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O ENSINO DE TEATRO NA PERSPECTIVA DA REPESENTAÇÃO CÊNICA

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O presente artigo procura refletir sobre o problema da relação abismal que existe entre o ensino de teatro na escola regular e as experimentações cênicas veiculadas por artistas. A escola é uma ilha que tem se fechado para o mar.
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  O ENSINO DE TEATRO NA PERSPECTIVA DA REPRESENTAÇÃO CÊNICA Franco Luciano Pereira Pimentel 1   A relação entre Teatro e Teatro educação constitui, na contemporaneidade, umfarto campo de analises acerca da imprescindível interação entre escola e sociedade propiciando-nos profundas reflexões no que diz respeito às concepções pedagógicas deensino-aprendizagem. De um lado, as estruturas curriculares excessivamente calcadosna tradição dramática sustentam ainda um discurso excessivamente modernista, voltado para o caráter, espontâneo e de transmissão de conceitos e vivênciasdescontextualizadas do mundo cultural quase sempre ocultado pelo muro que cerca oambiente escolar. De outro, a cena contemporânea local, nacional e internacional e seusartefatos cênicos apontam para elaborações cada vez mais ousadas que desafiam o próprio conceito de Teatro. Tais produções buscam um diálogo multicultural e polissêmico, explorando as mais diversas possibilidades cênicas, enquanto que naescola o currículo ainda prima por conceitos fixados em formas teatrais que nãoatendem mais aos anseios e idéias dos artistas. Que implicações ocorrem a partir dessadiscrepância entre o que é visto, aprendido e produzido culturalmente? Que rumotomar? Quais as referências de ensino? O que os estudantes precisam compreender?O presente artigo busca refletir o problema tratado acima com o intuito decolaborar, propondo saídas e espaço para novas interlocuções. A idéia de representação Quando me refiro ao conceito de representação, não o faço com base narepresentação mimética de cunho aristotélico. Levo em conta a compreensão cognitivaao modo de Thomas Hobbes (1884), e as posições sociológicas de Stuat Hall (1997) eErving Goffman (2007). Procurarei primeiramente, trazer uma síntese do 1   Franco Luciano Pereira Pimentel é Licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Goiás(2005). É professor de Teatro no Centro de Estudo e Pesquisa “Ciranda da Arte” - Secretaria deEducação do Estado de Goiás. Desenvolve experiências na área de Arte Educação, integrando a equipeda Reforma Curricular em Arte/Teatro, da Educação Básica da Secretaria de Estado da Educação e naFormação Continuada para Professores que ministram Teatro, com Fundamentos da Arte/Teatro naEducação; Organização e Construção Curricular; Arte, Cultura, Ensino e História do Ensino de Teatro.Atua no campo das Artes Cênicas – Teatro, desde 1987 com maior ênfase no ensino, Direção teatral etrabalho de ator. Atua nos campos de pesquisa da representação teatral com foco nas ações físicas,Teatro físico, Teatro-dança, cinema e vídeo.   posicionamento desses autores e, posteriormente, passarei a uma reflexão sobre o cênicoe os aspectos da representação cênica como eixo pedagógico.Para Hobbes (1884 in Leivas, 2007), concepções e pensamentos são representações de modo a tornarem-se base para a compreensão dos fenômenosexteriores a nós. imagens mentais e representações das qualidades das coisas fora denós são o que chamamos cognição, imaginação, idéias, informação,concepção, ou conhecimento delas. E a faculdade ou poder, pelo qualsomos capazes desse conhecimento, é o que aqui denomino por poder cognitivo ou conceptual (HOBBES, 1983: 48 in LEIVAS, 2007: 48). Em termos gerais isso nos leva a entender que sempre que percebemos, numdado instante “presente” (inédito), um objeto totalmente aleatório a nós, podemos ter assensações de estranhamento, conhecimento, ou reconhecimento do mesmo. Caso hajaestranhamento, estabelecemos sobre ele um conceito, e mudamos a qualidade de suanatureza de “desconhecido” para “conhecido” caracterizando-o como uma matriz. Com base nisso, sempre que nos depararmos com objetos semelhantes nossa mente re - presenta (traz ao presente as sensações pretéritas) o objeto matriz e compara um com ooutro. Fato que nos permite re -conhecê-lo como srcinal ou apenas como variações domesmo.Essa capacidade de mobilizar uma sensação pretérita “presente anteriormente”,tornando-a “presentacional”, com o intuito de estabelecer comparação, permite-noscompreender o que para Hobbes consiste em representação cognitiva. Com base nisso, éque conhecemos ou reconhecemos os fenômenos exteriores a nós. Esses fenômenos seapresentam em nós e para nós , srcinando fenômenos distintos, que aparecem na formade  fantasmas ou representações . Isto é, como uma aparição das coisas exteriores.Assim, o que é próprio da representação é o apresentar ou representar alguma coisasem ser ela mesma uma coisa. Em outras palavras, sem receber o estatuto de umarealidade (Zarka, 1992: 18 in Leivas, 2007:03). Tal ponto de vista nos leva a concluir que a representação está em nós e não nos objetos fora de nós. Não são os objetos querepresentam, mas nós que, com a nossa capacidade de percebê-los, representamo-los. Nesse sentido os objetos nada mais seriam que veículos de sinais manipulados para nos provocar sensações e impressões. Na perspectiva sociológica e cultural de Stuart Hall (1997) as representaçõessustentam linguagens.   Nem as coisas por si mesmas, nem os usuários da linguagem, podemfixar o sentido da linguagem. As coisas não têm significado: nósconstruímos o sentido usando sistemas de representação – conceitos esinais (HALL, 1997:25 in HERNANDEZ, 2007: 22). Ainda Segundo Hernandez (2007) esse seria para Hall “o sentido de umaabordagem ‘construcionista’”, de modo que não devemos confundir o mundofenomênico e material no qual existimos com os significados que damos a ele, ou seja,“com as práticas simbólicas e os processos, por intermédio dos quais a representação, osentido e a linguagem operam”, pois esses significados são transitórios. “Tal posiçãonão implica negar a existência do mundo material, mas entender que não é este queconfere significado a tudo e sim o sistema de linguagem que estamos utilizando pararepresentá-lo”. a este a Para este autor, a representação é, na perspectiva de Hall, “a produção de sentidos por meio da linguagem e nesta produção utilizamos signos parasimbolizar, fazer referência a objetos, pessoas ou eventos do chamado mundo real”.(HERNANDEZ, 2007: 22)Já Erving Goffman (2007), traz o sentido de representação para a análise das práticas culturais e sociais das performances dos sujeitos na vida cotidiana, analisando-as sob o prisma da idéia de “atuação”, “fachada”, “idealização”, “mistificação” e sobreos demais “mecanismos e artifícios” que esse sujeito 2 se vale para ativar os seus e osnossos “equipamentos de sinais” 3 . De acordo com seu posicionamento, Goffman nos dáa idéia de que representação é o que há “em toda atividade de um indivíduo que se passa, num período caracterizado por sua presença contínua, diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência”. (GOFFMAN2007: 29)Para ele, todo indivíduo representa, consciente ou inconscientemente,respectivamente de dois modos: “transmissão” e “emissão”. O primeiro associa-se àidéia de “linguagem comunicacional” e suas respectivas técnicas; o segundo, às “açõessintomáticas” e involuntárias dos indivíduos. Um desacordo ocorrido entre esses doismodos perturbaria a representação, fragilizando a credibilidade acerca do que se desejamostrar e o que se está mostrando de fato. 2 Vale a pena atentar que muitas vezes Goffman usa o termo “ator”, “sujeito”, “indivíduo” para designar ofoco agente ou “platéia” para os interlocutores presentes. Goffman, pois, parte da idéia de que a vidasocial é como uma representação teatral, na qual ora somos atores, ora espectadores e personagens aomesmo tempo. 3 Conjunto de maneiras, símbolos, signos socialmente construídos.  Desse modo, ator e observador representam simultaneamente. Ao ator caberecuperar em sua mente  sinais 4  acerca do que pensa para que o observador venha a dar-lhe credibilidade. Ao observador, portanto, cabe a incumbência de analisar se tais sinaismanipulados são verdadeiros ou falsos. Então, na perspectiva de Goffman arepresentação do sujeito tem um caráter compulsório relativo a sua experiência de vida presentificando pois tais experiências socialmente ensaiadas para o aqui e agora dasituação. A idéia de Cena Segundo Pavis (1999: 44), cênico refere-se a algo “que tem relação com a cena ”,srcinada do grego Skênê , que significa, por sua vez, “barraca ou tenda construída por trás da orquestra ” nos espetáculos gregos. Skênê , orchestra e théatron formam os trêselementos cenográficos básicos daquele tipo de espetáculo. Segundo Burnier (2001:17) Théatron tem por raiz théa , que significa o ver  , o contemplar  , e o sufixo tron , dosadjetivos, conota o sentido de lugar onde . Para Gasset (1999:28), o “Teatro é umedifício”. E um edifício é um espaço demarcado, separado do resto do espaço que permanece fora dele. “A missão da arquitetura é construir, frente ao ‘fora’ do grandeespaço planetário, um ‘dentro’”. O “espaço teatral” é o conjunto formado por doisespaços –  cena e  platéia –  que simulam outros espaços. Nesse ínterim, não se é platéiadentro de casa somente por que se lê uma peça teatral. É preciso ir ver a cena no Teatro.Portanto, o Teatro é um lugar onde ser vai para ver algo. Ao longo da história, meio as revoluções tecnológicas, o termo cena vem sediversificado: “cenário, área de atuação, local da ação”, trecho de uma peça escrita ouencenada e, finalmente, “o sentido metafísico de acontecimento brutal e espetacular talcomo ‘fazer uma cena para alguém’” (Pavis, 1999: 42). Para Manguel (2001:307), nocampo das Artes Visuais, Caravaggio não pinta quadros, pinta “cenas”. Segundo esseautor, o pintor renascentista “suprime a idéia do expectador como algo externo;transformando-o em ator, fazendo dele um participante do enredo que se desenrola,situando-o em uma posição privilegiada ao mesmo nível que ele”. No audiovisual (cinema e vídeo, TV), a cena está lá, mas submissa à imagem.Ela é aquilo que o registro da câmera nos mostra, não como imagens “reais”, mas como 4 Importante notar que o sentido de “sinais” para Goffman é semelhante ao de “signos e símbolos” paraHall e “sensações”, “imagens”, “fantasmas” para Hobbes.
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