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Biruta - Lygia Fagundes Telles

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  Elementos da NarrativaProf.º Esp. Alex Oliveira da Silva Biruta  Lygia Fagundes Telles  Alonso foi para o quintal carregando uma bacia cheia delouça suja. Andava com dificuldade, tentando equilibrar a bacia que era demasiado pesada para seus bracinhos finos.   –   Biruta, eh, Biruta! - chamou sem se voltar.O cachorro saiu de dentro da garagem. ra pequenino e branco, uma orelha em p e a outra completamente ca da.  – #ente-se a , Biruta, que vamos ter uma conversinha -disse Alonso pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se, arregaçou as mangas da camisa e começou a lavar os pratos.Biruta sentou-se muito atento, inclinandointerrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para aesquerda, como se quisesse apreender melhor as palavras doseu dono. A orelha ca da ergueu-se um pouco, enquanto aoutra empinou, aguda e ereta. ntre elas, formaram-se doisvincos, pr$prios de uma testa fran%ida do esforço demeditaç&o.  –   'edu na disse que voc( entrou no quarto dela -começou o menino num tom brando. -  subiu em cima dacama e focinhou as cobertas e mordeu uma carteirinha decouro que ela dei)ou l*. A carteira era meio velha e ela n&oligou muito. +as se fosse uma carteira nova, Biruta! #efosse uma carteira nova! +e diga agora o que  que iaacontecer se ela fosse uma carteira nova! 'edu na te davauma surra e eu n&o podia fa%er nada, como daquela outrave% que voc( arrebentou a franja da cortina, lembra oc(se lembra muito bem, sim senhor, n&o precisa fa%er essacara de inocente!...Biruta deitou-se, enfiou o focinho entre as patas e bai)oua orelha. Agora, ambas as orelhas estavam no mesmo n vel,murchas, as pontas quase tocando o ch&o. #eu olhar interrogativo parecia perguntar/+as o que foi que eu fi%, Alonso 0&o me lembro denada...1  –   'embra sim senhor!  n&o adianta ficar a com essacara de doente, que n&o acredito, ouviu Ouviu, Biruta! -repetiu Alonso lavando furiosamente os pratos. 2om umgesto irritado, arregaçou as mangas que j* escorregavamsobre os pulsos finos. #acudiu as m&os cheias de espuma.3inha as m&os de velho  –   Alonso, anda ligeiro com essa louça! - gritou 'edu na,aparecendo por um momento na janela da co%inha. - 4* est*escurecendo, tenho que sair!  –   4* vou indo - respondeu o menino enquanto removia a*gua da boca. oltou-se para o cachorro.  seu rostinho p*lido se confrangeu de triste%a. 5or que Biruta n&o seemendava, por qu( 5or que ra%&o n&o se esforçava um pouco para ser melhor%inho 6ona 7ulu j* andavaimpaciente. 'edu na tambm. Biruta fe% isso, Biruta fe%aquilo...'embrou-se do dia em que o cachorro entrou nageladeira e tirou de l* a carne. 'edu na ficou desesperada,vinham visitas para o jantar, precisava encher os pastis,/Alonso, voc( n&o viu onde dei)ei a carne1 leestremeceu. Biruta! 6isfarçadamente, foi 8 garagem nofundo do quintal, onde dormia com o cachorro num velhocolch&o metido num 9ngulo de parede. Biruta estava l*deitado bem em cima do travesseiro, com a posta de carneentre as patas, comendo tranquilamente. Alonso arrancou-lhe a carne, escondeu-a dentro da camisa e voltou 8 co%inha.6eteve-se na porta ao ouvir 'edu na quei)ar-se 8 dona7ulu que a carne desaparecera, apro)imava-se a hora do jantar e o açougue j* estava fechado, /o que  que eu faço,dona 7ulu1 Leitura é a chave para se ter um universo de ideias e uma tempestade de palavras. (Pedro Bom esus!  Elementos da NarrativaProf.º Esp. Alex Oliveira da Silva Ambas estavam na sala. 5odia entrever a patroa aescovar freneticamente os cabelos. le ent&o tirou a carnede dentro da camisa, ajeitou o papel j* todo roto que aenvolvia e entrou com a posta na m&o.  –   st* aqui 'edu na.  –   +as falta um pedaço!  –   sse pedaço eu tirei pra mim. u estava com vontadede comer um bife e aproveitei quando voc( foi na quitanda.  –   +as por que voc( escondeu o resto - perguntou a patroa, apro)imando-se.  –   5or que fiquei com medo.3inha bem vivo na mem$ria a dor que sentira nas m&oscorajosamente abertas para os golpes da escova. '*grimassaltaram-lhe dos olhos. Os dedos foram ficando ro)os, masela continuava batendo com aquele mesmo vigor obstinadocom que escovara os cabelos, batendo, batendo, como sen&o pudesse parar mais.  –   Atrevido! Ainda te devolvo pro asilo, seu ladr&o%inho!:uando ele voltou 8 garagem, Biruta j* estava l*, asduas orelhas ca das, o focinho entre as patas, piscando, piscando os olhinhos ternos. /Biruta, Biruta, apanhei por sua causa, mas n&o fa% mal.1.Biruta ent&o ganiu sentidamente. 'ambeu-lhe asl*grimas. 'ambeu-lhe as m&os.;sso tinha acontecido h* duas semanas.  agora Birutamordera a carteirinha de 'edu na.  se fosse a carteira dedona 7ulu  –   <em, Biruta!  se fosse a carteira de dona 7ulu4* desinteressado, Biruta mascava uma folha seca.  –   5or que voc( n&o arrebenta minhas coisas - prosseguiu o menino elevando a vo%. - oc( sabe que temtodas as minhas coisas pra morder, n&o sabe 5ois agoran&o te dou presente de 0atal, est* acabado. oc( vai ver seganha alguma coisa. oc( vai ver!...=irou sobre os calcanhares, dando as costas ao cachorro.>esmungou ainda enquanto empilhava a louça na bacia. mseguida, calou-se, esperando qualquer reaç&o por parte docachorro. 2omo a reaç&o tardasse, lançou-lhe um olhar furtivo. Biruta dormia profundamente.Alonso ent&o sorriu. Biruta era como uma criança. 5or que n&o entendiam isso 0&o fa%ia nada por mal, queria s$ brincar... 5or que dona 7ulu tinha tanta raiva dele le s$queria brincar, como as crianças. 5or que dona 7ulu tinhatanta raiva de crianças?ma e)press&o desolada amarfanhou o rostinho domenino. /5or que dona 7ulu tem que ser assim O doutor  bom, quer di%er, nunca se importou nem comigo nem comvoc(,  como se a gente n&o e)istisse, 'edu na tem aquele jeit&o dela, mas duas ve%es j* me protegeu. #$ dona 7ulun&o entende que voc(  que nem uma criancinha. Ah Biruta,Biruta, cresça logo, pelo amor de 6eus! 2resça logo e fiqueum cachorro sossegado, com bastante p(lo e as duas orelhasde p! oc( vai ficar lindo quando crescer, Biruta, eu seique vai!1  –   Alonso! - ra a vo% de 'edu na. - 6ei)e de falar so%inho e traga logo essa bacia. 4* est* quase noite, menino.  –   2hega de dormir, seu vagabundo! - disse Alonsoespargindo *gua no focinho do cachorro.Biruta abriu os olhos, bocejou com um ganido elevantou-se, estirando as patas dianteiras, num longoespreguiçamento.O menino equilibrou penosamente a bacia na cabeça.Biruta segiu-o aos pulos, mordendo-lhe os torno%elos,dependurando-se com os dentes na barra do seu avental.  –   Aproveita, seu bandidinho! - riu-se Alonso. -Aproveita que eu estou com a m&o ocupada, aproveita!Assim que colocou a bacia na mesa, ele inclinou-se paraagarrar o cachorro. +as Biruta esquivou-se, latindo. Omenino vergou o corpo sacudido pelo riso.  –   A , 'edu na que o Biruta judiou de mim!...A empregada p@s-se guardar rapidamente a louça.stendeu-lhe uma caçarola com batatas  –   Olha a para o seu jantar. 3em ainda arro% e carne noforno.  –   +as s$ eu vou jantar - surpreendeu-se Alonsoajeitando a caçarola no colo. Leitura é a chave para se ter um universo de ideias e uma tempestade de palavras. (Pedro Bom esus!  Elementos da NarrativaProf.º Esp. Alex Oliveira da Silva  –   <oje  dia de 0atal, menino. les v&o jantar fora, eutambm tenho a minha festa. oc( vai jantar so%inho.Alonso inclinou-se.  espiou apreensivo para debai)o dofog&o. 6ois olhinhos brilharam no escuroBiruta estava l*. Alonso suspirou. ra bom quandoBiruta resolvia se sentar! +elhor ainda quando dormia.3inha ent&o a certe%a de que n&o estava acontecendo nada.A trgua. oltou-se para 'edu na.  –   O que o seu filho vai ganhar  –   ?m cavalinho - disse a mulher. A vo% suavi%ou. -:uando ele acordar amanh&, vai encontrar o cavalinhodentro do sapato dele. ivia me atormentado que queria umcavalinho, que queria um cavalinho...Alonso pegou uma batata co%ida, morna ainda. echou-anas m&os arro)eadas.  –   '* no asilo, no 0atal, apareciam umas moças com unssaquinhos de balas e roupas. 3inha uma que j* me conhecia,me dava sempre dois pacotinhos em lugar de um. Amadrinha. ?m dia, me deu sapato, um casaquinho de malhae uma camisa.  –   5or que ela n&o ficou com voc(  –   la disse uma ve% que ia me levar, ela disse. 6epois,n&o sei por que ela n&o apareceu mais...6ei)ou cair na caçarola a batata j* fria.  ficou emsil(ncio, as m&os abertas em torno a vasilha.Apertou os olhos. 6eles, irradiou-se para todo o rostouma e)press&o dura. 6ois anos seguidos esperou por ela.5ois n&o prometera lev*-lo 0&o prometera 0em lhe sabiao nome, n&o sabia nada a seu respeito, era apenas amadrinha. ;nutilmente a procurava entre as moças queapareciam no fim do ano com os pacotes de presentes.;nutilmente cantava mais alto do que todos no fim da festa,quando ent&o se reunia os meninos na capela. Ah, se ele pudesse ouvi-lo! /... O bom 4esus  quem nos tra% A mensagem de amor e alegria1...  –   3ambm,  uma responsabilidade tirar crianças pracriar! - disse 'edu na desamarrando o avental - 4* chega osque a gente tem.Alonso bai)ou o olhar.  de repente sua fisionomiailuminou-se. 5u)ou o cachorro pelo rabo.  –   h Biruta! st* com fome, Biruta #eu vagabundo!agabundo!... #abe 'edu na, Biruta tambm vai ganhar um presente que est* escondido l* debai)o do meu travesseiro.2om aquele dinheirinho que voc( me deu, lembra. 2ompreiuma bola de borracha, uma bele%a de bola! Agora ele n&ovai precisar mais morder suas coisas, tem a bolinha s$ praisso. le n&o vai mais me)er em nada, sabe, 'edu na  –   <oje cedo ele n&o esteve no quarto de dona 7ulu Omenino empalideceu.  –   #$ se foi na hora que eu fui lavar o autom$vel... 5or que 'edu na 5or qu( :ue foi que aconteceula hesitou.  encolheu os ombros.  –   0ada. 5erguntei 8 toa.A porta abriu-se bruscamente e a patroa apareceu.Alonso encolheu-se um pouco. #ondou a fisionomia damulher. +as ela estava sorridente. O menino sorriutambm.  –   Ainda n&o foi pra sua festa, 'edu na - perguntou amoça num tom af*vel. Abotoava os punhos do vestido derenda. - 5ensei que voc( j* tivesse sa do... -  antes que aempregada respondesse, ela voltou-se para Alonso - nt&o preparando seu jantar%inhoO menino bai)ou a cabeça. :uando ela lhe falava assimmansamente, ele n&o sabia o que di%er.  –   O Biruta est* limpo, n&o est* - 5rosseguiu a mulher,inclinando-se para fa%er uma car cia na cabeça do cachorro.Biruta bai)ou as orelhas, ganiu dolorido e escondeu-sedebai)o do fog&o.Alonso tentou encobrir-lhe a fuga  –   Biruta, Biruta! 2achorro mais bobo, deu agora de seesconder... - oltou-se para a patroa.  sorriu desculpando-se - At de mim ele se esconde,A mulher pousou a m&o no ombro do menino Leitura é a chave para se ter um universo de ideias e uma tempestade de palavras. (Pedro Bom esus!  Elementos da NarrativaProf.º Esp. Alex Oliveira da Silva  –   ou numa festa onde tem um menininho assim do seutamanho. le adora cachorros. nt&o me lembrei de levar oBiruta emprestado s$ por esta noite. O pequeno est* doente,vai ficar radiante, o pobre%inho. oc( empresta s$ por hoje,n&o empresta O autom$vel j* est* na porta. 5onha ele l*que j* estamos de sa da.O rosto do menino resplandeceu. +as ent&o era isso!...6ona 7ulu pedindo o Biruta emprestado, precisando doBiruta! abriu a boca para di%er-lhe que sim, que o Birutaestava limpinho e que ficaria contente de emprest*-lo aomenino doente. +as sem dar-lhe tempo de responder, amulher saiu apressadamente da co%inha.  –   iu Biruta oc( vai numa festa! - e)clamou. - 0umafesta de crianças, com doces, com tudo! 0uma festa, seusem-vergonha! - >epetiu, beijando o focinho do cachorro. -+as, pelo amor de 6eus, tenha ju %o, nada de desordens! #evoc( se comportar, amanh& cedinho te dou uma coisa. oute esperar acordado, hem 3em um presente no seu sapato...- acrescentou num sussurro, com a boca encostada na orelhado cachorro. Apertou-lhe a pata.  –   3e espero acordado, Biru... +as n&o demore muito!O patr&o j* estava na direç&o do carro. Alonsoapro)imou-se.  –   O Biruta, doutor.O homem voltou-se ligeiramente. Bai)ou os olhos.  –   st* bem, est* bem. 6ei)e ele a atr*s.Alonso ainda beijou o focinho do cachorro. m seguida,fe%-lhe uma Cltima car cia, colocou-o no assento doautom$vel e afastou-se correndo.  –   Biruta vai adorar a festa! - e)clamou assim que entrouna co%inha -  l* tem doces, tem crianças, ele n&o quer outra coisa! - e% uma pausa. #entou-se. - <oje festa emtoda parte, n&o, 'edu naA mulher j* se preparava para sair.  –   6ecerto.Alonso p@s-se a mastigar pensativamente.  –   oi hoje que 0ossa #enhora fugiu no burrinho  –   0&o, menino. oi hoje que 4esus nasceu. 6epois ent&o que aquele rei manda prender os tr(s.Alonso concentrou-se  –   #abe, 'edu na, se algum rei malvado quisesse matar oBiruta, eu me escondia com ele no meio do mato e ficavamorando l* a vida inteira, s$ n$s dois! >iu-se metendo uma batata na boca.  de repente ficou srio, ouvindo o ru do docarro que j* saia. - 6ona 7ulu estava linda, n&o  –   stava.  –    t&o boa%inha. oc( n&o achou que hoje ela estava boa%inha  –   stava, estava muito boa%inha...  –   5or que voc( est* rindo  –   0ada - respondeu ela pegando a sacola. 6irigiu-se 8 porta. +as antes parecia querer di%er alguma coisa dedesagrad*vel e por isso hesitava, contraindo a boca.Alonso observou-a.  julgou adivinhar o que a preocupava.  –   #abe, 'edu na. oc( n&o precisa di%er pra dona 7uluque ele mordeu sua carteirinha, eu j* falei com ele, j* surreiele. 0&o vai fa%er isso nunca, eu prometo que n&o.A mulher voltou-se para o menino. 5ela primeira ve%,encarou-o. acilou ainda um instante. 6ecidiu-se  –   Olha aqui, se eles gostam de enganar os outros, eu n&ogosto, entendeu la mentiu pra voc(, Biruta n&o vai maisvoltar.  –   0&o vai o qu( - perguntou Alonso pondo a caçarolaem cima da mesa. ngoliu com dificuldade o pedaço de batata que ainda tinha na boca. 'evantou-se - 0&o vai oqu(, 'edu na  –   0&o vai mais voltar. <oje cedo ele foi no quarto dela erasgou um p de meia que estava no ch&o. la ficou daquele jeito. +as n&o te disse nada e agora de tardinha, enquantovoc( lavava a louça, escutei a conversa dela com o doutorque n&o queria mais esse vira-lata, que ele tinha que ir embora hoje mesmo, e mais isso.  mais aquilo... O doutor  pediu pra ela esperar, que amanh& dava um jeito, voc( ia Leitura é a chave para se ter um universo de ideias e uma tempestade de palavras. (Pedro Bom esus!
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