Documents

Método e verdade nas Regras para a direção do espírito de Descartes

Description
Método e verdade nas Regras para a direção do espírito de Descartes Roberto S. Kahlmeyer-Mertens [1] Resumo: O propósito do artigo é apresentar um estudo sobre as Regras para direção do espírito de René Descartes.[2] Esse exercício limita-se a interpretar as nove primeiras regras da obra, opção que se justifica por estas já explicarem o que está em questão em sua primeira parte; permitindo uma tematização adequada à extensão do nosso pequeno trabalho. Procuraremos esclarecer alguns conceitos ele
Categories
Published
of 8
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Método e verdade nas Regras para a direção do espírito de DescartesRoberto S. Kahlmeyer-Mertens[1]Resumo: O propósito do artigo é apresentar um estudo sobre as Regras para direção doespírito de René Descartes.[2]Esse exercício limita-se a interpretar as nove primeirasregras da obra, opção que se justifica por estas já explicarem o que está em questão emsua primeira parte; permitindo uma tematização adequada à extensão do nosso pequenotrabalho. Procuraremos esclarecer alguns conceitos elementares do texto cartesiano,buscando apresentá-los de maneira suficiente, dando ênfase, sobretudo, à implicaçãoexistente entre método e verdade, à luz dos conceitos de matemática universal (e aordenação que esta torna possível) e ciência moderna. Palavras-chave: Filosofia Moderna, Descartes, Regras para a direção do espírito,Método.Para Descartes, a noção de verdade está ligada ao método. É isso que se presencia, por exemplo, no texto em questão, escrito inacabado de juventude do autor, publicadopostumamente. Embora incompleto, constitui fonte importante para compreender asidéias de método, conhecimento e verdade, pois expõe com clareza os principais pontosdo pensamento cartesiano e seu programa para a ciência, caracterizando-se como umaobra metodológica, e não de metafísica (BEYSSADE, 2001). Nesta obra, fica tambémevidente a vocação prática da filosofia cartesiana, posto que a busca pela verdadeafigura-se como tentativa de asseguramento de um conhecimento que pode ser voltado àboa condução da vida. Esta tese se comprova com o próprio Descartes (1999), quandodeixa claro que não há coisa mais útil em tal tratado, pois ensina que todas as coisaspodem ser postas em séries distintas quanto ao que umas se podem conhecer a partir deoutras, de tal modo que, quantas vezes ocorrer uma dificuldade, possa-se logo perceber se será útil examinar primeiro algumas outras, quais e em que ordem.O traço dessa vocação é o que encontramos no conteúdo dessas regras, quando propõemum estudo cuja finalidade é a orientação do espírito, para que possamos formular juízosfirmes e verdadeiros sobre as coisas que se nos apresentam. Para tanto, segundoDescartes (1999), seria preciso lidar exclusivamente com os objetos cujo conhecimentoé certo e indubitável. Desse modo, é tarefa investigar o que podemos apreender atravésde uma intuição clara e evidente, ou que possamos deduzir com certeza, pois, de outromodo, não se adquire um saber seguro. Portanto, o método é necessário à procura daverdade.O que Descartes chama de método consiste, em última análise, na ordem e disposiçãodas coisas, para as quais é necessário dirigir toda agudeza do espírito para descobrir averdade. O que obteríamos se, do espírito, reduzimos gradualmente os problemascomplicados e obscuros a outros mais simples, tentando, a partir desses últimos, elevar o grau de conhecimento de todas as outras coisas. Daí, para distinguir as coisas simplesdas mais complexas e prosseguir ordenadamente na investigação, seria preciso quededuzíssemos diretamente algumas verdades de outras. É preciso, pois, examiná-lascomo um movimento contínuo e jamais ininterrupto de pensamento, tendo em vistacomo estas coisas se relacionam com o nosso propósito, para uma reunião em umaenumeração suficiente e ordenada. Entretanto, se entre as coisas tratadas, há alguma que  nosso intelecto não possa intuir suficientemente bem, haveríamos de nos deter maisnestas, dirigindo toda a força do espírito às coisas menores e deter-se nelas temposuficiente até que possamos vê-las por uma intuição de maneira clara e distinta.O que presenciamos na enunciação acima, sobre o conteúdo das regras (em vista dométodo), consiste unicamente na ordenação dos títulos das nove primeiras que serãotratadas aqui (por isso, o caráter sintético que esta introdução assume) em títulos, que,como podemos ver, uma vez ordenados, compõem um sumário das idéias, que serãoexplicadas, uma a uma, em cada regra, sumário esse que expressa, de maneira clara, umroteiro e nesse a ordem das idéias a serem tratadas na obra, o que torna evidente, desdejá, a importância que Descartes dá à ordenação para obtenção de um conhecimento.Portanto, o que se segue é a apresentação das citadas primeiras regras e os comentáriospertinentes às mesmas, ilustrados por passagens do texto do autor.Em sua Regulae I,[3]Descartes aponta a orientação a ser tomada pelo espírito para queesse possa formular juízos firmes e verdadeiros sobre as coisas que se apresentam. Estajá marca a diferença frente à ciência medieval, cujo procedimento ainda recorria a umsaber dogmático, pautado nas escrituras tradicionais da Igreja, como fontes derevelação, em conhecimentos assumidos por Descartes como dignos de serem postosem dúvida, por desconsiderarem o conhecimento natural de fontes, ditas, mundanas e,principalmente, por não prezar por um estatuto racional de cognoscibilidade efundamentação. Portanto, é possível afirmar, desde já, que Descartes está preocupadoem dar ao conhecimento uma base na qual, enquanto sabedoria humana (humanasapientia), pudesse ser aplicado em diversas circunstâncias de maneira irrestrita. Assim,esse conhecimento possuiria uma fundamentação que permitiria sempre inferênciasirrefutáveis, oferecendo uma certeza autêntica, quesitos sem os quais não se atinge apremissa de que “ciência (scientia universalis) é um conhecimento certo e evidente”(DESCARTES, 1999).Resta ainda definir o modelo a ser tomado como fundamento. Movido por esse intuito,Descartes afirma que “a aritmética e a geometria eram as únicas isentas de qualquer defeito de falsidade ou de incerteza” (DESCARTES, 1999), o que já marca a convicçãode que, para esse autor, as ditas matemáticas podem, com efeito, servir de modelo àsoutras ciências, dado a comprovarem, fundamentalmente, a eficácia do espírito humano.Todavia, é preciso deixar bem claro que não se trata de “importar” procedimentos ouoperações das matemáticas, fazendo que todo e qualquer saber fique restrito ao cálculoou à comprovação desta por intermédio das matemáticas correntes. Essa interpretação édescartada pelo próprio autor quando define o papel do matemático:(…) qualquer um, contudo, que considerar minha idéia com atenção, perceberáfacilmente que não penso aqui em nada menos do que nas matemáticas comuns(mathematica vulgaris), e que exponho uma outra disciplina da qual elas são antes asvestes do que partes. Essa disciplina deve, de fato, conter os primeiros rudimentos darazão humana e estender sua ação até fazer jorrar as verdades de qualquer assunto queseja (DESCARTES, 1999, p. 23).Na passagem, encontramos referências implícitas de que a disciplina proposta por Descartes (que busca o conhecimento em uma matemática) não é a tentativa detransformar esse conhecimento em aritmética ou em geometria. Em verdade, mesmoestas ciências só são importantes ao conhecimento se apreendidas indissociavelmente de  seu fundamento matemático, posto que é esse fundamento que possibilita as suascertezas, partindo de um solo seguro desde o qual é possível acessar a verdade do que seapresenta. A definição cartesiana do fundamento matemático é o que presenciamos nodocumento que se segue:Ora, vemo-lo, não há quase ninguém, desde que mal tenha somente tocado o umbral dasescolas, que não distinga facilmente, dentre o que se lhe apresenta, o que pertence àMatemática e o que pertence às outras disciplinas (…) Daí resulta que deve haver umaciência geral que explique tudo quanto se pode procurar referente à ordem e à medida,sem as aplicar a uma matéria especial: essa ciência se designa, não pelo nomeemprestado, mas pelo nome, já antigo e consagrado pelo uso, Matemática universal,porque ela encerra tudo o que fez dar a outras ciências a denominação de partes dasMatemáticas. Quanto a Matemática universal suplanta em utilidade e em facilidadeessas outras ciências que lhe são subordinadas,(…) É por isso que cultivei até agora essaMatemática universal, na medida de minhas possibilidades, de sorte que creio poder depois tratar de ciências mais elevadas, sem a elas me aplicar prematuramente(DESCARTES, 1999, pp. 27-28).Com a citação, fica claro: 1) o real interesse de Descartes no modelo matemático, asaber, seu rigor disciplinar e a capacidade de propiciar a ordem e a medida, quesitosesses de importância determinante do método que Descartes constrói (DESCARTES,1973); 2) o conceito de matemática universal (mathesis universalis), como fundamentoordenador de um método para atingir um saber seguro (portanto, todas as tesesexpressas nas Regulae de Descartes); 3) a indicação clara, comprovando o item acima,de que o método proposto por Descartes é cultivado junto à compreensão de matemáticauniversal. A partir desta enumeração, algumas indagações podem ser propostas, à guisade tornar clara a postura de Descartes no panorama do pensamento ocidental: qual seriao ganho qualitativo impresso pela assunção de um fundamento matemático, ordenador do conhecimento? Qual o diferencial que o fundamento matemático da filosofiacartesiana traz à modernidade?Em respostas às perguntas, podemos apontar, de imediato, o advento de uma novamodalidade do saber, aquela que liberta o conhecimento da concepção escolástica derevelação como primeira fonte de verdade, configurando novos moldes do saber enquanto tal. À primeira vista, como conseqüência do pensamento cartesiano, issosignifica o abandono de uma tradição instituída. Entretanto, ao propor o modelomatemático, o autor funda um solo no qual o saber passa a mover-se de maneiraautônoma, estando sujeito apenas aos próprios fundamentos exigidos por esse mesmosaber. Isso é a evidência de que com o modelo matemático, o conhecimento coloca suaprópria essência como fundamento de si mesmo; isto já representa uma contribuiçãosignificativa ao conhecimento, a ponto de gerar grande diferenciação entre opensamento medieval e a modernidade, que se inaugura com esse passo em direção àautonomia do conhecimento.Diversos autores concordam com esta tese, entre eles Foucault (1999), quando vê nesseepisódio a marca de uma nova concepção de saber, distanciado do que ele compreendepor época clássica (período no qual o conhecimento deixa de ser busca por semelhançaspara se tornar uma relação de ordem entre idéias).[4]   A última pergunta enumerada, durante sua resposta, cria condições para a reconstruçãoteórica dos argumentos cartesianos contidos nas regras; oportunizando o seguintecomentário de M. Gueròult, no qual o autor examina o papel do matemático no métodocartesiano, confirmando sua distinção frente à metafísica:O método nos é revelado pelas Regulae (as quais se referem implicitamente ao Discursodo Método). O caráter particular das Regulae é que a obra da ciência não é atrelada anenhum outro princípio que a faculdade humana de saber. Sem dúvida, as teses dametafísica têm deixado entrever, por exemplo: a redução do mundo material à extensãoe ao movimento; a distinção real da extensão e do pensado; a teoria da imaginação,faculdade corporal; a ligação da dúvida e do critério de evidência; a relação entre ocogito e a posição de Deus: Sum, ergo Deus est etc. Todavia, essas concepções nãoaparecem como exemplos nem como pontos de apoio. O método se apresenta tendouma validade independente da metafísica; é como se fundasse imediatamente sobre acerteza imanente da razão humana em sua manifestação autêntica e srcinal, a saber, asmatemáticas.(…) A ciência repousaria, para Descartes, sobre a faculdade humana doconhecer, e a intrusão ulterior de questões metafísicas teriam transformado edesnaturado a posição primeira do verdadeiro problema. Nas Regulae, Descartes seremete apenas à inteligência. Nas Meditações aparece uma outra que Descartes apropriade questões antigas. Esta concepção interpreta inexatamente as tendências do filósofo.Na realidade, as Regulae se situam no ponto onde se trata de construir o método, mas osproblemas que serão assumidos por esse ainda não são aparentes. Surgirão do que essemétodo teria absolutamente generalizado; quer dizer, posto em obra de maneira rigorosao princípio de não aceitar por verdadeiro a que não seja absolutamente evidente.Descartes porá a questão de validade da evidência matamática em si, considerada antesde tudo, para ele, suficiente por si mesma, sem outra justificação(…) (GUERÒULT,1968, pp. 30-31).O primeiro ponto a ser considerado na passagem citada é a indicação de que as Regulaesão suporte para o método cartesiano, estando comprometidas com um projeto deciência, o que, para nosso autor, significa “conhecimento” (sentido previsto pela palavralatina “scientia”). Não por acaso tal método funda-se na faculdade do conhecimento,não se ocupando com questões complexas como as suscitadas pela metafísica. Notemque Gueròult é enfático ao marcar a independência do método frente à metafísica. Emsegundo lugar, a citação aponta que o conhecimento certo e evidente permite ao homemfunda-se em uma faculdade que é capaz de expressar puramente os princípios maisseguros do saber: a matemática. Diz-se puramente pois, através das matemáticas oconhecimento (ou ciência) não sofreria interferência de qualquer outra instância quepudesse comprometer o que se deduz racionalmente desses princípios simples,considerados claros e distintos pelo autor (DESCARTES, 2004). Assim, a idéia deconhecimento e de método no sistema cartesiano aparecem atreladas aos alicerces dadospelas Regulae, cujo “formato” respeita a essência das matemáticas entre as quais épremissa válida não tomar o ambíguo por certo. Ainda para Gueròult (1968), naessência do matemático como modelo peculiar, reside um intuito de configuração denovos moldes do saber. Entretanto, isto significa apenas que o matemático, de acordocom sua exigência mais íntima, fundamenta-se a si mesmo; quer apresentar-se a simesmo como padrão de todo conhecimento e estabelecer regras daí resultantes. Asregras são, pois, proposições fundamentais e diretrizes nas quais o matemático se sujeitaà essência do conhecimento, para que, ele próprio, se torne condutor do espírito queinvestiga.

apostila

Aug 12, 2017

Velas Ignição

Aug 12, 2017
Search
Similar documents
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x