Documents

Biomecânica do trauma

Description
Biomecânica do trauma Dr. Mauricio Vidal de Carvalho A avaliação de um paciente traumatizado inicia-se ainda na fase pré-hospitalar do atendimento. Na avaliação da cena, a observação das circunstâncias nas quais ocorreu o evento, como o tipo de colisão automobilística (frontal, lateral, traseira), o grau de deformidade do veículo, a altura da queda, a velocidade dos corpos, o tipo e calibre das armas, entre muitas outras, permite que se estabeleça uma relação entre estes fatos e as possíveis l
Categories
Published
of 12
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Biomecânica do trauma Dr. Mauricio Vidal de Carvalho A avaliação de um paciente traumatizado inicia-se ainda na fase pré-hospitalardo atendimento. Na avaliação da cena, a observação das circunstâncias nas quaisocorreu o evento, como o tipo de colisão automobilística (frontal, lateral, traseira), ograu de deformidade do veículo, a altura da queda, a velocidade dos corpos, o tipo ecalibre das armas, entre muitas outras, permite que se estabeleça uma relação entre estesfatos e as possíveis lesões apresentadas pela vítima. A este estudo denomina-secinemática do trauma, biomecânica do trauma ou mecanismo do trauma.A observação do local na cena do evento já faz parte da história do trauma. Osdanos externos e internos constatados no veículo freqüentemente representam “pistas”para as lesões sofridas pelos seus ocupantes. Por exemplo, um volante deformadosugere impacto sobre o tórax, uma “fratura” circular do pára-brisa indica o local deimpacto da cabeça e sugere uma possível lesão da coluna cervical. Uma deformidade naparte mais baixa do painel sugere o impacto e uma possível luxação de joelho, coxo-femural ou até uma fratura de fêmur. A intrusão da porta no compartimento dospassageiros leva a suspeita de uma lesão tóraco-abdomino-pélvica e/ou no pescoço davítima.A equipe que atende a um politraumatizado deve ter dois tipos de lesões emmente. O primeiro tipo são aquelas facilmente identificáveis ao exame físico,permitindo tratamento precoce. Já o segundo tipo de lesões são aquelas ditas potenciais,ou seja, não são óbvias ao exame mas podem estar presentes pelo mecanismo de traumasofrido pelo paciente. Dependendo do grau de suspeita destas lesões pela equipe, danosmenos aparentes podem passar desapercebidos, sendo tratadas tardiamente.Deste modo, ressalta-se a importância de se conhecer a história do acidente. Notrauma, assim como em qualquer outra doença, uma história clínica completa e precisa,desde que corretamente interpretada, pode levar à indicação ou suspeita de 90% daslesões traumáticas apresentadas pela vítima.Para que um objeto em movimento perca velocidade, é necessário que suaenergia de movimento seja transmitida a outro objeto. No trauma, esta transferência deenergia ocorre quando os tecidos do corpo humano são violentamente deslocados paralonge do local de impacto, pela transmissão de energia. O movimento de fuga dostecidos a partir da região de impacto causa uma lesão local por compressão tecidual etambém à distância, a medida que a cavidade se expande por estiramento.Estes fatores também estão presentes quando a pele é penetrada. A avaliação daextensão da lesão tecidual é mais difícil quando não existe penetração cutânea do quequando há uma lesão aberta. Traumatismos contusos que não deixam marcas visíveis napele são especialmente passíveis de passarem desapercebidos. Um soco desferido contrao abdome pode deformar profundamente a parede sem deixar marcas. Por isso é defundamental importância pesquisar a história do evento que ocasionou a lesão.A figura 02 ilustra estes fatos. Batendo com um taco de madeira, com a mesmaintensidade, em uma lata de alumínio e em um pedaço de espuma observa-se que a lata,  após o impacto, mostra claramente que recebeu a transferência de energia devido àaparente deformidade. De outro modo, o pedaço de espuma instantaneamente após oimpacto retoma sua forma srcinal.Fig. 02Assim sendo, se não soubéssemos da “história”, não suspeitaríamos pela simplesobservação, que aquele material sofrera uma intensa absorção de energia.Uma cavidade (ou deformação) visível após um impacto é definida comopermanente, enquanto aquela que não é visível é definida como temporária. O tamanhoda cavitação é determinado pela quantidade de energia transferida.As cavidades temporárias são formadas no momento do impacto, sendo que ostecidos retornam a sua posição prévia após o impacto. Este tipo de cavidade não é vistopela equipe de resgate e nem pelo médico ao exame físico.O outro tipo de cavidade é denominado permanente. Elas são causadas peloimpacto e compressão dos tecidos e podem ser vistas após o trauma. A diferença básicaentre os dois tipos de cavidades é a elasticidade dos tecidos envolvidos.Por exemplo, como na lata e na espuma, um chute no abdome pode deformarprofundamente a parede sem deixar marcas visíveis, pois após o golpe, a parede volta àsua posição srcinal, gerando-se somente uma cavidade temporária. Já quando ummotoqueiro choca sua cabeça contra um obstáculo, geram-se múltiplas fraturas decrânio, não permitindo o retorno dos ossos às suas posições srcinais (afundamento decrânio). Isto forma uma cavidade permanente que é facilmente identificável ao exame. Tipos de trauma As lesões traumáticas podem ser classificadas em contusões, lesões penetrantes epor explosão. Ao obter a história clínica da fase do impacto algumas leis físicas devemser consideradas:1. A energia nunca é criada ou destruída; ela pode entretanto mudar de forma.2. Um corpo em movimento ou em repouso tende a permanecer neste estado atéque uma fonte de energia externa atue sobre ele.  3. A energia cinética é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade,dividida por dois.4. Uma força é igual à massa multiplicada pela desaceleração (ou aceleração). Trauma fechado (contuso) O   Trauma fechado ou contuso   geralmente é resultante do impacto do corpocontra uma superfície, ou de um processo de desaceleração intensa e rápida. Em suagrande maioria são provocados por acidentes automobilísticos, podendo ocorrer tambémem quedas, agressões, traumas esportivos ou qualquer outra condição que possaproduzir os mecanismos de força que se seguem: ã Força de constrição:   produz lesão do órgão pelo impacto contra umasuperfície óssea. ã Força tangencial: traciona o órgão além dos seus limites de mobilidade. ã Força de compressão súbita: Geralmente atinge vísceras ocas causando aexplosão das mesmas. Lesões orgânicasLesões por compressão As lesões por compressão ocorrem quando a parte anterior do tronco (tórax eabdome) deixa de deslocar-se para frente enquanto que a parte posterior continua amover-se em direção anterior. A contusão miocárdica é um exemplo típico deste tipo demecanismo de lesão.Lesões análogas podem ocorrem com os pulmões ou com vísceras abdominais.Os pulmões e a cavidade abdominal podem estar sujeitos a uma variante peculiar destetipo de lesão – o efeito do saco de papel. Se insuflamos um saco de papel, o fechamos eo comprimirmos abruptamente, ele se romperá. Pois bem, em uma situação de colisão, éinstintivo que a vítima puxe e segure o fôlego, causando, portanto, o fechamento daglote. A compressão da caixa torácica produz ,então, a ruptura dos alvéolos e umpneumotórax simples ou hipertensivo (Fig. 03). Na cavidade abdominal e pormecanismo semelhante, a hiperpressão leva a uma ruptura de diafragma resultando nodeslocamento de conteúdo abdominal para a cavidade torácica. Lesões por compressãodo conteúdo craniano ocorrem pela ação de ossos fraturados que penetram na abóbadacraniana e levam a lesão cerebral, ou pela compressão das porções anteriores doparênquima cerebral, ou ainda pela compressão das porções anteriores de parênquimacerebral contra a parede do crânio pela porções posteriores do próprio cérebro. Fig. 03  Lesão por desaceleração As lesões por desaceleração ocorrem quando a parte responsável pelaestabilização do órgão, por exemplo o pedículo renal, o ligamento teres ou a aortadescendente cessam seu deslocamento anterior acompanhando o tronco, ao mesmotempo em que a parte móvel do corpo, por exemplo o baço, o rim, o coração com oaórtico, continua deslocando-se para frente.Por exemplo, o coração e o arco aórtico continuam a rodar para frente enquantoa aorta descendente, acolada à coluna torácica, desacelera rapidamente junto com otronco. As forças de cisalhamento são mais intensas na interseção entre o arco aórtico,que é móvel, e a aorta descendente que é menos móvel, próximo ao ligamentoarterioso. Este mesmo tipo de lesão pode ocorrer com o baço e os rins, na junção com ospedículos, com o fígado, quando os lobos direito e esquerdo desaceleram ao longo doligamento teres e separam o fígado ao meio, e na caixa craniana, quando a parteposterior do cérebro se separa da calota rompendo vasos e resultando em lesõesexpansivas.· Tórax: Impactos na região do tórax atingem inicialmente o esterno. Ele absorvegrande parte da energia e pára abruptamente. No entanto, a parede posterior do tórax eos órgãos na cavidade torácica continuam a se mover para a frente. O coração e a aortaascendente são relativamente “soltos” na cavidade torácica, mas a aorta descendente éfirmemente fixada à parede posterior. Com isto, quando se cria uma grande aceleração(ex.: impactos laterais) ou grandes desacelerações (ex.: colisões frontais), produz-se ummomento entre o complexo arco aórtico e a aorta descendente, levando a uma secçãototal ou parcial da aorta nesta região (próximo ao ligamento arterioso). Quando total, háum grande sangramento e o paciente morre no local do acidente. Já quando parcialforma-se um aneurisma traumático, que pode se romper minutos, horas ou dias após.Cerca de 80% dos pacientes morrem no local do acidente. Do restante, um terço morremseis horas após, um terço morrem em 24 horas, e um terço vivem por três dias ou mais.Portanto, pelo mecanismo de trauma, deve-se suspeitar do tipo de lesão, permitindoinvestigação e tratamento em tempo hábil.Compressões da parede torácica resultam freqüentemente em pneumotórax. Istoporque há um fechamento involuntário da glote no momento do impacto, aumentando apressão dos pulmões durante a compressão, levando à ruptura. Isso pode ser comparadoao que ocorre quando estouramos um saco de papel cheio de ar entre as mãos. Por essemotivo esse efeito é denominado “paper bag”. As compressões externas do tórax podemlevar ainda à fratura de algumas costelas. Quando múltiplas, existe a possibilidade de sedesenvolver um quadro denominado tórax instável. Órgãos internos também podem seratingidos, como por exemplo o coração. Contusões cardíacas são muito graves poispodem levar à arritmias potencialmente fatais.· Abdome: Como ocorre em outros locais, quando há uma desaceleração bruscaas vísceras abdominais continuam a se movimentar para a frente. Com isso gera-se umaforça de cisalhamento nos locais de fixação dos órgãos, geralmente localizados nos seuspedículos. Isso ocorre por exemplo com os rins, baço, e intestinos delgado e grosso. Ofígado também pode sofrer lacerações na região do ligamento redondo. Isto porque éfixado principalmente no diafragma. Como esse músculo possui grande mobilidade,permite a movimentação do fígado para a frente, forçando-o contra o ligamentoredondo.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks