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LEHER, Roberto - Reforma Universitaria de Cordoba Um Acontecimento Fundacional Para a Universidade Latino-Americana

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Reforma Universitria de Córdoba, noventa anos Um Acontecimento Fundacional para a Universidade Latino-americanista RobertoLeher* O movimento reformista de 1918 não foi um raio em céu azul que irrompeu no céu de Córdoba. No início do século, diversas greves estudantis convulsionaram a Universidade de Buenos Aires. A matriz civilizacional das grandes fortunas latino-americanas ilustradas –a Europa– estava desmoralizada por uma sangrenta guerra que transformava os jovens em “buchas de canhão”. A
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  O   movimento reormista de 1918 não oi umraio em céu azul que irrompeu no céu deCórdoba. No início do século, diversas grevesestudantis convulsionaram a Universidade deBuenos Aires. A matriz civilizacional das gran-des ortunas latino-americanas ilustradas –aEuropa– estava desmoralizada por uma san-grenta guerra que transormava os jovens em“buchas de canhão”. Alternativamente, o prole-tariado orjava uma outra civilização com a Re- volução de 1917. Internamente, na Argentina,uma nova onda de conrontos estava anuncia-da. De um lado, o Radicalismo 1 havia chegado * Proessor da Faculdade de Educação da UFRJ.1 Em “ 1891 la Unión Cívica Radical hace su apari-ción en la escena política argentina. Entre sus princi- pales dirigentes se encontraban además de Alem y susobrino Hipólito Yrigoyen, Marcelo T. de Alvear, Deo-doro Roca, Lisandro de la Torre, Pelagio Luna, José  Lencinas, Ángel Gallardo, Tomás A. Le Bretón, José  Luis Cantilo, Felipe Senillosa, Bernardo de Irigoyen, ao governo em 1916 e necessitava de uma uni- versidade não jesuítica para levar adiante o seu projeto de desenvolvimento e, por isso, seusapoiadores estavam dispostos a reormar par-cialmente a universidade; de outro, os setoresoligárquicos e a igreja reacionária, por sua vez,recrudesciam o controle que já detinham sobrea universidade como uma espécie de cidadela para manter a ascendência sobre a ormaçãodas classes médias e dominantes. A crescente intransigência das oligarquias eda igreja acelerou os conitos estudantis. Em1918, os conrontos se agravaram a partir demaio com reitores destituídos, intervençõesederais, golpes e contragolpes que inviabili-zam os reclamos estudantis. Os estudantes daUniversidade de Córdoba declaram uma GreveGeral estudantil, empreenderam ações diretasimpedindo a votação de novos interventores e  Aristóbulo del Valle y otros ” em <www.ucr.org.ar/nota. php?NOTAID=1465>. Reforma Universitria de Córdoba,noventa anos Um Acontecimento Fundacional paraa Universidade Latino-americanista RobertoLeher*  chegando mesmo a escolher e nomear as no- vas autoridades entre os seus representantesestudantis. Rapidamente, o movimento ganhouo apoio dos estudantes de todas as universi-dades argentinas. Nas palavras da FederaçãoEstudantil da Universidade de Buenos Aires,“estamos com vocês no espírito e no coração”. As idéias gestadas em Córdoba bradam emoutros países que também conhecem insurrei-ções, transtornando a moribunda calmaria deinstituições universitárias hierarquizadas, con-servadoras, autoritárias e pouco aeitas ao queBachelard (1968) denominou, em outro con-texto, de “espírito científco”.Foi nessa circunstância que o Maniesto se-minal oi redigido por Deodoro Roca em 21 de junho de 1918. O Maniesto é um texto vigoroso,ousado na deesa da insurreição estudantil e daluta heróica, dotado de pinceladas antiimperia-listas, contundente na crítica à imobilidade e aoautoritarismo da hierarquia ossilizada da uni- versidade, ácido na crítica ao espírito de rotina ede submissão da grande maioria dos proessoresque concebia a ousadia intelectual como um aná-tema. É um texto enático no anticlericalismo eluminoso na concepção latino-americanista. A deesa da laicidade que atravessa todo oManiesto é marcadamente política. A Igrejadetinha o controle sobre a instituição e sobreas atividades docentes. Neste contexto, emCórdoba, o curso de Direito, ocultado peloeuemismo “direito público eclesiástico” erabalizado pelo direito canônico e nos cursos deflosofa se ensinava que “a vontade divina eraa srcem dos atos dos homens” (Portantiero,apud Rieznik, 2000:149). O juramento profs-sional era realizado sobre os Santos Evangéli-cos. Os setores acadêmicos conservadores semantinham no poder por normas criadas poreles para se perpetuarem em suas cátedras vitalícias e pela criação de conrarias (“CordaFrates”) que agrupavam proessores e orças políticas locais reacionárias, como o então go- vernador da Província, ministros, preeitos.  4LaReformaUniversitaria É também um texto que contem marcasegocêntricas como os eixos de sua agenda: oregime administrativo, os métodos docentes eo conceito de autoridade que vigeram na uni- versidade. Em virtude da gênese estudantildo movimento, este ainda não pôde enrentarcom objetividade a problemática que, em 1925,o cubano Julio Antonio Mella delineou com precisão: “Nada se resolve em azer da univer-sidade um centro tecnicamente pereito, se amassa estudantil, que provém dos colégios re-ligiosos ou dos colégios laicos privados, tem já ormada uma mentalidade burguesa, e nãocientífca da universidade”. Isso não quer dizerque as  revoluções estudantis não tenham sidoavaliadas por Mella como importantes, pois,em sua apreciação, acenderam um movimentode proporções latino-americanas e sinalizaram,na prática, a possibilidade de amplas transor-mações nas universidades marcadas pelo arca-ísmo (Círia e Sanguinetti, 1968:19).Córdoba oi mais do que um episódio radica-lizado dos estudantes. Liberais, positivistas, so-cialistas, anarquistas, antiimperialistas de distin-tos matizes disputaram o caráter do movimentoreormista. Mas a despeito de sua heterogenei-dade, as lutas e os embates seguiram ao longo detodo o ano de 1918 (e a rigor, ao longo de todoo século XX é possível encontrar ecos dessaslutas), produzindo avanços organizativos comoa constituição das Federações Universitárias deCórdoba (FUC) e da Argentina (FUA). Tampou-co oi um movimento protagonizado por peque-nos grupos. Dois meses após o lançamento doManiesto, os estudantes reuniram 20 mil pesso-as em um ato, incluindo a Federação Operária.Embora ainda incipientes enquanto orça política organizada, protagonistas socialistase antiimperialistas líderes desse movimentotrouxeram para a luta da juventude latino-ame-ricana a Revolução Russa de 1917. E, no pro-cesso de enrentamento, afrmaram uma agen-da antiimperialista que, ao recolocar a questãonacional e os sujeitos históricos da luta de clas-ses em países capitalistas dependentes, provo-caram reexões srcinais, confgurando ummarxismo latino-americano com Ingenieros,Ponce, Mella e Mariátegui.Essa combinação de perspectivas propicioureexões penetrantes sobre a educação popular,o caráter da universidade, incluindo problemasaté então considerados incompatíveis com aeducação superior: a presença dos proletáriosnas instituições; o governo compartilhado e aautonomia da universidade, e as perspectivaslatino-americana e antiimperialista. Por isso, atéos dias de hoje, os conservadores reagem indig-nados à particularidade das universidades latino-  RobertoLeher55 americanas, consideradas desviantes do modeloeuropeu e, mais recentemente, das instituiçõesestadunidenses. Diante das resistências ao pro- jeto de conversão das universidades brasileirasao modelo dos community colleges estaduni-denses mitigado com o Acordo de Bolonha, umadas maiores conquistas da oensiva neoliberalna Europa, um publicista do projeto Universida-de Nova alertou para o risco de isolamento dauniversidade brasileira diante do modelo de uni- versidade mundializada pelos senhores do mun-do (Monteiro, 2007). Não é casual que a oensivaneoliberal dos anos 1990 objetivou destruir to-dos os undamentos dos reormistas: a gratuida-de, o governo democrático e o pluralismo polí-tico, a autonomia, a liberdade de pensamento ede expressão, garantidas por cátedras paralelase pelo ingresso por meio de concurso público, oco-governo, o acesso universal, a natureza públi-ca dos processos institucionais.O movimento que havia sido iniciado comuma agenda com inequívocas reerências libe-rais acabou propiciando um ambiente intelectu-al no qual se afrma um pensamento crítico ori-ginal que torna a problemática da universidadelatino-americana distinta das demais regiões. As idéias reormistas ao serem apropriadas porestudantes socialistas assumem cada vez maisum caráter antiimperialista, revolucionando asconcepções até então vigentes de um marxis-mo que era assimilado como algo pronto paraexplicar a realidade latino-americana. Entre osmais destacados pensadores desta perspectivaé imprescindível mencionar, além do já men-cionado Deodoro Roca: Gabriel del Mazo, umdos principais ideólogos e historiadores domovimento; Manuel Ugarte, um dos líderes daFUA, e Julio V. González que, embora presiden-te da Federação Estudantil de La Plata, viveuintensamente as lutas de Córdoba, notadamen-te como secretário do I Congresso Nacional deEstudantes que estabeleceu as bases doutri- nais da Reorma acentuando o antiimperialis-mo. Imbuído de um ideal geracional provenien-te de Ortega y Gasset (que visitara a Argentinaem 1913), González chegou a criar um partidoreormista de natureza estudantil, iniciativa que posteriormente reconheceu como equivocada.Também se engajaram nessa luta destacadosintelectuais antiimperialistas, entre os quais sedistinguem José Ingenieros (1877-1925) e seudiscípulo Aníbal Norberto Ponce (1898-1938),editores da  Revista de Filosofa que Mariáteguireconhecera como uma das publicações quemelhor deendeu a Revolução Russa.Ingenieros oi considerado o  mestre que im- pulsionava o movimento reormista. Embora ec-lético – conjugava positivismo, marxismo e evo-
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