Documents

o_poema_ou_o_caminho_do_impossivel.pdf

Description
O poema ou o caminho do impossível 343 O POEMA OU O CAMINHO DO IMPOSSÍVEL Uma leitura do poema em “O Meridiano” de P. Celan no rastro de J. Derrida* Hugo Mendes Amaral** (Universidade de Coimbra)
Categories
Published
of 22
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  343 O poema ou o caminho do imposs í  vel pp. 343-364  Revista Filos ófica de Coimbra—n. o  32 (2007) O POEMA OU O CAMINHO DO IMPOSSÍVEL Uma leitura do poema em “ O Meridiano ” de P. Celan no rastro de J. Derrida* Hugo Mendes Amaral** (Universidade de Coimbra) Kam, ja, auf der Strasse daher, der schönen P. Celan 1 d’un seul poème hier inaudible? J. Derrida 2 Levado pelo desejo de um come ç o ou de um acolhimento poss í  vel,abro a citar: “Alguma coisa, que pode ir, [ … ] vem” 3 . À  convoca çã o dapalavra herdada e confiada, recolhida neste verso do poema de Celan “À  la pointe ac é r é e ” , n ã o deixou Derrida de responder num reiterado * Texto resultante de uma investiga çã o em curso afecta ao Projecto de Investiga çã o  Jacques Derrida: Língua e Soberania a/c FLUC/FCT/POCI comparticipado pelo fundocomunit á rio europeu FEDER.** Bolseiro de doutoramento do Instituto de Investiga çã o Interdisciplinar da Univer-sidade de Coimbra. 1  P. Celan, “ Gespr ä ch im Gebirg ”  in  Der Meridian und andere Prosa , Suhrkamp,Frankfurt am Main, 1988, p. 23. “ Di á logo na montanha ”  in  Arte Poética – O Meridianoe outros textos , trad. port. Jo ã o Barrento e Vanessa Milheiro, Cotovia, Lisboa, 1996, p. 35: “ Pela estrada fora, era por onde vinha, pela bela estrada ” . 2  J. Derrida,  Le monolinguisme de l’autre – ou la prothèse d’srcine , Galil é e, Paris,1996, p. 126. O monolinguismo do outro – ou a prótese de srcem , trad. port. FernandaBernardo, Campo das Letras, Porto, 2001, p. 100: “ de um ú nico poema ontem inaud í  vel? ” 3 “Etwas, das gehen kann, [ … ] kommt” , Paul Celan, “À  la pointe ac é r é e ”  in Gesammelte Werke in fünf Bände , hersg. v. Beda Allemann, Stefan Reichter, Rolf B ü cher,Bd.1, Shurkamp, Frankfurt am Main, 1986, p. 252.  344  Revista Filosófica de Coimbra—n. o  32 (2007) pp. 343-364 Hugo Mendes Amaral apelo 4 , atando e delineando assim “ a amizade que convoca ao imposs í  vel ” 5 .Em Schibboleth – pour Paul Celan , ouvimo-lo, num eco, perguntar: “ Cami-nhos: [...] O que é  ir, vir, ir vir, ir e vir? [ … ] De que vinda, de que eventosingular se trata? De que imposs í  vel repeti çã o? ” 6 . Ao procurarmos abrir aquiuma  passagem  ao pensamento do poema como vinda  de um evento singular,na rota de uma viagem meridional ou  politrópica , entre dois infinitos 7 , rumoaos idiomas de Celan e de Derrida, seria pois preciso, em primeiro lugar  ,bem pronunciar schibboleth 8 , isto é , seria preciso partir na demanda 9 dopoema guiado pelo desejo de lhe repetir, justamente, a cifra impronunci á velou o que, no ir e   vir do poema, permanece irremediavelmente secreto 10 ,irredut í  vel a toda e qualquer inten çã o de totaliza çã o interpretativa. 4  O “ Vem ” , esse blanchotiano viens reiterado em a  Morte Suspensa (trad. port. JorgeCamacho, Edi çõ es 70, Lisboa, 1988, p. 86), esse “ vem ”  do poema de Val é ry, “ A Alma ea Dan ç a ”  ( “ vem, deixa-me recobrir-vos com/tudo o que é  meu/sou um s ó  contigo/para noscapturarmos/ mesmo agora ” , in  A Alma e a Dança e outros diálogos , trad. bras. MarceloCoelho, Imago, Rio de Janeiro, 1999, p. 46), ainda esse « viens »   que Derrida nos oferececomo  passo de um pensamento inaugural da reserva, esse “ vem ”  recolhido, suprimido eabrigado na escrita, ser á  for ç osamente par á frase e resposta incondicional a um convite aque s ó  poderemos responder num apelo renovado que se vai extinguindo, numa repeti çã oinventiva, disseminando-se, isto porque, e é  ainda o ensinamento de Derrida, o “ vem ”  n ã opode ser inventado sen ã o pelo outro, « depuis la venue de l ’ autre qui dit “ viens ”  et auquella r é ponse “ viens ”  para  î  t ê tre la seule invention d é sirable et digne de int é r ê t  » , J. Derrida, « Psych é . Inventions de l ’ autre  »  in Psyché. Inventions de l’autre , Galill é , Paris, 1987, p. 60. 5   É  Alain David quem, no ensaio « Penser l ’é poque avec L é vinas et Derrida » , sublinha: «“ Viens! ” , “ Viens ” , l ’ appel qui noue et programme l ’ amiti é , qui convoque à  l ’ impossible » in  Revista Filosófica de Coimbra , n. º  28, 2005, p. 352. 6   « Chemins (Wege) : quelque chose vient, qui peut aller [ … ]. Qu ’ est-ce qu ’ aller, venir,aller venir, aller et venir? Et devenir c œ ur? De quelle venue, de quel é v é nement singuliers ’ agit-il? De quelle impossible r é p é tition (Nach/ dem Unwiederholbaren, nach/ihm…) ? » ,J. Derrida, Schibboleth – pour Paul Celan , Galil é e, Paris, 1986, p. 15. 7  Cf. J. Derrida, Carneiros. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema , trad.port. Fernanda Bernardo, Palimage, Viseu, 2008 (no prelo). 8   « Il faut bien prononcer schibboleth  pour avoir le droit de passage » , J. Derrida, Schibboleth , p. 12. 9 « Un schibboleth , le mot schibboleth , si c ’ est un, nomme [ … ] toute marque signi-fiante, arbitraire, par exemple la diff  é rence phon é matique entre shi et si quand elle devientdiscriminante, d é cisive et coupante. Cette diff  é rance n ’ a aucun sens par elle-m ê me, maiselle devient ce qu ’ il faut savoir reconna  î  tre et surtout marquer pour  faire le pas , pour passerla fronti è re d ’ un lieu ou le seuil d ’ un po è me, se voir accorder un droit d ’ asile ou l ’ habi-tation l é gitime d ’ une langue » , ibid. , p. 50. 10   « La crypte demeure, le schibboleth  reste secret, le passage incertain, et le po è mene d é voile un secret que pour confirmer qu ’ il y a l à  du secret, en retrait, à  jamais soustraire à  l ’ exhaustion herm é neutique » , ibidem .  345 O poema ou o caminho do imposs í  vel pp. 343-364  Revista Filosófica de Coimbra—n. o  32 (2007) Com efeito, este exerc í  cio de digress ã o pelos caminhos da incondicio-nalidade do poema em torno do discurso O Meridiano 11 , esta hip ó tese depersegui çã o da palavra de Celan no rastro da desconstru çã o derridiana,apoiou-se, isto é , perdeu-se e reencontrou-se tantas vezes, de uma vez por todas , em desvelados instantes de err â ncia a que o movimento de leituraobriga. Procurar-se- á  assim afiar, num indeclin á vel e fatal timbre de repe-ti çã o e recita çã o, talvez ainda, e por isso mesmo, um pouco errante (e porque j á  em mais de uma língua 12 : caminho, chemin , Weg ), diria mesmo err á tico,e assumindo como tal o risco e a veem ê ncia do err ó nico, algumas palavrasque vinquem as dobras dobrantes 13 da textura po é tica de Celan. Comoretra ç ar ent ã o, atando e desatando as linhas in(di)vis í  veis de um meri-diano, enxertando , sim, como aprendemos a timpanizar  14 o nosso ouvidoao dizer de Derrida, e ecoando, procurando ecoar, ainda que no trilho doatrito, justamente, a tessitura trópica  urdida e tramada na   palavra e à  voz 11  Discurso de agradecimento do Pr é mio Georg B ü chner proferido por Celan emDarmstadt, a 22 de Outubro de 1960 e publicado ainda nesse ano no  Jahrbuch der deutschen Akademie für Sprache und Dichtung 1960  (Heidelberg, 1961, p. 74-88). Umdiscurso que, no dizer de Jo ã o Barrento, “é  o res í  duo da decanta çã o dif  í  cil de um manus-crito enorme ”  de “ notas, transcri çõ es e tentativas ” , ainda “ uma busca atormentada, umredemoinhar labir í  ntico ”  em torno da obra do poeta e dramaturgo G. B ü chner ( “ O mist é riodo Encontro ”  in  Arte Poética , p. 78) e que, para Philippe Lacoue-Labarthe « est prati-quement le seul document de sa po é tique » , ( « Advertissement »  in  La poésie commeexpérience Christian Bourgois, S.L., 2004 [1987], p. 9). 12  Entre o alem ã o e o franc ê s, os  passos  dos idiomas de Celan e de Derrida que aquise desejam fazer cruzar, e que permanecem absolutamente heterog é neos um ao outro,irredut í  veis na sua singularidade, ditar ã o aqui o caminho de um pensamento hiperb ó licoe paradoxal do poema num  passo-não passo para além da l í  ngua: mais de uma língua (e é  j á  uma das defini çõ es el í  pticas da desconstru çã o proposta por Derrida), traduzindo,de um s ó  gesto, n ã o s ó  a pluralidade bab é lica e universal da l í  ngua, mas sobretudo a pr ó priaheterogeneidade na l í  ngua (ou a l í  ngua como inapropri á vel monolíngua do outro ), a saber,o poema procurando falar (de) “ uma ”  l í  ngua que n ã o se deixa falar mais, permanecendoincalcul á vel e intoc á vel. 13  Procurar pensar a d á diva do poema como caminho do impossível  implicar á  pensarainda o poema como í  ndice do idioma,   da singularidade e do evento que a l í  ngua dobraou dissemina: “ E é  preciso salientar ainda, mas a partir do abismo, um acaso que n ã odeixar á  de complicar a d á diva ou a dobragem, de comprometer a dobra na dissemina çã o, como dissemina çã o. Porque é  como um pensamento do ú nico, justamente, e n ã o do plural,como demasiadas vezes se julgou, que um pensamento da dissemina çã o se apresentououtrora como um pensamento dobrante da dobra –  e dobrado à  dobra. ” , J. Derida, O mono-linguismo do outro , p. 41. 14  Para uma diligente leitura do motivo do t í  mpano como met á fora e como estrutura(obl í  qua), que nos d á  a pensar diferentemente a quest ã o do timbre, da marca e da margem,ver nomeadamente J. Derrida, “ Timpanizar –  a filosofia ”  in  Margens da filosofia , trad.port. Joaquim Torres Costa e Ant ó nio M. Magalh ã es, R é s-Editora, Porto, s.d.  346  Revista Filosófica de Coimbra—n. o  32 (2007) pp. 343-364 Hugo Mendes Amaral do   poema? Como desejar perseguir e tactear a pr ó pria palavra “ meridiano ” ,esse tropo atravessado  em rota çã o, locu çã o arquejante que nos lan ç a 15 numatenaz e rompida encruzilhada? Pensar o poema como caminho meridionaldo impossível  comprometer á  pensar ainda o enlace da experi ê ncia e dapromessa, como promessa de uma experiência   auto-heteronómica 16 , comoexigente experi ê ncia de um outro movimento de pensamento em redor daideia de poema,  para além  da  poesis aristot é lica, entre poesia e experiência poemática 17 , a í   onde o poema se torna a pr ó pria obsess ã o do caminho porentre “ o cruzamento de caminhos entre arte e poesia ” 18  ou, numa palavra,o outro do poema vindo abrir o pensamento do pr ó prio poema como movi-mento paradoxal de um caminho impossível , o que seria pensar ainda opoema, numa singular rela çã o de proximidade com o pensamento, como umoutro nome da desconstru çã o, como pensamento do limite  para além dadelimita çã o po é tica e filos ó fica ou ent ã o, o caminho da   incondicionalidadedo poema  vindo assim ditar um pensamento ultra-radical e hiper-cr í  tico deuma certa ideia institu í  da de po é tica. Um excesso n ã o tematiz á vel incendiar á a investiga çã o des medida de um texto em prosa à beira do poema, paraassim procurar reinventar uma certa ideia de poesia, como diria Jean-LucNancy, como ousarei dizer aqui com ele e em direcção a ele, e isto porque,inevitavelmente: “ n ã o é  poss í  vel n ã o contar com a poesia. Ou: é  preciso contar com apoesia. É  preciso contar com ela em tudo o que fazemos e pensamos deverfazer, pelo discurso, pelo pensamento, em prosa e na arte em geral.Independentemente do que se possa encontrar sob essa palavra, e supondo 15  Que é  como quem diz, num lance que me lan ç a, indeclinavelmente, na l í  ngua dooutro. E digo lance e lan ç amento, isto é , arremesso, entrega, comprometimento, “ porque,confesso ” , assim se acusa Derrida, “ eu entrego-me sempre à  l í  ngua. Mas à  minha como(sendo) a do outro, e entrego-me a ela com a inten çã o, quase sempre premeditada, de fazercom que da í   ela n ã o volte. ” , J. Derrida, O monolinguismo do outro , p. 65. 16   “ A loucura da lei aloja para todo o sempre a sua possibilidade no foro desta auto--heteron í  mia. ” , J. Derrida, O monolinguismo do outro , p. 56. E sublinho justamente experiência auto-heteronómica  porque, vinda como vem do outro, a palavra (po é tica),guiada pela lei aparentemente autónoma do idioma, é  o que é   “ preciso apropriar, domes-ticar, cortejar  , quer dizer, amar incendiando, queimar (o cortejar nunca est á  longe), talvezmesmo destruir, em todo o caso marcar, transformar, talhar, entalhar, forjar, enxertar aolume, obrigar a vir diferentemente, diferentemente dito, a si em si. ” , ibid  ., p. 68-69. 17  Dir-se- á   experiência poemática ou po é tica em desconstru çã o, com Derrida, comoum outro nome do imposs í  vel: « D ’ un seul trait, et c ’ est l ’ impossible et c ’ est l ’ experiencepo é matique » , J. Derrida, « Che cos’è la poesia? »  in Points de suspension , p. 306. 18   « Cette crois é e des chemins entre l ’ art et la po é sie, en ce lieu o ù  la po é sie se rendparfois sans m ê me la patience du chemin » , J. Derrida, Schibboleth , p.17.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x