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O poeta vê a poesia. Juiz de Fora, julho de 1924: as origens do pensamento crítico de Carlos Drummond de Andrade. Djalma Cavalcante*

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O poeta vê a poesia Juiz de Fora, julho de 1924: as origens do pensamento crítico de Carlos Drummond de Andrade Djalma Cavalcante* C Abstract omments on the so far unknown text As Condições Atuais da Poesia
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O poeta vê a poesia Juiz de Fora, julho de 1924: as origens do pensamento crítico de Carlos Drummond de Andrade Djalma Cavalcante* C Abstract omments on the so far unknown text As Condições Atuais da Poesia no Brasil ( The Present Conditions of the Brazilian Poetry ), written by Carlos Drummond de Andrade for the newspaper Gazeta Commercial, in 1924, and found in Keywords: Archives, memory, Carlos Drummond de Andrade. O recente achamento de algumas colaborações de Carlos Drummond de Andrade no jornal Gazeta Commercial, da cidade mineira de Juiz de Fora, nos dá elementos para uma reavaliação * Pesquisador na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ipotesi, revista de estudos literários Juiz de Fora, v. 6, n. 2 p. 11 a das origens do pensamento crítico de Drummond. Vejamos inicialmente qual foi o contexto em que ocorreram essas colaborações. Os primeiros anos da década de 20 do século passado foram marcados por uma série de eventos que sinalizaram, com clareza, as profundas transformações pelas quais o Brasil passava. Foi ao longo desses anos que surgiu e tomou corpo o movimento tenentista que, de então até 1930, foi elemento decisivo para o fim da Primeira República e o surgimento de uma nova constelação política que passaria a exercer o controle sobre os destinos da nação. A acumulação de capital propiciada pelo surto cafeeiro, desde meados do século XIX, mais a crescente presença da mão-de-obra imigrante e a abolição da escravatura, favoreceu a ocorrência de um desenvolvimento industrial que se acelerou em função da necessidade de substituição das importações dificultadas pela Primeira Guerra Mundial (1914/18). O desenvolvimento industrial e a presença de imigrantes, especialmente os italianos, que possuíam relativa consciência das questões sociais e ideológicas, deram origem a movimentos políticos e sociais, evidenciados pela realização de diversas greves importantes, que culminaram com a fundação do Partido Comunista Brasileiro, em No mesmo ano de 1922, acontecia em São Paulo, a mais industrializada e operária das cidades brasileiras de então, a Semana de Arte Moderna. Esse evento foi, na verdade, o auge de intensas agitações e transformações que vinham ocorrendo em meio à juventude intelectualizada da paulicéia, na época mais desvairada do que nunca. Todas essas transformações, que tinham como eixo as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, reverberavam, com maior ou menor intensidade, em todo o Brasil, particularmente em Minas Gerais e, mais especificamente, na Zona da Mata mineira. Algumas cidades mineiras da Zona da Mata, por exemplo Juiz de Fora e Cataguases, reproduziam em pequenas proporções os mesmos fenômenos que vinham ocorrendo em São Paulo. Também nelas havia uma acumulação de capital derivada do café, um surto industrial, uma crescente presença de imigrantes e uma significativa efervescência cultural. Usando a terminologia criada e propagada pelos paulistas, era possível distinguir dois grupos nessas cidades, em termos culturais: os passadistas e os modernistas ou, como às vezes eram chamados impropriamente, os futuristas. Colocando nosso foco na questão cultural, o que se verificava em torno de 1920 era a presença dominante de uma cultura oficial que tinha, entre os seus próceres, figuras como Olavo Bilac e Coelho Neto. Do outro lado verificava-se um movimento emergente que, antes de tudo, era contrário ao passadismo representado pela cultura oficial e, ao mesmo tempo, falava acerca de liberdade de criação artística, nacionalismo entendido como um desligamento dos padrões estéticos europeus e tantas outras coisas. É nesse contexto que devemos colocar em cena nosso personagem principal: Carlos Drummond de Andrade, nascido em 1902 em Itabira (MG). Em 1920 vivia em Belo Horizonte, após uma permanência de cerca de dois anos em um colégio interno de Nova Friburgo (RJ). O jovem itabirano, afora algumas manifestações literárias precoces, como por exemplo uma conferência que realizou quando tinha 13 anos, começou a publicar suas poesias em 1918 no jornal estudantil Aurora Colegial, do jesuítico Colégio Anchieta de Nova Friburgo. A partir de 1921 inicia sua colaboração em verso e prosa no Diário de Minas, de Belo Horizonte. Em 1922 passa a colaborar também com os periódicos cariocas Para todos e Ilustração Brasileira, ambos dirigidos por Álvaro Moreira. Em 1980, o crítico Fernando Py publicou a Bibliografia comentada de Carlos Drumond de Andrade, (José Olympio/INL/Fundação Casa de Rui Barbosa, RJ), onde encontramos as melhores referências acerca dos primeiros trabalhos de Drummond. Nessa pesquisa, Fernando Py não nos aponta qualquer texto que tenha efetivamente o caráter de crítica literária que seja anterior a Mesmo assim, ele se refere a textos de 1924 sem jamais ter tido efetivo acesso a eles: apenas menciona que eles existiram. Pois bem, agora, em 2002, um texto de Drummond com o título As Condições Atuais da Poesia no Brasil, foi reencontrado: ele foi publicado em Juiz de Fora, na Gazeta Commercial, nos dias 20 e 22 de julho de Esse é o mais antigo texto de crítica literária (deixando de lado algumas resenhas de livros) escrito por Drummond de que se tem conhecimento. O poeta vê a poesia Juiz de Fora, julho de 1924: as origens do pensamento crítico de Carlos Drummond de Andrade Djalma Cavalcante 1 Quem procura... Acha! No início da década de 70 do século XX, o poeta e jornalista Affonso Romano de Sant Anna, juizforano por adoção, preparava sua tese de doutorado sobre Carlos Drummond de Andrade (Drummond, o gauche no tempo Lia Editor, RJ, 1972; a 4ª edição saiu com o título Carlos Drummond de Andrade: análise da obra Record, RJ, 1992). Em meio a suas pesquisas, ouviu falar que o poeta havia publicado alguma coisa nos jornais de Juiz de Fora (MG) no início dos anos 20. Affonso pediu a um seu amigo jornalista, Wagner Corrêa de Araújo, que o ajudasse a encontrar esse material. O primeiro passo de Wagner foi escrever para o poeta itabirano, perguntando se ele confirmava o fato de haver escrito para jornais de Juiz de Fora no começo de seu percurso literário. Drummond lhe respondeu afirmando que havia realizado algumas colaborações para o jornal Gazeta Commercial, mas acrescentou que achava inconveniente procurar por esses textos. Literalmente Drummond escreveu: A redescoberta dessas coisas me cheira a exumação de cadáveres. Por isso, acho melhor que você não se anime a vasculhar nesses cemitérios de papel.... Em respeito à posição de Drummond, Wagner não continuou a sua pesquisa, Affonso Romano de Sant Anna não teve acesso aos referidos textos e assim ficou, por muitos anos, adormecida a história. Em 1980, o crítico literário Fernando Py publicou o seu trabalho Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade, (José Olympio/INL/Fundação Casa de Rui Barbosa, RJ). Nele, Py cita a existência dos escritos drummonianos. E foi nesse compasso de nada que chegamos a 2002, quando o jornalista Wagner Corrêa de Araújo, impulsionado pelas comemorações do centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, resolveu vasculhar as gavetas e reencontrou a referida correspondência do poeta, datada de 26 de janeiro de O passo seguinte foi encaminhar a carta para o amigo juizforano, e também jornalista, Jorge Sanglard, que acabara de realizar uma ampla pesquisa e de lançar a antologia Poesia em Movimento (EDUFJF), reunindo a produção contemporânea juizforana de 43 poetas articulados em torno das publicações Poesia, Bar Brazil, Abre Alas e D Lira, entre 1975 e Jorge Sanglard já pesquisara um mosaico de Di Cavalcanti, em pastilha de vidro, pioneiro do modernismo a céu aberto no Brasil, conseguindo seu tombamento municipal e federal e sua restauração. Além disso, realizou ampla pesquisa musical e foi o responsável pelo reencontro de De Moraes, autor da letra do hino popular dos mineiros, a canção Oh! Minas Gerais, considerada música do século em Minas. Depois de revirar todos os arquivos jornalísticos da cidade e de trocar informações com o poeta Affonso Romano de Sant Anna e com o professor da UFMG, Murilo Marcondes de Moura, Jorge Sanglard conseguiu as datas precisas de três artigos publicados em 1924 por Drummond no jornal 13 Ipotesi, revista de estudos literários Juiz de Fora, v. 6, n. 2 p. 11 a 19 A leitura do que Drummond escreveu até 1924 nos faz perceber que, apesar de sua juventude, ele já havia acumulado um sólido cabedal literário e duas influências se fazem sentir acima de todas as outras: a de Anatole France e a de Machado de Assis. O ceticismo, o pessimismo, a ritualização e cultivo do uso da palavra e, principalmente, a atenção com a universalidade da criação literária, preocupações tão essenciais para o mestre francês e para o bruxo brasileiro, estão fortemente presentes no jovem Drummond. Entretanto, entre esses escritos primevos e o que ele viria fazer a partir de 1924, há uma diferença substantiva que pode em grande parte ser atribuída a um fato específico: o contato pessoal, em abril de 1924, com os vanguardistas paulistas que passaram por Belo Horizonte em uma comitiva que procurava mostrar algo do Brasil para o polivalente artista e escritor francês Blaise Cendrars. Uma das pessoas que participou desse encontro foi o médico, escritor e pintor bissexto Pedro Nava. Deixemo-lo contar-nos essa ocorrência: Em 1924 Belo Horizonte foi visitada por caravana paulista composta por D. Olívia Penteado, seu genro Gofredo da Silva Teles, a pintora Tarsila do Amaral e mais Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, seu filho Oswald (Noné) e por Mário de Andrade. Esse grupo modernista buscou contato com os moços da cidade por intermédio de Carlos Drummond de Andrade que, nessa época, já era poeta e prosador publicado, começando a chamar atenção dos intelectuais renovadores. Esse contato de Cendrars, Tarsila e dos dois Andrades conosco, deu-nos consciência de nossa posição e de sua possível importância se atuássemos vivamente. A correspondência de Mário de Andrade para nós dá a confirmação do que afirmo, ao mesmo tempo que da preponderância do admirável autor de Macunaíma, na evolução posterior de nossas idéias e nossa ação. 2 Os referidos moços de Belo Horizonte dessa época eram aqueles que constituíam o chamado Grupo do Estrela (Estrela era o nome do café onde eles se reuniam), ou seja: Abgar Renaut, Alberto Campos, Carlos Drumond de Andrade, Emílio Moura, Francisco Martins de Almeida, Gabriel de Rezende Passos, Gustavo Capanema Filho, Hamilton de Paula, Heitor Augusto de Souza, João Alphonsus de Guimaraens, João Guimarães Alves, João Pinheiro Filho, Mário Álvares da Silva Campos, Mário Casassanta, Milton Campos e Pedro Nava. Ao longo do tempo esse grupo foi acrescido por novos participantes: Ascânio Lopes, Ciro dos Anjos, Dario de Almeida Magalhães, Guilhermino César e Luís Camilo de Oliveira Neto. O próprio Drummond nos dá a importância do contato com esses modernistas, especialmente com Mário de Andrade, para ele e seu grupo: 14 juiz-forano Gazeta Comercial e encontrou os textos nos arquivos da Associação Comercial de Juiz de Fora. Em Belo Horizonte, localizou na Hemeroteca da Superintendência de Bibliotecas Públicas do Estado de Minas Gerais, o microfilme do texto Poesia Brasileira, de Drummond, publicado no Diário de Minas, em 17 de outubro de A partir daí, articulou com o professor e pesquisador Djalma Cavalcante o assentamento do texto As Condições Atuais da Poesia no Brasil, publicado originalmente na Gazeta Comercial em 20 e 22 de julho de 1924 e considerado um marco na crítica poética brasileira do início do século XX. 2 Trecho de Recado de uma geração, introdução de Pedro Nava para a edição fac-similar de A Revista, sob o patrocínio da Metal Leve S. A., SP, 1978. Interessados no movimento literário modernista, de que Oswald e Mário eram figuras principais, fomos visitá-los Francisco Martins de Almeida, Pedro Nava, Emílio Moura e eu... Mas fui, sem qualquer dúvida, aquele dos quatro que mais se correspondeu com Mário, e portanto mais recebeu dele em bens imponderáveis. Estabeleceu-se imediatamente um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária, por mim recebido em toda a existência. 3 Foi cerca de três meses após o conhecimento direto travado com Mário de Andrade e seus companheiros de viagem que Drummond escreveu, para a Gazeta Commercial de Juiz de Fora, o texto As Condições Atuais da Poesia no Brasil, o inédito que passaremos a sumariar e analisar. Daqui em diante, todas as citações que faremos estão contidas no referido texto inédito. Emudecida a lira gloriosa de Olavo Bilac (falecido em 1918), operou-se no país uma grande transmutação de valores poéticos. Bilac foi, mesmo, o único artista de moldes parnasianos de que conservamos o nome livre de irreverências... É que nos deixou mais do que uma coleção banal de versos parnasianos: deixou-nos o arrebatamento tropical, o gosto enamorado da terra... Respeitamo-lo com razão. E quando não agissem outros motivos, sua obra seria considerada ao menos pela feição nacionalista de muitos dos seus poemas, sabido que o nacionalismo é, paradoxalmente, uma tendência de peso na moderna literatura brasileira. Já o mesmo não acontece com o sr. Alberto de Oliveira, que vem sendo impiedosamente atacado, e a quem, em boa justiça, não poderíamos desejar melhor sorte. Em nenhum outro poeta a lira parnasiana foi mais insensível, nem correspondeu menos às nossas necessidades espirituais. Condenou-o a natureza mesma do seu espírito: o espírito de escola, limitado ao tempo, e que, logicamente, passou com a sua escola e o seu tempo... Apenas o perfil luminoso de Bilac permaneceu íntegro, em meio à destruição há uma nova poesia no Brasil... Se não há uma nova prosa, há uma nova poesia... A matéria poética é mais plástica, mais sensível às influências do tempo, renovando-se, por isso, com maior rapidez... Daí a força com que o sopro de renovação bateu à superfície da nossa poesia faquirizada, e os seus espantosos efeitos. Destaquemos dois aspectos críticos fundamentais para o pensamento drummondiano, em toda a sua existência: primeiro, a sua posição em relação aos passadistas; segundo, a sua maneira de ver o nacionalismo. As vanguardas modernistas de São Paulo, os participantes da Semana de 22, pelo menos na fase inicial do movimento, tiveram uma posição incendiária em relação aos passadistas, inclusive em relação a Bilac. Tal posição pode ser justificada pela contundência com que os modernistas eram criticados, atacados mesmo, pelos passadistas. A posição de Drummond, já no texto que estamos comentando, é bastante mais ponderada e objetiva: o poeta de Itabira consegue separar o joio do trigo, a poesia formalista e vazia de um Alberto de Oliveira, e de 3 Trecho da Apresentação em A lição do amigo cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, Livraria José Olympio Editora, RJ, 1982 O poeta vê a poesia Juiz de Fora, julho de 1924: as origens do pensamento crítico de Carlos Drummond de Andrade Djalma Cavalcante 15 Ipotesi, revista de estudos literários Juiz de Fora, v. 6, n. 2 p. 11 a tantos outros, da inspirada e personalizada obra de Bilac. No que diz respeito aos modernistas paulistas, seria necessário chegar aos anos 30 do século passado para que alguns deles revissem suas posições e entendessem o real significado e importância de um poeta como Bilac. Tal refinamento crítico já está presente em Drummond quando este tinha apenas 21 anos de idade. A questão da avaliação da importância real da tradição na evolução literária de um país e na formação das novas gerações de literatos é um tema que Drummond retomou várias vezes ao longo de sua vida: por exemplo, no artigo Poesia Brasileira, publicado no jornal Diário de Minas, em 17/10/1924 e, em julho de 1925, em Sobre a Tradição em Literatura, veiculado em A Revista, órgão modernista de Belo Horizonte fundado e dirigido entre outros por Drummond. A própria obra em versos do nosso poeta é testemunha da importância que a tradição literária verdadeira teve para muitas de suas criações. Quanto ao posicionamento de Drummond em relação à questão do nacionalismo em literatura, podemos observar o peso que teve para a sua formação o pensamento de Machado de Assis, particularmente aquelas idéias que o nosso escritor maior expôs num texto de 1873, Literatura Brasileira Instinto de Nacionalidade. Constatemos como algumas das colocações machadianas podem, sem retoques, ser colocadas na pena do mineiro: Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Voltando ao texto de Drummond e permanecendo na questão do nacionalismo, vejamos algumas outras idéias por ele expressas: Infelizmente, essa poesia que hoje ostenta graças inéditas é motivo para inquietas indagações. Não se fixou. Os espíritos gozam de tamanha liberdade que se embriagam. Cada um seguiu o seu rumo, e os rumos foram desencontrados. Os poetas mais representativos do momento são independentes entre si, o que é louvável, mas têm discípulos que são unidos e confusos... Há o cunho nacionalista, visível nos Epigramas do senhor Ronald de Carvalho, e principalmente nas últimas idéias do sr. Oswald de Andrade. Será uma tendência vitoriosa?... E é um doce engano esse de que temos uma literatura genuinamente brasileira apenas com a utilização de motivos brasileiros... Os temas da poesia são universais. As palmeiras de Gonçalves Dias não nos farão esquecer as paisagens civilizadas da Europa (e vice-versa). É a esse desvirtuamento da campanha modernista no Brasil que brilhantemente responde o sr. Guilherme de Almeida, publicando as suas vivas e saborosas Canções Gregas. Este poeta malicioso e ágil nos ensina que, sob o céu azul, a alma dos homens tem mil e uma vivendas e ama transportar-se às mais diversas regiões... Sob a luz reta do sol, empreendemos jogos ardentes, numa estranha mistura de homens cor de bronze e animais sarapintados. Mas em nosso espírito vadio erra a nostalgia das paragens longínquas, onde nunca estivemos e onde a nossa alma viveu alguns instantes inesquecíveis: Paris, Versalhes, a Roma dos Césares e dos Papas, Atenas... A colocação de dúvidas acerca das então tendências nacionalistas da literatura brasileira e a compreensão da essência universal da poesia demonstram a maturidade estética e crítica do jovem Drummond. No entanto, há margem para uma profunda discussão quanto a esta outra colocação do crítico mineiro: Ninguém me fará entrar na cabeça que São João d El Rei vale Florença e que o Aleijadinho é superior a Miguel Ângelo. É verdade que só alguns anos depois de que Drummond escreveu o texto objeto do presente estudo, teve início o processo de revalorização do Barroco Mineiro, conseqüentemente da obra de Aleijadinho, e de reavaliação do significado histórico e estético das cidades históricas de Minas Gerais. Entretanto, especialmente se considerarmos o pensamento de Mário de Andrade, já nessa época, bem como a impressão que Aleijadinho e as cidades mineiras causaram em Blaise Cendrars, somos forçados a concluir que, em relação a tais fatos, a posição de Drummond era bastante conservadora, ou, na melhor das hipóteses, sua afirmação, pretendendo validar a universalidade da arte, foi infeliz. Seguramente, em 1924 Drummond já havia lido Mário de Andrade, especialmente o que dele foi publicado na revista Klaxon, o primeiro periódico modernista e, principalmente, já haveria lido a Paulicéia Desvairada. De qualquer forma, o contato pessoal com Mário reforçou as opiniões que Drummond tinha a respeito do intelectual paulista: Bem diverso, infinitamente diverso de ambos (referência a Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho) e dos
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