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FACULDADE CÁSPER LÍBERO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO

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FACULDADE CÁSPER LÍBERO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO O CINEMA DE GODARD, A INDÚSTRIA CULTURAL E A CRÍTICA DA SUBJETIVIDADE CAPITALISTA Rodrigo Rizzaro Ribeiro São Paulo 2015 FACULDADE CÁSPER LÍBERO MESTRADO
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FACULDADE CÁSPER LÍBERO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO O CINEMA DE GODARD, A INDÚSTRIA CULTURAL E A CRÍTICA DA SUBJETIVIDADE CAPITALISTA Rodrigo Rizzaro Ribeiro São Paulo 2015 FACULDADE CÁSPER LÍBERO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO Rodrigo Rizzaro Ribeiro O CINEMA DE GODARD, A INDÚSTRIA CULTURAL E A CRÍTICA DA SUBJETIVIDADE CAPITALISTA Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação Stricto Sensu, Mestrado em Comunicação, linha de pesquisa B: Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento, da Faculdade Cásper Libero, para a obtenção do título de Mestre em Comunicação. Orientador: Prof. Dr. Cláudio Novaes Pinto Coelho São Paulo 2015 RIBEIRO, Rodrigo Rizzaro O cinema de Godard, a indústria cultural e a crítica da subjetividade capitalista / Rodrigo Rizzaro Ribeiro. São Paulo, f. : il. ; 30 cm Orientador: Prof. Dr. Cláudio Novaes Pinto Coelho Dissertação (mestrado) Faculdade Cásper Líbero Programa de Mestrado em Comunicação 3 4 Agradecimentos Agradeço, primeiramente, à banca pelo cuidado e carinho com que analisou e encaminhou este trabalho até sua finalização. Em especial, ao meu orientador Cláudio Novaes por sua compaixão e compreensão nas diferentes etapas e arestas que se acumularam ao longo dessa jornada. O cabedal de informações e autores apresentados se deve muito as suas indicações e apuros.a formação intelectual do presente autor agradece a grande contribuição. À Prof. Simonetta Persicchetti que me acompanhou com amizade e brilhantismo por esses dois anos de maturação dentro da Fundação Cásper Líbero. Que seja o início apenas de um convívio duradouro. A Deus, sobretudo por me dar oportunidade de completar meu objetivo graças à vida que me foi atribuída por sua graça. Aos meus queridos pais, meus primeiros formadores e mestres, que conseguiram me fazer entender a importância das coisas. 5 Resumo Esse trabalho visa compreender a presença de temas próximos à corrente teórica da Escola de Frankfurt na obra do cineasta Jean Luc Godard, em especial nos filmes Acossado, O Desprezo, A Chinesa e Film Socialisme, que são analisados nesta dissertação, cada um com um capítulo próprio. Os temas da indústria cultural, das relações do homem com sua subjetividade em confronto à subjetividade capitalista e ainda, do avanço do esclarecimento cientifico em direção à arte e outras formas de expressar uma visão crítica ao modelo vigente, são os principais aspectos da comparação Escola de Frankfurt/Godard. A alegoria da odisseia é o fio condutor desta comparação, bem como a questão do tempo histórico. Theodor Adorno, autor que mereceu um destaque especial, comparece com as obras Teoria Estética, Dialética do Esclarecimento, Dialética Negativa e Mínima Moralia. Walter Benjamin está presente com as obras Livro das Passagens, A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica e Magia, Técnica, Arte e Política. Palavras-chave: Produtos Midiáticos. Indústria Cultural. Subjetividade. Godard. Escola de Frankfurt. Abstract This thesis aims stress some themes about the author s work, in particular the four movies mentioned along the text. The Cultural Industry theme, the men s relation with your subjectivity in confrontation to capitalist subjectivity and still, the advancing of scientific enlightenment in toward to art and the other forms to express a critical view to the current model. Godard and the other Frankfurt Authors present in that work outline these themes also in the allegory of the Odyssey, present theme along all chapters and the question of Historical time, striking in obtaining of enlightenment series of various arguments raised by the authors during of their discussions. 6 Lista de Ilustrações Imagem 1.Godard, Jean Luc. Jean Paul Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 2.Godard, Jean Luc. Jean Paul Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 3. Godard, Jean Luc. Jean Paul Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 4. Godard, Jean Luc. Jean Seberg, Acossado, Paris, Imagem 5. Godard, Jean Luc. Jean Paul Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 6. Godard, Jean Luc. Jean Seberg e Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 7. Godard, Jean Luc. Jean Seberg e Belmondo, Acossado, Paris, Imagem 8. Renoir, Jean, Mademoiselle Irene Cahens, Paris, Imagem 9. Godard, Jean Luc. Brigitte Bardot, Le Mepris, Paris, Imagem 10. Godard, Jean Luc. Cinecittá, Le Mepris, Paris, Imagem 11. Godard, Jean Luc. Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Pallance, Le Mepris, Paris, Imagem 12. Godard, Jean Luc. Fritz Lang, Le Mepris, Paris, Imagem 13. Godard, Jean Luc. Deus Grego, Le Mepris, Paris, Imagem 14. Godard, Jean Luc. La Mer, Le Mepris, Paris, Imagem 15. Godard, Jean Luc. Scenario La Chinoise, La Chinoise, Paris, Imagem 16. Godard, Jean Luc. Jean Pierre Leaud, La Chinoise, Paris, Imagem 17. Godard, Jean Luc. O Quadro Negro, La Chinoise, Paris, Imagem 18. Godard, Jean Luc. Scenario: Making of, La Chinoise, Paris, Imagem 19. Godard, Jean Luc. Brigada Vermelha, La Chinoise, Paris, Imagem 20. Godard, Jean Luc. Ginástica, La Chinoise, Paris, Imagem 21. Klee, Paul. Angelus Novus, Genebra, Imagem 22. Delacroix, Eugène. A Liberdade Guiando o Povo, Paris, Imagem 23.Godard, Jean Luc. Cena de Abertura, Film Socialisme, Paris, Imagem 24. Godard, Jean Luc. Le Enfant, Film Socialisme, Paris, Imagem 25. Costa, Pedro. Ventura, Juventude em Marcha, Lisboa, Imagem 26. Godard, Jean Luc. Anne Wiazemski e o Suicídio, La Chinoise, Paris, Sumário Introdução Pág. 8 Capítulo 1: Subjetividade: Emancipação e Claustro Pág. 16 Capítulo 2: Acossado Pág. 33 Capítulo 3: O Desprezo Pág. 56 Capítulo 4: A Chinesa Pág. 75 Capítulo 5: Film Socialisme Pág. 101 Considerações Finais Pág.132 Referências Pág.135 8 Introdução Nesta dissertação, pretende-se relacionar as discussões da Escola De Frankfurt sobre produção de cultura na sociedade industrial e a captura da subjetividade, com o papel preponderante do pensamento vanguardista, seja artístico ou político, como supressor da aceleração do tempo na sociedade mercantil, nas obras de Godard. Tendo em vista este objetivo, pretende-se, ainda, abordar os percalços e descaminhos amealhados pelo autor enquanto historiador da cultura ocidental e compreender os métodos de atuação, filmagem e, principalmente o caminho textual e imagético das citações feitas por Godard. Dentro do universo fílmico de Godard, é possível enxergar um comprometimento, desde o inicio, com algumas questões pertinentes também à Escola de Frankfurt. Valendo-se de lógica semelhante às vanguardas estéticas, Godard entrega seu primeiro filme atrelado a diversos movimentos de arte que marcaram a primeira metade do século passado. A partir de uma estética frenética, Godard discorre sobre os temas do estrangeirismo em terra própria (presente em Benjamin e sua discussão sobre as cidades). A Gewalt (crítica do poder/crítica da violência), termo cunhado por Benjamin, apresenta em diversas traduções uma dubiedade implícita em seu cerne. O termo não faz a dicotomia entre poder e violência, exemplificando assim sua correlação mútua tanto no alemão, como no pensamento benjaminiano. Essa alcunha nasceu da observação do autor sobre o desenvolvimento da política de Estado presente na Europa logo após a guerra que se encerrara. Neste aspecto, o pensamento de Benjamin faz eco com algumas vozes anarquistas como a de Georges Sorel em sua teoria da greve geral revolucionária. Benjamin delineia também a relação entre a demonstração do poder por meio da legitimação da violência, algo próximo do absolutismo vivido na guerra por meio do fascismo, agora institucionalizado como meio de ação da política de controle no neocapitalismo. A repressão insurge aqui não como um meio de coação e violência, mas como elemento doutrinário plenamente aceito por uma sociedade cada dia mais pasteurizada. A tarefa de uma crítica da violência pode ser definida como a apresentação de suas relações com o direito [Recht] e a justiça [Gerechtigkeit]. Pois, qualquer que seja o efeito de uma determinada 9 causa, ela só se transforma em violência, no sentido forte da palavra, quando interfere em relações éticas. (BENJAMIN, 2011, p ). Benjamin recorre, dessa forma, à questão do justo meio para abarcar todo o sentido envolvido por trás do conceito da Gewalt. De um lado, a esfera jurídica que pretende integrar toda a sociedade num sistema de controle em detrimento do direito natural do indivíduo. Constitucionalmente, temos a aparição de uma antinomia, expressa pela utilização da força (violência) enquanto forma de controle do Estado, em detrimento ao esvaziamento e proibição do seu uso pelo cidadão, mesmo que em função legitima. Ou seja, a Gewalt se acorda unilateralmente com o poder, uma vez que a violência serve apenas para perpetuar e estabelecer o poder daqueles que já detêm o controle, retirando da ação popular a capacidade de manifestar a força em beneficio próprio (como exemplificado nas linhas de Sorel). A violência passa a ser, dessa forma, a extensão visível do poder, uma vez que ela só se legitima por aqueles que a detêm de forma intrínseca. O grande bandido, nas palavras de Benjamin, passa a ser o Estado uma vez que recolhe a admiração e o temor de todos devido a sua capacidade de se valer da violência de forma justificada, por conseguinte a rejeição por um personagem astucioso que se utiliza da lógica para a sobrevivência (razão instrumental). A fuga para o passado e a busca de reflexões calcadas na recuperação do tempo já aparecem em Acossado. Determinar uma estrutura temporal não encarcerada no avanço progressista moderno, que se alicerça na obsolência constante de coisas e pessoas (cada vez mais equiparadas), essa é a principal presunção de Poiccard (Belmondo). Resgatar no tempo o sentido histórico presente, capaz de trazer em suas reminiscências um pouco de luz para as trevas que assaltam a construção do sujeito moderno. A interferência da Gewalt nessa tentativa de resgatar o tempo sublinha o confronto tão necessário para a compreensão do sentido de Godard enquanto observador da sociedade europeia do pós-guerra. A incapacidade de argumentar, refletir, refrear as ações naturais, procurando nelas um sentido histórico, material, uma tradição que alicerça o sujeito em relação à sociedade que o compreende. Benjamin circunscreve em sua obra a questão da tradição como algo atemporal, que denota sentido à natureza humana, tendo esta por testemunha de suas ações, numa união não progressiva do tempo. A aceleração moderna tende a romper essa relação de tempo e espaço. Numa linha unívoca, a ação moderna vilipendia a tradição e a cultura anterior numa espécie de subjugação. Toda ação não imediata ou futura, por assim dizer, ganha contornos nostálgicos, infantis. Poiccard, dessa forma, apresenta-se em 1 Acossado como uma figura anacrônica, calcado entre os vestígios do tempo e a miscelânea proporcionada pela fetichização da cultura que embota a história propriamente dita. Em Acossado, Poiccard serve como espécie de oráculo, tentativa inglória de resgatar a memória daqueles que o cercam, cada vez mais distantes da realidade histórica, sufragados na mimetização da vida e do tempo erigidas na sociedade aparente de uma Europa neocapitalista. Toda a manifestação de desejo se dá por meio de marcas, assim como toda a autoridade é outorgada àqueles que se apropriam da violência (Gewalt). Manipular o tempo, destituir a capacidade de memória, esses temas começam a ser delineados em Godard a partir de Acossado. Os temas presentes, nesse inicio de trajetória, foram se cristalizando no avançar da década de 1960, com a presença do neocapitalismo no bloco ocidental europeu. Godard passa a assumir uma marcante posição política que viria de encontro ao status quo na tentativa de irromper seu fluxo temporal e sua massificação. As relações de trabalho passam a ser tema urgente a partir de O Desprezo, que eleva essa discussão ao seio da indústria cultural, na figura do produtor vivido por Jack Pallance, que representava De Laurentis e as imposições feitas à Godard no desenrolar dessa produção. O Mito de Ulisses e as discussões sobre a subjetividade são reforçados nessa obra, que demonstra o esvaziamento da figura masculina (sujeito) de suas próprias ações. As escolhas estéticas de O Desprezo dizem muito a respeito dos caminhos da arte contemporânea, pois Godard constrói toda ideia mítica a partir de estátuas gregas. A fragmentação benjaminiana e o afastamento do teatro de Brecht são linhas possíveis de raciocínio ao espectador da obra. A experiência histórica pretendida por Adorno e a tensão provocada pelo antagonismo dos impasses presentes e em todo seu conjunto de contradições formam o discurso de Ferdinand em Pierrot, Le Fou. É através do tensionamento e da finitude das relações que a ação decorre aqui. Tudo é perene, antagônico, confuso. A ação se desdobra como um salto ao cadafalso, nada é entendido ou superado, a dialética negativa trabalha com a hipótese do incompleto, de uma história em andamento. Ferdinand é, em sua totalidade, incongruente, ele não busca a unidade, a compreensão. É, por meio das rachaduras do personagem, que Godard estabelece seu panorama, e ainda uma relação com a lírica e a arte. Como afirma Adorno, uma unidade em si contraditória. A questão dialética que emerge desse confronto tão pulsante em Ferdinand é a confrontação da arte enquanto estado puro em relação à ordenação subjugadora presente na cultura. A inserção de uma por meio da outra e sua subsequente 10 apropriação desvirtuam o sentido primevo da arte, a mesma passa a fazer parte da unidade conformista, catalogada e supérflua à qual a cultura foi interposta com a indústria cultural e o avanço do pensamento positivo. Ou seja, a essência da arte apresenta questões formais de sentido dialético. As obras de arte representam as contradições como todo,a situação antagonista enquanto totalidade. Só através de sua mediação, não mediante seu parti pris direto, é que são capazes de transcender, graças à expressão, a situação antagonista. As contradições objetivas sulcam o sujeito; não são por ele postas, nem produzidas por sua consciência. Eis o verdadeiro primado do objeto na composição interna das obras de arte. (...) Os antagonismos são tecnicamente articulados: na composição imanente das obras, que torna a interpretação translúcida às relações de tensão no exterior. As tensões não são copiadas, mas dão forma à coisa; só isto constitui o conceito estético da forma. (ADORNO, 2008, p.492). Ainda sobre Pierrot, Le Fou, a posição política de Godard transparece no ato terrorista de Ferdinand, em que o personagem é pintado com as cores da revolução francesa e se amarra a diversos explosivos. Vale lembrar que neste mesmo período, a Frente de Libertação Nacional (partido criado na Argélia em 1954) praticava as mesmas ações num ato simbólico pela liberdade e autonomia de seus países, em especial, a Argélia. No caso, Godard transpõe a opressão do mundo ocidental para a figura de Ferdinand que acorçoado pela futilidade e os impasses do mundo moderno, decide dar cabo de sua angústia. O suicídio como ato simbólico, mais tarde, apareceria em A Chinesa, no personagem de Serge, figura que remete primordialmente à tradição revolucionária russa, em especial na visão de Dostoievski em Os Demônios. A necessidade de interligar diversos momentos históricos presentes nos movimentos de vanguarda carregam em si vários momentos de antecipação da história. Benjamin já afirmava a capacidade de arguir o futuro através da investigação da história pregressa. Em A Chinesa, vemos claramente a antecipação do Maio de 68 na França. O grupo de estudantes de Nanterre, voltado às ideias do marxismo em sua versão mais atual, o maoismo, entra em confronto com os ditames da educação e o aparelhamento da estrutura que o cerca como prolongamento da ideologia vigente. Godard traz em pauta uma discussão cara à Marx. O grupo estudantil muitas vezes se perde na própria fetichização acerca das relações sociais. Encastelados em sua própria intelectualidade, os estudantes, muitas vezes, afastam-se da práxis tão cara ao autor que eles cultuam. Nesta discussão acerca de uma posição mais concreta, a personagem russa, vivida por Anna Karina, aparece como um díspar, assim como o 11 estudante que trabalha nas fábricas francesas. Ambos são excluídos pela intelectualidade da casa, mas guardam uma experiência impossível de se obter com livros. Godard aparece aqui como provocador, alguém que apoia a ação em sua totalidade, que o discurso deve ser pautado no real, na imanência. A história material do século 20 se precipita nas películas do autor. Após 1968 e os diversos movimentos populares de tentativa de suspensão do tempo capitalista e da lógica industrial, Godard se recolheu a uma produção independente que duraria 11 anos. Em 1983, Godard lança Prenome: Carmen. Adaptação livre da ópera de Bizet, Carmen narra uma relação comum ao princípio dos anos 1980: o esvaziamento crítico e ideológico e a aproximação de todas as correntes estéticas que acabariam por resultar em coisa nenhuma. O monitor de vídeo já retirara do cinema o resto de sua autonomia, sendo possível controlar a produção e montagem do filme antes da sala de edição. Carmen traz essa ideia logo no início de sua ação. Godard aparece como um idoso no asilo, recluso, degenerado, ultrapassado. As ideias que permearam o cinema com seu ineditismo desde Acossado não podem ser mais aplicadas ao cinema moderno. Porém o autor se vale da indústria cultural para desconstruí-la em sua composição. Beethoven toma o lugar de Bizet, o papel feminino apresenta personalidade viril, a fragilidade masculina aparece na figura carcomida de um assecla do sistema financeiro. Os elogios ao desacato, à revolução e à força destruidora aparecem em Carmen de forma pujante. Ela representa aqui a natureza, em toda sua feminilidade, cobrando uma resposta daqueles que a obliteraram, recuperando seu espaço à força, de forma inescapável. O amor de Carmen pelo segurança mostra a aproximação de Godard enquanto incentivador da imagem dialética, capaz de despertar o homem de sua relação de domínio com a natureza, voltando-se novamente a ela. O movimento operístico de retomada da natureza ao seu protagonismo constitui a grande contribuição de Carmen, o único Ulisses feminino de Godard no seu retorno à Ítaca. O trabalho se encerra (se isso é possível, uma vez lidando com um autor janela) com Film Socialisme, sua ópera imagética, cronológica, remissiva. Aqui a cultura ocidental se apresenta desde seu cerne até os descaminhos praticados a partir do século 19, resultando na perda completa do sentido de nação por parte do povo europeu. Os fragmentos de Benjamin, a melancolia do autor, tudo se apresenta de forma inescapável. Godard traduz todo o sentimento de ausência, de desencantamento já nas imagens do cruzeiro de luxo. A obra de arte aqui serve de adereço, ela se perdera em suas inúmeras 12 possibilidades, ressoando agora apenas como mercadoria. O preço a pagar pela sua liberdade fora sua própria identidade e, por conseguinte, a atrofia de sua existência. Mas o autor francês não se lamenta apenas, a memória resiste e dela ressurgem as soluções. Se a sociedade ocidental tanto lutou pela liberdade de seu pensamento outrora e disso resultou a completa perda da subjetividade, é preciso retornar ao essencial, ao homem como princípio. Mas em seu regresso à Ítaca, Godard não procura o conforto do lar, mas sim a penumbra de uma ideia enterrada há muito. O Odisseu não assume uma forma física com Carmen, Ferdinand e Poiccard, ele é a própria essência, a liberdade de pensamento. Os autores matrizes utilizados nesse trabalho são os alemães Theodor Adorno e Walter Benjamin. Ambos contribuem para um panorama geral acerca da sociedade capitalista e as questões concernentes à cultura dentro desse modelo econômico. O pensamento subjetivo atrelado à racionalidade, que outrora emancipara o homem das amarras ameaçadoras da religião, agora está oprimido pelo absolutismo da ciência, atrelando sua capacidade de produção à técnica e ao domínio da natureza. Essa
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