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O Imaginário Europeu e a América

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  23/03/2017 O imaginário europeu e a Américahttp://www.raulmendessilva.com.br/pintura/pag002.shtml 1/5 Primeira PáginaDiplomacia e RelaçõesInternacionaisObras de ReferênciaSociedade e Natureza naHistória da Pintura noBrasil - Manifestações artísticas noBrasil pré-histórico- Paraíso ou inferno?- Pintura indígena- Os holandeses no Nordestebrasileiro- Pintura colonial brasileira- O século XIX- O Impressionismo e a luz dostrópicos- Depois da Semana de 22. Abusca da identidade- Arte afro-brasileira- A pintura brasileira nos anos50: A conquista moderna- A arte e seus desvios: umabreve história da pinturabrasileira da década de 1960aos dias de hoje- O meio ambiente e astransformações político-econômicas na Brasil e nomundo- A Amazônia ambicionada- Bibliografias Organizadaspelos autores Arte InternacionalArte Brasileira -PublicaçõesArte - TextosPolítica - TextosCurrículo Resumido  Patrick Robert Meyer  O IMAGINÁRIO EUROPEU E A AMÉRICA Os Portugueses que tinham achado o Brasil e os outros europeus que voltavam das Américas,regressavam com toda a espécie de narrativas exóticas, novidades científicas, plantas, animais eaté seres humanos, para serem expostos à curiosidade daquele Velho Mundo. Nessa época aEuropa deixara para trás o período depois designado de Idade Média , sendo o Continente varridopelos ventos renovadores do Renascimento. A América descoberta, encontrada por Colombo, em meio a “maresnunca dantes navegados”, incorporou-se ao imaginário europeucom um leque de atributos que já havia sido destinado a ela numaépoca em que nem descoberta tinha sido. O fértil imaginárioeuropeu já tinha construído como seu este Novo Mundo, restandopara Colombo apenas a comprovação de tudo – e que tudo - o quehavia sido produzido pela imaginação e pelo sonhoincomensurável de seus contemporâneos.Os incontáveis círculos eruditos dos geógrafos e dos cartógrafos,respondendo às várias ideologias religiosas e científicas, vinhamao longo dos últimos séculos se questionando e se informandosobre o que existiria “além mar”: riqueza ou devastidão, fortuna oudesespero, humanos ou demônios. Seria o fim do mundo ou umoutro mundo ? Através de variadas narrativas de viajantes como o italiano MarcoPólo e o português Fernão Mendes Pinto, o Oriente havia seduzidoa imaginação daquelas sociedades em rápida transformação porém, para a quase totalidade daspessoas, os mares eram vistos como lugares de acesso temerário, habitados por monstros efustigados pelas tormentas. A primeira imagem concreta da Amér ica que surgiu aos olhos do europeu foi revelada por Colombo e ele a chamou de “Índias”. De fato, Colombo pensou ter chegado às Índias. Emconseqüência, tudo o que seria descoberto e encontrado nestas terras seria nomeado e carimbadocomo “indiano”.Encontrou, no entanto, o descobridor dificuldades ao deparar-se com notáveis diferenças com omundo, pouco mas já conhecido, das Índias como, por exemplo, no campo da fauna e da flora. Noentanto aproveita a imprecisão, os exageros e as mistificações freqüentemente presentes nosrelatos de viajantes. Alguns, se não muitos, não hesitam em incluir até inverdades para não falar em delírios provocados por distúrbios diversos. Afinal quem ia clamar por provas ou apontar incoerências? Estavam mais interessados no sensacionalismo e no exotismo dos fatos contados.Mito e realidade, fantasias e fatos, todos elementos de um mesmo relato, cujo objetivo residiamenos na fria veracidade científica do que no deleitoso prazer da diversão. Eis a América com aqual já se sonhava.Os componentes de uma natureza até agora desconhecida eram recodificados, para seremintegrados ao repertório dos objetos familiares dos europeus. Assim fazendo, toda descrição dealgo não conhecido passava a ser relatada em termos de comparação com o que existia de maisparecido no conhecimento vigente.Institui-se desta maneira uma visão de pouco rigor objetivo que impunha, em absoluto e semexceção de espécie alguma, a referência européia como padrão do ideal universal para avaliar elementos totalmente diferentes, quando não integralmentedesvinculados de qualquer objeto conhecido. A Igreja e a aristocracia enxergavam na idéia de América uma fontenova de poder e riqueza. Por razões estratégicas - que envolviamaté técnicas de contra-informação, como a divulgação de mapasgeográficos propositalmente falseados - as Coroas só permitiam auns poucos e leais servidores o acesso aos bem guardadossegredos da nova geografia.Com o regresso das caravelas e as tripulações recheadas denovidades, as Américas passaram a serem descritas ora comolongínquos infernos hostis, de climas insalubres, habitados por criaturas inumanas, canibais e bestas demoníacas, gente queparecia ter sido esquecida por Deus; ora como paraísos férteis,povoados de selvagens nus e gentis, pacíficos e felizes, que pelocontrário teriam sido protegidos em seu estado divinamente “puro”. Quinta-feira, 23 de março de 2017 Selecione o idioma ▼  23/03/2017 O imaginário europeu e a Américahttp://www.raulmendessilva.com.br/pintura/pag002.shtml 2/5 Se a fé de Colombo alimenta sua imaginação e o conduza leituras de absoluta conformidade e harmoniosa sintoniacom a espiritualidade cristã, seus entendimentos com osmembros da Igreja obrigam-no também a conduzir suasnarrativas nesta mesma direção. Assim sendo, Colombovê mais com a fé do que com os olhos e reafirma aperigosa - já que deturpada e corrompida - prática desobrepor o sonho à realidade e a crença à ciência. E,quando se vê confrontado a expressões da natureza queescapam aos modelos já conhecidos, fica desarmado e,segundo suas próprias palavras, obrigado a admitir suaincapacidade de explicar.Nem mesmo o apoio dos textos bíblicos e as palavras doshomens de Deus poderiam ser-lhe de alguma ajuda para a análise científica. No entanto, tratando-se de interesse público, ou seja interesse do público, pesavam mais as versões exóticas e aspalavras divinas do que os experimentos científicos e as teses racionais.Logo nos primeiros relatos dos viajantes, o Novo Mundo despertoupaixões inflamadas. A partir do início do século XVI os testemunhospassaram a separar verdades de fantasias, inspirando numerosaspublicações repletas de relatos e imagens, o que contribuiu parauma visão mais apurada das, assim denominadas, Américas. O Brasil, a Terra Brasilis, é representado com florestas frondosas,frutos e águas abundantes, indígenas de pele escura, pássarosmulticoloridos, estranhos e bizarros animais. Nesta época, apesar de todas as transformações e riquezas que chegavam agora domundo inteiro, Portugal e Espanha ainda conviviam com umasociedade na qual a religião detinha quase todo o poder epraticamente controlava as manifestações artísticas, ao contrário doque sucedia na Itália, França, Holanda e no resto da Europa maisliberta das tutelas teológicas.Como todos os viajantes, descobridores e navegadores, ao sedepararem com o Novo Mundo, o mundo não-europeu e pagão,Colombo opta pela descrição visual de tudo o que vê e observa.Conserva assim o poder de conhecer o desconhecido, e relatá-lo à sua maneira. O imaginárioeuropeu acerca da América vai assim crescer e se multiplicar, salvo do rigor e do despojamentocientífico e racional para deleitar-se nas volúpias do barroco e do exotismo inusitado.O livro C’est la déduction du somptueux orde..., editado em Rouen, França, em 1551 por Jean DuGord, documenta a vida selvagem e comemora a entrada triunfal do soberano Henri II. Trata-se deuma documentação da entrada triunfal dos soberanos Henri II e Catarina de Médicis naquelacidade (em 1 de outubro de 1550) quando os europeus puderam ver índios desfilar no cortejo,exibidos como troféus.Fabrica-se então uma América farta, opulenta e colorida, moldada na riqueza e na exuberância do já conhecido Oriente, mas também uma América imaginária, despudorada e sedutora. Oseuropeus se encantam, cedem aos charmes exóticos, deliciam-se com especiarias e sonhos, luxose fortunas.Foi então, no século XVI, que começaram a surgir na literatura e nas artes as primeiras figuras deameríndios. Do ponto de vista dos conquistadores e seus aliados religiosos, tratava-se de povosque precisavam ser catequizados, integrados aos valores do Cristianismo universal, único caminhopara poderem salvar suas almas e viver como crentes, uma tarefa gigantesca que agora seimpunha aos evangelizadores.Entretanto, eram muito diferentes as preocupações quanto às riquezas materiais, objeto imediatode pilhagens por parte dos “civilizadores” - e seria necessário decorrerem mais de três séculospara se abolir a escravatura nas Américas. Pinturas e gravuras da época, agora documentadaspelos relatos, revelam paraísos, uma natureza farta de frutas e animais e um esplendor de cores esentidos colocados à disposição dos homens pelo Criador. Já na construção imaginativa opostadescrevia-se o índio selvagem, primitivo, bárbaro, nu, canibal, pagão, ignorante, inserido numambiente inumano, atormentado por um “calor infernal”, às voltas com as suas florestasintransitáveis, seus animais ferozes, suas doenças letais. Enfim, uma visão terrena antecipada doque seria o inferno, tudo isso criado por Deus para “castigar” os selvagens pagãos.Estas duas visões maniqueístas, por vezes figuram conjuntamente nos livros dos viajantes,abundantemente ilustrados, aliás mostrando menos uma oposição e mais propriamente um sentidocomplementar entre elas. Aos poucos foram sendo abandonadas as concepções intolerantes,radicais e ilusórias, desprovidas de realismo.No Velho Mundo alastrava então uma nova ordem, uma sociedade mais aberta. Os cultos sábioshumanistas do Renascimento iriam desempenhar um papel fundamental, influenciando asociedade e as artes de maneira profunda, procurando uma convivência harmônica entre aCiência e a Religião, que porém estaria longe de ser pacífica ainda pelos séculos vindouros. A CIÊNCIA E O IMAGINÁRIO O imaginário europeu, nutrido agora com dados científicos, relatados em cartas náuticas eexperiências descritas em relatos de viagens, abre-se para as Américas, enriquecido pelas idéiasdo Renascimento. Imensa quantidade de gravuras e desenhos revela um outro ser humano, bemdiferente do europeu: índios em contato direto com a natureza pródiga, de corpos saudáveis e bemtorneados, bem alimentados de carnes e frutas, adornados com jóias e plumas. Uma concepçãodistante do imaginário anterior dos homens primitivos, deslocando-se em bandos miseráveis,vestidos com peles de animais, acocorados em volta do fogo, em paisagens áridas, sofrendo umavida de pobreza e perigos, apenas sobrevivendo tristemente. Era a visão de um mundo onde nãoexistia prazer, nem alegria, nem conforto.Quanta diferença da indolência sensual e contagiante dos índios, com sua fartura e diversidade dealimentos, a beleza dos corpos, os risos e as brincadeiras de seus passatempos! Espantaram-seos descobridores com a variedade e diversidade dos povos na América, ricos e particulares, suaslínguas, culturas e costumes.  23/03/2017 O imaginário europeu e a Américahttp://www.raulmendessilva.com.br/pintura/pag002.shtml 3/5 Quantas maneiras e modos diferenciados no que tocava o simples cotidiano; não somente alinguagem, a alimentação, o habitat, e também aspectos de grande sofisticação, requintes até, naspinturas corporais, nos adornos com plumas coloridas, nos objetos de palha trançada e nasferramentas finamente esculpidas. Mas a eles lhes era ainda vetada, e assim o seria durante váriosséculos, a noção de cultura, a qual na época só poderia pertencer ao vocabulário da civilização,isto é do Velho Mundo.Nos seus relacionamentos, nas suas formas extensas e codificadasde se comunicar, dentro da mesma tribo ou não, dentro da mesmaetnia ou não, tudo isto surpreendia os europeus que nuncapoderiam imaginar encontrar em terras desconhecidas tantos povoscom tantas variantes. As crenças e religiões, os tipos físicos, osníveis de desenvolvimento, eram muitas as informações ecomplexas as suas interpretações.Muitos povos eram pobres, mas alguns possuíam riquezas fartas,ostentavam artefatos luxuosos e acumulavam tesouros de ouro epedras preciosas. A mais completa ausência de tecnologias“modernas”, tais como ferro, arado ou pólvora não impedia um estilode vida gerador de riquezas capazes de despertar sanguináriasganâncias nos sonhos dos conquistadores que varreram as Américas do México ao Peru.Nas mentes européias, a descoberta de sociedades humanaspagãs e primitivas, vivendo em aparentes paraísos, teve um impactosurpreendente. Na Europa cristã, a esperança de uma pessoa ser aceita no paraíso, anteriormente estava indissoluvelmenteassociada aos cristãos tementes a Deus e merecedores da escolhadivina. Não podemos esquecer que se vivia na Europa Ocidental da Inquisição. O conceito de ser primitivo implicaria obrigatoriamente uma vida miserável. As revelações do Novo Mundochocavam-se e desmentiam as concepções religiosas e as tradições filosóficas medievais.Do século XVI ao XVIII se consolidará esse imaginário do poder, junto às descrições apelativas deEldorados e de terras paradisíacas, ficções, ensaios, teatro, poesia, polêmicas, debates em tornoda monarquia e liberdade, da cidadania, ou seja, da subjetividade moderna nascente.Shakespeare, Montaigne, Ronsard, Rabelais, Rousseau, Diderot, Voltaire, La Fayette alimentaram,cada um à sua maneira, o imaginário europeu sobre a América.Surgiram mais tarde também teses de tipo romântico, que defendiam o contrário da visãotradicional: todo o homem primitivo seria bom, apenas se tornando mau quando corrompido pelasociedade. Era a “teoria do bom selvagem” imortalizada por um filósofo, nascido em Genebra, JeanJacques Rousseau (1712-1778), que vamos referir adiante.Porém, não era possível dissociar a idéia do índio primitivo das suas práticas de canibalismo, oque estava presente em muitos relatos de viajantes. As opiniões sobre o tema divergiam: tratava-sede canibalismo ritual ou de antropofagismo alimentar?Na prática, o canibalismo representou uma ruptura radical entre os indígenas e os conquistadores. A ingestão de pedaços de carne humana aparecia no imaginário europeu ora como forma devingança dos inimigos vencidos, ora como prática ritual para adquirir as características daspessoas sacrificadas, mas sempre como um traço cultural abominável. HANS STADEN DE HOMBERG NA TERRA BRASILIS: UM AVENTUREIRO NA AMÉRICA Em 20 de junho de 1556 um alemão aventureiro e viajante compulsivo, dedicou ao “glorioso”príncipe de Hessen um fantástico relato de suas aventuras, decorridas principalmente em terrasbrasileiras: A História Verídica que descreve uma terra de selvagens nus e comedores de sereshumanos, que se situa no Novo Mundo da América, etc. Seus escritos estão mais de acordo com avisão pessimista européia do Novo Continente: índios em que ninguém pode confiar, torturadores,traiçoeiros e canibais. Era uma descrição tão insólita para os europeus daquele tempo, que por muitos foi considerada um amontoado de mentiras. Após muitas peripécias, contadas em tom detragédia, mas que freqüentemente deixam o leitor atual à beira do riso, os escritos de Staden nosdão informações interessantes sobre as relações entre nativos, portugueses e franceses.Capturado pelos tupinambás perto de Bertioga, logo entendeu que eles o queriam maltratar. “Nistome levaram para a cabana onde tive de deitar numa rede e mais uma vez vieram as mulheres ebateram em mim, arrancaram meus cabelos e mostraram-me como pretendiam me comer...com ospés atados desta maneira tive de pular pela cabana. Eles riam e gritavam: lá vem a nossa comidapulando...Deram voltas em torno de mim ...um deles disse que o couro da cabeça era dele, umoutro que a minha coxa lhe pertencia...(eles) preparam uma bebida de raízes que chamam decauim... Somente depois da festa é que matam (os prisioneiros, para os devorar) ...”Não satisfeitos em ameaçar devorá-lo, mantendo-no sobreforte tensão, os índios levaram-no para Ubatuba ondetinham estabelecido sua aldéia. Com freqüênciaobrigando-o a assistir a rituais antropofágicos. Emdeterminada oportunidade, sem que se saiba o porquê detal decisão, fizeram-no ir à aldeia de Tiquaripe, nosarredores de Angra dos Reis, obrigando-no a assistir auma cerimônia no qual o ibirapema, o mestre dasexecuções, escolheu um dos inimigos aprisionados parater a sua cabeça por ele esmagada. Os membros da tribo, já meio embriagados e muito exaltados, cercaram ocadáver, despedaçando-o e o devoraram em seguida. Após inúmeras aventuras, que lembram as narrativas dosromances da Idade Média, o viajante alemão acaba por escapar, voltando à terra natal para contar suas aventuras aos incrédulos compatriotas.Interessa, porém, observar, no que toca ao livro de Staden, as precauções que ele tomou na Alemanha para que acreditassem nele. A Europa do século XVI, o grande século das navegações,estava cansada de ler ou ouvir relatos cravejados de mentiras e absurdos diversos.  23/03/2017 O imaginário europeu e a Américahttp://www.raulmendessilva.com.br/pintura/pag002.shtml 4/5  A tal ponto tinham chegado as coisas, que Rabelais, o grande satírico francês, fazendo mofa dolivro do padre cosmógrafo André Thévet (Singularitez de la France Antarctique, 1558), decidiu-seinserir na sua obra (Gargantua e Pantagruel, 1564, Livro V), dois capítulos denunciando, pelo riso,o disparate das visões mentirosas que alguns viajantes tiveram no inexistente “País de Cetim”.Criou, também, como símbolo desses mitômanos, um personagem-caricatura, o “Ouvi-dizer”, que,apesar de ser um velho, corcunda e paralítico, tendo a língua esfacelada em sete pedaços,narrava, com um mapa-múndi aberto à sua frente, as suas impossíveis aventuras para umamultidão de crédulos. Eram histórias de unicórnios, de mantichoros com corpo de leão e carahumana, de cabeçudíssimos catoblepos de olhos venenosos, de hidras com sete cabeças, deonocrotalos que imitavam gritos de asno, de pégasos, e de tribos de seres com cabeças depássaros, ou até mesmo com duas cabeças, de povos fabulosos que andavam apoiados nasmãos, com as pernas balançando no ar!Querendo, pois, evitar ser chamado de embusteiro,Staden, além de banir do seu relato qualquer menção àzoologia fantástica, pediu a um conhecido seu do Hesse,um tal Dryander, que assegurasse a veracidade doconteúdo do livro. Staden, “ébrio de um sonho heróico ebrutal”, viera a dar com os costados no Brasil parasatisfazer seu gosto pela aventura, para ver de perto asmaravilhas que escutara na Europa sobre o Novo Mundodescoberto. Foi na sua segunda viagem ao Brasil (naprimeira ele conhecera Pernambuco) que Stadennaufragou nas costas do litoral fluminense. Por saber lidar com canhões, os portugueses, que o acolheram muitobem, promoveram-no a artilheiro do Forte de Bertioga.Nota: As aventuras de Hans Staden renderam no Brasil um filme longa metragem (dirigido por Luiz Alberto Pereira) e algumas edições de livros, entre as quais sugerimos Hans Staden, tradução de Angel Bojadsen, introdução de Fernando A. Novais, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 1999. JEAN-JACQUES ROUSSEAU, O ESTADO DE NATUREZA E O BOM SELVAGEM Rousseau, a quem nos referimos atrás, foi um típico intelectual do seu tempo, do mais alto quilate,que o fez merecer o título de filósofo e precursor dos românticos.Suas preocupações o levaram a muitos campos da cultura, mas neste caso nos interessam apenasos seus pontos de vista sobre os povos primitivos. Mostrou-se srcinal e sensível ao aproximar o“estado de natureza” de sua teoria sobre o “bom selvagem”. Assim fazendo, nascia, como afirmouClaude Lévi-Strauss, a etnologia um século antes que ela fizesse a sua aparição. A filosofia clássica afirmava que o “estado de natureza” representava uma era de barbárie na quala formação e o usufruto da vida em grupo estariam definitivamente derrotados. Este “estado denatureza” posicionava-se somente como ponto de partida para o grande projeto da humanidadeatravés de civilização.Rousseau, por sua vez, revelou e valorizou as qualidades do “bom selvagem”, o qual desfrutava deum ambiente natural generoso e acolhedor ao ponto de poder satisfazer suas módicasnecessidades ligadas à subsistência. Por outro lado, gozava de uma índole pacífica e pura,desprovida de desejos de riqueza, glória e poder, próprios de cidadãos civilizados.Levando esta idéia além, ele considerava que através do raciocínio lógico chegaríamos adescobrir o estado natural: em primeiro lugar impõe-se o conhecimento do ser humano, o maisimportante de todos. Por aí chegamos à conclusão que o selvagem primitivo era um ser robusto epreparado para o seu ambiente, sabia enfrentar os animais e viver em harmonia com a natureza. Ao contrário, o homem civilizado é um ser viciado e cheio de defeitos. Olhemos para o exemplodos animais, que em seu estado selvagem são auto-suficientes e cheios de beleza e, quandodomesticados, perdem estes predicados, ficando dependentes do homem.Os instintos dos selvagens primitivos eram poucos e simples: receavam a dor (física, claro, queoutra qualquer eles ignoravam); suas paixões eram a nutrição, o repouso e a reprodução. Comonunca tinham refletido sobre a morte, logicamente não a temiam.O homem natural não é bom nem mau, não faz juízos de valor sobre o que é vício ou virtude.Entretanto, no estado da natureza, as paixões (instintivas) são mais exacerbadas. O selvagem estácom fome, alimenta-se e sua paixão se extingue.Resumia Rousseau estas dualidades expressando que “a maioria dos nossos males é obranossa”. Falando de amor, existem dois tipos, um que pode chamar-se de moral, mas que naverdade é uma forma fictícia de amor. Foi criado pela sociedade, “inventado pelas mulheres”; émuito diferente do amor físico, esse sim, verdadeiramente autêntico. Ao selvagem qualquer mulher lhe serve, como acontece com os animais. A educação, os hábitos e as culturas sociais, naverdade depravaram o homem e lhe roubaram sua autêntica natureza.Deixando de lado os comentários absurdos - e desatualizados - sobre o amor e a condiçãofeminina, nesta teoria do bom selvagem de Rousseau podemos verificar a visão otimista e idílicaque os europeus passaram a ter dos povos primitivos - agora completamente separada dopreconceito medieval que os considerava como seres inexoravelmente condenados às penas dosinfernos.Nota: os escritos de Rousseau, provocaram influências variadas, vastas e profundas nopensamento ocidental. Para o tema do “bom selvagem” o leitor encontrará facilmente inúmeraspáginas de divulgação cultural em nossas enciclopédias. Poderá consultar, entre essas fontes:Rousseau, em tradução de Lourdes Santos Machado, enriquecida com as contribuições de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1999.Os humanistas foram criando novos símbolos, metáforas e alegorias. Um dos temas prediletospassou a ser Os Quatro Continentes. É que aos Três Continentes, representados desde a Antiguidade e com muita influência dos cânones greco-romanos, os europeus acrescentaramoutro, com a representação alegórica do Novo Mundo: uma mulher mostrada em sua nudez esensualidade, com traços guerreiros, adornos de plumas e carregando arco e flecha. Era a América India.
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