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As Escansões do Gesto: Notas para uma Teoria Psicanalítica da Ação. Resumo. Palavras Chaves: literatura, psicanálise, teoria dos atos de fala

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DUNKER, C. I. L. - As Escansões do Gesto: Esboço para uma Teoria Psicanalítica da Ação In: CorpoLinguagem: Gestos e Afetos.1 ed.campinas - SP : Mercado de Letras, 2003, v.1, p As Escansões do Gesto:
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DUNKER, C. I. L. - As Escansões do Gesto: Esboço para uma Teoria Psicanalítica da Ação In: CorpoLinguagem: Gestos e Afetos.1 ed.campinas - SP : Mercado de Letras, 2003, v.1, p As Escansões do Gesto: Notas para uma Teoria Psicanalítica da Ação Resumo Christian Ingo Lenz Dunker Universidade São Marcos O presente artigo apresenta alguns elementos para uma teoria psicanalítica da ação. Considera-se teoricamente a oposição entre o gesto e a ação a partir de algumas variações freudiana sobre a questão, especialmente a teoria do cômico desenvolvida por Freud na parte final de Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905). Argumenta-se em favor da importância da noção lacaniana de escansão, e mais genericamente, para o valor da descontinuidade, na interpretação de atos de linguagem. Toma-se como referência para a apresentação destas teses uma passagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis. O exame desta passagem permite aduzir algumas implicações para a distinção que se pretende desenvolver. Espera-se, com tal distinção, contribuir para o entendimento da noção clínica de ato analítico. Palavras Chaves: literatura, psicanálise, teoria dos atos de fala No princípio era a ação. Goethe 1. Introdução: Certa vez, ao sair de uma de suas conferências nos Estados Unidos, Lacan é abordado por um antropólogo chamado Ralph Linton. O antropólogo é então colocado diante de uma espécie de problema ou de provocação: seria possível redescrever toda a psicanálise a partir de uma única oposição conceitual baseada no par continuidade e descontinuidade? Pode-se atribuir o dito ao contexto de impregnação e de fascínico pela topologia, que captara o interesse de Lacan nos anos 70. O contínuo e o descontínuo seriam categorias fundantes da topologia, esta geometria de borracha sem preocupação com a dimensão e com a medida, apenas com os grupos de relações espaciais em continuidade e seus cortes, rupturas e mergulhos. Mas se a importância da noção de descontinuidade espacial assume relevo nos últimos anos do ensino de Lacan ela fora precedida por inúmeras outras formas de descontinuidade. A começar pela descontinuidade temporal contida e valorizada no artigo sobre o tempo lógico 1. Deste escrito depreende-se uma espécie de lógica da escansão. Há escansões que induzem à certeza e há escansões que nos paralizam na dúvida. Há ainda não escansões, tempo sem intervalo, próprias do automatismo cíclico imaginário. Há finalmente um desdobramento possível da repetição se a lemos na esfera do contínuo (o que não se cessa de se inscrever) ou do descontínuo (o que não cessa de não se inscrever). Seguindo ainda mais o desafio proposto ao antropólogo poderíamos redescrever a escuta analítica como arte e operação de introduzir escansões na continuidade e continuidade naquilo que aparece como intervalo cotidiano. A mais conhecida e alegórica das formas de intervenção psicanalítica é justamente a escansão temporal da sessão, que replica a pontuação e a escansão fonêmica da palavra ou do significante. Tal procedimento visa, de forma genérica, a produção de duas formas distintas de efeitos: (1) a precipitação do sujeito pelo reconhecimento do desejo (2) a descontinuidade do gozo pela reversão da demanda Trata-se portanto de uma prática do interstício, uma escuta que se apóia no soletramento, na fonematização e na transliteração. Mesmo se pensamos a escuta do ponto de vista do discurso, sua descontinuidade está marcada pelo chamado giro de discurso. É pois no hiato criado pela escansão que as técnicas de indução e esvaziamento da significação comparecem ao âmbito da psicanálise. Lembremos aqui que na passagem da psiquiatria à psicanálise, no início portanto de sua própria análise, Lacan arriscou alguns passos como poeta. Sua produção mais conhecida se entitula justamente: Hiatus Irrationalis. 2. Do Gesto ao Ato Essa linha de leitura sugerida pela oposição continuidade - descontinuidade se especifica melhor no que se poderia chamar de teoria psicanalítica da ação. Tal teoria começa por considerar que o ato, diferentemente do comportamento, sempre toma seu sentido em uma cena, ou seja em uma situ-ação, uma ação em lugar. Esta concepção dramática das relações intersubjetivas já aparecia em Georges Politzer, e sua psicologia concreta. É sempre neste contexto que as metáforas convergem. O acting out como momento em que o espectador sobe ao palco, trazendo consigo um efeito de comicidade. A passagem ao ato como instante em que o sujeito projeta-se para fora da cena, trazendo consigo um efeito de tragicidade. Finalmente o ato falho como bem sucedida pasagem do espectador a ator. Versões, imaginária (acting out), real (passagem ao ato) e simbólica (ato falho) da descontinuidade em jogo na teoria da ação em psicanálise. Caberia mencionar ainda uma quarta acepção de ato, desenvolvida por Lacan, a de ato analítico. O ato analítico guarda com as formas anteriores uma semelhança importante: em nenhum caso o agente do ato é sujeito no momento em que o ato é ato. Em outras palavras, o ato implica, em psicanálise, uma espécie de desubjetivação 2. É o que nos dizem os analisantes ao comentar um acting out não estava em mim; não me reconheço no que fiz. Algo semelhante se verifica diante do profundo silêncio que costuma se seguir a passagem ao ato. O silêncio, por exemplo, de um suicídio mal sucedido. Até mesmo no ato falho o agente do lapso afirma: não era isso o que eu queria fazer. 1 Lacan, J. O Tempo Lógico e a asserçõa da certeza antecipada um novo sofisma (1945) in Escritos, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, Lacan, J. O Seminário livro XV O Ato Analítico, aula III, 29 de Novembro de 1967. Ocorre que se o ato é sempre ruptura, intervalo não antecipável, o mesmo não se pode dizer do gesto. O gesto é contínuo, o ato descontínuo. Vejamos como esta diferença se manifesta em uma passagem de Machado de Assis onde a escansão do gesto localiza e pontua o instante do ato. Trata-se da cena em que Bentinho beija Capitu pela primeira vez: Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se rápida, eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada, ainda que quisesse faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse à ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux não pensava ainda na diferença entre os sexos. 3 fim do capítulo. A passagem mostra como o ato do beijo silencia a palavra e escande o gesto. O ato atordoa seus agentes pela interrupção que produz do gesto. Há uma descontinuidade onde o sujeito fica preso a este instante ricamente descrito por Machado. O ato marca de forma clara e irreversivel um antes e um depois. Transição que é assinalada pelo encerramento do capítulo. Transição que é atestada pelo título do capítulo seguinte: Sou um Homem! A cena se abre com a aparição do Outro. Dona Fortunata, mãe de Capitu, entra no recinto. Percebe que há algo há mais na situação, justamente porque percebe os gestos escandidos de Capitu e Bentinho. Ela escuta a descontinuidade ali onde se esperava o prosseguimento da falação cotidiana. Escuta e sorri dissimuladamente. Neste ponto Bentinho, ainda tomado pelo ato, é convocado a dar prosseguimento à esta dissimulação que se sabe dissimulante. Seu gesto porém, agora como gesto de fala, permanece escandido: Como eu quisesse falar também para disfarçar meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram de pronto, mas de atropelo e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação, um simples artigo, por mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. (...) E assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, ela encobrindo pela palavra o que eu publicava pelo silêncio Freud e a Mímica de Representação Vemos assim como há uma certa tensão entre o ato e o gesto, neste esboço de teoria psicanalítica da ação. Segundo a tese que estou apresentando atos e gestos correspondem a duas formas performativas distintas. Pensando na intensidade ou felicidade como critérios inicialmente prpostos por Austin 5 para aferir a força do ato ilocucionário devemos a convergência maior é com a idéia de gesto e não de ato em psicanálise. Trata-se de duas formas distintas de fazer, com a linguagem. Mas se a noção de ato encontra-se desenvolvida em vários pontos da obra de Freud, onde procurar pela noção de gesto? Penso que um ponto de partida crucial para a noção psicanalítica de gesto encontra-se no capítulo VII de O Chiste e sua Relação com o Inconsciente 6. Neste 3 Assis, M. Dom Casmurro, Globo, Rio de Janeiro, 1997, p Op. cit. p Austin, J.L. Quando Dizer é Fazer palavras e ação, Artes Médicas, Porto Alegre, 1996, p Freud, S. O Chiste e sua Relaçõa com o Inconsciente, in Sigmund Freud, Obras ompletas, Amorrortu, Buenos Aires, 1988, V. VII. capítulo, intitulado, O chiste e as variedades cômico, Freud procura distinguir e explicar comparativamente a esfera do cômico, a do chiste e a do humor. O cômico teria sua origem em um gesto. O gesto cômico teria duas propriedades específicas: (1) É um gesto discordante do fim a que se propõe. (2) É um gesto percebido como supérfluo, demasiado ou exagerado. Trata-se de considerar o gesto do ponto de vista de seus fins; como gesto antecipadamente concluído e tamém do ponto de vista de sua intensidade. Observe-se que esta teoria do gesto em psicanálise começa, como é comum acontecer em psicanálise, pela psicopatologia do gesto: sua escansão, seu inacabamento e até mesmo sua inadqueação quanto à fins e meios. A teoria do gesto começaria portanto pela discordância. A avaliação desta discordância, fonte e origem da comicidade, realiza-se por intermédio de uma espécie de cálculo: Opino que por via da comparação entre o movimento observado no outro e o que eu mesmo haveria realizado em seu lugar. Desde logo tem-se que aplicar uma mesma medida aos termos comparados, e esta medida é meu gasto de inervação conectado à representação de movimento em um e outro caso. 7 Portanto o cômico surge desta espécie de comparação entre o esforço estimado no gesto do outro e o esforço estimado do gesto em si mesmo. Nesta comparação, por vezes surge uma espécie de saldo extra um plus de esforço que interpretamos no outro e que nos é liberado sobre a forma de riso ou relaxamento. Freud supõe que toda interpretação lingüística possui um equivalente em termos do que ele chamou de mímica de representação (Vorstullungsmimik). Ou seja ao perceber o corpo do outro, ao interpretar sua mensagem e seus gestos, necessariamente nos conformamos, préconscientemente, à pequenos movimentos involuntários e imperceptíveis que acabam reproduzindo em nosso corpo a forma antecipada ou intuída do corpo do outro. Isso tem um custo que Freud denominou gasto empático (Einfühlung). É a diferença 8 entre o gasto calculado no eu e o gasto suposto no esforço do outro que é convertida em riso. No caso do movimento desproporcional e discordante o esforço que levaríamos a cabo para assumirmos a forma corporal do outro é poupado. O esforço assim poupado é liberado para um emprego substitutivo, cujo exemplo pode ser o riso. Note-se que esta teoria permite pensar fenômenos que vão desde a sincinesia infantil até a gagueira. Formas de linguagem onde o gasto a mais de esforço no gesto é capturado no campo do Outro. Todas as técnicas do cômico, como a imitação, o disfarce, o desmascaramento, a caricatura, a paródia e o travestismo seriam formas modificadas desta imitação virtual que caracterizaria a relação humana com o gesto. Também as formas do humor são deduzidas desta fórmula, substituindo-se neste caso o esforço substraído na comparação, pelo sentimento subtraído na comparação. O prazer do chiste nos pareceu surgir de um gasto de inibição poupado; o do cômico de um gasto de representação (investimento) poupado; e do humor, um gasto de sentimento poupado. Nestas três modalidades de trabalho de nosso aparelho anímico, o prazer provém de uma economia os três coincidem em recuperar desde a atividade anímica um prazer, que em verdade só se perdeu pelo próprio desenvolvimento desta atividade 9 7 Op. cit. p O termo utilizado aqui é Diferenz, que remete a uma difenença quantitativa e não Unterschied, que aponta para a diferença de qualidades. 9 Op. cit. p. 223. Com esta concepção do gesto é possível entender o efeito levemente cômico induzido pela passagem do beijo em Dom Casmurro. Há vários elementos que indicam o esforço hercúleo de Bentinho em retomar o gesto, uma vez que este foi escandido pelo ato. Primeiramente este esforço é retratado em termos diretamente corporais: hirto, costurado na parede, aterrado. Na seqüência este esforço desproporcional é transferido para a própria fala: silenciada, desarticulada, interrompida. Isso explica o gesto de D. Fortunata ela sorri dissimuladamente. Sua dissimulação eleva aquilo que seria simplesmente cômico à dimensão do humor. Ela poupa-se o exagero de sentimento que sempre assedia o primeiro beijo. 4. As Escansões do Gesto Podemos então tentar encaminhar à questão convocatória deste encontro. Há na escansão do gesto três possibilidades de fazê-lo internamente e uma possibilidade de fazê-lo externamente. Internamente a escansão refere-se à discordância de fins, isto é, a uma ruptura da continuidade intencional, o que faz supor a divisão do sujeito. Além disso e concomitantemente há a apariação de um mais de gozar em relação ao qual Freud aponta em três direções: (1) derivado da retirada de inibição (2) derivado da liberação do investimento (3) derivado da dispersão do sentimento. Neste sentido estou sugerindo que o humor e o chiste correspondam a formas elementares do gesto assim como a comicidade. Isso implicaria em falar em gestos de linguagem em oposição a atos de linguagem o que traria ainda para o interior da noção de gesto a visada da totalidade como unidade antecipada. Vemos aqui como as teses desenvolvidas acerca da formação do eu a partir do estádio do espelho convergem com este aspecto da estrutura do gesto. É esta visada que o ato interrompe. É esta curva assintótica da totalização da significação o que vemos em certas patologias do gesto: do delírio em sua agitação psicomotora ao fazer vazio; fazer nada, de certas ações sintomáticas. É esta visada que a linguagem torna possível. Uma comparação disto nos é oferecida por Merleau-Ponty: Ao dar um toque a anatomia e o desenho estão presentes, como as regras do jogo em uma partida de tênis. O que motiva o gesto do pintor não pode residir unicamente na perspectiva ou na geometria, em leis da decomposição das cores ou em qualquer outro conhecimento. Para todos os gestos que pouco a pouco fazem um quadro só há um motivo, a paisagem em sua totalidade (...) 10 É como se na pintura houvessem regras regulativas, que comandam a gestualidade do pintor e que devem se incorporar a esta, como por exemplo as técnicas do chiste, do cômico ou do humor. Mas além destas técnicas que regulam a intensidade do gesto há ainda outro elemento regulatório que é a visada de sua conclusão. A finalidade do gesto, ou do conjunto de gestos, é uma finalidade antecipável. Finalidade que não obstante pode ser traída pelo gesto. Mas é necessário conceber um segundo tipo de regra. A regra que constitui um conjunto possível de gestualidades. Tal regra corresponde à função do ato. Desta forma o ato do pintor tem valor de travessia em relação à seus gestos, assim como o ato do analista tem valor de escansão para o gesto de seu analisante. 10 Merleau-Ponty, M. A Dúvidade de Cézanne, (1965) p. 119, in Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1980. Talvez uma teoria da ação, esboçada nestes termos, possa contribuir de alguma forma para o esforço que alguns analistas ligados ao ensino de Lacan vem realizando no sentido de refletir sobre a constituição do sujeito à partir das escansões temporais introduzidas pela linguagem, a partir de seus elementos mais primitivamente diacríticos. Nesta linha o trabalho de Ângela Vorcaro e colaboradores tem revelado que em situações clínicas como o autismo e os Distúrbios Gerais do Desenvolvimento a introdução de formas de escansão acústicas e rítmicas é, às vezes, a única maneira de permitir alguma viabilidade no acesso do sujeito à linguagem. Por outro lado, uma teoria da ação, que inclua as relações entre o ato e o gesto e que comporte, ao mesmo tempo, a noção de inconsciente, torna-se necessária em um cenário onde as teorias pragmáticas da linguagem mostram-se excessivamente consciencialistas. Christian Ingo Lenz Dunker Universidade São Marcos R. Abílio Soares, 932 Paraíso São Paulo SP
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