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O POETA É UM CRENTE NUM TEMPO SEM DEUS: UMA ANÁLISE DOS REFLEXOS DO CRISTIANISMO NA LIRA DOS VINTE ANOS (1853)

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O POETA É UM CRENTE NUM TEMPO SEM DEUS: UMA ANÁLISE DOS REFLEXOS DO CRISTIANISMO NA LIRA DOS VINTE ANOS (1853) Welton Pereira e Silva Maikely Teixeira Colombini Introdução Na Lira dos Vinte Anos, Álvares
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O POETA É UM CRENTE NUM TEMPO SEM DEUS: UMA ANÁLISE DOS REFLEXOS DO CRISTIANISMO NA LIRA DOS VINTE ANOS (1853) Welton Pereira e Silva Maikely Teixeira Colombini Introdução Na Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo explicita que sua produção poética ali publicada pode ser dividida em duas partes. Essa separação, chamada por ele de binomia, é vista pela maior parte dos seus críticos como uma divisão consciente da sua produção lírica, já que ele menciona no prefácio da segunda parte da Lira que sua binomia é uma verdadeira medalha de duas faces. A partir disso, muitos críticos escreveram a respeito do caráter particular de cada uma das partes da obra, inclusive, a Lira foi divida posteriormente em três partes e não apenas em duas, como queria seu autor. As partes foram dividas devido às suas características diferenciadoras e dentre essas características podemos destacar a imagem da mulher, o espaço no qual se apresentam as cenas dos poemas e as menções a questões religiosas. Nesse artigo, nos debruçaremos sobre esses aspectos religiosos da Lira e tentaremos mostrar que as influências cristãs encontradas nessa coletânea poética ajudam a delinear a binomia citada e pretendida por Álvares de Azevedo já que, na primeira parte, que traz versos amorosos, inocentes e pueris, os versos que recorrem a temas religiosos citam anjos, clamam a Deus e a Jesus Cristo. Já na segunda parte da Lira, cujos versos apresentam poemas pessimistas e sarcásticos, as imagens do Inferno, as críticas ao Clero e as menções a Satã são frequentes. Dessa forma, as diferenças entre as partes da obra aqui estudada são melhor delineadas com o recurso a fontes e temáticas cristãs e analisar como se dão essas menções e como elas contribuem para a binomia azevediana foi o objetivo principal deste artigo. Para que nosso objetivo fosse alcançado, nos baseamos em alguns textos de estudiosos da Teopoética, nomeadamente o Tecendo comparações entre teologia e literatura, de Gaspari (2011). Nosso corpus de análise consistiu dos poemas da Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo. Diálogos entre Literatura e Religião As reflexões acerca das influências religiosas encontradas em textos literários vêm sendo feitas já há bastante tempo, mas foi apenas recentemente que uma área de pesquisa com metodologia própria vem se consolidando com a finalidade de estudar e procurar entender a maneira como se dão essas influências. A Teopoética, como se intitula os estudos comparativos feitos no âmbito da literatura e teologia, tem se destacado em diversas universidades e ganhando espaço na academia com diversos artigos publicados por literatos e teólogos. Segundo a professora Salma Ferraz (2012): a Teopoética foi proposta por Karl-Josef Kuschel e trata-se de um novo ramo de estudos acadêmicos voltado para o discurso crítico-literário sobre Deus, a análise literária efetivada por meio de uma reflexão teológica, o diálogo interdisciplinar possível entre Teologia e Literatura. (FERRAZ, 2012, p. 38) Na medida em que a Bíblia é o livro mais lido no mundo e que, sem dúvidas, influenciou grande parte da produção literária ocidental, o estudo das interseções entre literatura e religião se faz pertinente e necessário. Sabe-se, hoje em dia, que nenhum texto é um produto puramente inédito, mas sim, um apanhado de vários textos que foram escritos antes dele e aos quais o autor teve acesso. A esse fenômeno dá-se o nome de intertextualidade. É interessante destacar, porém, que os estudos teopoéticos não pretendem se focar apenas em uma dada visão acerca da religião e das crenças. Nessa medida, qualquer texto literário pode ser passível de análise, sejam aqueles tidos como literatura cristã, ou os chamados profanos. Mesmo algum texto explicitamente ateu pode ser analisado na medida em que estes também têm relação com os conceitos religiosos, mesmo que seja para negá-los. No que diz respeito aos ganhos por parte da Teologia, devemos levar em conta que essa área de estudo procura, dentre outros objetivos, compreender o humano e sua crença no Sagrado e como nos lembra a professora Silvana de Gaspari, a literatura torna-se quase que um arquivo da natureza humana, material precioso para as reflexões de cunho teológico (GASPARI, 2011, p. 127). A pesquisadora supracitada ainda nos lembra que ler um livro que possua elementos religiosos como conteúdo é, além de entretenimento, ter a possibilidade de analisar seu discurso em função e em comparação com a ideia que temos de Deus e suas implicações na humanidade. (GASPARI, 2011, p. 126). Podemos perceber, então, que muitas são as formas de estudarmos as relações existentes entre o conceito religioso e a literatura e o presente artigo faz um recorte e passa a analisar os escritos poéticos da Lira dos Vinte Anos e os reflexos deixados neles pelo Cristianismo. Afinal, pensar em sociedade e cultura ocidental é pensar na religião cristã que ajudou a moldá-las em vários de seus aspectos. Deus e o Romantismo O poeta é um crente num tempo sem Deus. Esse verso do poema Um cadáver de poeta foi escolhido como título para o nosso artigo por explanar, de forma simples e profunda, o sentimento pessimista da Segunda Geração Romântica. Após um período de proeminente exaltação nacional, a poesia romântica brasileira se voltou para um aspecto mais sombrio e egoísta do ser humano. Nessa fase, também conhecida como o Mal do Século, as temáticas poéticas procuravam refletir o que se produzia na Europa sob a influência de poetas como Lord Byron, na Inglaterra, e Alfred de Musset, na França. Sem dúvidas, no Brasil, o maior expoente dessa segunda geração de poetas foi o jovem Álvares de Azevedo, um estudante de Direito da Faculdade do Vale de São Francisco, faculdade esta que viria a fazer parte da Universidade de São Paulo alguns anos mais tarde. Apesar da vida curta, Álvares teve uma produção literária considerável e seus poemas são o que de melhor encontramos na literatura brasileira em se tratando do movimento ultra-romântico. Sua obra é permeada pelos parâmetros gerais que guiavam, por assim dizer, a produção literária romântica. Nesse ponto, podemos chamar a atenção para o fato de, no poema acima citado, o poeta relatar a visão romântica de que aquele tempo não tinha a presença de Deus. De acordo com Cilaine Alves (1998) (...) para o poeta romântico, os códigos rígidos e o bom senso do racionalismo clássico desespiritualizaram a vida humana, provocando uma separação entre o mundo dos espíritos e a existência empírica, denominada, por eles, ausência da face de Deus na terra. Dessa forma, procuram, através do sentimento de infinitude e de eternidade, uma nova atitude vital. (...) Esse anseio de mudança de vida, centrada na concepção de uma existência que fosse capaz de atingir o próprio reino da infinitude, será vivenciado, na literatura romântica, como uma concentração de poderes divinos, quase mágicos, nas mãos da subjetividade. O eu artístico adquire, no romântico, uma capacidade inaudita, inédita até então, na história literária: a missão de mediar a ligação entre o mundo divino e o mundo terreno. (ALVES, 1998, p. 73) O gênio romântico, ou seja, a inspiração intrínseca aos artistas, era considerado como algo divino. O poeta, por extensão, seria um ser tocado pelo Divino e, portanto, tinha a missão de ligar o mundo físico ao transcendental. Outro fator interessante a se ressaltar é a possibilidade da visão romântica da religiosidade como uma escapatória do mundo. Ou seja, da mesma forma como o sonho, a infância e a morte, a religião e o conforto por ela oferecidos também podem ser entendidos como uma forma de escapismo para o poeta romântico. Binomia azevediana: o sacro e o profano No prefácio da segunda parte da Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo explicita sua intenção de separar os versos da sua coletânea poética em dois tipos diferentes. Assim, a primeira parte da Lira traz versos, sobretudo, inocentes, quase pueris, que evocam a presença de virgens imaculadas, praias oníricas e objetos que refletem um ambiente próprio dos sonhos e do ideal imaginado. No entanto, a segunda parte traz versos satíricos, cínicos e que, por vezes, nos apresentam imagens descrentes de um mundo cruel povoado de padres pecadores e mulheres perdidas, de acordo com o imaginário oitocentista. Apesar de não fazer uma terceira separação da sua coletânea, no final da obra, Álvares voltou a copilar poemas que apresentavam suas temáticas mais parecidas com os da primeira parte. Devido a isso, a crítica atual entende a Lira como divida em três partes, e não apenas em duas, como pretendia seu autor. Conforme o próprio Álvares nos adverte: Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban. A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces. (AZEVEDO, 2009, p. 111) Ariel, o espírito do ar, belo e alegre e Caliban, a criatura medonha, filho de uma bruxa. É com a menção a essas duas figuras da peça A Tempestade de Willian Shakespeare que nosso poeta procura ilustrar a natureza dual de sua produção poética. A binomia, como ele intitulou essa separação consciente de seu lirismo, é objeto de estudo de vários trabalhos acadêmicos na medida em que ela reflete duas fases da produção literária azevediana e, mais do que isso, denuncia a construção lúcida e proposital de um fazer poético duplo por parte do autor. São vários os aspectos particulares de cada uma das faces dessa mesma medalha: o espaço no qual se situam os poemas são oníricos e enigmáticos na primeira parte e realistas na segunda; além disso, a imagem da mulher é altamente dicotômica, aparecendo virginal e cândida na primeira e vulgar e mais acessível aos amores do sujeito poético nos versos da segunda parte. No presente trabalho, objetivamos analisar as alusões a aspectos religiosos na Lira dos Vinte Anos procurando demonstrar que, na primeira parte, as menções a Deus, Jesus e aos anjos são frequentes enquanto que na segunda o poeta evoca as imagens de padres pecaminosos e até mesmo de Satã e do Inferno. Desse modo, acreditamos que as influências religiosas, nomeadamente católicas, servem também como aspectos delineadores da binomia na Lira dos Vinte Anos. Na primeira parte da obra poética, por vezes as imagens de anjos são evocadas para contribuírem com a atmosfera cândida e pura dos poemas. Além disso, como já dissemos anteriormente, as mulheres retratadas e idealizadas nesse momento da Lira são virgens, distantes, puras e para ajudar na construção das imagens oníricas dessas virgens, o poeta as compara diversas vezes aos anjos do céu: Dorme, ó anjo de amor! no teu silêncio O meu peito se afoga de ternura... E sinto que o porvir não vale um beijo E o céu um teu suspiro de ventura! Um beijo divinal que acende as veias, Que de encantos os olhos ilumina, Colhido a medo, como flor da noite, Do teu lábio na rosa purpurina... Observem que nessas duas estrofes do poema Quando à noite no leito perfumado o eu-lírico dá à sua amada aspectos idealizantes relativos ao sagrado, à religião, afinal, ele a chama de anjo de amor e diz que sua amada possui um beijo divinal que o excita. Note que em apenas um pequeno trecho já podemos encontrar três lexemas relativos ao campo semântico do religioso: anjo, céu e divinal. Outro aspecto interessante a se ressaltar é que, por vezes, Deus aparece como um confidente para o eu-lírico, um interlocutor, um ouvinte de seus queixumes: Era uma noite: eu dormia... E nos meus sonhos revia As ilusões que sonhei! E no meu lado senti... Meu Deus! por que não morri? Por que no sono acordei? ---x--- Fui um doudo em sonhar tantos amores... Que loucura, meu Deus! Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato, Todos os sonhos meus! (...) Adeus, pobre mulher! no meu silêncio Sinto que morrerei... Se rias desse amor que te votava, Deus sabe se te amei! Na primeira estrofe do poema O Poeta, encontramos um sujeito poético lamentoso por ter sonhado com sua amada, sonho este que lhe trouxe a dor passada. Nessa estrofe, ele dirige uma pergunta diretamente a Deus e o torna seu interlocutor, indagando-o sobre o porquê de não ter morrido, já que a morte era um mal menor que o sonho com a amada. Da mesma forma, as duas estrofes seguintes, retiradas do poema Fui um doudo em sonhar tantos amores trazem também esse Deus ouvinte e confidente, mas também um Deus testemunha dos sofrimentos do eu-lírico. No entanto, esse mesmo Deus foi negado um pouco mais à frente, fato que levou o sujeito poético ao arrependimento: Ao pé das aras, ao clarão dos círios, Eu te devera consagrar meus dias... Perdão, meu Deus! perdão... Se neguei meu Senhor nos meus delírios E um canto de enganosas melodias Levou meu coração! (...) Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias À alma que se perdeu bradar de novo: Ressurge-te ao amor! Macilento, das minhas agonias Eu deixaria as multidões do povo Para amar o Senhor! Esse poema, intitulado Lágrimas de Sangue, apresenta uma atmosfera apocalíptica e pessimista. Nele, o sujeito poético lamenta sua vida voltada aos vícios e aos amores não correspondidos. Ao fim, ele apenas afirma que se arrepende e pede o perdão de Deus. Observe que esse clamor é muito parecido com o Ato de Contrição da Igreja Católica. Oração através da qual o fiel se reconhece pecador e pede o perdão de Deus. Nesse poema, o autor evoca, algumas vezes, cenas apocalípticas que demonstram seu medo escatológico em relação ao porvir: Quando o trovão romper as sepulturas, Os crânios confundidos acordando No lodo tremerão... No lodo pelas tênebras impuras Os ossos estalados tiritando Dos vales surgirão! Essa estrofe se assemelha bastante com uma passagem do livro de Ezequiel e nos permite fazer uma comparação entre as imagens ali descritas: Enquanto eu estava profetizando, ouvi um barulho e vi um movimento entre os ossos, que começaram a se aproximar um do outro, cada um com o seu correspondente. (...) Pois bem! Profetize e diga: Assim diz o Senhor Javé: Vou abrir seus túmulos, tirar vocês de seus túmulos, povo meu, e vou levá-los para a terra de Israel. (Ezequiel, 37: 7; 12). Apesar de não haver uma correlação direta, podemos notar certa intertextualidade entre o texto poético e o bíblico. Na verdade, essa intertextualidade não é surpresa na medida em que no poema Idéias Íntimas, tomado pela crítica psicobiográfica como uma representação da vida do próprio Álvares, o sujeito poético afirma que a Bíblia dorme junto ao seu leito ao lado dos poetas Byron, Shakespeare e Dante. Mesmo que nos atenhamos apenas ao sujeito poético, notamos que a preocupação em demonstrar seu lado espiritual e religioso é uma constante nos poemas da primeira parte da Lira. No poema acima analisado, por exemplo, não podemos deixar de notar que o sujeito poético afirma veementemente sua posição de crente, na medida em que clama pelo perdão de Deus. Passando para a análise da segunda parte da Lira dos Vinte Anos, podemos começar dizendo que primeira menção a Satã ocorre logo no início da face Caliban da obra: Não Deus, porém Satã no peito vácuo Uma corda prendeu-te o egoísmo! Oh! miséria, meu Deus! e que miséria! Esse é um trecho do primeiro poema da segunda parte intitulado Um Cadáver de Poeta. Nele, um trovador morre de fome, mas não é aparado por ninguém, nem mesmo por um bispo que é descrito em uma imagem sarcástica e caricatural. Nessa parte do poema, o sujeito poético reclama do egoísmo humano, dizendo que o próprio Satã é o responsável por este sentimento. Além da citação a Satã, a segunda parte traz frequentes críticas ao Clero e aos seus representantes, sempre representando os Bispos, frades e cônegos como homens corpulentos que se esbaldam em jantares nos colos de mulheres. Devemos lembrar, também, que o Bispo descrito em Um Cadáver de Poeta não demonstrou piedade pelo cadáver, o que vai contra os ensinamentos da Igreja Católica. Esse Bispo, como o próprio sujeito poético menciona, era comparável aos da Idade Média, que Sabiam engordar na sinecura; Papudos santarrões, depois da Missa Lançando ao povo a bênção por dinheiro! Além da crítica, há uma verdadeira denúncia por parte do sujeito poético em relação ao comportamento dos representantes clericais desde a Idade Média. Na segunda parte, talvez o poema que melhor represente as idéias inspiradas pelo Mal do Século em relação à religiosidade seja o canto VI do conjunto Spleen e Charutos intitulado O Poeta Morimbundo. Nesse poema, o eu-lírico é um poeta em leito de morte que satiriza sua situação. Em uma dada situação, na qual ele pede pelo Inferno, o eu-lírico começa a divagar sobre esse lugar: No inferno estão suavíssimas belezas, Cleópatras, Helenas, Eleonoras... Lá se namora em boa companhia, Não pode haver inferno com Senhoras! Se é verdade que os homens gozadores, Amigos de no vinho ter consolos, Foram com Satanás fazer colônia, Antes lá que do Céu sofrer os tolos! Notem, portanto, que a ironia azevediana presente no poema acima serve para demonstrar a visão do sujeito poético, típico da segunda parte da Lira, a respeito do Inferno. Para ele, seria mais prazeroso terminar em um lugar repleto de suavíssimas belezas, sem senhoras, na companhia de homens gozadores, amigos do vinho. Ou seja, o Céu seria um lugar no qual os tolos sofrem, mas no Inferno, estão aqueles que souberam aproveitar os prazeres terrenos. Na segunda parte da coletânea poética de Álvares de Azevedo observamos, portanto, as menções ao Inferno, a Satã e às práticas pecaminosas dos representantes do Clero. Fato que não aconteceu na primeira parte. Por fim, para corroborar os estudos teóricos que defendem a separação da Lira dos Vinte Anos em três partes, podemos dizer que os poemas pertencentes a essa última trazem novamente à tona as temáticas características da primeira. Observe, por exemplo, a primeira estrofe do poema que inaugura a terceira parte: Meu desejo? era ser a luva branca Que essa tua gentil mãozinha aperta, A camélia que murcha no teu seio, O anjo que por te ver do céu deserta x--- Vem, anjo, minha donzela, Que noite! que noite bela! Como é doce a viração! Minh alma, meu coração... Esse poema, Meu desejo, rompe com a temática sarcástica e realista dos poemas da segunda parte e volta a representar a mulher como um ser idealizado e distante. Da mesma forma, o sujeito poético volta a trazer a imagem de um anjo, mas desta vez, o anjo seria o próprio amante. Já a segunda estrofe apresentada, pertencente ao poema Amor, volta a se referir à amada como um ser angelical. Além disso, em um momento posterior dessa terceira parte, como ocorreu na primeira, Deus volta a ser testemunha e confidente do sujeito poético, como podemos observar nessa estrofe do poema Por que mentias?: Sabe Deus se te amei! sabem as noites Essa dor que alentei, que tu nutrias! Sabe este pobre coração que treme Que a esperança perdeu porque mentias! Por fim, devemos citar um poema que, embora pertencente à terceira parte, mantém uma ligação forte com a temática pessimista da segunda. No poema Desânimo, o sujeito poético expõe todo o seu desgosto pela sua presente situação e chega a blasfemar contra Deus: Eu sofro tanto! meus exaustos dias Não sei por que logo ao nascer manchou-os De negra profecia um Deus irado. Nesse ponto, o sujeito poético confere seu fardo a Deus, que manchou seu nascimento. Este poema dialoga com o soneto camoniano O dia em que eu nasci moura e pereça, que por sua vez, dialoga com a lamentação de Jó. No poema de Camões, o eu-lírico amaldiçoa o dia do seu nascimento dizendo que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!. Observe que os dois poemas têm em comum o cantar da desgraça da vida do sujeito poético, no entanto, enquanto que no poema camoniano é o nascimento do sujeito que torna o dia maldito, no poema de Álvares de Azevedo, a culpa é do Deus irado. A pesquisadora Maria Vitalina Leal de Matos encontrou uma possível intertextualidade entre o poema de Camões e o livro de Jó, já que este person
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