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Brooklyn Bridge: Essay

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   1  All of us failed to match our dreams of perfection. So I rate us on the basis of our splendid failure to do the impossible. William Faulkner  Dreams pass into the reality of action.  From the actions stems the dream again; and this interdependence produces the highest form of living.  Anais Nin I NTRODU‚ÌO   A Ponte de Brooklyn, constru•‹o revolucion‡ria, fruto das inova•›es tecnol—gicas do final do sŽculo XIX, tem sido fonte de inspira•‹o de v‡rias produ•›es culturais. Para alŽm da constru•‹o f’sica de John Roebling, a Ponte corporalizou-se em cria•›es mœltiplas e distintas, representativas desse real, cada uma implicando, contudo, determinado contexto, inten•‹o e vis‹o pessoal do seu autor, prestando-se, por isso, ˆ subjectividade, ˆ ilus‹o, ˆ manipula•‹o e ˆ fragmenta•‹o, possibilitando, concludentemente, inœmeras leituras. Assim, estas diferentes representa•›es, ao  procurarem ilustrar certas realidades, consubstanciam-se enquanto referentes que se demarcam do significante inicial, conquistando um imagin‡rio pr—prio e afirmando-se como extens›es simb—licas pass’veis de diferentes interpreta•›es.  Na cidade de Nova Iorque, a Ponte de Brooklyn prenunciou a modernidade, unindo Manhattan a Brooklyn (o Este ao Oeste); na sua estrutura abra•a a tradi•‹o ligada ao Velho Mundo e a mudan•a que se esperava do Novo: ˆs suas torres g—ticas constru’das em pedra a que se aliam cabos de sustenta•‹o em a•o 1 , associam-se a arquitectura do passado e do futuro, numa s’ntese que preencheria a imagina•‹o de muitos artistas e se tornaria s’mbolo/’cone da essncia matricial americana. A pedra, matŽria de constru•‹o ligada ao antigo, Ž, muitas vezes, vista em analogia face ˆs grandes catedrais europeias; o a•o, subst‰ncia nova, ligada ˆ industrializa•‹o remete para o futuro, que para uns se afigura auspicioso e prometedor, para outros melanc—lico e 1  Podem ser vistas trs imagens, ilustrativas deste facto em Anexo: figura 1, 2 e 3, pp.i-iii.   2 ÒcinzentoÓ. Entre 1869, in’cio da sua constru•‹o, e 1883, ano em que foi inaugurada, muito se escreveu, na imprensa local, nacional e internacional, acerca dos seus criadores, financiamento e edifica•‹o. Ë medida que ia tomando forma no horizonte nova-iorquino, tornava-se imagem que ninguŽm conseguia ignorar e atrac•‹o tur’stica incontorn‡vel. Depois de conclu’da, ganhou a admira•‹o de muitos, enquanto manifesta•‹o de poder da civiliza•‹o na conquista da natureza e, tal como John Roebling previra, mais do que um artefacto, transforma-se num s’mbolo/’cone da cidade e da pr—pria sociedade americana. O escritor Lewis Mumford, que nas suas obras sugere a necessidade de harmonizar o advento de uma sociedade eminentemente tecnol—gica com o desenvolvimento individual e as aspira•›es culturais e regionais, refere a este prop—sito, The stone plays against the steel: the heavy granite in compression, the spidery steel in tension. In this structure, the architecture of the past, massive and protective, meets the architecture of the future, light, aerial, open to sunlight, an architecture of voids rather than of solids. (Mumford, 1931: 449)  Neste trabalho pretendemos interpretar o processo de transforma•‹o da constru•‹o de John Roebling em s’mbolo/’cone da identidade americana, ao qual alguns criadores atribuem uma dimens‹o ut—pica, explicada pela cren•a no progresso, como sendo algo suscept’vel de operar Òa s’ntese harmoniosa e final entre interesses colectivos e individuais divergentes;Ó (Reis,  E-Dicion‡rio de Termos Liter‡rios ) ao invŽs, outros, nas suas produ•›es culturais, conferem-lhe caracter’sticas dist—picas, questionando e, mesmo satirizando algumas tentativas de apropria•‹o de tal estrutura enquanto poss’vel cen‡rio quimŽrico, sublinhando Òn‹o s— a insuficincia dessas condi•›es [ de satisfa•‹o colectiva ]  para a realiza•‹o de ideais de felicidade, mas tambŽm a amea•a do colectivismo sobre as liberdades individuais, sociais e de participa•‹o pol’tica.Ó (Nunes,   E-Dicion‡rio de Termos Liter‡rios ) Come•aremos por contextualizar a edifica•‹o da Ponte de Brooklyn, desde logo marcada pela saga da fam’lia Roebling, fundamentando, em simult‰neo, a mudan•a de  paradigma: o artefacto que une duas cidades transforma-se em s’mbolo/’cone identit‡rio da cultura americana, recriado inœmeras vezes em produ•›es culturais posteriores. Faremos tambŽm uma breve an‡lise de cria•›es inspiradas nesta estrutura, procurando explicar alguns dos prov‡veis motivos, determinantes na forma•‹o das diferentes  percep•›es dos seus autores.   3 1.   B REVE ENQUADRAMENTO HISTîRICO - SOCIAL  1.1   O  PROJECTO   O voc‡bulo  ponte  ( bridge ) remete para uma constru•‹o que faculta a liga•‹o de dois pontos separados por cursos de ‡gua ou depress›es de terreno, permitindo a  passagem sobre o obst‡culo a transpor; figurativamente, significa tambŽm Òliga•‹oÓ, Òcomunica•‹oÓ ou ÒcontactoÓ, sendo frequentemente usado, sobretudo em textos liter‡rios, de forma metaf—rica ou meton’mica. Lee Cooper, procurando analisar o imagin‡rio ligado a este conceito na mœsica popular contempor‰nea, observa: Bridges are physically imposing, incredibly functional architectural creations. They span chasms in mountainous terrain; they permit passage over turbulent streams and raging rivers; and they afford links above intersecting highways, railroad tracks, and manmade canals. Bridges are scenic landmarks (Golden Gate Bridge), subjects of children's rhymes (London Bridge), and topics of sage advice about human foibles (Brooklyn Bridge). (Cooper: 315) Um dos primeiros registos escritos que testemunha a inten•‹o de construir uma  ponte, que unisse Manhattan e Long Island, data do in’cio do sŽculo XIX. O jornal nova-iorquino  Evening Post  , de dezoito de Fevereiro de 1802, publica uma peti•‹o, assinada  por cidad‹os destas ilhas, dando conta dessa necessidade 2 . No ano de 1809, tambŽm no ms de Fevereiro, Thomas Pope, que se intitula Òarchitect and landscape gardenerÓ, apresenta, perante representantes da Assembleia Municipal de Nova Iorque, um projecto, a que d‡ o nome de ÒFlying Pendent Lever BridgeÓ  3  (frequentemente designado como ÒRainbow BridgeÓ). No livro, intitulado  A Treatise on Bridge Architecture  (cujo subt’tulo  justifica a edi•‹o e informa sobre as pretens›es do seu autor: Ò (É) in which the superior advantages of the Flying Pendent Lever Bridge are fully proved. With an historical account and description of different bridges erected in various parts of the world, from an early period, down to the resent time.Ó), publicado em 1811, descreve o seu prop—sito de forma detalhada. Apenas na segunda metade do sŽculo um outro projecto, partilhando o mesmo objectivo, se tornaria poss’vel: a quatro de Abril de 1857, a revista  HarperÕs Weekly  faz 2  Consulte-se o site < http://www.endex.com/gf/buildings/bbridge/bbridgenews/bbridgenews.htm> sobre este tema, o qual permite o acesso online a alguns artigos constantes nos peri—dicos da Žpoca. 3  Ver a imagem alusiva a este projecto em Anexo: figura 4, p.iv.   4 saber que tinha sido apresentada ao poder legislativo uma proposta de constru•‹o de uma  ponte pnsil sobre o rio East que ligaria Nova Iorque a Brooklyn, plano considerado exequ’vel pelo engenheiro John Augustus Roebling e, em 1865, este homem, assistido  por Wilhelm Hildenbrand, come•a a elaborar o seu projecto. Note-se que na segunda metade do sŽculo XIX, a conjuntura s—cio-econ—mica americana era favor‡vel a este tipo de empreendimentos: o final da Guerra Civil e a aboli•‹o da escravatura tinham  propiciado um clima de esperan•a no seio da sociedade americana que nem o assassinato do Presidente Abraham Lincoln conseguiu enfraquecer. A chamada Gilded Age  testemunhou uma enorme expans‹o industrial e econ—mica, bem como um aumento  populacional sem precedentes. Ao r‡pido crescimento dos caminhos-de-ferro e ˆ cria•‹o de inœmeras pequenas indœstrias aliou-se a expans‹o demogr‡fica do Oeste americano. Do confronto entre o Norte e o Sul, entre a mentalidade industrial e a mentalidade agr‡ria, resultou uma economia baseada na manufactura que tornou as cidades sulistas compar‡veis ˆs do Norte. Em simult‰neo, depois da Guerra da Secess‹o ter decidido que o estilo de vida nortista controlaria o futuro da na•‹o americana, muitos americanos, encorajados pelo  Homestead Act  , optam por tentar a sorte no Oeste, seguidos de perto  pelo avan•o da era industrial. Alguns anos antes, em 1825, a abertura do Canal de Erie tinha permitido, para alŽm do acesso ao interior do estado (ligando o Lago Erie ˆ Ba’a de Nova Iorque), um caminho entre o Oceano Atl‰ntico e os Grandes Lagos, transformando Nova Iorque no maior centro portu‡rio da AmŽrica. Na dŽcada de 50, Nova Iorque j‡ era conhecida como a  Empire State , o maior centro comercial, industrial e populacional dos Estados Unidos. Ao longo do sŽculo XIX, milhares de imigrantes chegam a esta cidade, muitos deles acabando por habitar em tenements superlotados e sem condi•›es, numa onda crescente de especula•‹o imobili‡ria e corrup•‹o, dominada pela Tammany Hall Society : (É)the situation was summed up by the Society for the Improvement of the Condition of the Poor in these words: ÓCrazy old buildings, crowded rear tenements in filthy yards, dark, damp basements, leaking garrets, shops, outhouses, and stables converted into dwellings, though scarcely fit to shelter brutes, are habitations of thousands of our fellow-beings in this wealthy, Christian city.Ó (Riis, 1998: 14-16)   5 O espa•o de habita•‹o tornara-se demasiado caro e muitos optam por Brooklyn, acess’vel desde 1814, por  steam ferries 4 . Entre 1860 e 1870 a popula•‹o de Brooklyn aumenta de 266.000 para 396.000 habitantes, crescimento demogr‡fico que propicia e motiva a materializa•‹o do projecto do engenheiro alem‹o John Roebling. Quando pensamos no sŽculo XIX e na tr’ade Long Island Ð Brooklyn Ð Manhattan, surge como incontorn‡vel a referncia a Walt Whitman, poeta que aqui viveu grande parte da sua vida. Nascido em 1819, em Long Island, assume, no in’cio da sua vida adulta, enquanto jornalista 5  uma atitude anti-urbana, de acordo com a qual critica a corrup•‹o dos promotores imobili‡rios, a criminalidade e o caos urban’stico que tornavam a vida nas grandes cidades dif’cil, mostrando os defeitos do mundo contempor‰neo e apontando Nova Iorque, imagem dessa modernidade, em total clivagem com a natureza que encontra em Long Island, vista como uma espŽcie de para’so perdido. Ao invŽs, enquanto poeta (depois de 1855, ano em que publica  Leaves of Grass ) apresenta-se construtivo, transformando o real nas suas cria•›es poŽticas e propondo um modelo que poder‡ ser utilizado como forma de reden•‹o: a AmŽrica como sendo um  pa’s ideal, sem preconceitos sociais, nem luta de classes. O jornalista cŽptico face ˆ modernidade, transforma-se no primeiro poeta a inscrever o urbano e as novas tecnologias nas suas cria•›es. Em 1869, no poema ÒPassage to êndia,Ó Walt Whitman exalta o prod’gio tornado poss’vel pelas conquistas da engenharia - a abertura do Canal do Suez - vendo esse feito como uma oportunidade de aproxima•‹o a tradi•›es espirituais, atŽ ent‹o distantes. A industrializa•‹o e os avan•os tecnol—gicos no Novo Mundo sugerem agora uma esperan•a e um sentido de miss‹o, 6  de acordo com os quais 4  O primeiro barco usado como meio de transporte entre Brooklyn e Manhattan, data de 1642, movia-se a remos e era operado por Cornelius Dircksen. A primeira embarca•‹o movida a vapor a fazer esse trajecto foi o  Nassau , baptizado com o nome do propriet‡rio, que constituiu a empresa  Fulton Ferry Line  (ligava a Fulton  Street   de Manhattan ˆ sua hom—nima em Brooklyn). Segue-se a South Ferry , em 1835 e a  Broadway  Ferry , em 1849, constituindo-se ainda a Wall Street Ferry  e a 23rd Street Ferry .   5  Antes de se dedicar ˆ sua voca•‹o liter‡ria, Whitman, enquanto tip—grafo, jornalista, editor e redactor, esteve ligado a v‡rios peri—dicos, dos quais destacamos os seguintes : Long Islander, Evening Tatler, Long  Island Star, Brooklyn Daily Eagle.   6  Este ideal, consubstanciado na teoria do  Manifest Destiny  foi sintetizado pelo jornalista nova-iorquino, John O«Sullivan, num ensaio intitulado "Annexation", publicado em 1845, no peri—dico Democratic   Review,  no qual exigia a integra•‹o da Repœblica do Texas nos Estados Unidos. Manifestando a cren•a, de acordo com a qual o expansionismo americano seria fruto do cumprimento da vontade divina, faz notar: Òour manifest destiny to overspread the continent allotted by Providence for the free development of our yearly multiplying millionsÓ.
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