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FLEXIBILIDADE E ESPORTE_uma revisão de literatura

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85 CDD.20.ed.613.7 573.6 FLEXIBILIDADE E ESPORTE: UMA REVISÃO DA LITERATURA Paulo de Tarso Veras FARINATTI * RESUMO A flexibilidade é um componente importante da aptidão física, podendo ser definida como a maior amplitude fisiológica de movimento para a execução de um gesto qualquer. Contudo, falta consenso científico quanto à sua importância relativa para a prática esportiva. O objetivo do estudo foi efetuar uma revisão da literatura especializada sobre as relações entre flexibilidade e espo
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  85  Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 14 (1):85-96, jan./jun. 2000   CDD.20.ed.613.7 573.6  FLEXIBILIDADE E ESPORTE:UMA REVISÃO DA LITERATURA Paulo de Tarso Veras FARINATTI *   RESUMO A flexibilidade é um componente importante da aptidão física, podendo ser definida como amaior amplitude fisiológica de movimento para a execução de um gesto qualquer. Contudo, falta consensocientífico quanto à sua importância relativa para a prática esportiva. O objetivo do estudo foi efetuar umarevisão da literatura especializada sobre as relações entre flexibilidade e esporte. Foram abordados osseguintes pontos: perfis de flexibilidade nas modalidades esportivas, influência na aprendizagem do esporte erelação com as lesões esportivas. Os resultados das pesquisas revelaram-se conflitantes para diferentesamostras em modalidades diversas. Em suma, o exame dos dados disponíveis indica que: a) parecem sernecessários níveis mínimos de flexibilidade para o desempenho esportivo, ainda que seja extremamentedifícil determiná-los; b) padrões específicos de movimento acarretam manifestações particulares deflexibilidade, que são coerentes com as demandas da atividade. A associação da flexibilidade com odesempenho depende do esporte praticado. Assim, níveis altos de flexibilidade não são, necessariamente, osmais favoráveis em todas as modalidades esportivas; c) não é possível estabelecer com clareza a influência daflexibilidade na incidência de lesões no esporte. As lesões decorrem de fatores múltiplos, o que limita aspossibilidades de isolamento do efeito independente da flexibilidade. Logo, a despeito do senso comum deque o treinamento da flexibilidade previne lesões, não se podem fazer afirmativas conclusivas neste sentido.UNITERMOS: Flexibilidade; Mobilidade articular; Treinamento; Antropometria; Lesão. INTRODUÇÃO * Instituto de Educação Física e Desportos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Flexibilidade pode ser definida, deforma operacional, como uma “... qualidade motrizque depende da elasticidade muscular e da mobilidade articular, expressa pela máxima amplitude de movimentos necessária para a perfeita execução de qualquer atividade físicaeletiva, sem que ocorram lesões anátomo- patológicas”  (Pavel & Araújo, 1980 citado porAraújo, 1983, p.7). Sua identificação com aspectos daaptidão física é antiga, e até certo ponto popular(Holland, 1968). Durante muito tempo, porém, ointeresse científico no assunto permaneceupraticamente restrito à descrição de algumassíndromes clínicas (Corbin & Noble, 1980;Araújo, 1987). Apenas a partir da segundametade do século XX passou-se a estudar aflexibilidade de forma sistemática, como umcomponente importante da aptidão físicareferenciada à saúde e ao desempenho(Farinatti & Monteiro, 1992). Hoje é bem aceitaa idéia de que níveis mínimos de amplitudearticular são necessários para uma boaqualidade de vida. Dessa forma, a flexibilidade vemsendo incorporada cada vez mais às discussõessobre atividade física de maneira geral.Dificilmente é encontrada alguma proposta de  FARINATTI, P.T.V.  Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 14 (1):85-96, jan./jun. 2000  86prescrição de atividades físicas que não a envolvaem algum momento do trabalho, sejam quais foremseus objetivos (Clarke, 1975; American College of Sports Medicine, 1998; Coelho, Teixeira, Pereira& Araújo, 1998). No que diz respeito ao esporte,não precisamos de evidências estatísticas ecientíficas para imaginarmos que certos tipos deatividades físicas demandam graus adequados deflexibilidade para uma boa execução. Há mais queintuição, todavia, a sustentar o valor de uma boaamplitude de movimentos para a prática deatividades esportivas (Holland, 1968; Araújo,1987, 1999). Uma vez a flexibilidade sendo umacaracterística específica para a articulação e omovimento realizado, cada atividade impõeexigências particulares ao praticante.Apesar do consenso em torno destaafirmativa, os pontos de vista quanto à importânciarelativa da flexibilidade para o esporte são muitodivergentes. Em parte, os debates em torno doassunto resultam da falta de definições e técnicasde medida universalmente aceitas, das dúvidas queainda existem sobre a forma pela qual aflexibilidade responde à exercitação a longo prazoe às limitações de ordem metodológica de muitosdos estudos que vêm sendo publicados (Gleim &McHugh, 1997).Isto posto, o presente texto tem porobjetivo realizar uma breve revisão da literatura noque se refere às relações recíprocas entreflexibilidade e a atividade esportiva, apontando asconcordâncias e realçando os pontos sobre os quaisas pesquisas não oferecem respostas conclusivas. PERFIS DE FLEXIBILIDADE NO ESPORTE Cureton (1941) foi um dospesquisadores pioneiros no estabelecimento dasrelações entre flexibilidade e aptidão física noesporte, alertando para o fato de que atletas emgeral seriam mais flexíveis que a média dapopulação de não atletas. Desde então, buscam-seestabelecer a natureza dessas relações, comresultados controversos. Duas razões contribuempara a diversidade e, podemos afirmar, uma certacarência de dados neste tópico: a) disponibilidadelimitada de atletas de elite para os estudos; b)métodos de avaliação não padronizados nadeterminação da flexibilidade.Outra complicação é o fato de que oesporte de competição é muito abrangente,englobando modalidades associadas a perfis muitodiferentes nos aspectos da aptidão referenciada aodesempenho. Enquanto o desempenho decorredores de longa distância e nadadores podedepender significativamente de sua potênciaaeróbia máxima, em modalidades como o judô ouluta greco-romana a força e potência muscularseriam mais importantes, enquanto na ginástica enado sincronizado a flexibilidade é destacada.Além disso, a expressão ´atleta´  é imprecisa, sendoutilizada para designar tanto indivíduos com altosníveis de aptidão física (por exemplo, corredoresde maratona), como sedentários (por exemplo,praticantes de tiro ao alvo). Em que pesem estes problemas, aespecificidade das manifestações da flexibilidadeno esporte é apontada por vários estudos isolados.Talvez um dos estudiosos mais citados sejaLeighton, autor de estudos clássicos sobre aflexibilidade em diversos contextos. Em doisdestes estudos (Leighton, 1957a, 1957b), o autorinvestigou os perfis de flexibilidade de praticantesde alto nível em setes modalidades esportivasdiferentes (natação, baseball , luta greco-romana,basquetebol, atletismo, levantamento de peso eginástica). Seus resultados demonstraram de formainequívoca a especificidade da flexibilidade para aprática esportiva. Travers & Evans (1976)chegaram a conclusões similares ao avaliar aflexibilidade passiva de 29 movimentos em 231atletas do sexo masculino. Os resultados do estudoindicaram limitações importantes e específicas paracada uma das modalidades esportivas testadas.Recentemente, Araújo (1999)comparou a flexibilidade (usando o Flexiteste ) de211 atletas de elite (162 homens e 49 mulheres),com idade entre 15 e 35 anos, praticantes de 11modalidades masculinas e 7 femininas, com aflexibilidade de um grupo controle de idadesimilar, composto de indivíduos não atletas (286homens e 284 mulheres). Os resultados indicaramque, nas modalidades masculinas, atletas debasquetebol, futebol e judô eram menos flexíveisque os indivíduos não atletas. Atletas de tênis demesa, iatismo e remo tinham flexibilidadeequivalente ao grupo controle, enquanto praticantesde voleibol de praia, natação, ciclismo e tênisapresentavam escores superiores. Nas modalidadesfemininas, os resultados entre atletas e não atletasforam similares para o judô, o voleibol e o voleibolde praia, enquanto atletas de natação, nadosincronizado e squash exibiram resultadossignificativamente superiores. O autor concluiu quedesempenhos de alto nível podem ser alcançados,em diversas modalidades esportivas, mesmo que o  Flexibilidade e esporte  Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 14 (1):85-96, jan./jun. 2000  87perfil de flexibilidade não ultrapasse o da média dapopulação.Alguns estudos dedicaram-se àinvestigação de esportes específicos, tentandocaracterizar perfis de flexibilidade e o efeito de suaprática continuada. Gleim (1984) e Oberg,Ekstrand, Möller & Gillquist (1984) examinaram,respectivamente, jogadores de futebol americano ede futebol. No primeiro estudo, demonstrou-se queos jogadores de linha (responsáveis por romper obloqueio da defesa adversária) possuíam menorflexibilidade de membros superiores (ombro) queos demais. No segundo estudo, revelou-se que osgoleiros tendem a exibir melhores perfis deflexibilidade geral que os jogadores de outrasposições. Magnusson, Gleim & Nicholas (1994)observaram que jogadores de baseball  experimentariam um aumento progressivo daflexibilidade para a rotação interna e redução paraa rotação externa no ombro do braço delançamento, em comparação com o próprio braçonão dominante e o braço dominante de umaamostra controle.Möller, Oberg & Gillquist (1985)investigaram o efeito de uma única sessão detreinamento de futebol sobre a flexibilidade dasarticulações do quadril, joelho e tornozelo,acusando uma redução significativa que perdurouaté 24 horas. Numa outra perspectiva, Ekstrand &Gillquist (1982) e Oberg et alii . (1984)compararam a mobilidade articular de jogadores dediversas posições, chegando à conclusão de quenão havia associação significativa. Em todos oscasos, porém, a comparação com grupos controlerevelou que existiria um declínio progressivo daflexibilidade com a prática continuada do futebol.Esses resultados foram confirmados maisrecentemente por McHugh, Magnusson, Gleim &Nicholas (1993), propondo que jogadores defutebol de mais de 30 anos exibiriam perfisinferiores de flexibilidade estática de tronco,quadril e membros inferiores, quando comparadoscom jogadores mais jovens.Há, com isso, uma tendência aconsiderar-se que a prática do futebol tenda areduzir a flexibilidade. Ainda que isso não sejaconsensual, estudos comparativos sugerem que aprática continuada do futebol é, freqüentemente,associada com níveis de mobilidade articularabaixo da média de populações não-atléticas emvários grupos articulares (Travers & Evans, 1976;Oberg et alii, 1984; Mangine, Noyes & Mullen,1990; Gleim & McHugh, 1997; Araújo, 1999). Dequalquer forma, tudo indica que a flexibilidade nãoseja um componente importante do desempenho nofutebol.O atletismo é uma esporte comgrande número de estudos relacionados àflexibilidade. Muitos técnicos indicam anecessidade de incluí-la nos programas detreinamento com a finalidade de prevenção delesões e melhora do rendimento, ainda que osresultados publicados sejam algo polêmicos(McFarlane, 1976). Corbin (1984), por exemplo,sugere que tipos específicos de flexibilidade podemmelhorar o desempenho no salto em distância,velocidade de corrida e arremessos. Esclareceainda que, entre os fundistas, os estudos tendem anão apontarem variações de desempenho entreatletas com diferentes graus de flexibilidade,apesar disso poder assumir importância maior emmodalidades que exijam transposição deobstáculos, como no ´steeplechase´  . Nelson (1960)estudou a relação da flexibilidade balística antes dotiro de 50 jardas (aproximadamente 45 metros), nasarticulações do quadril e tornozelo, não obtendoefeitos significativos. Dintiman (1964), por outrolado, usando como aquecimento uma combinaçãode trabalho estático de flexibilidade e levantamentode pesos, relata resultados diametralmente opostos.Numa outra abordagem, De Vries(1963) comparou tempo e consumo de oxigênionas 100 jardas (cerca de 90 metros), precedidas decinco séries de exercícios passivos de flexibilidade.Não obteve diferenças em relação ao tempomarcado sem aquecimento. Cummings, Wilson &Bird (1984) utilizaram a técnica do relaxamentoaliado ao ´feedback´  por eletromiografia, paradeterminar seu efeito no desempenho em corridasde 50 metros em velocidade. Obtiveram temposmelhores para todos os grupos analisados,observando, porém, não haver diferenças entre ométodo de treinamento da flexibilidade utilizado eos tradicionais.Os resultados de De Vries (1963)foram contestados por dois estudos mais recentes.Gleim, Stachenfeld & Nicholas (1990) examinarama relação entre flexibilidade e o consumo deoxigênio na marcha e na corrida. Uma vez que avelocidade ultrapassava os 4,8 km/h, os indivíduoscom piores resultados em 11 medidas deflexibilidade estática revelaram-se os maiseficientes, numa taxa de até 12% (r = 0,43, p <0,001). Craib, Mitchell, Fields, Cooper, Hopewell& Morgan . (1996), em uma amostra homogênea decorredores, encontraram resultados semelhantes (r= 0,53 a 0,65 p<0,05). Os autores tentaram explicaresses resultados através da menor ativação da  FARINATTI, P.T.V.  Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 14 (1):85-96, jan./jun. 2000  88musculatura auxiliar em indivíduos menosflexíveis (músculos posturais, por exemplo) e poruma reação elástica mais efetiva à passada prévia. Se essa hipótese é correta, esportes que dependemextensivamente de velocidade e potência (corridasde velocidade, saltos etc.) teriam seu desempenhofacilitado por menores níveis de flexibilidade emarticulações específicas. Os autores realçam,contudo, que isso é meramente especulativo.Existem poucos estudoscomparativos sobre a flexibilidade de atletas debasquetebol e voleibol. Encontrou-se apenas umestudo sobre basquetebol (Grana & Moretz, 1978),demonstrando não haver diferença significativa nosescores de flexibilidade entre um grupo de atletasde um grupo controle masculino. Em mulheres, aflexibilidade das atletas foi superior que em atletasmasculinos, mas menor que para uma populaçãonão-atlética feminina. No que diz respeito aovoleibol, há uma certa discordância nos dadosdisponíveis. Por exemplo, Marey, Boleach,Mayhew & Mcdole (1991) valeram-se de técnicasestatísticas multivariadas para discriminaremmembros de equipes vencedoras e perdedoras,selecionando a flexibilidade de ombros e de tronco,agilidade e potência na cortada como as variáveismais determinantes. A correlação canônica entreestas variáveis considerando-se a dicotomia ´ganhadores-perdedores´  foi de 0,74, respondendopela classificação correta de 85% dos jogadores.Lee, Etnyre, Poindexter, Sokol & Toon (1989)compararam a flexibilidade de ombros e de quadrilcom a impulsão vertical de membros das equipesmasculinas e femininas participantes do United States Olympic Festival . Uma correlaçãosignificativa foi identificada entre a flexão dequadril e a impulsão vertical no movimento dacortada (r = 0,42,;p < 0,03). Nas mulheres,encontraram-se associações negativas entre aflexão do quadril e impulsão vertical semaproximação (r= -0,54; p < 0,01), bem como com aimpulsão vertical no movimento da cortada (r = -0,47; p < 0,05).Em que pesem alguns destesresultados, o fato é que os dados disponíveis nãoautorizam considerar que a flexibilidade seja umacaracterística fundamental para o desempenho nobasquetebol ou voleibol. No entanto, é difícilestabelecer conclusões sobre a influência de umamaior ou menor mobilidade articular para estesesportes, uma vez que são muitas as variáveis queconcorrem para atividades com alto grau deespecialização motora. É na natação, sem dúvida, que sepode encontrar a maior quantidade de trabalhosdemonstrando evidências de como a flexibilidadepode influenciar no desempenho de umamodalidade esportiva. Cureton (1941), já na décadade 30, documentava a grande associação entreflexibilidade e nadadores de uma forma geral. Em1932, realizou diversas medidas nas equipesolímpicas do Japão e Estados Unidos, observandonítida vantagem para os primeiros, donos dosmelhores resultados na competição realizadanaquela ocasião. Comparando, ainda, nadadoresolímpicos com universitários, constatou que estesúltimos eram, em média, 11,4% menos flexíveis naarticulação do tornozelo e 7,7% menos flexíveisnos ombros. Corroborando essas observações,Araújo (1999) comparou atletas de diversasmodalidades entre si e com não atletas,evidenciando que os praticantes de nataçãoencontravam-se entre os mais flexíveis.Em 1976, com os Jogos Olímpicosde Montreal, a atenção dos pesquisadores foidespertada novamente pela natação, devido aosresultados alcançados pelas nadadoras da entãoRepública Democrática Alemã. Métodossofisticados de medida e avaliação de nadadoresforam desenvolvidos, objetivando discriminarpotencialidades e orientar o praticante segundosuas características fisiológicas e antropométricas(Marino, 1984). A flexibilidade, invariavelmente,toma parte nesses instrumentos (Colman, Desmet,Daly & Persyn, 1989a).Um bom exemplo pode serencontrado no sistema de avaliação do  Leuven Evaluation Center  (Bélgica) para predizer osucesso do nadador, com base em parâmetros comosomatotipo e condição atual, aliada ao treinamentode qualidades como a força, a resistência e aflexibilidade (Persyn, 1984; Persyn, Tilborgh,Daly, Colman, Vijfvinkel & Verhetsel, 1988; Daly,Persyn, Van Tilborgh & Riemaker, 1988). Estaúltima e os tipos de treinamento que se propõem amelhorá-la têm um peso ponderado de quase 30%no valor de predição. Assim, a flexibilidadeaparece como fundamental para o bom rendimentodo nadador, desejável por permitir um melhoraproveitamento de sua força, velocidade ecoordenação.O tipo específico de mobilidade vaidepender do estilo do nado. Geralmente,encontramos maiores graus nos tornozelos eombros (Sprague, 1976; Rodeo, 1985). Tornozelosflexíveis significam uma maior possibilidade deaplicação efetiva de força na fase propulsiva da
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