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ARTIGO - Apontamentos Sobre a Pesquisa Histórica Na Sociedade Pós-Audiovisual

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Artigo que estabelece um diálogo entre as tecnologias contemporâneas e a história com foco no conceito de audiovisualidade e seus impactos na pesquisa histórica.
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    Revista Poder & Cultura  , Rio de Janeiro, Vol. 2, Nº4, pp.14-29, Jul.-Dez./2015 |www.poderecultura.com   1   4     APONTAMENTOS SOBRE A PESQUISA HISTÓRICA NA SOCIEDADE PÓS AUDIOVISUAL  Diogo Carvalho *    RESUMO: Com este artigo temos o objetivo de debater o impacto na historiografia da transição do conceito de audiovisual em direção ao conceito de audiovisualidades formulado por alguns autores. Para isso vamos traçar um breve relato dos impactos das mídias audiovisuais na historiografia durante o século XX e analisar como o conceito de audiovisualidade está relacionado com as novas mídias, novas práticas culturais e as suas possibilidades de análise para a pesquisa histórica na contemporaneidade. Ou seja, quais são os novos objetos digitais que podem ser utilizados como fontes? De que forma estes objetos se articulam com as transformações sociais e culturais das últimas décadas e como estas mudanças comportamentais afetam a noção de tempo, de espaço e dos dados, conceitos imprescindíveis para a historiografia. PALAVRAS-CHAVE:  historiografia; mídias; audiovisual; audiovisualidade. NOTES ON THE HISTORICAL RESEARCH IN POST-AUDIOVISUAL SOCIETY     ABSTRACT:  This paper aims to discuss the impact on the historiography of audiovisual con-cept towards the concept of audiovisuality that was developed by some authors. For that we will outline a brief account of the impact of the audiovisual media in history during the twentieth century and examine how the concept of audiovisuality is related to new media, new cultural practices and their analysis possibilities for historical research in contemporary times. In other  words, what are the new digital objects that can be used as sources? How these objects are articu-lated with the social and cultural transformations of the last decades and how these behavioral changes affect sense of time, space and data, which are essential concepts for historiography. KEYWORDS:  historiography; medias; audiovisual; audiovisuality. *** *  Doutorando em História Social  –   PPGH/UFBA. Bolsista da CAPES. E-mail: diogocarvalho_71@hotmail.com    Revista Poder & Cultura  , Rio de Janeiro, Vol. 2, Nº4, pp.14-29, Jul.-Dez./2015 |www.poderecultura.com   1   5     Introdução   s tecnologias sociais influenciam as tecnologias de ordem prática e vice versa. Não é nosso objetivo apontar detalhes e exemplos destas convergências entre as tecnologias práticas e sociais, mas é importante que a interpretação deste fenômeno ,  relacionado ao impacto das tecnologias na história, seja feita a partir destas distinções, que ajudam a ilustrar as diferentes formas de produção tecnológicas ao longo do tempo. Podemos distinguir momentos da história onde o processo de desenvolvimento tecnológico foi mais intenso que outros, contudo, a dialética entre homem e objeto, a transformação do meio ambiente através da ação humana, foi constante ao longo dos séculos. Deste modo cabe aos historiadores pensar esta relação em uma perspectiva mais ampla, ou seja, as tecnologias também estão na ordem do simbólico, dos sentimentos que dão sentido ao mundo e consequentemente da estética.  Assim, os processos envolvendo as tecnologias sociais, a exemplo das diferentes formas de organização do Estado e outras formas de representatividade social ao longo dos anos, também devem ser vistos como processos tecnológicos e culturais, pois advêm de estruturas complexas, formuladas pela ação humana no decorrer do tempo e para o enfrentamento de adversidades sociais, assim como as tecnologias tangíveis. Nestes dois casos, a natureza destes processos tecnológicos é diferente, mas as motivações e os fins são os mesmos, por isso que ambas podem receber a alcunha de tecnologias. Contudo, é importante salientar que estas duas formas de concepção sobre as tecnologias não são dissociáveis, pelo contrário elas se entrecruzam ao longo do tempo. Na contemporaneidade ,  o processo de globalização e a transformação social causada pela tecnologia da informação, ressignificou nosso processo de interpretação do tempo, do espaço e do dado, como argumenta Lucchesi no artigo: Por um Debate entre História e Historiografia Digital 1 . Nesta conjuntura, marcada pela concorrência tecnológica entre marcas e Estados,  vislumbra-se um quadro, onde as tecnologias sociais e as tecnologias de ordem prática e banal estão em convergência na sua concepção, em uma escala de simbiose sem precedentes. Essa é uma das características que definem o tempo presente: o Facebook,  os jogos eletrônicos, o Google,  plataformas de crowdfounding  , Whatsapp  e sistemas públicos de participação política via web, são 1  Tomamos esta expressão de Lucchesi, na sua reflexão sobre os impactos das tecnologias nas categorias do tempo, do espaço e do dado. Para mais informações ver: LUCCHESI, Anita. Por um debate sobre   História e Historiografia Digital. Boletim Historiar,  São Cristovão, n.2, p.45-57, 2014. Ver em: http://www.seer.ufs.br/index.php/historiar/article/view/2127/1850. Acesso em: 20/10/2015  A    Revista Poder & Cultura  , Rio de Janeiro, Vol. 2, Nº4, pp.14-29, Jul.-Dez./2015 |www.poderecultura.com   1   6     produtos tecnológicos que possuem características que unem de forma sui generis   essas duas perspectivas relacionadas às tecnologias, uma de ordem ferramental/utilitária e outra de ordem social. No caso dessas invenções, o seu propósito de existência é a sociabilidade humana e a forma como as pessoas se relacionam no mundo atual. Isso não é uma novidade, como já alertamos, porém, o número de pessoas que utiliza   estes serviços, a perenidade temporal, a aceitação sociocultural e a capilaridade global dessas invenções, as colocam em outro patamar quando comparadas ao telegrafo, rádio e TV, cujas limitações de uso e propagação eram físicas e relacionadas com a nossa noção de tempo, espaço e dado.  Ainda sobre a relação entre o processo histórico e as tecnologias, é difícil separar uma história da tecnologia de outros objetos comumente estudados pelos historiadores, a exemplo da: escravidão, guerras, arte rupestre, renascimento, gênero, modos de produção, culturas etc. Todos estes temas possuem elementos tecnológicos do seu tempo que também revelam características historiográficas relativas ao objeto de estudo, na maioria das vezes estas tecnologias associadas a diferentes épocas são naturalizadas e carecem de problematização sobre seus impactos na cultura e na sociabilidade humana dos períodos e temas estudados na historiografia moderna. Este livro propõe que, seja qual for o ponto inicial, as pessoas que trabalham com comunicação e estudos culturais  —   em número ainda crescente  —   devem levar em consideração a história; e que aos historiadores  —   de qualquer período ou tendência  —   cumpre levar em conta seriamente a teoria e a tecnologia da comunicação 2 .   O impacto do audiovisual na pesquisa histórica.   O século XX foi um período histórico onde as tecnologias comunicacionais foram utilizadas no cotidiano de milhões de pessoas. A expansão do capitalismo, a industrialização, a padronização dos meios técnicos onde circulam informações, a propaganda, as guerras mundiais e a indústria cultural foram processos históricos e sociais que contribuíram para que o século XX fosse caracterizado como o século do audiovisual. Para Burke, o audiovisual causou imensos impactos na historiografia, nos métodos, nos objetos e nas abordagens. A oralidade do rádio contribuiu para o crescimento do interesse dos historiadores sobre as sociedades e suas práticas calcadas na comunicação oral, assim como, o surgimento da TV, na segunda metade do século XX demandou teorias multidisciplinares das abordagens midiáticas. Ou seja, artefatos comunicacionais do presente contribuíram para a manifestação de interesse acadêmico sobre hábitos do passado. 2  BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma História Social da Mídia  : de Gutemberg à Internet. Tradução: Maria Carmelita Pádua Dias. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Zahar. 2006, p.11-12.    Revista Poder & Cultura  , Rio de Janeiro, Vol. 2, Nº4, pp.14-29, Jul.-Dez./2015 |www.poderecultura.com   1   7     De modo significativo, foi com a era do rádio que o mundo acadêmico começou a reconhecer a importância da comunicação oral na Grécia antiga e na Idade Média. O início da idade da televisão, na década de 1950, deu surgimento à comunicação visual e estimulou a emergência de uma teoria interdisciplinar da mídia. Realizaram-se estudos nas áreas de economia, história, literatura, arte, ciência política, psicologia, sociologia e antropologia, o que levou à criação de departamentos acadêmicos de comunicação e estudos culturais. 3   Além dessa influência sobre temas, objetos e processos históricos de sociedades distantes do ponto de vista temporal, o século XX produziu tecnologias que afetaram e influenciaram a historiografia moderna. Ao argumentar sobre isso ,  Bloch afirmou que vivemos sob égide das máquinas e que o estudo destas ferramentas é essencial para o entendimento das sociedades contemporâneas que, sob tamanha influência, não poderiam ignorar o impacto desses artefatos tecnológicos nas dinâmicas econômicas, políticas e culturais do presente. Para compreender as sociedades atuais, será que basta mergulhar na leitura dos debates parlamentares ou dos autos de chancelaria? Não será preciso também interpretar um balanço de banco: texto, para o leigo, mais hermético do que muitos hieróglifos? O historiador de uma época em que a máquina é rainha aceitará que se ignore como são constituídas e modificadas as maquinas? 4  Bloch escreveu esta afirmação antes da invenção da TV, da massificação da indústria cultural, do surgimento da tecnologia da informação e da invenção de utensílios domésticos tecnológicos que revolucionaram o cotidiano do homem ocidental. Ou seja, essa afirmação realizada na primeira metade do século XX é bastante atual, sobretudo se considerarmos as revoluções econômicas, políticas e comportamentais que se delineavam para as próximas gerações. Na realidade ,  a sua atualidade reside na compreensão de que o reino das máquinas é dinâmico e perene e a tendência é que essa relação entre homem e máquina seja agudizada e atualizada ao longo dos anos. No início do século passado, o rádio possibilitou uma dinamicidade na narrativa comunicacional, além de reconfigurar a noção de espaço. A junção do áudio com o visual potencializou esta dinamicidade e possibilitou recriações e registros de processos históricos, numa escala limitada apenas pela capacidade de transmitir e receber informações. Se levarmos em consideração que a recriação do real é um dos fundamentos da escrita da história, ou seja, uma das causas pelos quais os historiadores escrevem a história, o século XX foi o século das narrativas audiovisuais e da imagem, sobretudo a partir dos anos 1950. Alguns autores observam 3   BLOCH, Marc.  Apologia da História: ou o oficio do historiador. 1ª Edição. Rio de Janeiro. ZAHAR. 2002. p.79-80.   4   Ibid., p.81.  
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