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FACULDADE CÁSPER LÍBERO Mestrado em Comunicação

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FACULDADE CÁSPER LÍBERO Mestrado em Comunicação A crônica de Lourenço Diaféria e a poetização do cotidiano na imprensa brasileira Jhonathan Wilker da Silva Pino 1 São Paulo 2015 JHONATHAN WILKER DA SILVA
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FACULDADE CÁSPER LÍBERO Mestrado em Comunicação A crônica de Lourenço Diaféria e a poetização do cotidiano na imprensa brasileira Jhonathan Wilker da Silva Pino 1 São Paulo 2015 JHONATHAN WILKER DA SILVA PINO A crônica de Lourenço Diaféria e a poetização do cotidiano na imprensa brasileira Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero, para a obtenção de grau de mestre em Comunicação. Orientadora: Profa. Dra. Dulcília S. Buitoni São Paulo 3 Foi em 2010 que este trabalho nasceu. Ano em que cursei a disciplina de Literatura Brasileira, no Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Naquele momento, eu estava determinado a iniciar um projeto que discutisse a crônica enquanto prosa de ficção, mas ainda não sabia como. Foi numa conversa com a docente da disciplina, Dra. Gilda Vilela, que tive acesso a uma antologia de Antônio Cândido, que me serviria de inspiração para dar andamento às intenções de pesquisa. Entre tantos cronistas expostos naquela obra, um deles me chamou a atenção; seu nome era Lourenço Diaféria. Fiquei fascinado, comprei suas obras e anos depois resolvi vir a São Paulo para seguir com esse projeto, que não se concretizaria sem o interesse e auxílio da Faculdade Cásper Líbero, sob o nome da minha orientadora, Dra. Dulcília S. Buitoni; da compreensão, do carinho e atenção da família de Lourenço, especialmente de sua viúva e eterna admiradora, Geiza Diaféria; além da hospitalidade e do amor que recebi dos meus tios, Maria da Conceição e Arnaldo Vicente, e da paciência da minha prima, Nidia Paula, que teve que dividir o quarto comigo durante essa jornada. Todos eles são a prova da principal lição que obtive durante esse mestrado, de que o afeto está presente em todas as etapas da nossa vida. Afeto ainda maior que encontro no meu namorado, Alan Fagner, que esteve todo esse tempo esperando pela minha volta, em Maceió. 4 AGRADECIMENTOS À Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e à equipe da Assessoria de Comunicação (Ascom), por compreender e permitir o meu afastamento para o mestrado. À professora Dulcília S. Buitoni, por aceitar e orientar este trabalho. Aos professores Cláudio Novaes Coelho, Roberto Chiachiri e José Eugênio O. Menezes por tornarem a caminhada ainda mais prazerosa. 5 Nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma. (Ludwig Wittgenstein) 6 PINO. Jhonathan W. S. A crônica de Lourenço Diaféria e a poetização do cotidiano na imprensa brasileira. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Faculdade Cásper Líbero. São Paulo, RESUMO Este trabalho insere-se na Linha de pesquisa Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento, do Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero. Ele busca refletir sobre a qualidade jornalística e literária apresentada pelas crônicas de Lourenço Diaféria. Nele, identificamos os recursos narrativos e literários presentes nos textos disponíveis na obra Um Gato na Terra do Tamborim. Antes, abordamos a pluralidade dos relatos a partir de Jean François Lyotard e Vilém Flusser, na contextualização do pensamento pós-moderno; debatemos as narrativas e seus arquétipos, por meio de Carl Jung, Mircea Eliade e Joseph Campbell; questionamos as performances e utilização dos recursos míticos, sob os pontos de vista de Roland Barthes, Edvaldo Pereira Lima e Ciro Marcondes Filho; grifamos o papel central dos personagens e da subjetividade na produção jornalística, com Sérgio Vilas Boas, e fizemos um levantamento histórico e bibliográfico do gênero e do cronista. Com isso, pontuamos o poder de compreensão que os textos de Diaféria nos são capazes de promover, diante dos imaginários criados a partir das perspectivas de seus protagonistas e do uso do simbólico na arte de construir um relato que una os saberes populares, a lógica e a estética na cobertura do cotidiano. Palavras-chave: Crônica, Lourenço Diaféria, Narrativas, Jornalismo, Poética. 7 PINO. Jhonathan W. S. The Lorenço Diaféria s chronicle and the everyday poeticization in the Brazilian press. Dissertation (Master s in Communication) - Faculdade Cásper Líbero. São Paulo, ABSTRACT This work fits in research line Media Products: Journalism and Entertainment, from the Master in Communication of the Faculdade Cásper Líbero. Seeks to think over the journalism and literary quality presented in the Lourenço Diaféria s chronicles. In this study it s identified the literary and narrative resources presents in the available texts in the book Um Gato na Terra do Tamborim (A Cat in the Tambourines Land free translation). Before, it is discussed the plurality of the reports starting from Jean François Lyotard and Vilém Flusser, contextualizing with the postmodern thinking; then, it s discussed the narratives and its archetypes, through Carl Young, Mircea Eliade e Joseph Campbell; so, is questioned the performances and uses of the media resources under the perspectives of Roland Barthes, Edvaldo Pereira Lima and Ciro Marcondes Filho; it s accentuate the characters role and the subjectivity in the journalism production, with Sérgio Vilas Boas, and it s presented a historical and bibliographic survey over the genre and the chronicler. Therewith, points out the Diaféria understanding power are capable to promote in front of the imaginary created from the perspectives of his protagonists and the use of simbolic in the art of set up a story witch bonds the popular wisdom, the logic and the aesthetics on covering the everyday. Keywords: Chronicle, Lawrence Diaféria, Narratives, Journalism, Poetic. 8 Sumário Introdução Uma questão de narrativa Narrativas transdiciplinares O conhecimento reciclado Do relato nasce o cosmo Uso dos arquétipos pelo jornalismo Imaginação e associação como recursos da narrativa Contraponto: os artifícios dos mitos Realidade mediada Narrativas jornalísticas Perspectivas de compreensão Abreviando para compreender Performances de reprodução da realidade Crítica à imparcialidade Foco no personagem Nuances de uma compreensão do real Amarras entre o jornalismo e a literatura: narrando em crônicas O início do gênero nos folhetins Crônica e suas funções: História, Literatura e Jornalismo Crônica e sua recepção Do frívolo ao estético 3.5 Temáticas e formatos de um gênero mutante Narrativas de São Paulo em Um Gato na Terra do Tamborim Transpondo os espaços físicos De experiências se faz um cronista Liberdade Temática Metalinguagem Recursos literários A voz narrativa A expressão dos pensamentos Diálogo e descrição A metáfora e o simbólico Plasticidade sonora e visual As microjornadas dos gatos Considerações finais (ou nossas recompensas) Referências Anexo Anexo Introdução O simples hábito de conversar, dizer para quem está ao nosso lado o que vimos, ou vivenciamos; o modo de expressarmos nossos sentimentos, por meio de palavras e comportamentos, são ações que demandam de nós que escolhamos quais os ângulos e sentidos que queremos dar aos nossos discursos. Ao longo da história da humanidade, passamos a produzir técnicas cada vez mais elaboradas para que nossos argumentos ficassem fidedignos à comprovação dos fenômenos que queiríamos comunicar. No entanto, a criação de avançadas técnicas de representação não necessariamente significaria o descarte de velhos artifícios, utilizados pelos nossos ancestrais, na contação de estórias: ainda hoje precisamos da empatia, da reprodução dos gestos e do interesse mútuo de compreensão, por exemplo, para que a narrativa se efetive. A reciclagem dos métodos de narrativas talvez seja um dos temas mais recorrentes no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero. Ao longo de suas disciplinas, especificamente na linha de pesquisa Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento, entramos em contato com diversos teóricos que nos lembram constantemente que o principal modo de solução para problemas humanos continua sendo o relato, em suas mais variadas manifestações. Seria por meio de narrativas que diferentes saberes seriam produzidos e a partir delas obteríamos o reaproveitamento das experiências de nossos antecessores. Como tentativa de resolver nossas angústias, criamos diferentes formas de conhecimento: de formulações míticas às crenças teológicas; de correntes ideológicas à racionalidade científica; do conhecimento místico ao saber analítico; de lendas folclóricas à literatura erudita; da historiografia clássica à produção midiática em suas diversas expressões, e em todos esses momentos o relato esteve presente. Além disso, todas essas formas de expressão, e/ou saberes, possuíam o mesmo objetivo: dialogar possíveis saídas para os nossos dilemas e, para isso, utilizavam-se de recursos como dissuasão, familiaridade temática, valores morais e apreços estéticos, como forma de transmitir fidelidade e empatia a seus diferentes interlocutores. Por mais específicos que sejam, os produtores não deixaram de se utilizar da linguagem corporal, da proximidade e do afeto de uma simples conversa face a face para produzir conhecimento. 11 Talvez seja pela sua eficiência em reunir os aspectos citados acima que a crônica ainda mantenha certa expressão no cotidiano do jornalismo brasileiro. O autor aqui em debate, Lourenço Diaféria, é um representante típico de um gênero marcado pela espontaneidade e despretensão da narrativa. Suas estórias nascem de conversas na redação, dos contatos com garçons, motoristas, donas de casa, vendedores ambulantes e dos próprios conflitos familiares. Suas experiências pessoais ganham amplitude, quando publicadas em jornais e livros, mas todo o êxito de sua comunicação dependeria da atribuição de sentidos que o autor daria a cada ato, iniciativa, conflito vivido pelos personagens. O modo como estes nos afetariam, com suas possíveis respostas morais, dependeria dos recursos simbólicos utilizados pelo autor, capaz de transformar o cotidiano particular de alguém numa experiência de vida universal. Foi tentando entender como o ato de narrar coisas miúdas, e sem pretensões de transformá-las importantes, poderia nos levar a conhecimentos mais abrangentes, que dividimos este trabalho em quatro etapas. No primeiro momento, Uma questão de narrativa, aborda-se as limitações da linguagem analítica e a possibilidade de ampliar nossos conhecimentos a partir do reaproveitamento das experiências arquetípicas, presentes nos saberes populares. Mitólogos, como Mircea Eliade e Joseph Campbell, além de pensadores do Pósmodernismo, tais quais Jean-François Lyotard e Vilém Flusser, são colocados lado a lado para reforçarmos como a pluralidade dos relatos é responsável pela revelação de diferentes perspectivas que, se somadas, levariam-nos a uma compreensão transversal da realidade. Essas teorias são essenciais para compreendermos as bases conceituais de experimentos no jornalismo, como a produção intencional de conteúdo, por meio dos símbolos arquetípicos, além da reprodução do acontecimento a partir do uso consciente da subjetividade do autor e sob as óticas particulares dos personagens, temas debatidos por Edivaldo Pereira Lima e Cremilda Medina. Esta pesquisa adentra em discussões quanto à importância do relato, para que o mundo passe a existir e seus fenômenos ganhem sentido aos nossos olhos. Usamos clássicos de Walter Benjamin e Vladmir Propp para resgatar a origem das narrativas míticas, e como estas eram utilizadas pelos nossos antepassados, as suas funções e a amplitude que apresentam na contemporaneidade. 12 Situam-se as diferenças entre o narrador clássico e o midiático, com a ajuda de Muniz Sodré, e também são colocados em debate os teóricos críticos quanto ao uso dos recursos míticos e/ou simbólicos, na produção de conteúdo pelas mídias, como Roland Barthes, Jean Baudrillard, Theodor Adorno, Max Hokheimer e Ciro Marcondes Filho, buscando apontar as limitações e performances do jornalismo, na sua tentativa resiliente de colocar em prática conceitos como objetividade, imparcialidade e isenção autoral. O capítulo Narrativas jornalísticas explanará de forma sucinta a questão dos gêneros jornalísticos, o seu papel social, as rotinas de produção e a forma de lidar com suas fontes. Para isso, serão explanadas algumas classificações funcionais, formuladas por autores como José Marques de Melo, Nilson Lage e José Luis Martínez Albertos, a fim de serem estabelecidas as expressões textuais predominantes e a inserção da crônica nesse percurso histórico. Pretende-se semelhanças entre os conceitos de fonte e personagem, a partir de um trabalho de Kássia Nobre Dos Santos, como forma de enfatizar a importância dos dramas humanos para o enriquecimento do conteúdo midiático. Além disso, são utilizados argumentos de Osvaldo Coimbra e Sérgio Vilas Boas para apontar os ganhos do aprofundamento de perspectivas na construção de uma história, por meio da reprodução de ações e sentimentos de um ou mais personagens. Propõe-se que são as figuras humanas as colunas basilares das narrativas e, por isso, ressaltam-se os diversos subgêneros do jornalismo, em que elas são postas como protagonistas dos acontecimentos. No final dessa etapa, é feita uma breve explanação sobre as distinções entre Jornalismo Literário e Crônica, além de refletir sobre como a ficção pode se manifestar nos dois gêneros. No terceiro capítulo, finalmente adentra-se no mundo específico das crônicas. Em Amarras entre o jornalismo e a literatura: narrando por meio de crônicas, serão apontadas as diferentes funções que a denominação ganha ao longo da história, sua origem folhetinesca, os principais estágios, representantes e manifestações no Brasil. Por meio de pesquisas de Maria do Socorro da Nóbrega e uma antologia sobre o assunto, organizada por Antônio Cândido, contextualizam-se as expressões que o gênero ganhou ao longo do tempo, a sua filiação francesa e os precursores no país tropical. 13 A partir de teóricos nos Estudos Literários, como Massaud Moisés e Umberto Eco, além de investigadores da área da Comunicação, como Rogério Menezes, José Jorge Letria, José Goulão, Felipe Pena e Marcelo Coelho, são trazidas à discussão as aproximações do gênero com a literatura de ficção, suas características e temáticas predominantes. A dissertação encerra-se com a análise sobre o imaginário, a estrutura e os recursos literários utilizados por Lourenço Diaféria em suas narrativas. No capítulo Narrativas de São Paulo em Um Gato na Terra do Tamborim, utiliza--se um método didático, semelhante ao de David Lodge, em A Arte da Ficção, para explanar as estratégias de retórica na produção de ficção, utilizadas pelo cronista em debate. A obra Um gato na Terra do Tamborim é usada como corpus de análise, para identificar a diversidade e fluidez das vozes narrativas, a expressão dos sentimentos dos personagens, manifestos em fluxos de consciência e no monólogo interior; são reproduzidos diálogos dos dramas, descrições de cenários e apontados os recursos simbólicos. Percebe-se a preocupação com a plasticidade sonora e visual de seus textos, como também identifica-se a reprodução da estrutura de microjornadas do herói, manifestas em estórias dos personagens retratados. Também são discutidas questões quanto à memória e o seu papel na reconstituição do imaginário de uma cidade, por meio de estudos de García Canclini, Massimo Canevacci e Ecléa Bosi, para embasar as relações do autor com a cidade de São Paulo e entender como a metrópole se torna a matéria-prima para a produção de Diaféria. Ainda utiliza-se uma pequena biografia do autor para perceber como os personagens, frutos das experiências particulares dele, aliado à sua sensibilidade para lidar com os acontecimentos e as pessoas (fontes), foram capazes de produzir reflexões criativas e compreensões enriquecedoras sobre os fatos cotidianos. Mais que uma análise e discussão da qualidade das crônicas de Diaféria, o presente trabalho busca inseri-lo como exemplo intermediário entre jornalismo e prosa de ficção, atualizar o papel do cronista como contador de estórias e promotor de conhecimento, além de defender o potencial de compreensão poética que a liberdade criativa pode adicionar à produção de conteúdo jornalístico. 14 1. Uma questão de narrativa Repassar aquilo que se viu, ouviu, é de especial delicadeza se o outro, aquele que recebeu, pôde se emocionar, se sensibilizar, se entristecer ou se animar, em suma, se a mensagem proferida teve a qualidade de ver o outro como um ser humano, tão digno de atenção e respeito como ele mesmo, que tanta porrada teve que tomar na vida para aprender esta singela lição. Granja Vianna 15 A economia doméstica é um tema recorrente nas diversas mídias: a abordagem mais comum do problema feita pelos veículos de comunicação diz respeito aos efeitos da inflação sobre o comércio, quando os preços elevam-se e põem em risco o poder de compra do consumidor, principalmente das pessoas mais pobres. A falta de determinados produtos no mercado, por exemplo, pode ser enfocada por meio de estatísticas, disponíveis em infográficos e produzidas a partir de dados de centros reconhecidos de pesquisa. No entanto, na hora de relatarmos tal realidade, também se pode optar por uma narrativa que dispense esses números frios e ainda assim nos aponte a relação procura-demanda dos produtos essenciais, no dia a dia de uma dona de casa. Esta última opção foi a estratégia escolhida por Lourenço Diaféria (1976) para nos fazer compreender as angústias particulares de uma família brasileira na década de 1970: Todos os dias de manhã, a mesma cantinela: não há leite no empório, não há leite no supermercado. No princípio, ignorando as dimensões da escassez, encolhi os ombros: Paciência, meu bem. Vamos apelar para o leite em pó. Mas a ideia parece que ocorrera antes a toda a população, de modo que o produto em pó também sumira das prateleiras. (DIAFÉRIA, 1976, p ) O trecho acima faz parte de uma das cinco crônicas anônimas, As desarmonias de uma família unida diferenciadas apenas pela enumeração romana publicadas em dias diferentes na Folha de S. Paulo e posteriormente reunidas na obra Um gato na Terra do Tamborim, em 1976, como forma de abordar um problema cíclico daquela época: a escassez do leite nos supermercados. Ao longo dos textos, o narradorpersonagem nos conta como tentou superar a questão, ao perceber nos classificados do jornal que 300 vacas estavam à venda em um leilão, podendo ser adquiridas por qualquer morador urbano, inclusive por aqueles que viviam em apartamentos. O narrador reproduz o drama e questionamentos vividos diariamente pelo protagonista; o sentimento de inutilidade e o raciocínio que irá realizar para chegar a uma decisão: Dei a notícia à hora de jantar e, para não criar impacto, esperei o momento em que a adorável dona Leonor servia uma fumegante sopa de cenourinha e padre-nosso. Fui sucinto: Comunico a vocês que, possivelmente já a partir da próxima semana, teremos aqui, à nossa disposição, uma excelente vaca leiteira, garantida pela Fazenda Macuco. Houve um breve silêncio, apenas rompido pela terrina de sopa, que se partiu no impacto com o chão. E dona Leonor, sem que nada lhe fosse perguntado: O patrão endoidou! Tudo começou assim. (DIAFÉRIA, 1976, p. 60) Aqui está um exemplo de solução estilística que nos sensibiliza com o cotidiano. A crônica é capaz de nos identificar com o personagem, colocar-nos no lugar dele e entender de modo simbólico a situação econômica de um país por meio da perspectiva de um chefe de família. Como esta dissertação tem a proposta de apontar exemplos do gênero como narrativas capazes de aliar a sensibilidade ao racional, na compreensão do cotidiano, iremos inicialmente refletir sobre as diversas etapas do jornalismo no Brasil: desde sua prática como técnica representacional, criada no contexto da modernidade cartesiana e aprimorada posteriormente numa tentativa de reprodução dos acontecimentos de modo analítico, até as fases mais experimentais do periodis
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