Brochures

Calvino_Epístola de Tiago

Description
Comentário à Epístola de Tiago por João Calvino.
Categories
Published
of 67
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  C OMENTÁRIO À  E PÍSTOLA DE T IAGO   POR   J OÃO C ALVINO 1   O   A RGUMENTO   A partir dos escritos de Jerônimo e Eusébio, parece que antigamente esta E-pístola não era recebida sem oposição por muitas igrejas. Hoje também exis-tem alguns que não a consideram com digna de autoridade. Contudo, estou disposto a recebê-la sem controvérsia, porque não vejo boa causa para rejeitá-la. Pois aquilo que no capítulo dois parece inconsistente com a doutrina da jus-tificação gratuita, explicaremos facilmente em seu devido lugar. Embora, ao proclamar a graça de Cristo, ele pareça ser mais escasso do que convinha a um apóstolo, certamente não é necessário que todos lidem com os mesmos argumentos. Os escritos de Salomão diferem muito dos de Davi – enquanto o primeiro estava atento à formação do homem exterior e ao ensino dos precei-tos da vida civil, o último falava continuamente da adoração espiritual a Deus, da paz de consciência, da misericórdia de Deus e da promessa gratuita da sal-vação. Mas esta diversidade não deveria nos levar a aprovar um e a condenar o outro. Além disso, entre os próprios evangelistas existe tanta diferença ao demonstrar o poder de Cristo, que os outros três, comparados a João, mal possuem centelhas do pleno esplendor que se mostra tão conspícuo neste; e, no entanto, nós recomendamos a todos eles de igual modo. É suficiente dizer, para que os homens recebam esta Epístola, que ela não contém nada indigno de um apóstolo de Cristo. Na verdade, está cheia de ins-trução sobre vários assuntos, cujo benefício se estende a todos os aspectos da vida cristã; pois aqui há passagens notáveis sobre a paciência, oração a Deus, a excelência e o fruto da verdade celestial, humildade, deveres sagrados, o comedimento da língua, o cultivo da paz, a repressão das paixões, o desprezo do mundo, e coisas semelhantes, que discutiremos separadamente em seus devidos lugares. Mas, quanto ao autor, existe um pouco mais de razão para dúvidas. Na verda-de, é certo que não foi o filho de Zebedeu, pois Herodes o matou logo após a ressurreição de nosso Senhor. Os antigos são quase unânimes em pensar que fosse um dos discípulos e parente de Cristo, chamado Oblias, que fora coloca-do sobre a igreja em Jerusalém; e eles consideravam que fosse aquele que Paulo mencionara juntamente com Pedro e João – os quais afirma serem con-siderados as colunas (Gl 2:9). Mas que um dos discípulos fosse mencionado 1  Tradução: Rodrigo Reis de Faria   (rodrigoreisdefaria@gmail.com). Fonte: Calvin’s Commentaries (traduzido para o inglês por John King, disponível no site: http://www.sacred-texts.org).  Comentários de Calvino 2 como uma das três colunas, e assim exaltado acima dos demais apóstolos, não me parece provável. Portanto, estou mais inclinado a conjecturar que aquele de quem Paulo fala fosse o filho de Alfeu. Contudo, não nego que um outro fosse o governante da igreja em Jerusalém, e, de fato, alguém do colégio dos discí-pulos; pois os apóstolos não estavam vinculados a nenhum local particular. Mas qual dos dois foi o escritor desta Epístola, não cabe a mim dizer. Que O-blias era realmente um homem de grande autoridade entre os judeus revela-se inclusive a partir disto, que, como havia sido cruelmente condenado à morte pela facção de um ímpio sumo sacerdote, Josefo não hesitou em imputar a destruição da cidade em parte à sua morte. T IAGO 1:1-4 1. Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.   1. Jacobus, Dei ac Domini Jesu Christi servus, duodecim tribubus quae in disper-sione sunt, salutem.  2. Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;   2. Omne gaudium existimate, fratres mei, quum in tentationes varias incideritis;  3. Sabendo que a prova da vossa fé ope-ra a paciência.   3. Scientes quod probatio fidei vestrae, patientiam operatur  4. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e com-pletos, sem faltar em coisa alguma.   4. Patientia vero opus perfectum habeat, ut sitis perfecti et integri, in nullo deficientes.   1. Às doze tribos. Quando as dez tribos foram deportadas, o rei da Assíria as estabeleceu em diferentes lugares. Depois, como normalmente ocorre nas re-voluções dos reinos (tal como ocorreu então), é mui provável que eles se mo-vessem daqui para lá, em todas as direções. E os judeus estavam espalhados em quase todos os cantos do mundo. Então, ele escreveu e exortou a todos aqueles a quem não podia se dirigir pessoalmente, porque estavam espalha-dos por toda a parte. Mas, que ele não fale da graça de Cristo e da fé nele, a razão parece ser porque se dirigia àqueles que já haviam sido devidamente ensinados por outros; de modo que não precisavam tanto de doutrina como dos aguilhões das exortações. 2   2  A saudação é peculiar; mas no mesmo formato da carta enviada a Antioquia pelos apóstolos (dos quais Tiago era um), e pela igreja em Jerusalém (At 15:23). Portanto, é apostólica, ainda que adotada a partir de um formato normalmente utilizado pelos es-critores pagãos. Vede At 23:26. João (em Jo 2:10 e 11) usa o verbo χα  ί  ρειν   em um sentido similar; e este significa propriamente regozijar-se.  Sendo um infinitivo, o verbo λ  έ  γω  , dizer ou mandar, é expresso antes por João, e evidentemente está subentendi-do aqui. Por isso, a saudação pode ser traduzida assim: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, manda (ou envia, ou deseja) alegria às doze tribos que estão na sua dispersão”. Houvera uma dispersão oriental e outra ocidental, a primeira no cati-veiro assírio e babilônico, e a segunda durante o predomínio do governo grego, que começou com Alexandre o Grande. Como esta epístola foi escrita em grego, não há dúvida de que fora planejada mais especificamente para os desta última dispersão. Mas o benefício da dispersão oriental logo fora considerado, uma vez que a primeira  Epístolas Gerais – Tiago 3 2. Grande gozo. A primeira exortação é: suportar as provas com um espírito alegre. E naquele tempo era especialmente necessário confortar os judeus, praticamente esmagados como estavam por dificuldades. Pois o próprio nome da nação era tão infame que eles eram odiados e desprezados por todos os povos, para onde quer que fossem; e sua condição como cristãos os tornava ainda mais miseráveis, porque tinham sua própria nação como seus inimigos mais inveterados. Ao mesmo tempo, esta consolação não era tão apropriada para um único momento, mas é sempre útil para os fiéis, cuja vida é uma constante batalha na terra. Mas para que saibamos mais perfeitamente o que ele quer dizer, sem dúvida precisamos entender tentações ou provas como incluindo todas as coisas ad-versas; e elas são assim chamadas porque são os testes da nossa obediência a Deus. Ele manda aos fiéis, enquanto exercitados por elas, a se regozijarem; e isto não apenas quando caem em uma única tentação, e sim em muitas; não apenas de um tipo, mas de vários tipos. E, sem dúvida, visto como servem para mortificar a nossa carne, assim como os vícios da carne espocam constantemente em nós, do mesmo modo elas devem ser necessariamente repetidas com frequência. Além disso, assim como labutamos sob enfermidades, do mesmo modo não é de se surpreender que devam ser aplicados remédios diferentes para removê-las. Então, o Senhor nos aflige de várias maneiras, porque a ambição, avareza, inveja, glutonaria, intemperança, o amor excessivo ao mundo, e as inúmeras paixões em que abundamos, não podem ser curadas pelo mesmo remédio. Quando ele nos manda ter grande gozo, é o mesmo que se tivesse dito que as tentações devem ser estimadas como ganho, a fim de que fossem considera-das como ocasiões de alegria. Em suma, ele quer dizer que não há nada nas aflições que deva perturbar a nossa alegria. E, assim, não apenas nos manda suportarmos as adversidades tranqüilamente, e com um espírito sereno, mas nos revela que esta é a razão pela qual os fiéis deveriam se regozijar quando abatidos por elas. De fato, é certo que todos os sentidos da nossa natureza estão formados de tal modo que toda a prova produz em nós aflição e tristeza; e nenhum de nós po-de se despir da sua natureza de tal modo a não se afligir e ficar triste sempre que sinta algum mal. Mas isto não impede que os filhos de Deus se ergam, pe-la orientação do Espírito, acima da tristeza da carne. Pois, por outro lado, al-guém poderia objetar: “Como podemos considerar como doce aquilo que é amargo ao sentido?” Então, ele revela, através do efeito, que devemos nos re-gozijar nas aflições porque elas produzem um fruto que deve ser sumamente valorizado – a paciência. Se, então, Deus providencia a nossa salvação, ele nos concede um motivo de alegria. Pedro usa um argumento semelhante no começo da sua primeira Epístola: “Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro, possa estar, etc.” (1 Pe 1:7). Certamente tememos as doenças, e a necessidade, e o exílio, e a prisão, e o opróbrio, e a morte, porque as con-   versão do Novo Testamento fora preparada nesta língua, ou seja, no siríaco; e isto fora feito no começo do segundo século.  Comentários de Calvino 4 sideramos como males; mas, quando entendemos que elas são transformadas pela bondade de Deus em socorros e auxílios para a nossa salvação, é ingrati-dão murmurar, e não nos submetermos, de boa vontade, a sermos assim trata-dos paternalmente. Paulo diz, em Rm 5:3, que devemos nos gloriar nas tribulações; e Tiago diz aqui que devemos nos regozijar. “Nos gloriamos”, diz Paulo, “nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência”. O que vem logo em seguida pa-rece ser contrário às palavras de Tiago; pois ele menciona a provação em ter-ceiro lugar, como o efeito da paciência, que aqui é expressa primeiro, como se fosse a causa. Mas a solução é óbvia; a palavra ali tem um sentido ativo, mas aqui, passivo. A provação, ou prova, segundo afirma Tiago, produz a paciência; pois, se Deus não nos provasse, mas nos deixasse livres de dificuldades, não haveria a paciência – que não é outra coisa senão firmeza de espírito em su-portar os males. Mas Paulo quer dizer que enquanto, suportando, vencemos os males, experimentamos o quanto é útil o auxílio de Deus nas necessidades; pois, então, a verdade de Deus é como que manifestada a nós na realidade. Por onde ocorre que nos atrevemos a nutrir maior esperança quanto ao futuro; pois a verdade de Deus, conhecida pela experiência, é crida mais plenamente por nós. Por isso, Paulo ensina que por meio de tal provação, ou seja, por tal experiência da graça divina, é produzida a esperança; não que a esperança só comece aí, mas que ela aumenta e é confirmada. Mas ambos querem dizer que a tribulação é o meio pelo qual a paciência é produzida. Além disso, os espíritos dos homens não são formados pela natureza de tal modo que a aflição em si produza a paciência neles. Mas Paulo e Pedro não consideram tanto a natureza dos homens quanto a providência de Deus atra-vés da qual ela vem, que os fiéis aprendam a paciência através das dificulda-des; pois os infiéis são, por meio delas, provocados mais e mais à loucura, co-mo prova o exemplo do Faraó. 3   4. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita. Como a ousadia e a coragem geralmente aparecem em nós e logo falham, por isso ele pede a perseverança. “A verdadeira paciência”, diz, “é aquela que sofre até o fim”. Pois obra aqui sig-nifica o esforço, não apenas para vencer em uma única disputa, mas para per-severar por toda a vida. Sua perfeição também pode estar relacionada à since-ridade da alma – que os homens devem de boa vontade, e não fingidamente, se submeterem a Deus; mas, como é acrescentada a palavra obra,  prefiro ex-plicá-la no sentido da constância. Pois existem muitos, conforme dissemos, que a princípio mostram uma grandeza heróica, e logo depois se cansam e desfa-lecem. Portanto, ele manda àqueles que queriam ser perfeitos e completos  4   3  A palavra usada por Tiago é δοχ  ί  µιον  , prova,  o ato de testar;   e, por Paulo, δοχιµ  ὴ  , o resultado do teste,  a experiência.  Tiago fala da provação, e Paulo da experiência obti-da através dela. 4  “Perfeitos, τ  έ  λειοι ”, plenamente desenvolvidos, maduros;   “completos, ὁ  λ  ό  χληζοι ”, in- teiros, não faltando nenhuma parte.  O primeiro se refere à maturidade da graça; e o segundo à sua completude, não estando em falta nenhuma graça. Eles deviam ser como homens plenamente desenvolvidos; e não deformados ou mutilados, mas tendo todos os seus membros completos.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks