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O POETA SETUBALENSE GRAVATINHA

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OLD SONGPAPER FROM POPULAR PORTUGUESE POET "GRAVATINHA" (IN PORTUGUESE); ANTIGO FOLHETO DE CANÇÕES DO POETA POPULAR SETUBALENSE "GRAVATINHA" (1930)
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  • 1. O "GRAVATINHA" * Poeta Popular Setubalense *
  • 3. COLECÇÃO DE 7 LINDAS CANÇÕES AO FADO em diversos sentidos ANTÓNIO AUGUSTO GRAVATINHA SETÚBAL, 1930
  • 4. SETÚBAL em 1930
  • 5. <ul><li>ANTÓNIO AUGUSTO GRAVATINHA foi barbeiro em Setúbal, durante as primeiras décadas do séc. XX. Com a profissão acumulava as artes de poeta, cantor e manipulador de marionetes de cartão, por ele próprio confeccionadas. Apresentava-se na rua ou em casas aonde fosse chamado a mostrar as suas habilidades. </li></ul><ul><li>Conta meu Pai, à altura com 16 anos, que meu Avô paterno um dia chamou o Gravatinha para abrilhantar uma celebração caseira, altura em que o popular poeta terá oferecido este folheto aos donos da casa. </li></ul><ul><li>No vetusto folheto, podem ler-se sete das suas “Canções ao Fado” (destino), “em diversos sentidos”, como as designava. </li></ul><ul><li>Este personagem Setubalense, segundo meu Pai, costumava dar início às suas actuações com a seguinte frase: </li></ul><ul><li>– Vai cantarr o Grravatinha, com a “grraganta” afinadinha! - carregando nos “RR” como é vulgar na região Sadina. </li></ul><ul><li>Leonor Nascimento </li></ul><ul><li>Setembro 2008 </li></ul>
  • 7. A LUZ ELECTRICA QUADRA Em Setúbal a luz electrica Foi um mar de desventuras, Após a inauguração, Ficou a cidade às escuras. DÉCIMAS <ul><li>Foi vexame primitivo, P´ra Setúbal uma vergonha, Toda a gente fez carantonha, Sem saber qual o motivo. Fica escrita então no livro, Esta data geométrica, Foi porque a fita métrica, Não mediu bem o terreno. Foi desastre e não pequeno, Em Setúbal a luz electrica. </li></ul><ul><li>Foi grande infelicidade, Que se proporcionou, E que logo motivou A rebaixar a cidade. O povo cheio de vaidade, Com falinhas obscuras, Deitou logo mil aventuras, Contra o mau funcionamento. Porque a luz neste momento, Foi um mar de desventuras. </li></ul><ul><li>Foi porque a energia, Não estava bem montada, E nem aperfeiçoada, Já se sabe como devia. Quasi mesmo no próprio dia Da sua apresentação, Fizeram observação, P´ra verem qual o efeito. Por isso se notou defeito, Após a inauguração. </li></ul><ul><li>Os planos foram falhos, E o povo então murmura, Setúbal fez má figura, Por atrazarem os trabalhos. Setubalenses penduricalhos, Põem-se em grandes alturas, Pois só têm imposturas, Diziam os forasteiros. Só c´o a luz dos candeeiros, Ficou a cidade às escuras. </li></ul>
  • 9. M Ã E ! QUADRA O lindo nome de mãe, Revela a luz da bondade, Mãe é deusa dos carinhos, Símbolo de felicidade. DÉCIMAS <ul><li>É muito triste viver, Sem uma mãe adorada, Quem não tem mãe não tem nada Tenho ouvido dizer. Nesta frase eu quero crer, É doce anelo de bem, Nome que doçura tem, E é tão mal estimado. Deve ser sempre lembrado, O lindo nome de mãe. </li></ul><ul><li>É mui feliz quem possui, Esse belo talismã, Que com carinho e afã, As suas dores atenue. Santo nome que influe, O bem da Humanidade, É o braço da caridade, Esse ente inegualável. Que por ser mui adorável, Revela a luz da bondade. </li></ul><ul><li>Por muito má que ela seja, Deve-se sempre respeitar, E com atenção olhar, Pelo ser que nos bafeja. Por muito longe que esteja, A vida são pergaminhos, Por espinhosos caminhos Julga o filho sempre andar. Nele está sempre a pensar, Mãe é deusa de carinhos. </li></ul><ul><li>Ela é que nos deu o ser, Dedicando amor profundo, Se somos gente no mundo, A ela se deve agradecer. Portanto é fácil de prever, Não há igual amizade, Seio da generosidade, Bandeira da misericórdia. É estampa da concórdia, Símbolo de felicidade. </li></ul>
  • 11. A CÂMARA VELHA PARA O BOMFIM FADO CANÇÃO MOTE Pobre campo do Bomfim, Deitaram-te ao abandono, De ti não querem saber. Deixaram-te ficar assim, Pareces um pobre mono, e ninguém te quer valer. GLOSAS <ul><li>Já findou tua alegria </li></ul><ul><li>Que outrora gozavas, </li></ul><ul><li>Quando eras visitado, </li></ul><ul><li>Hoje choras noite e dia, </li></ul><ul><li>Pois que nunca esperavas, </li></ul><ul><li>De seres assim despresado, </li></ul><ul><li>Com certeza não contavas </li></ul><ul><li>De hoje estares neste estado </li></ul><ul><li>Ao ver-te desperta o sono, </li></ul><ul><li>Fizeram-te mil diabruras, </li></ul><ul><li>Tiraram-te até o trono, </li></ul><ul><li>O teu pezar não tem fim, </li></ul><ul><li>Desapareceram as aventuras, </li></ul><ul><li>Pobre campo do Bomfim, </li></ul><ul><li>Deitaram-te ao abandono. </li></ul><ul><li>És um deserto perfeito, </li></ul><ul><li>Todos de ti escarnecem, </li></ul><ul><li>Ninguém te liga nem meia, </li></ul><ul><li>Outras obras teem feito, </li></ul><ul><li>Obras que menos merecem, </li></ul><ul><li>Que Setúbal não anceia, </li></ul><ul><li>São coisas que não exercem, </li></ul><ul><li>Que a cidade te afogueia, </li></ul><ul><li>Não dão gosto nem prazer, </li></ul><ul><li>Tu é que devias de ser, </li></ul><ul><li>O primeiro cá a meu ver </li></ul><ul><li>A ser reconstruído. </li></ul><ul><li>Tiraram de ti o sentido, </li></ul><ul><li>Estás de todo esquecido, </li></ul><ul><li>De ti não querem saber. </li></ul>
  • 12. GLOSAS (continuação) <ul><li>Amigo, tem paciência </li></ul><ul><li>Sei que é custoso bocado, </li></ul><ul><li>Ir tudo por água abaixo, </li></ul><ul><li>Tens que pedir clemência, </li></ul><ul><li>Fazeres abaixo assignado, </li></ul><ul><li>Para teres parte no tacho. </li></ul><ul><li>Tenho pena de ti, coitado, </li></ul><ul><li>Eras o deus do riacho, </li></ul><ul><li>Todos te davam abono, </li></ul><ul><li>Com merendas e jantares, </li></ul><ul><li>Musicatas de outono, </li></ul><ul><li>Tinhas amigos sem fim. </li></ul><ul><li>Eu creio nos teus pezares, </li></ul><ul><li>Deixaram-te ficar assim, </li></ul><ul><li>Pareces um pobre mono. </li></ul><ul><li>Põe bem os olhos em mim, </li></ul><ul><li>Que no mesmo estado estou, </li></ul><ul><li>Implorando protecção, </li></ul><ul><li>A infelicidade enfim, </li></ul><ul><li>Em meu peito penetrou, </li></ul><ul><li>Já ninguém me dá a mão. </li></ul><ul><li>De mim se apoderou, </li></ul><ul><li>A má orientação, </li></ul><ul><li>O desleixo e mau parecer, </li></ul><ul><li>P´ra qui estou a sofrer, </li></ul><ul><li>Deixam-me assim morrer, </li></ul><ul><li>Dou o suspiro derradeiro. </li></ul><ul><li>E tu és meu companheiro, </li></ul><ul><li>Estás nesse cativeiro, </li></ul><ul><li>E ninguém te quer valer. </li></ul>
  • 14. O BOMFIM PARA A CÂMARA VELHA FADO CANÇÃO (RESPOSTA) MOTE Podes juntar-te comigo, estamos ambos no rol, No rol da pouca sorte Estamos livres de perigo, A enxugar-mos ao sol, Esperando o vento norte. GLOSAS <ul><li>Tu contenta-te como eu, </li></ul><ul><li>P´ráqui estou ao Deus dará, </li></ul><ul><li>Quási um campo solitário, </li></ul><ul><li>A sorte de mim descreu, </li></ul><ul><li>Já tarde se lembrará, </li></ul><ul><li>Pôr termo ao meu fadário. </li></ul><ul><li>Nem nas Caldas tenho já, </li></ul><ul><li>O remédio necessário, </li></ul><ul><li>Para eu me pôr em pról, </li></ul><ul><li>Minha beleza voou </li></ul><ul><li>Sou um porto sem abrigo, </li></ul><ul><li>Posso ir fazer cerol. </li></ul><ul><li>Tu bem vês como eu estou </li></ul><ul><li>Podes juntar-te comigo, </li></ul><ul><li>Estamos ambos no rol. </li></ul><ul><li>Por minha infelicidade, </li></ul><ul><li>Até p´ra maior desgraça, </li></ul><ul><li>O meu jardim deu-lhe um ar, </li></ul><ul><li>Era o melhor da cidade, </li></ul><ul><li>Para onde a populaça, </li></ul><ul><li>Satisfeita ia gozar. </li></ul><ul><li>Mas pegou em mim a traça, </li></ul><ul><li>Traça para começar, </li></ul><ul><li>Minha dôr ligeira e forte, </li></ul><ul><li>Nunca pensei que o meu porte, </li></ul><ul><li>Tivesse sofrer este corte, </li></ul><ul><li>Que foi bastante custoso, </li></ul><ul><li>Foi-se o meu tempo de gozo, </li></ul><ul><li>Estamos ambos no repouso, </li></ul><ul><li>Estamos ambos no rol. </li></ul>
  • 15. GLOSAS (continuação) <ul><li>Com falsos prometimentos, </li></ul><ul><li>Andaram-me a iludir, </li></ul><ul><li>E deixaram-me ficar, </li></ul><ul><li>Para dar ais e lamentos, </li></ul><ul><li>E o povo então se rir, </li></ul><ul><li>E de mim escarnear. </li></ul><ul><li>Não me deviam mentir, </li></ul><ul><li>nem tão pouco me enganar, </li></ul><ul><li>Apagaram meu farol, </li></ul><ul><li>Eu espero a última moda, </li></ul><ul><li>Por ser assim tão antigo, </li></ul><ul><li>Já nem mereço cremol. </li></ul><ul><li>Estamos ambos na roda, </li></ul><ul><li>Estamos livres de perigo, </li></ul><ul><li>a enxugar-mos ao sol. </li></ul><ul><li>Somos emfim dois queixosos, </li></ul><ul><li>Desta mimosa cidade, </li></ul><ul><li>Que é a Rainha do Sado, </li></ul><ul><li>Tristonhos e desditosos, </li></ul><ul><li>de nós não há piedade, </li></ul><ul><li>Estamos postos de lado. </li></ul><ul><li>Só se pensa na vaidade, </li></ul><ul><li>Neste paiz desgraçado, </li></ul><ul><li>Nada se me dá importe, </li></ul><ul><li>Fomos condenados à morte, </li></ul><ul><li>Que fatal e duro golpe </li></ul><ul><li>Nós haviamos de sofrer. </li></ul><ul><li>Não temos jamais que vêr, </li></ul><ul><li>Ficaremos, é de prever, </li></ul><ul><li>Esperando o vento norte. </li></ul>
  • 17. V A I D A D E !!! QUADRA Está tudo desgraçado Cá no nosso Portugal, As mulheres quasi nuas, É uma vaidade geral. DÉCIMAS Nunca vi uma coisa assim, É mesmo um louvar a Deus, Fazerem os pobres plebeus, Fazerem cruzes sem fim. As damas com seu quindin. Inebriam o Zé pasmado Por elas ilucidado Vai no bote, cae na rede. Do amôr fazem parede, Está tudo desgraçado. Deusas da provocação, Cumulos da falsidade, Com a tolice e a vaidade, Nem sabem andar pelo chão. Empoadas até mais não, Até às vezes cheiram mal, Querem tanto que afinal, Arruinam a saúde, É esta a bôa atitude, Cá no nosso Portugal. Elas andam mesmo em braza, A verdade é nua e crua, Quem as vê ahi p´la rua, Não diz o que são em casa. Levam sempre grão na aza, Enchem-se de falcatruas, E então fazem das suas, Tratam pois de se pintarem, Para os homens enganarem, As mulheres quasi nuas. Dizem que é p´ra economia, E p´ra andarem mais fresquinhas E se mostram as perninhas, É p´ra terem simpatia. Quer de noite quer de dia, É poema triunfal, É costume habitual, Assim é que manda a moda. Na baixa e na alta roda, É uma vaidade geral.
  • 19. FRASES SETUBALENSES QUADRA Setúbal tem bôas frases, Algumas eu vou citar, P´ró costume não perder, Não deixo de criticar. DÉCIMAS Continuando a lenga-lenga, “ Comigo ninguém se mete”, Dizem ainda, grande frete, Nesta língua flamenga. Sem um dito nem arenga, Assim se fazem as pazes, “ Cuidado rapaz não cases”, Também se costuma dizer, Para ouvir e aprender, Setúbal tem bôas frases. Frazes de prima o cartel, Que às vezes trazem azares, Eis uma das mais vulgares: “ Ti Maria e Ti Manel”. Palavriado a granel, E linguado a fartar, E uma coisa de pasmar, Palavrinhas com richaço. Aqui em curto espaço, Algumas eu vou citar. Propondo a lei do Selo A todos os fideltras pêcos, É frase dos papos-sêcos: “ Joãosinho vai ao gelo”. Decerto não tem apêlo, Frazes, modas a valer, Já não se ouve dizer: “ O qué couve; antão que há”. “ Diz-se às vezes, ahi pá!...” P´ró costume não perder. E para que tudo acabe, Nesta lida tão perversa, Para pôr termo à conversa, “ Diz-se então: já se sabe”. Para que ninguém se gabe, “ Diz-se logo: põe-te a cavar”, “ Ou ver se tem água o mar”, “ Ou então vae ver se chove”. Não havendo quem me estorve, Não deixo de criticar.
  • 21. O ARROBAS E A MARRECA QUADRA O Arrobas e a Marréca, É um par mui interessante, De Setúbal as mascotes, Fazem um conjunto brilhante. DÉCIMAS <ul><li>Ele está sempre zangado, </li></ul><ul><li>Parece que a faz em postas, </li></ul><ul><li>E ela com a roupa às costas, </li></ul><ul><li>Cumpre assim o triste fado. </li></ul><ul><li>Ele é muito bem creado, </li></ul><ul><li>Já se sabe, é bôa teca, </li></ul><ul><li>Para afinar a rabéca, </li></ul><ul><li>Ela bebe à valentona, </li></ul><ul><li>Querem óleo de mamôna, </li></ul><ul><li>O Arrobas e a Marréca. </li></ul><ul><li>É bonito vê-los juntinhos, </li></ul><ul><li>Quando estão satisfeitos, </li></ul><ul><li>Parecem amôres perfeitos, </li></ul><ul><li>São tal qual dois pombinhos. </li></ul><ul><li>Dois pingentes, coitadinhos, </li></ul><ul><li>De interesse palpitante, </li></ul><ul><li>É um quadro mirabolante, </li></ul><ul><li>Visto pelo telescópio, </li></ul><ul><li>Puro tabaco sem ópio, </li></ul><ul><li>É um par mui interessante. </li></ul>
  • 22. Uma bomba de metralha, É que eles estão a pedir, Faz-me lembrar a sorrir, O Caldinho e a Esgalha. Quando ele com ela ralha, Um p´ró outro dizem motes, Até às vezes dão pinotes, Fazendo grande arraial, É este lindo casal, De Setúbal as mascotes. <ul><li>Talvez na Exposição, </li></ul><ul><li>Eles ganhassem o prémio, </li></ul><ul><li>Se fossem ao baile ao Grémio, </li></ul><ul><li>Faziam grande vistão. </li></ul><ul><li>Anda sempre no balão, </li></ul><ul><li>Este par assim galante, </li></ul><ul><li>Dá um gesto cativante, </li></ul><ul><li>A esta nobre cidade, </li></ul><ul><li>Porque eles na verdade, </li></ul><ul><li>Fazem um conjunto brilhante. </li></ul><ul><li>Quem quizer felicidade, </li></ul><ul><li>P´ra viver sem se ralar, </li></ul><ul><li>Um conselho lhes vou dar, </li></ul><ul><li>De mui grande utilidade. </li></ul><ul><li>Será feliz, na verdade, </li></ul><ul><li>De afiançar me gabo, </li></ul><ul><li>E por vos dizer acabo, </li></ul><ul><li>O meu pensar não é falho. </li></ul><ul><li>Habilitae-vos no Carvalho (*) </li></ul><ul><li>Mais conhecido p’lo Diabo. </li></ul>(*) - António Augusto de Carvalho, de alcunha “O Diabo”, meu Tio-Avô paterno, que era dono de uma casa de lotarias, em Setúbal.
  • 23. L.N. 2008 FIM (Música de Fado de Autor desconhecido) [email_address]
  • Dialetica

    Sep 13, 2018
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