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O NARRADOR ESTRANGEIRO E SEU JOGO DE SEDUÇÃO: HOMOAFETIVIDADE E ESTRANHAMENTO EM “O RAPAZ MAIS TRISTE DO MUNDO”, DE CAIO FERNANDO ABREU - Marciano Lopes e Ricardo Gomes da Silva

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O NARRADOR ESTRANGEIRO E SEU JOGO DE SEDUÇÃO: HOMOAFETIVIDADE E ESTRANHAMENTO EM “O RAPAZ MAIS TRISTE DO MUNDO”, DE CAIO FERNANDO ABREU Ricardo Gomes da SILVA (G-UEM) i Marciano Lopes e SILVA (UEM) ii Esse estranho poder demiúrgico me deixa ainda mais tonto que eles, quando se levantam e se abraçam demoradamente à porta do bar, depois de pagarem a conta. Amantes, parentes, iguais, estranhos. (palavras do narrador; ABREU, 1988, p. 67) 1. INTRODUÇÃO Caio Fernando Abreu dedicou sua produção literá
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   464 O NARRADOR ESTRANGEIRO E SEU JOGO DE SEDUÇÃO:HOMOAFETIVIDADE E ESTRANHAMENTO EM “O RAPAZ MAIS TRISTEDO MUNDO”, DE CAIO FERNANDO ABREU Ricardo Gomes da SILVA (G-UEM)  i  Marciano Lopes e SILVA (UEM) ii    Esse estranho poder demiúrgico me deixa ainda mais tonto que eles,quando se levantam e se abraçam demoradamente à porta do bar,depois de pagarem a conta. Amantes, parentes, iguais, estranhos.  (palavras do narrador; ABREU, 1988, p. 67) 1. INTRODUÇÃO Caio Fernando Abreu dedicou sua produção literária a peças teatrais, romances,crônicas, novelas e contos. Sua obra é comumente rotulada como literatura gay – apesarde tal classificação ser redutora – em virtude do tema ser constantemente explorado peloautor, realizando uma obra que procura dar voz a essa “minoria”. Com o intuito, então,de contribuir para o debate sobre a existência – ou não – de uma literatura e um discursohomoafetivo – ou homoerótico – resolvemos discutir de que maneira o engajamentonessa empreitada leva não somente à abordagem de temas tabus, mas especialmente àelaboração de uma estética própria e condizente com os valores cognitivos e éticosdesse grupo social. Para tanto, decidimos analisar o conto “O rapaz mais triste domundo”, do livro Os dragões não conhecem o paraíso (1988), devido ao fato de essetexto apresentar vários elementos recorrentes ao longo de sua obra, entre os quais seencontram algumas metáforas, alegorias e, especialmente, um jogo narrativo bastantesingular que, na opinião de Bruno Leal (2002), constitui uma estratégia de sedução doleitor voltada – entre outras coisas – para o rompimento dos preconceitos e barreiras queimpedem a aceitação da identidade gay por parte dos cidadãos heterossexuais. No contoem questão, os protagonistas – assim como o narrador, acreditamos – sofrem umprofundo sentimento de dor, estranhamento e solidão devido à inadequação aos modelosde gênero masculino dominantes na sociedade. Nesse contexto, a homoafetividade surgecomo expressão de uma necessidade afetiva natural e legítima, sendo apresentada comoatitude necessária à sobrevivência na medida em que subverte a ordem dominante.Quanto ao nível estético de composição, as estratégias de sedução, que instauram adúvida sobre as aparências, e espelhamento entre personagens, narrador e leitorconstituem procedimentos voltados para a desestabilização dos valores e crenças tidoscomo verdadeiros e inquestionáveis, primeiro passo para a aceitação da alteridade gaypor esse último. 2. DOIS (OU TRÊS) NÁUFRAGOS EM UM AQUÁRIO DE ÁGUAS TURVAS Antes de começarmos nossa análise e discussão, convém apresentarmos umabreve sinopse do conto. Este inicia com a descrição da caminhada noturna de umsolitário “homem” até um bar, onde pede uma cerveja no balcão e por acaso, ou porfalta de opção, senta-se na mesma mesa em que se encontra um “rapaz”. Os doispermanecem ali, bebendo lentamente suas cervejas, sem aparentemente perceberem a   465existência um do outro. Isso até começarem uma conversa banal, cujo objetivo é apenasromper o silêncio e a solidão, – o que se revela no predomínio da função fática dalinguagem: “como é seu nome, qual o seu signo, quer outra cerveja, me dá um cigarro,não tenho grana, eu pago, pode deixar, fazendo o quê, por aí, vendo o que pinta, vemsempre aqui, faz tanto frio”... (ABREU, 1988, p.62). De acordo com o narrador, aconversa toma um caráter confessional e íntimo até que os dois se dão as mãos e “secontemplam doces, desarmados, cúmplices, abandonados, pungentes, severos,companheiros. Apiedados. (Ibidem, p.63). Com o passar do tempo, vai aumentando aintimidade entre ambos – o que é estimulado pelo narrador-observador, que também éum personagem ativo, que manipula não somente a narrativa como também o espaçoatravés das músicas que escolhe para tocar no  juke-box , de modo a aproximá-los entresi. Com o chegar da manhã e o bar já fechando, ambos se despedem e o rapaz vaiembora.Como já podemos deduzir com base no pequeno resumo acima, o texto queanalisaremos enquadra-se no “conto de atmosfera” (GALVÃO, 1983), narrativa em quea ação é principalmente interna e o conflito, portanto, reside na experiência subjetivados personagens que, nesse gênero, geralmente são em número reduzido. No presente,são apenas dois – ou três, se considerarmos também o narrador, posto que, conforme jáapontamos acima, não é um observador passivo. De acordo com nosso ponto de vista,ele induz o leitor a crer que os dois personagens se encontram em estado deestranhamento com o mundo por não se enquadrarem nos estereótipos de gênerovigentes, o que sugere um descontentamento com o mundo e a sociedade moderna.O personagem “homem” é caracterizado pelo narrador como aquele que não secasou e não teve filhos ou família, contrariando o estereótipo de “pai de família”. Paraintensificar ainda mais sua caracterização de estranho/estrangeiro, suas roupas, apesarde cinzas, são apresentadas como brancas, o que contrasta violentamente com as coresdo ambiente opressivo (note-se as paredes que lembram um corredor polonês) e sujo dobar: O bar é igual a um longo corredor polonês . As paredes demarcadas –à direita de quem entra, mas à esquerda de onde contemplo – pelobalcão comprido e, do lado oposto, pela fila indiana de mesinhasordinárias, fórmica imitando mármore. Nessa linha, estendidahorizontal da porta de entrada até a juke-box do fundo onde estou eespio, ele se movimenta – magro, curvo, molhado – entre as pessoasenoveladas. Vestido de escuro, massa negra, monstro vomitado pelasondas noturnas na areia suja do bar. Entre essas pessoas, emboravestido de cinza , ele parece todo branco . (ABREU, 1988, p. 58 – osgrifos são nossos)Situação semelhante é a do “rapaz”, apresentado como um indivíduo quetambém não consegue se visualizar no estereótipo masculino, situação nitidamentenotável no recorte abaixo:[...] eu sou tão magro, vê? Quando abraço uma mina [...] fico olhandopara os meus braços frágeis incapazes de abraçar com força umamulher, e fico então imaginando músculos que não tenho, ficoinventando forças, porque eu sou tão fraco, porque eu sou tão magro,porque eu sou tão novo. (Ibidem, p.59)   466 Cremos que o deslocamento em relação aos eixos fixos de identidadesdisponíveis faz com que os protagonistas se encontrem e se realizem, pelo menostemporariamente, em uma identidade homoafetiva. Peter Fry (1983, p.7) observa que,ao contrário da heterossexualidade, socialmente legitimada, não há verdade absolutasobre o que seria homossexualidade, posto que esta é “uma infinita variação sobre omesmo tema: o das relações sexuais afetivas entre pessoas do mesmo sexo”. Issopossibilita àqueles que se vêem como estranhos ao mundo de estereótipos masculinosencontrarem nela um refúgio. No conto em questão, a aproximação homoafetivapossibilita aos personagens em conflito – assim como ao leitor – se descobrirem e,assim, poderem conquistar a liberdade de escapar do aquário de águas sujas rumo aomar aberto. Para isso, a presença do estranho e do estrangeiro (não esqueçamos que, emfrancês, a palavra que os designa é a mesma: l´étranger  ) é uma estratégia recorrente naliteratura de Caio Fernando Abreu, conforme veremos na seqüência, que é indicada noconto em questão já na epígrafe – retirada, segundo indicação do próprio autor, da obra Cenários em ruínas , de Nelson Brissac Peixoto:“São aqueles que vêm do nada e partem para lugar nenhum. Alguémque aparece de repente, que ninguém sabe de onde veio nem paraonde vai.  A man out of nowhere .” (ABREU, 1988, p. 57)Para reforçar a inadaptação que sofrem os dois personagens, o narrador lançamão de quatro metáforas: a do peixe, a da cegueira, a das águas turvas (ou sujas) e a doaquário. As quatro metáforas articuladas estruturam uma alegoria caracterizadora doespaço e da condição dos personagens – e do próprio narrador, acreditamos –, assimcompondo a ambientação que permeia todo o conto. Nesta alegoria, os personagens sãodescritos como “peixes cegos ignorantes de seu caminho”, mas que “navegam emdireção um ao outro” (Ibidem, p. 57). A condição de cegueira e de apriosionamento,resultante da imposição de uma identidade de gênero pela sociedade, é metaforizadapela imagem do aquário de águas turvas. Essas duas metáforas sugerem que ospersonagens estão perdidos, sem saber para onde vão e sem esperança de encontrar umasaída, primeiro por estarem aprisionados pelas paredes de vidro de um aquário, segundopor serem cegos errantes em mundo turvo de certezas inexistentes ou obscuras comoáguas turvas. Nesta procura, acabam por se encontrarem e se reconhecerem um nooutro, encontrando – nem que por apenas algumas horas – a satisfação de suasnecessidades, impulsos e desejos reprimidos em uma relação homoafetiva. E o valorpositivo e redentor desse encontro é expresso metaforicamente no seguinte recorte.Observe, leitor, que na medida em que ambos se aproximam e se entrelaçam, o homem,inicialmente caracterizado como um monstro marinho, vai se transformando em umnovo, radiante e precioso ser. Renovação que só se realiza na identificação amorosacom o outro:[...] esses dois caras estranhos, parecem dois veados de mãos dadas,perdidamente apaixonados por alguém que não é o outro, mas poderiaser, se não ousassem tanto e não tivesses que partir – o homem seguracom mais força nas duas mãos do rapaz mais triste do mundo. Asquatro mãos se apertam, se aquecem, se misturam se confortam.  Nãonegro monstro marinho viscoso, vômito na manhã. Mas sim branca   467 estrela do mar. pentáculo, madrepérol a. Ostra entreaberta exibindo anegra pérola arrancada da noite e da doença, puro blues. (Ibidem, p.65 – grifos nossos)Os elementos que compõem a alegoria que acreditamos existir no conto não sãonovos na obra de Caio Fernando Abreu, eles já estão presentes, de certo modo àsavessas, nos contos “À beira do mar aberto”, também de Os dragões não conhecem o paraíso , “O afogado”, de O ovo apunhalado , e na novela “O marinheiro”, do livro Triângulo das águas . No segundo texto, o conflito vivido surge após o aparecimento deum homem desconhecido, que havia se afogado, em uma praia. O surgimento desteestranho “precipita e expõe uma situação que é a do protagonista, ele mesmo umestrangeiro no lugar, incapaz de se integrar” na comunidade praieira do local onde vive,conforme observa Bruno Leal (2002, p. 48-49). No último conto, a situação ésemelhante, pois é o surgimento de um estranho estrangeiro, vindo do mar, quenovamente provocará o conflito. Neste caso, o protagonista recebe a visita de um“marinheiro”, personagem que vai retirá-lo da condição de “cegueira” sobre si mesmo,permitindo-lhe a autodescoberta da homossexualidade e a sua libertação com respeito àsimposições sociais de gênero, assim conquistando a liberdade para viver conforme suasnecessidades e impulsos; liberdade que é metaforizada pela condição de marinheiro,pois esse pode viver navegando pelos mares – portanto “livre”, sem a prisão das quatroparedes de uma casa ou um aquário – em um espaço predominantemente masculino,onde normalmente não se faz presente a figura da mulher. Conforme a conclusão deMaria Cantoni (2008) ao encerrar seu artigo – também apresentado nesse simpósiosobre “Identidades emergentes na literatura brasileira e a reavaliação de seu cânone”:O homoerotismo, no conto “O marinheiro”, de Caio Fernando Abreu,é construído principalmente através da presença do estrangeiro, dooutro, representado pelo marinheiro que, vindo de realidades oníricas,propicia ao protagonista a compreensão de seus sonhos e visões. Aforte identificação que se dá no encontro destas duas personagensindica não só uma relação especular, mas é antes um indício dafragmentação da identidade do protagonista: o deparar-se com o outrosignifica também o deparar-se com o mais profundo e íntimo do seuser. 3. O NARRADOR MANIPULADOR E SEU JOGO ESPECULAR O narrador do conto não se encaixa muito bem nos modelos de análisecomumente utilizados. Apesar de apresenta-se num canto do bar não podemos defini-lomeramente como observador, posto que participa ativamente da história, e nem comoonisciente, conforme considera Bruno Leal (2002, p. 75), devido ao fato de ele mesmodemonstrar, diversas vezes, o caráter dedutivo de suas afirmações a respeito dospersonagens. Assim sendo, decidimos não dar importância a taxionomias de narrador,mas antes de tudo analisá-lo, buscando identificar suas estratégias de aliciamento doleitor. Pensamos que, ao levá-lo a crer na existência do estranhamento por parte dospersonagens em relação ao mundo, o narrador é o principal criador do conflito dosmesmos. Essa atitude é mesmo assumida por ele, o que se percebe quando afirma fuieu quem armou esta cilada ou: “Esse estranho poder demiurgo me deixa mais tonto que
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