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As narrativas na formação de professores e na investigação em educação

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O papel da narrativa como meio de conhecimento é valorizado há muito tempo por diversas disciplinas como a história, a psicologia, a filosofia, a linguística, a antropologia ou a literatura. Durante as últimas décadas, também a educação passou a reconhecer, de forma crescente, a importância da narrativa como metodologia de investigação e de desenvolvimento pessoal e profissional de professores. Este artigo pretende apresentar e ilustrar algumas potencialidades da utilização de narrativas em diferentes contextos educativos. Para tal, recorre a diferentes narrativas elaboradas por professores e alunos participantes em diferentes projectos de formação e de investigação coordenados pelo seu autor.
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  AS NARRATIVAS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES E NAINVESTIGAÇÃO EM EDUCAÇÃO Pedro Rocha dos Reis 1  RESUMO: O papel da narrativa como meio de conhecimento é valorizadohá muito tempo por diversas disciplinas como a história, a psicologia, afilosofia, a linguística, a antropologia ou a literatura. Durante as últimasdécadas, também a educação passou a reconhecer, de forma crescente, aimportância da narrativa como metodologia de investigação e dedesenvolvimento pessoal e profissional de professores. Este artigopretende apresentar e ilustrar algumas potencialidades da utilização denarrativas em diferentes contextos educativos. Para tal, recorre adiferentes narrativas elaboradas por professores e alunos participantes emdiferentes projectos de formação e de investigação coordenados pelo seuautor.PALAVRAS-CHAVE: narrativa; desenvolvimento pessoal e profissional deprofessores; investigação em educação; formação. NARRATIVES IN TEACHER'S FORMATIVE PRACTICES ANDINVESTIGATIONS ABOUT EDUCATION ABSTRACT: The role of narrative as a way of knowledge has been valuedfor quite a long time by several subjects such as history, psychology,philosophy, linguistics, anthropology or literature. During the last decades,education began also to recognize and value the importance of narrative inresearch and teacher education. This article intends to present andillustrate some potentialities of narratives in different educational contexts.All the presented examples were written or used by teachers and studentswho participated in different research and professional developmentprojects coordinated by the author of this article. * NOTA DO EDITOR: Foi mantida a grafia srcinal do artigo em português de Portugal. 1 Doutor em Didáctica das Ciências pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa;Professor Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém – Portugal e do Centrode Investigação em Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – Portugal. E-mail:pedrorochareis@netcabo.pt     Nuances: estudos sobre Educação. Presidente Prudente, SP, ano XIV, v. 15, n. 16, p. 17-34, jan./dez. 2008  KEY-WORDS: Narrative; teachers’ personal and professional develpment;research in education; teacher education. INTRODUÇÃO Em linguagem quotidiana, a palavra “narrativa” é utilizada comosinónimo de “história”, ou seja, um relato de acções envolvendo sereshumanos ou outros animais humanizados. Academicamente, o termonarrativa diz respeito geralmente à estrutura, ao conhecimento e àscapacidades necessárias para a construção de uma história. As históriassão caracterizadas por um argumento envolvendo (1) personagens, (2) umprincípio, um meio e um fim, e (3) uma sequência organizada deacontecimentos.Alguns especialistas da área da literatura estabelecem umadistinção clara entre narrativa e história (CULLER, 1975). Na sua opinião,a narrativa é um texto organizado constituído por uma história (osacontecimentos, as personagens e os cenários) e por um discurso (aforma de apresentação ou narração da história). Contudo, muitosespecialistas e investigadores na área da educação utilizam uma definiçãomais abrangente de narrativa que não se limita a uma característicaestrutural dos textos. Para eles, a narrativa é inerente à acção humana e,portanto, deve ser estudada dentro dos seus contextos social e educativo.Desta forma, atribuem grande valor ao contexto em que se conta anarrativa, às razões que levam o narrador a contá-la e ao tipo de audiênciaa que se destina (CONNELLY e CLANDININ, 1988; ELBAZ, 1983, 1991).Para Clandinin e Connelly (1991), os termos narrativa e históriaqualificam um fenómeno básico da vida e da educação. Emboraapresentem estes termos como sinónimos, explicitam contextosespecíficos para a sua utilização. Assim, propõem a utilização: a) do termohistória quando os textos se referem a situações concretas, vividas porsujeitos particulares em momentos específicos; b) do termo narrativaquando se referem à investigação ou à metodologia de investigação.Outros autores da área das ciências sociais tratam estes termos comoequivalentes (CARR, 1986; POLKINGHORNE, 1998).No campo da educação as narrativas têm sido utilizadas: a) naconstrução de conhecimentos e no desenvolvimento de capacidades eatitudes; b) no desenvolvimento pessoal e profissional de professores; e c)na investigação educativa (CLANDININ e CONNELLY, 1991; EGAN, 1986;GALVÃO, 2005; PRESKILL e JACOBVITZ, 2001; ROLDÃO, 1995).    AS NARRATIVAS NA CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS E NODESENVOLVIMENTO DE CAPACIDADES E ATITUDES As narrativas (entendidas como sinónimo de histórias), tantoescritas como orais, têm sido utilizadas desde há milénios e em diversasculturas como instrumentos educativos, constituindo artefactos culturaiscom potencialidades na organização do pensamento e da realidade e naestruturação de aprendizagens (ROLDÃO, 1995). Geralmente, as históriasnarram: a) o desenvolvimento de uma acção desencadeada por umasituação conflitual, real ou imaginária; b) as tensões e os conflitos vividospelos protagonistas; e c) a forma como os conflitos foram superados. Assuas semelhanças com as vivências de cada indivíduo na resolução deconflitos, torna-as extremamente acessíveis e significativas para acompreensão da realidade e a atribuição de significados (EGAN, 1986).Através da leitura das histórias, os indivíduos experimentam,simultaneamente, o distanciamento afectivo necessário à avaliação dassituações e decisões descritas e a proximidade resultante da identificaçãocom o enredo e os intervenientes. É neste processo de identificação quereside uma parte das suas potencialidades educativas ao nível dasatitudes. As histórias proporcionam imagens, mitos e metáforasmoralmente ressonantes que contribuem para o nosso desenvolvimentocomo seres humanos.O desenvolvimento da responsabilidade social e decomportamentos orientados por princípios éticos envolve uma intrincadacombinação de conhecimentos, capacidades e atitudes. Estedesenvolvimento depende, entre outros elementos, da análise e discussãode casos, ou seja, narrativas/histórias cujo enredo promove a reflexãosobre as complexidades da vida, preparando os cidadãos para os desafiosdas suas existências individuais e colectivas (REIS, 2007). Geralmente, oscasos relatam a história de um indivíduo, um grupo ou uma instituiçãoconfrontados com um problema que deve ser resolvido. Estes problemassão de fim-aberto admitindo múltiplas soluções em resultado, por exemplo,da inadequação dos dados disponíveis ou dos aspectos emocionais eéticos envolvidos. A análise e discussão destas narrativas permitem queos alunos aprendam de forma activa, desenvolvendo capacidadesanalíticas e de tomada de decisão, interiorizando conhecimentos,aprendendo a lidar com situações complexas e controversas da vida real,desenvolvendo capacidades comunicacionais, reforçando a sua auto-confiança e, frequentemente, trabalhando colaborativamente (ERSKINE,LENDERS e MAUFFETTE-LENDERS, 1981; HUTCHINGS, 1993).  As histórias constituem, ainda, um meio de organizar oconhecimento, de estruturar o currículo, de captar a atenção dos alunos ede facilitar a comunicação e a apropriação de significados (ROLDÃO,1995). AS NARRATIVAS NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL EPROFISSIONAL DE PROFESSORES A construção de narrativas e a sua leitura, análise e discussão,em contextos de formação inicial e contínua, encerram potencialidades nodesenvolvimento pessoal e profissional dos professores.Os professores, quando contam histórias sobre algumacontecimento do seu percurso profissional, fazem algo mais do queregistar esse acontecimento; acabam por alterar formas de pensar e deagir, sentir motivação para modificar as suas práticas e manter uma atitudecrítica e reflexiva sobre o seu desempenho profissional. Através daconstrução de narrativas os professores reconstroem as suas própriasexperiências de ensino e aprendizagem e os seus percursos de formação.Desta forma, explicitam os conhecimentos pedagógicos construídosatravés das suas experiências, permitindo a sua análise, discussão eeventual reformulação. A redacção de relatos sobre as suas experiênciaspedagógicas constitui, por si só, um forte processo de desenvolvimentopessoal e profissional ao desencadear, entre outros aspectos: a) oquestionamento das suas competências e das suas acções; b) a tomadade consciência do que sabem e do que necessitam de aprender; c) odesejo de mudança; e d) o estabelecimento de compromissos e adefinição de metas a atingir.Por outro lado, a leitura, análise e discussão de narrativas acercadas práticas e dos conhecimentos dos professores permitem aprofundar edesenvolver conhecimento sobre o ensino e a aprendizagem.Desempenhando simultaneamente os papéis de actores e autores dosseus relatos, os professores permitem que os leitores acedam aos seuspercursos pessoais e profissionais, aos seus sucessos e fracassos e àssuas perspectivas sobre o ensino, a aprendizagem, a avaliação e ocurrículo. Outros professores, lendo, analisando e discutindo essasnarrativas atribuem-lhes um sentido e apropriam-se do seu conteúdo deuma forma muito particular (através do filtro dos seus própriosconhecimentos e vivências), retirando dessas histórias os aspectos queconsideram mais significativos. As narrativas, apesar do distanciamento dequem as lê e analisa, permitem a aproximação dos leitores por ummecanismo de identificação com as situações descritas.
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