Documents

Hardt, Negri e “o Novo Paradigma Do Trabalho”

Description
ok
Categories
Published
of 14
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista  –   Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014 1 Hardt, Negri e “o novo paradigma do trabalho”   Thiago Silva Augusto da Fonseca 1  Resumo: Antonio Negri e Michael Hardt, em  Império , trabalham com uma nova figura do trabalho que entendem ser um novo paradigma: a do trabalho imaterial ou da produção biopo-lítica, paradigma assim denominado não porque não envolva o âmbito material, mas porque os bens produzidos são imateriais: conhecimentos, afetos, comunicações, linguagens. Nesse contexto, as “antigas” leis do valor, da extração de mais -valia, que, segundo Hardt e Negri, se  baseavam em medidas quantitativas deixam de ser aplicáveis a quantidade , entendida como “medida transcendente”, deixa de ser referência aos regimes de produção, que passam a se interessar na qualidade . A produção biopolítica se depara com a ordem capitalista que busca aplicar sobre ela um biopoder. Com os conceitos de biopolítica e de biopoder, começa a ficar claro tanto que a vida se tornou locus  do exercício do poder quanto que ela foi posta a traba-lhar; além disso, podemos perceber claramente aí a referência a Foucault cuja obra, seguindo a leitura de Deleuze, assinala a passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle. A  partir dessa apresentação de um novo paradigma teceremos alguns comentários sobre meca-nismos de controle do trabalho presentes nos discursos sobre a Qualidade de Vida para os Trabalhadores, que, em resumo, tendem aproveitar os traços biopolíticos do trabalho imaterial em favor da acumulação capitalista. Palavras-chave: Império; Antonio Negri; Michael Hardt; biopolítica; Qualidade de Vida dos Trabalhadores. 1  Mestrando em Filosofia pela Universidade de São Paulo, bolsista CAPES. Contato: thiago.silva.fonseca@usp.br  MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista  –   Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014 2  Nosso objetivo aqui é abordar a figura do trabalho na obra do Antonio Negri, especifi-camente a partir de  Império , coescrito com Michael Hardt e publicado em 2000, e nas obras seguintes,  Multidão e  Commonwealth . Esses três livros compõem uma trilogia temática que envolve algo que poderíamos chamar de uma “ontologia do presente”: como se configuram a  política, sociedade e economia no atual estágio do capitalismo e, a partir dessa configuração, como podemos pensar em ações políticas, transformações. O novo paradigma do trabalho, nesse contexto, para situarmos a questão, será o do trabalho imaterial  . Em  Império , essa descrição do presente é feita em dois movimentos: uma parte apre-sen ta as “transições de soberania”,  de uma perspectiva da filosofia política e jurídica, para assinalar a emergência disso que Hardt e Negri chamam de “ Império ” : conforme se desenvol-ve o mercado mundial, decaem os poderes de soberania dos Estados-nação. Não temos mais imperialismos, afirmam eles, mas sim um único poder soberano supranacional, global, difuso, sem centro. De outro lado, e este é o âmbito que desenvolveremos aqui, o presente é também mar-cado por uma nova configuração da produção , na qual o trabalho imaterial surge como novo  paradigma . Não é em Império que os autores passam a abordar o trabalho imaterial: desde  pelo menos a década de 1980 Negri trata da questão. Ao longo da década de 1990 o assunto era abordado por ele, Hardt, Maurizio Lazzarato, Giuseppe Cocco e diversos outros pensado-res na revista francesa  Futur Antérieur  , mas é em  Império  que a formulação do trabalho ima-terial ali já é mais desenvolvida e pretende dar conta de diversas críticas que foram apresenta-das nesse período anterior à sua publicação. Temos então, com  Império , pelo menos dois novos paradigmas. O da nova forma da sobe-rania, chamado de Império, e o da nova forma da produção, que agora será produção biopolí-tica , marcada pelo trabalho imaterial. Os autores insistem que esses paradigmas não devem ser pensados como esferas separadas, como se houvesse uma infraestrutura de produção e uma superestrutura das formas político-jurídicas. Ao contrário, no presente  –   nesse sentido,  pode-se dizer presente  pós-moderno , já que marcado por novos paradigmas que não são mais aqueles da modernidade  –   economia, política, sociedade e cultura são âmbitos que se entrete-cem, como pretendemos demonstrar. 1.   Trabalho imaterial e produção biopolítica em  Império  Para falar do novo paradigma do trabalho, Hardt e Negri aproveitam de Foucault as ex- pressões biopoder e biopolítica . “ E xpressões” e não “conceitos” , uma vez que há certa parti-  MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista  –   Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014 3 cularidade no uso desses termos por Hardt e Negri: as expressões não têm exatamente o mes-mo sentido que têm para Foucault. Mesmo porque muitas vezes o Foucault de Hardt e Negri é mediado por Deleuze, que lê em Foucault uma transição da sociedade disciplinar   para a soci-edade de controle . 2  O biopoder será compreendido por eles como “ a forma de poder que regula a vida so-cial por dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando. (...) O que está diretamente em jogo no poder é a produção e a reprodução da  própria vida” ( HARDT e  NEGRI, 2012: 42). Somente a noção de  sociedade de controle , continuam, estaria apta a ado-tar o contexto do biopoder como “terreno exclusivo de referência”. Na sociedade disciplinar, que a precedeu, o biopoder era parcial, com lógicas geométricas e quantitativas; na sociedade de controle, a relação com o poder é aberta, qualitativa. O que eles estão chamando aqui de sociedade disciplinar pode ser entendido como uma sociedade de instituições  de produção, que produzem costumes, hábitos e práticas produtivas e comportamentos normais . No caso da instituição de produção, a fábrica ou a indústria, ela produz em linha e estoca  produtos, calcula os tempos de trabalho necessário e excedente para a extração de mais-valia (por isso a lógica geométrica e quantitativa). A passagem contemporânea desse modelo ao da sociedade de controle, que apresenta me-canismos de comando difus os e “imanentes ao campo social, distribuídos pelos corpos e cér  e-  bros dos cidadãos”, é associada por Hardt e Negri à passagem, em Marx, da  subsunção formal   do trabalho ao capital à  subsunção real  . De que trata tal noção? Hardt e Negri entendem que Marx descrevia a subsunção  formal   do trabalho ao capital como o período em que o capital era como uma capa, uma forma que envolvia modos de produção não-capitalistas. Por exemplo, o capital lançou mão de expedien-tes escravagistas e de colônias em fases de acumulação primitiva  –   ou seja, capital tinha um exterior que ele ia conquistando. Por isso a subsunção era formal:  sob o nome de capitalismo , modos diferentes de produção eram abarcados. Com a subsunção real  , isso acaba: o capital não tem mais exterior (por isso se fala em globalização do capital  –   não há lado de fora), “o  processo de trabalho é refeito de acordo com as normas do próprio capital” ( MURPHY, 2012: 81). Portanto, todo trabalho, e mais, e toda a vida social estão, realmente e não apenas for-malmente , subsumidos nele. É importante insistir nessa expressão “ toda a vida social ”  porque o capital força os trabalhadores, como pretendo mostrar, a uma socialização dos processos de  produção, a uma abstração cada vez maior do próprio trabalho. Podemos quase dizer que “produz - se” é sinônimo de “vive - se” . A vida será posta a trabalhar, e quando a vida se torna objeto de poder, temos biopoder. 2   (a “sociedade de controle” é uma figura desenvolvida por Deleuze e não por Foucault. Voltarei a isso)    MARX 2014| Seminário Nacional de Teoria Marxista  –   Uberlândia, 12 a 15 de maio de 2014 4  No entanto, para Hardt e Negri a vida não será somente objeto  para o poder: ela é a própria  fonte  de poder, é potência de criação, “a substância ontológica de reprodução cultural e social”. A vida cor-responde aqui ao que Marx chama, nos Grundrisse , de trabalho vivo . De fato, lemos lá, quando Marx fala do trabalho defrontado com o capital, do trabalho não objetivado  (ou seja, que não é matéria-prima, instrumento de trabalho ou produto  –   portanto, numa primeira apreensão negativa ), que esse trabalho não objetivado é trabalho vivo , abstraído “desses momentos de sua real efetividade”, trabalho que aparece como “existência puramente subjetiva” e como “pobreza absoluta: a pobreza não como falta, mas como completa exclusão da riqueza objet i- va”. Por outro lado, numa apreensão  positiva  do trabalho não objetivado, Marx o definirá “não como objeto, mas como atividade; não como val or ele mesmo, mas como a  fonte viva do valor   (...),  possibilidade universal de riqueza ” ( MARX, 2008: 229-230). Essa potência produtiva, criativa, inventiva da própria vida é central para Hardt e Negri. É ela que é objeto e  a fonte do poder. Vejamos uma citação mais longa de  Império , central para nossa exposição:  No mundo contemporâneo, (...) as relações de produção capitalista estão se ampliando em toda  parte, não limitadas à fábrica” [  –   instituição disciplinar de produção  –  ] “mas tendendo a ocupar todo o terreno social. De outro [lado], as relações sociais cobrem completamente as relações de  produção, tornando impossível qualquer externalidade entre a produção social e a produção e-conômica. (...) As próprias qualidades do poder do trabalho (diferença, medida e determinação)  já não podem ser captadas, e, da mesma forma, a exploração não pode mais ser localizada e quantificada” [  –   ou seja, em todo lugar, o tempo todo] . “De fato, não são as atividades produt i-vas específicas que tendem a ser objeto de exploração e dominação, mas a capacidade universal de produzir, isto é, atividade social abstrata e seu poder inclusivo. Esse trabalho social abstrato é uma atividade sem lugar certo, e ainda assim é muito poderoso. É o conjunto cooperativo de cé-rebros e mãos, mentes e corpos; é simultaneamente o não fazer parte e a difusão social criativa do trabalho vivo ; é o desejo e o esforço da miríade de operários móveis e flexíveis; e ao mesmo tempo é energia intelectual e linguística e construção comunicativa de uma multidão de operá-rios intelectuais e afetivos  (HARDT e NEGRI, 2012: 229). A potência desse trabalho social é chamada por Marx, nos “Fragmentos sobre as máquinas” dos Grundrisse , de “intelecto geral”, e consiste, como entendem Hardt e Negri, numa “previsão” feita  por ele sobre o desenvolvimento do trabalho sob o capital. Trata-se, afirmam, da cooperação social do trabalho imaterial: O que Marx viu como futuro é a nossa era. Esta transformação radical do poder do trabalho e a incorporação da ciência, da comunicação e da linguagem na força produtiva redefiniram toda a fenomenologia do trabalho e todo o horizonte mundial da produção” ( HARDT e NEGRI, 2012: 386, grifo nosso). Será preciso então reconhecer, afirmam Hardt e Negri, a relação entre produção social e  biopoder na nova natureza do trabalho, que envolve: trabalho imaterial, intelectualidade de massa e intelecto geral. O trabalho imaterial se torna central na criação de valor, e é em torno dele que a acumulação capitalista gira; ao mesmo tempo, levando em conta a dimensão social e comunicativa do trabalho imaterial, temos que nos perguntar: que subjetividade se forma? A

Cientologia

Aug 9, 2017
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks