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MÉSZAROS, István - A educação para além do capital

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A educação para além do capital1 por István Mészáros2 A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender . Paracelso Se viene a la tierra como cera, –y el azar nos vacía en moldes prehechos– Las convenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales: –es necesario que sean esenciales . La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiri
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  http://www.revista-theomai.unq.edu.ar/numero15/ArtMeszaros.pdf 107  A educação para além do capital 1  por István Mészáros 2 A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender . Paracelso Se viene a la tierra como cera, –y el azar nos vacía en moldes prehechos– Lasconvenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones hanvenido siendo formales: –es necesario que sean esenciales . La liberdad política noestará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiritual. … La escuela y elhogar son las dos formidables cárceles del hombre .  José Martí  A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esqueceque elas são alteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado.Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais [oseducadores] é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias eda actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida e racionalmenteentendida apenas como prática revolucionária . Marx   1 Intervención en la apertura del Fórum Mundial de Educação, Porto Alegre, Brasil, 28 de julio de 2004. Esta versión se encuentra disponible en el sitio http://resistir.info/ Tradução de T. Brito. Se publica con el permisodel autor. 2 Filósofo húngaro, profesor emérito de la Universidad de Sussex, en Inglaterra, es uno de los principalespensadores marxistas de la actualidad. Discípulo y colaborador del filósofo Georg Lukács, con quien trabajó enla Universidad de Budapest de 1954 hasta la represión sovietica en 1956. Profundo conocedor de la larga tradición de los estudios marxistas, es autor de obras clásicas como La teoria de la alienación en Marx y El poderde la ideología. Su obra de mayor envergadura y densidad es Más allá del capital (Caracas: Vadell Hermanoseditores, 2001).    http://www.revista-theomai.unq.edu.ar/numero15/ArtMeszaros.pdf 108 E scolhi estas três epígrafes a fim de antecipar alguns dos pontos principais deste discurso. Aprimeira, do grande pensador do século XVI , Paracelso; a segunda, de José Martí e a terceira deMarx. A primeira diz, em contraste agudo com a concepção actual tradicional e tendencialmenteestreita da educação, que A aprendizagem é a nossa vida, da juventude à velhice, de facto quaseaté à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender 3 Relativamente a José Martí, eleescreve, podemos estar certos, com o mesmo espírito de Paracelso quando insiste que La educación empieza com la vida, y non acaba sino con la muerte . Mas ele acrescenta algumasqualificações cruciais, criticando rigorosamente os remédios tentados na nossa sociedade etambém conclamando à tarefa maciça pela frente. É assim que ele perspectiva o nosso problema:Se viene a la tierra como cera, -y el azar nos vacía en moldes prehechos. Las convenciones creadasdeforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales; - es necesarioque sean esenciales. La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertadespiritual. …La escuela y el hogar son las dos formidables cárceles del hombre. 4 E a terceira epígrafe, escolhida de entre as Teses s o bre Feuerb ac h de Marx, põe em evidência a linha divisória que separa os socialistas utópicos, como Robert Owen, daqueles que no nosso tempo têmque ultrapassar os graves antagonismos estruturais da nossa sociedade. Porque estesantagonismos bloqueiam o caminho para a mudança absolutamente necessária sem a qual nãopode haver esperança para a própria sobrevivência da humanidade, muito menos para a improvisação das suas condições de existência. E stas são as palavras de Marx:A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esquece que elas sãoalteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado. Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias e da actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida eracionalmente entendida apenas como prática revolucionária. 5 A ideia que pretendo sublinhar é a de que não apenas na última citação mas à sua maneira emtodas as três, durante um intervalo temporal de quase cinco séculos, se sublinha a imperatividadede se instituir – tornando-a ao mesmo tempo irreversível – a mudança estrutural radical. Uma mudança que nos leve  p a r  a   a lém d o   ca  pit a l no sentido genuíno e educativamente viável do termo. A lógica incorrigível do capital e o seu impacto sobre a educação Poucos negariam hoje que a educação e os processos de reprodução mais amplos estãointimamente ligados. Consequentemente, uma reformulação significativa da educação é inconcebível sem a correspondente transformação do quadro social no qual as práticaseducacionais da sociedade devem realizar as suas vitais e historicamente importantes funções demudança. Mas para além do acordo sobre este simples facto os caminhos dividem-se severamente.Pois, caso um determinado modo de reprodução da sociedade seja ele próprio tido comogarantido, como o necessário quadro de intercâmbio social, nesse caso apenas são admitidosalguns ajustamentos menores em todos os domínios em nome da reforma, incluindo o da educação. As mudanças sob tais limitações conjecturais e apriorísticas são admissíveis apenas como único e legitimo objectivo de co rrigir  algum detalhe defeituoso da ordem estabelecida, de forma a manter-se as determinações estruturais fundamentais da sociedade como um todo intactas, emconformidade com as exigências inalteráveis de um sistema reprodutivo na sua totalidade lógico.É-se autorizado a ajustar as formas através das quais uma multiplicidade de interesses particulares   3 Paracelso, Sele c ted Writings , Routledge & Kegan Paul, Londres, 1951, p. 181. 4 José Martí, Libros , en Obr  a s C  o mplet a s , vol. 18, E ditorial de Ciencias Sociales, La Habana, 1991, pp. 290-91. 5 Marx, Theses on Feuerbach, en Marx/ E ngels C  o lle c ted W  o rks , vol. 5, p. 7;    http://www.revista-theomai. u nq.ed u .ar/n u mero15/ArtMeszaros.pdf 109 conflitantes se devem conformar  com a  r  e  gra g e ral pré-estabelecida da reprod u ção societária, masn u nca se pode alterar a   própria r  e  gra g e ral . E sta lógica excl u i, com finalidade categórica, a possibilidade de legitimar o conc u rso entre as  forçash e  g e mónicas fundam e ntais rivais de u ma dada ordem social como alternativas viáveis u mas daso u tras, q u er no campo da prod u ção material q u er no domínio c u lt u ral/ed u cacional. Portanto,seria bastante abs u rdo esperar u ma form u lação de u m ideal ed u cacional, do ponto de vista da ordem fe u dal em vigor, q u e contemplasse a dominação dos servos, como classe, sobre os senhoresda classe dominante bem estabelecida. Nat u ralmente, o mesmo vale para a  alt e rnativa h e  g e mónica f u ndamental entre capital e trabalho. Não s u rpreendentemente, portanto, até as mais nobres u topias ed u cacionais, form u ladas no passado a partir do ponto de vista do capital, tiveram q u epermanecer estritamente dentro dos limites da perpet u ação do domínio do capital como u m modode reprod u ção social metabólica. Os interesses objectivos de classe tinham de prevalecer mesmoq u ando os a  u tores s u bjectivamente bem intencionados destas u topias e disc u rsos críticosobservavam claramente e ridic u larizavam as manifestações des u manas dos interesses materiaisdominantes. A s u as posições críticas poderiam apenas chegar até ao ponto de u tilizar as r  e  formas e ducativas q u e prop u sessem para remediar os piores e  f  e itos da ordem reprod u tiva capitalista estabelecida sem, cont u do, eliminar os se u s  fundam e ntos causais antagónicos prof u ndamenteenraizados.A razão porq u e todos os esforços passados destinados a instit u ir grandes reformas na sociedadepor meio de reformas ed u cacionais esclarecidas, reconciliadas com o ponto de vista do capital,tiveram de soçobrar –e q u e ainda hoje permanece– é o facto de as determinações f u ndamentais dosistema capitalista serem irr  e  formáv e is . Como sabemos através da triste história da estratégia reformista, já com mais de 100 anos, desde E dward Bernstein 6 e se u s associados –q u e o u trora prometeram a transformação grad u al da ordem capitalista n u ma ordem q u alitativamentediferente, socialista– o capital é irreformável porq u e pela s u a própria nat u reza, como totalidadereg u ladora sistemática, é totalmente incorrigív e l . O u tem êxito em impor aos membros da sociedade, incl u indo as personificações carinhosas do capital, os imperativos estr u t u rais do se u sistema como u m todo, o u perde a s u a viabilidade como o reg u lador historicamente dominante domodo de reprod u ção social metabólico bem estabelecido e u niversal. Conseq u entemente, q u antoaos se u s parâmetros estr u t u rais f u ndamentais o capital deve permanecer sempre incont e stáv e l ,mesmo q u e todos os tipos de correctivos marginais sejam não só compatíveis mas tambémbenéficos, e realmente necessários, para ele importando a sobrevivência contin u ada do sistema.Limitar u ma m u dança ed u cacional radical às margens correctivas a  u to-servidoras do capitalsignifica abandonar de u ma só vez, conscientemente o u não, o objectivo de u ma transformaçãosocial q u alitativa. Do mesmo modo, proc u rar margens de r  e  forma sist e mática no próprioenq u adramento do sistema capitalista é  u ma  contradição e m t e rmos . É por isso q u e é necessário romp e r com a lógica do capital se q u isermos contemplar a criação de u ma alternativa ed u cacionalsignificativamente diferente.Devido à limitação de tempo posso aq u i referir-me apenas a d u as grandes fig u ras da b u rg u esia il u minista, a fim de il u strar os limites objectivos in u ltrapassáveis mesmo q u ando casados com a melhor das intenções s u bjectivas. A primeira é  u m dos maiores economistas políticos de todos ostempos, Adam Smith, e a seg u nda o extraordinário reformador social e ed u cacional u tópico –q u etambém tento u pôr em prática aq u ilo q u e pregava, até cair em bancarrota económica– RobertOwen.Adam Smith, apesar do se u prof u ndo compromisso com a forma de organização da economia e da reprod u ção social capitalista, condeno u de forma clara o impacto negativo do sistema sobre a    6 Para  u ma disc u ssão detalhada sobre a estratégia reformista de Bernstein ver o Capít u lo intit u lado O aliadocego e representativo de Bernstein no me u livro: Th e Pow e r of Id e ology , Harvester/Whetsheaf, Londres, 1989; noBrasil: O Pod e r da Id e ologia , E dição ampliada, Boitempo E ditorial, São Pa  u lo, 2004;    http://www.revista-theomai.unq.edu.ar/numero15/ArtMeszaros.pdf 110 classe trabalhadora. Falando acerca do E spírito Comercial , como a causa do problema, ele insistia em que este limita as visões do homem. Onde a divisão do trabalho é levada até à perfeição, todo ohomem tem apenas uma operação simples para realizar; a isto se limita toda a sua atenção, epoucas ideias passam pela sua cabeça senão aquelas que com ela têm ligaçã   o imediata . Quando a mente é empregue numa variedade de objectos, ela é de certa forma ampliada e aumentada, edevido a isto geralmente reconhece-se que um artista do campo tem um alcance de pensamentosbastante superior a um citadino. O primeiro é talvez um artesão, um carpinteiro e um marceneiro,tudo em um, e a sua atenção deve ser empregue em vários objectos de diferentes tipos. O último é talvez apenas um marceneiro; esse tipo específico de trabalho emprega todos os seus pensamentos,e como ele não teve a oportunidade de comparar vários objectos, as suas visões das coisas para além do seu trabalho de forma alguma são tão extensas como as do primeiro. E ste deve ser ainda mais o caso quando a atençã   o de uma pess o a é empregue na décima sétima parte de um alfinete o u a o ct o  gésima parte de um b o tã   o , de tão divididas que estão estas manufacturas. … E stas são asdesvantagens de um espírito comercial. As mentes dos homens são contraídas e tornadasincapazes de elevação.  A educaçã   o é desprezada, o u n o mínim o negligenciada , e o espírito heróicopraticamente extinto na totalidade. Remediar estes defeitos seria um assunto digno de séria atenção. 7 Contudo, a séria atenção advogada por Adam Smith chega a ser muito pouco, senão mesmonada. Porque este astuto observador das condições da Inglaterra sob o avanço triunfante do E spírito Comercial , não encontra outro remédio senão uma denúncia moralizante dos efeit o s degradantes das forças secretas, culpando os próprios trabalhadores em vez do sistema que lhesimpõe essa situação infeliz. Com este espírito Smith escreve queQuando o rapaz passa a adulto ele nã   o tem ideias c  o m as quais se p o ssa divertir  . Portanto quando eleestá afastado do seu trabalho, ele tem que entregar-se à embriaguez e ao tumulto.Consequentemente concluímos que, nos locais de comércio da Inglaterra, os comerciantes estão, na maior parte do tempo, neste estado desprezível; o seu trabalho durante metade da semana é suficiente para os manter, e devido à falta de educaçã   o eles nã   o se divertem c  o m o utras c  o isas senã   o c  o m o tumult o e a b o émia . 8 Assim a exploração capitalista do tempo de lazer levada hoje à perfeição, sob o domínio de um E spírito Comercial mais actualizado, parecia ser a solução, sem alterar nem um pouco o núcleoalienante do sistema. A consideração de que Adam Smith gostaria de ter instituído algo queconduzisse a uma maior elevação do que a exploração cruel e insensível do tempo de lazer dos jovens não altera o facto de que até o discurso desta grande figura do Iluminismo E scocês é bastante incapaz de se dirigir às causas mas tem que permanecer armadilhado no círculo viciosodos efeit o s condenados. Os limites objectivos da lógica capitalista prevalecem mesmo quandofalamos acerca de grandes figuras que conceptualizam o mundo a partir do pontos de vista capitalista, e mesmo quando eles tentam expressar subjectivamente, com um espírito iluminado,uma preocupação humanitária genuína.O nosso segundo exemplo, Robert Owen, meio século após Adam Smith, não restringe as suaspalavras quando denuncia a busca do lucro e o poder do dinheiro, insistindo que o empregadorvê o empregado como um mer  o instrument o de ganh o . 9 Contudo, na sua experiência educacionalprática ele espera a cura a partir do impacto da razão e do esclarecimento , pregando não aos convertidos mas aos não convertíveis que não conseguem pensar no trabalho em qualqueroutro termo que não seja mero instrumento de ganho . É assim que Owen fundamenta a sua tese:   7 Adam Smith, “Lectures on Justice, Police, Revenue, and Arms” (1763). In  A. Smith's M  o ral and P o liticalPhil o s o  phy , ed. por Herbert W. Schneider, Haffner Publishing Co., Nova Iorque, pp. 318-21; 8 Ibid., pp. 319-20. 9 Robert Owen  , A New View o  f S o ciety and Other Writings , E dição E veryman, p. 124.

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Aug 17, 2017
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