras-chaves : Absurdo. Cosmologia. Homem. Mundo. Albert Camus 1.INTRODUÇÃO Desde há muito, uma das principais tentativas dos homens foi a de descobrir a srcemde tudo que existe. Quantos esforços foram envidados para que tal tentativa chegasse a bomtermo. Desta busca surgiram muitas respostas: mitos, filosofias e ciências, as quais tentam,cada uma a seu modo, diminuir a sensação de desconforto  presente no coração humano.Muitas vezes, alguns pensadores defenderam uma idéia de perfeita relação entrehomem e mundo, como se o mesmo fosse a morada feita sob medida para o homem e que a beleza do mundo respaldasse harmonia entre todas as coisas criadas.O filósofo  Albert Camus  percorre o caminho da contramão. Para ele, o mundo é umgrande enigma cuja solução está bem distante da capacidade que o homem tem decompreender. Nele, somos estrangeiros, exilados, acometidos de toda sorte de flagelos.Ignoramos nossa srcem, nosso fim e, mais que isso, o porquê estamos aqui. Essa falta derespostas gera o que ele chamou de sentimento do absurdo.  De fato, conforme Japiassú e 1  Graduando do 6º semestre do Curso de Filosofia no Instituto de Filosofia Nossa Senhora das Vitórias. E-mail:danilson.b@hotmail.com 2   Professor de Filosofia do Dfch/UESB e Coordenador da Rede de Estudos da Complexidade. E-mail: jcssimpla@hotmail.com    2 Marcondes, “a partir das obras de Camus e Kafka, fala-se muito do absurdo  (...) para designar o ‘incompreensível’, o ‘desprovido de sentido’ e o ‘sem finalidade’” (1990, p. 12).Revoltar-se contra essa ordem estabelecida é, para Camus, o melhor caminho paraviver no mundo absurdo. Essa revolta não exige que o homem negue o mundo, mas queassuma como tarefa a sua condição de existente e todas as consequências que dela provem. Albert Camus nasceu em uma propriedade vinícola perto de Mondovi, na Argélia, nodia 7 de novembro de 1913. Teve uma infância muito pobre em Argel. Seu pai morreu na batalha de Marne, em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Sua mãe viu-se obrigada a ir  para Argel, para a casa de sua avó materna. Foi ajudado pelo professor Louis Germain, queviu em Camus um futuro promissor. Durante o segundo grau, quase abandonou os estudosdevido aos problemas financeiros da família. A ajuda do professor Jean Grenier foifundamental para que ele seguisse estudando e se graduasse em filosofia.Após terminar o doutorado teve uma crise de tuberculose e seu desejo desesperado deviver o colocou face-a-face com o sentimento do absurdo. Estes acontecimentos tiveram um peso decisivo no desenvolvimento de sua obra filosófico-literária. Em 1957, ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Morreu no dia 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, vítima de um acidentede automóvel. 2.COSMOVISÕES NA HISTÓRIA A cosmologia é uma busca de explicar e compreender a srcem do mundo e de comoele se mantém. Experimentando o mundo como um lugar hostil, os mitos eram a melhor forma de arrazoar aquilo que era incompreensível aos homens. Assim, na perspectivamitológica, o mundo tem sua srcem nos deuses: amores, nascimentos, brigas, mortes,acordos entre diversas divindades geraram esta realidade. Também os fenômenos naturaiseram comumente atribuídos à ação dos deuses. Deste modo era explicada, compreendida e,sobretudo, aceita a irracionalidade do mundo ou a impossibilidade de a razão dar conta dedecifrar os enigmas do mundo.Com o surgimento da filosofia (séc. VI a.C.) os primeiros filósofos buscaram nanatureza o princípio de todas as coisas, a arché  . Para Tales, por exemplo, a água ou o úmido éo princípio de todo o universo: tudo que existe é feito de água. Ela, “transforma-se a si mesmaem todas as coisas e transforma todas as coisas nela mesma” (C HAUÍ , 2002, p. 57). Portanto,  3 desde os homens aos seres inanimados, tudo é água. Após Tales muitos outros filósofostentaram encontrar esse elemento primordial que deu origem a tudo. Posteriormente, na idade média, com a elaboração dos grandes sistemas filosóficos eteológicos, constrói-se uma visão em que Deus, numa perspectiva judaico-cristão, éconcebido como criador e organizador de todas as coisas. Agostinho de Hipona, (séc. IV d.C.) afirma a incapacidade do homem de compreender a si mesmo e o mundo em que está, mas, segundo ele, só pela graça de Deus seria possívelchegar a uma resposta (B LANK  , 2008, p. 6). Segundo Agostinho o homem, criado por Deus, sóencontra o verdadeiro sentido para a vida quando vai ao encontro do criador, devotando aomesmo um louvor necessário. Assim se expressa Agostinho, em suas Confissões : Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vóso incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes paraVós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.(2000, p. 37) Tomás de Aquino, por sua vez, afirma que pelas coisas criadas é possível chegar aocriador. Assim, ele elabora cinco argumentos (“cinco vias”) na tentativa de provar a existênciade Deus e todas essas partem do próprio mundo, isto é, consideram algum aspecto darealidade, apreendida pelos sentidos. No pensamento tomista o homem pertence ao reino dosseres imateriais (por sua alma), mas esta se encontra essencialmente ligada a um corpo queestá presente no mundo material. 3.DA COSMOLOGIA DO ABSURDO OU DO ABSURDO DO COSMOS  No existencialismo ateu, a questão central da cosmologia, isto é, o problema da srcemdo mundo, não é tão acentuada; ao contrário, ela é até menosprezada. Afinal, o que primeiroimporta é a condição de existente do homem no mundo, pois só existe um problema filosófico realmente sério (...) julgar se a vida valeou não a pena ser vivida (...). O resto, se o mundo tem três ou quatrodimensões, se o espírito tem nove ou dez categorias, vem depois (C AMUS ,2008b, p. 17).  4  Nessa perspectiva, torna-se de suma importância saber se viver neste mundo vale ou não a pena. Para quem nunca pensou nisso a resposta pode ser imediata: claro que viver vale a pena!Mas Camus convida a uma reflexão mais profunda sobre a questão da irracionalidadeintramundana e o sentimento do absurdo  que surge do divórcio entre o homem e o mundo.Para os filósofos naturalistas da Grécia antiga, como já o dissemos, o homem eraconstituído a partir do mesmo princípio que todas as outras coisas existentes. Elesacreditavam que, num mundo feito de coisas, o homem era somente mais uma entre todaselas. E como cada um desses objetos tinha o seu lugar, o sentido da vida era encontrar eocupar o seu lugar no mundo.Camus, diferentemente dos antigos, vive e pensa no sentido da vida com grandeagnosticismo. Para ele, portanto, não existe harmonia entre homem e mundo; ao contrário,existe mesmo uma contradição. Ele compara o homem com um ator num cenário desconhecido, um estrangeiro numa terra desconhecida privado das lembranças de sua pátriade srcem, e é exatamente desta contradição que surge o sentimento do absurdo.O mundo é um lugar irracional. Mesmo que, por meio dos sentidos, o experimentemoscotidianamente, ainda assim é impossível encontrar nele uma explicação racional. De fato, arazão não é capaz de compreendê-lo; por mais informações que obtenhamos do mundo,inclusive aquelas que nos vem pela ciência, ele ainda nos será desconhecido. Nesse sentido,Camus assevera: “Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo que posso dizer” (C AMUS ,op. cit., p. 35).Então, como é este mundo absurdo? Na obra  A queda , Camus tenta, através de uma série de metáforas, descrever o mundoa partir da visão do Zuyderzee, na ilha de Marhken: Aqui temos (...) a mais bela das paisagens negativas! Veja, à nossaesquerda, aquele monte de cinza, a chamam aqui de duna, o diquecinzento à direita, a margem arenosa lívida a nossos pés e, a nossa frente,o mar com a cor esmaecida de espuma, o vasto céu onde se refletem aságuas pálidas. Um inverno amorfo, na verdade! Nada mais do que linhashorizontais, nenhum brilho, o espaço é incolor, a vida, morta. Não será aretração universal, o nada sensível a nossos olhos? Nenhum ser humano,sobretudo, nenhum ser humano (C AMUS , 2007, p. 55).
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x