Automotive

Homem vs. Natureza - discursos na esteira do tsunami [2006]

Description
Homem vs. Natureza - discursos na esteira do tsunami [2006]
Categories
Published
of 13
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Crop  ,    11, 2006 259  *Doutorando na Área de Estudos Lingüísticos e Literários em Inglês – FFLCH- USP. Homem v Homem v Homem v Homem v Homem v ererererersus Nsus Nsus Nsus Nsus Naturaturaturaturatureza: Discureza: Discureza: Discureza: Discureza: Discursos na Essos na Essos na Essos na Essos na Est t t t t eireireireireira doa doa doa doa doT T T T T sunamisunamisunamisunamisunami Carlos Renato Lopes*  Resumo:   O fenômeno tsunami, que atingiu a Ásia no final de 2004,suscitou ondas de discursos que se propagaram tão rapidamente quantoas próprias marés. Houve lugar para uma variedade de intervenções.Este artigo se propõe a olhar de maneira crítica para alguns textos – ou recortes de discurso – que apareceram na mídia impressa e eletrônica norastro do tsunami. Partimos, para tal tarefa, de dois princípios teóricos básicos: (1) o de discurso como prática social que não equivale à “realidade” de maneira mimética, mas sim constrói representações sobre essa realidade, refletindo ao mesmo tempo que refratando os dados da experiência humana (Bakhtin 1929/1997) e (2) o de texto como unidade  fundamental de análise do discurso, isto é, local onde se inscrevem os  processos de constituição e negociação dos sentidos e de uma memória/arquivo que compõem a discursividade (Orlandi 1997). Propomos que a análise de tais textos lança um olhar sobre como se reencena, de maneiras distintas, o processo discursivo do que se pode chamar de “grande meta-narrativa moderna” sobre a relação homem-natureza, processo esse que (ainda) se encontra na base do pensamento nas sociedades ocidentais contemporâneas. Palavras-chave:   discurso; texto; natureza; tsunami.  Abstract:   The tsunami phenomenon, which swept across Asia at the end of 2004, has spawned waves of discourse that spread as quickly as the  20 Crop 11.pmd7/12/2010, 09:29259  L OPES , Carlos Renato .   Homem versus Natureza: Discursos na Esteira do Tsunami. 260  tides themselves. A wide range of interventions have taken place. This articles sets out to critically look into a number of texts – or discourse  fragments – which appeared in the press and electronic media in the aftermath of the phenomenon. For such task we assume two basic theoretical principles, namely: (1) that of discourse as a social practice which does not correspond to “reality” in a mimetic fashion, but rather constructs representations about this reality, reflecting as well as refracting the facts of human experience (Bakhtin 1929/1997) and (2) that of text as a fundamental unit of discourse analysis, that is, the locus of inscription of meaning making and negotiation processes and of a memory/archive which constitute discursivity (Orlandi 1997). We believe that the analysis of these texts throws a light on how the discursive  process of the “grand meta-narrative of modernity” on the man-nature relationship is reenacted, a process which can (still) be found at the basis of Western contemporary societies. Keywords:  discourse; text; nature; tsunami. Can I suggest that we (...) impose at least a three-month silence on any morepersonal tsunami stories, pictures of bloated corpses, or inane commentsabout the “meaning” of a tidal wave? Many people have said that “there areno words” to describe the horror. In which case, perhaps we should just shutup and let survivors get on with rebuilding their lives. – Mick Hume, The Times   of London, January 7, 2005But can we actually step outside the story into which we have been cast as characters and enter into a story with a different plot? More important, can we change the plot of the grand narrativeof modernism? – Carolyn Merchant, “Reinventing Eden”, 1996 Introdução Nos últimos dias de 2004, uma catástrofe geológica de proporções mo-numentais abateu a costa do Oceano Índico em diversos países da Ásia. Placastectônicas se deslocaram em conseqüência de um terremoto que gerou ondasgigantescas, as chamadas tsunami. Um dos maiores desastres naturais da histó-ria recente, o fenômeno, que cobrou a vida de mais de 170.000 pessoas e deixou 20 Crop 11.pmd7/12/2010, 09:29260  Crop  ,    11, 2006 261  1 Citação reproduzida em reportagem na “Folha de S. Paulo”   de 31 de dezembro de2004. 2  Adotamos aqui a perspectiva da Análise do Discurso de afiliação francesa, baseadana obra de teóricos como Michel Foucault, Michel Pêcheux e DominiqueMaingueneau. milhões de pessoas desabrigadas, incitou ondas de discursos que se propaga-ram tão rapidamente quanto as próprias ondas. Houve lugar para toda sorte deintervenção, desde a que interpretasse o fenômeno como um dilúvio mítico,passando pela idéia de castigo divino (ou obra demoníaca), até o adágio fami-liar de que a natureza responde, de maneira imprevisível e impiedosa, às açõesabusivas do homem. A esse respeito, chamaram atenção as palavras de Lula em sua primeiramanifestação sobre o desastre. Para o presidente brasileiro, a tragédia é um“alerta” para que o mundo preserve a natureza: “Esse desastre que vitimoutantas mulheres, homens e crianças é um alerta para nós, para que a gente co-mece a olhar com mais carinho a preservação ambiental e com mais carinho anatureza. Nós muitas vezes a desprezamos e, de vez em quando, ela se revolta.Quando ela se revolta, ela não pede a licença. Não diz onde vai acontecer.” 1 Ingenuidade ou reducionismo à parte, tal manifestação ecoa como um lugar-comum bastante explorado em discursos sobre a relação homem-natureza, e cujosefeitos de sentido constituem grande parte da “realidade concreta” dessa relação.Mas para entendermos as palavras de Lula e de outros tantos comenta-ristas de maneira mais crítica, é preciso desnaturalizar seus pressupostos. Épreciso abordar o discurso como uma prática social que não equivale à “reali-dade” de maneira mimética, mas sim constrói representações sobre essa reali-dade, refletindo ao mesmo tempo que refratando os dados da experiênciahumana (Bakhtin 1929/1997; Souza 2004). Entendemos discurso aqui como arelação historicamente construída, e sob condições de produção determinadas,entre sujeito, língua e ideologia. E tomamos o texto como unidade de análisedo discurso, isto é, local onde se inscrevem os processos de constituição e ne-gociação dos sentidos e de uma memória/arquivo que compõem a discursivi-dade 2 . Como aponta Eni Orlandi (2001: 78), trata-se do texto como“manifestação material concreta do discurso, sendo este tomado como lugar deobservação dos efeitos da inscrição da língua sujeita a equívoco na história”.O texto é, portanto, dentro dessa perspectiva, um instrumento de inter-pretação do funcionamento dos discursos, sendo parte de um processo do qualnão é nem ponto de partida nem ponto de chegada absoluto. Ainda segundoOrlandi (op. cit.: 89), por meio de uma análise que busca atingir o processo 20 Crop 11.pmd7/12/2010, 09:29261  L OPES , Carlos Renato .   Homem versus Natureza: Discursos na Esteira do Tsunami. 262  discursivo, “o texto, ou os textos particulares analisados desaparecem comoreferências específicas para dar lugar à compreensão de todo um processo dis-cursivo do qual eles – e outros que nem mesmo conhecemos – são parte”,constituindo então “matéria provisória da análise”.Com essa discussão em mente, o objetivo deste trabalho será olhar demaneira crítica para alguns textos, ou recortes de discurso, que apareceram namídia impressa e eletrônica no rastro do tsunami. Acreditamos que esses tex-tos, entre tantos outros, reencenam de maneiras distintas o processo discursivodo que se pode chamar de “grande meta-narrativa moderna” sobre a relaçãoentre homem e natureza – dicotomia essa desde já sujeita a uma qualificaçãoteórica – que (ainda) se situa na base do pensamento nas sociedades ocidentaiscontemporâneas. 1.  Natura Naturata  : de força divina a projeto civilizatório  A idéia de que a natureza é subordinada à ação e vontade do homempode ser detectada nas narrativas literárias e científicas ocidentais desde a anti-güidade, tendo se consolidado fortemente a partir dos ideais do século XIX. Oenredo narrativo pelo qual a natureza, feminina, é conquistada, nomeada,seduzida (mas também sedutora) e apropriada pelo homem é reintegrado emum sem número de narrativas. Nelas, o homem – branco, europeu e esclarecido – aparece como o único ser capaz de dar sentido ao mundo não-humano. Subjaza essas narrativas a idéia de que homem e natureza são entidades separadas :  umcom valor positivo, a outra com valor negativo, estabelecendo entre si umarelação necessária de conquista e jugo.Carolyn Merchant, em seu artigo “Reinventing Eden”, nos lembra comoas narrativas de conquista do Oeste e da expansão capitalista do século XIX,bem como as narrativas da formação da América, reencenam essa mesma meta-narrativa :  surgimos no paraíso, de onde decaímos, e fomos parar numa terra(feminina) má e hostil. Daí, por meio do trabalho, do esforço humano, nos foipossível contemplar um segundo paraíso, e por fim o encontro com Deus, fe-chando o ciclo. Tal enredo se constrói, de fato, a partir de uma visão linear detempo progressivo, em que a história se apresenta como um grande ciclo deconstruções narrativas dominantes. A grande narrativa da natureza é a da(re)construção do paraíso na terra, cujo objetivo final é a civilização. É ela, nofinal das contas: o telos, na direção do qual a natureza ‘selvagem’ está destinada. (...) Acivilização é assim a natureza naturada, Natura naturata  – a ordem  20 Crop 11.pmd7/12/2010, 09:29262  Crop  ,    11, 2006 263  natural, ou a natureza ordenada e domesticada. (...) A energia indomada da natureza selvagem feminina é suprimida e pacificada. O estado final  feliz da natureza naturada é feminino e civilizado – o jardim restaurado domundo.  (Merchant: 1996: 147) Trazendo essas idéias para a tragédia em questão, tomemos como ilus-tração um artigo publicado no site da BBC em 8 de janeiro de 2005 sobre otsunami. O texto, intitulado “Krakatoa: The first modern tsunami”, relata comoem 1883 um alemão, administrador de uma pedreira, foi varrido do topo de seuprédio de escritórios de três andares, situado a uma altura de 30 metros, poruma onda de no mínimo 40 metros vinda do mar. Então, bem ao seu lado, nomeio da enxurrada, teria visto um crocodilo, ao qual “com uma incrível presen-ça de espírito”, teria se agarrado na tentativa de se salvar. Firmando os dedossobre os olhos do animal para manter este estável, sempre montado em suascostas, nosso herói surfaria 3 quilômetros até pousar com segurança na selvaabaixo de si, assim sobrevivendo para contar a história. A aventura é apresenta-da como um relato hoje formalmente registrado nos arquivos como parte deum relatório oficial da primeira catástrofe da era moderna :  a erupção do vulcãoKrakatoa, na Indonésia, em agosto de 1883.O que temos aqui? As recordações de um sobrevivente da fúria da natu-reza, narradas por ele mesmo, vêm a ser incorporadas como documento histó-rico oficial de uma tragédia. Uma narrativa de heroísmo e de uma boa dose defantasia, sem dúvida, mas bem ao gosto de uma tradição em que o homem (oua energia masculina), quando não o agente civilizatório da natureza, pelo me-nos seu “domador”, sobrevivendo a ela por virtude de sua intrépida “presençade espírito”. Que tal narrativa tenha sido evocada, em paralelo a tantas outrasenvolvendo tragédias pessoais de final feliz – como a da mãe que, tendo esco-lhido salvar um de seus dois filhos do tsunami, encontraria o outro são e salvoduas horas depois – ou não tão feliz assim – caso do garoto sueco que perdeua mãe na catástrofe mas encontrou o pai dias depois –, é testemunho de que odiscurso sobre a natureza dificilmente a desvincula de uma relação miméticacom o homem. E isso tanto no século XIX como nos dias atuais.Se os valores da natureza, dentro da perspectiva apontada por Mechant,se apresentam como negativos num primeiro momento, a partir de suadomesticação passam a ser positivos. A natureza passa a ser associada aos pa-péis de educadora, zeladora e responsável pela alimentação, e por que não di-zer, fonte de prazer turístico. Mas, claro, essa relação entre homem e naturezanão poderia se dar se não de forma contraditória. Como resultado direto da “mis-são civilizatória” do homem ocidental, que reconhece seu sucesso, aparece a nos- 20 Crop 11.pmd7/12/2010, 09:29263
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks