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o Povo Brasileiro

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  O POVO BRASILEIRO - DARCY RIBEIRO SEMINÁRIOS TEMÁTICOS - A FORMAÇÃO DO POVO BRASILEIRO Prefácio Segundo o autor e antropólogo, Darcy Ribeiro, este livro foi seu maior desafio auto-imposto, durante 30 anos, a partir de 1950, foi reescrito três vezes. O ultimo se tornou a resposta que Darcy encontrou através da história e da antropologia para “por que o Brasil ainda não deu certo”, além de ser uma crítica ao sistema institucional do nosso país e um esforço para que o Brasil encontre a si mesmo. Durantes suas tentativas de escrever este livro surgiram outros: O processo civilizatório, As Américas e a civilização, O dilema da América Latina e o resumo destes três livros em Os brasileiros: Teoria do Brasil. Introdução O povo brasileiro é pela misturas de etnias que unidas formaram uma nova cultura. Com essa mistura houve mudanças de paisagens, de meio ambiente e de economia. O povo brasileiro se vê como uma só gente, embora esteja dividido em estilos culturais diferentes como o sertanejo, cablocos, caipiras, entre outros. O fato de não haver conflitos interétnios diferencia o Brasil de países da Europa e outros, porém aqui há uma grande desigualdade social. O povo-nação do Brasil surge com a opressão dos mais pobres pelos mais privilegiados que dura até hoje já que os ricos são autoritários não aceitam nenhuma mudança na condição atual. Os brasileiros são tão orgulhosos de sua (falsa) “democracia racial” que não percebem o abismo entre as classes sociais e o mais grave é que não há conflitos para que essa diferença seja diminuída ou extinta. 1- Matrizes étnicas A Ilha Brasil O território foi ocupado por milênios por índios, porém isso não fazia do nosso país um território, já que os povos indígenas não se viam tão dominadores assim. Com alguns séculos talvez tivessem chegado nisso. Mas então veio o europeu, português, capaz de matar por pestes, pela disputa do território e das riquezas, mercantilização... E a partir disso começa a surgir a nação brasileira, uma mistura dos índios moldados pelos portugueses, dos negros e deles mesmos. A matriz Tupi Os índios que habitavam as praias eram descendiam dos Tupis e estavam começando a revolução agrícola, cultivando várias plantas e assim se livrando da condição de povo dependente da mão natureza, ainda que dependessem da caça e da pesca, com períodos de escassez e de fartura. Embora falassem a mesma língua o povo Tupi não podia ser considerado como uno, já que cada tribo crescia, subdividia-se e assim as tribos resultantes se afastavam umas das outras, sem que conseguissem se organizar mesmo contra os invasores. Estavam sempre em guerra entre si, seja por território, seja pela posse de outros bravos guerreiros tupis para comer. Outros povos tiveram participação efetiva no Brasil, entre eles os Guaikuru, índios montados a  cavalo, evoluídos, que roubavam ouro das Monções Paulistas e algumas vezes quase dizimaram os castelhanos. A Lusitanidade Diferentemente dos povos que encontraram aqui, os Portugueses tinham sua sede em Lisboa, com classes sociais, urbanizada e sobre a repressão da Igreja Católica, que se dava o direito de prender, castigar e até queimar os mais ousados. Sobre isso se acrescenta a profunda pressão criada pela presença da Espanha, ou ausência dela, das profundas desavenças com Inglaterra e Holanda. Ainda assim um complexo de poder português surgiu e embora buscassem dominar todo o mundo e deixá-lo sobre o domínio europeu, diziam que tinham uma missão maior: a de catequizar os povos que eram pagãos e contra Cristo. Com o apoio de uma bula papal, tinham pleno direito de escravizar e desfrutar dos bens desses povos, primeiro na África e depois na América. 2- Moinhos de gastar gente A expansão do domínio europeu se deu com os brasilíndios ou mamelucos (pai português e mãe indígena) que apareceram pela primeira vez em São Paulo, uma vilinha longe de tudo. Eles saiam a pé em viagens meses ou anos em busca de tribos indígenas que ainda não estivessem desgastadas pela escravidão, que abrissem roças, caçassem, pescassem, cozinhassem, carregassem a carga. Rejeitados pelos pais, que os viam como filhos impuros, e pela tribo, que considera seus integrantes filhos do pai e não da mãe, os brasilíndios formaram um novo povo, que conhecia a floresta e a técnica de nominar. Alguns deles chegaram a dominar a Argentina (que levaram a independência), o Uruguai e o Paraguai. Tiveram mais uma dificuldade, para chegar as tribos pacíficas e plantadoras de onde sairiam bons escravos teriam que passar primeiro pelas tribos violentas, que resistiam a captura e às vezes até matavam o captor. Hoje há uma oposição entre os índios e os brasileiros que nunca irá se dissolver já que os índios mesmo com o passar do tempo não abandonam seus costumes e sua identidade étnica. Afro-brasileiros Os negros foram trazidos da África para integrar a mão-de-obra, e foram importantíssimos já que produziram quase tudo que aqui se fez. Sua introdução sorrateira e contínua no Brasil deixou sua cultura aqui cravada. Aprenderam o português que os capatazes gritavam, passando da condição de boçais (presos a cultura africana) para ladino (integrado na nova sociedade e na nova cultura) e contribuíram para a “aportuguezação” do Brasil. Ensinaram aos negros recém -chegados as técnicas de trabalho, os valores e as normas da subcultura. Depois de passar pela escravidão é incrível que os negros tenham retido um pouco da cultura africana em seu intimo: algumas crenças religiosas, alguns saberes, ritmos e gostos culinários. Essa cultura africana unida à indígena emprestaria muito a cultura brasileira, a qual sempre tentou encaixar-se no modelo europeu, mas nunca chegou nem perto por criar um modelo de sociedade totalmente novo. A vida de um escravo negro começava aos 15 anos, quando era tirado de sua terra, acorrenta pelos punhos e pescoço a outros negros, colocado em um navio amarrotado e com pouca comida. Se sobrevivesse a travessia, era escolhido pelos dentes, punhos e tornozelos, condenado a dezoito horas de trabalho por dia em alguma mina ou canavial, sofrer o castigo diário para trabalhar atento e o semanal para não pensar em fuga. Porém todo escravo desejava a liberdade, que só viria pela fuga ou suicídio, bastante freqüente naquela época. Se  fosse pego podia ser queimado vivo, agoniando por dias a beira da fornalha ou ser jogado nela para uma morte rápida, entre outros castigos abomináveis. Todos os brasileiros são carne da carne desses negros torturados e somos igualmente dos cruéis que torturavam. Neobrasileiros Graças às várias inovações socioculturais e tecnológicas os neobrasileiros foram capazes de superar o número de indígenas e de incorporar todos em uma única identidade étnica estruturada socioeconomicamente. Embora tivessem alto grau de auto-suficiência ainda dependiam da importação de produtos que não podiam produzir. Estes eram conseguidos através da troca de produtos fabricados para este fim, produzir mercadorias para exportação se tornou a razão de viver do povo, substituindo a subsistência. Os neobrasileiros tinham como língua materna o tupi falado com sotaque europeu. A língua portuguesa só se tornou a materna dos brasileiros no sec. XVIII, porém esta mudança já vinha ocorrendo gradativamente onde a economia era mais desenvolvida. Por essa mudança passou também a tecnologia produtiva utilizada, que passou de indígena para as técnicas européias, embora ainda hoje a agricultura de subsistência seja baseada nas técnicas indígenas A população de colonos organizava-se em unidades operativas e crescia em forma de uma macroetnia. Os comandos político e administrativo ligaram os núcleos, que eram rurais, que tinham função de produzir, ou urbanos, que tinham a função de administrar o empreendimento colonial. Havia também uma classe superior que constituía o comando da estrutura do país, era desligada das atividades produtivas e dividida em três setores: um que exercia função de governo civil e militar, um religioso e um que financiava a economia de exportação. Brasileiros Os povos da América tiveram processos de formação distintos, enquanto alguns copiaram suas identidades étnicas de povos europeus outros criaram a suas próprias. O “brasileiro” surgiu quando se tornou necessário diferenciar através do nome os núcleos neobrasileiros formandos principalmente por brasilíndios e afro-brasileiros, que se opunham ao mundo do índio, do português e do negro. Os brasileiros formam uma civilização adaptada aos trópicos, profundamente ligada à portuguesa, porém diferente desta devido à cultura composta pela união de tradições sobreviventes de seus ancestrais. O primeiro a assumir sua identidade de brasileiro foi o brasilíndio, já que não era considerado branco nem índio. Depois foram os mulatos que passaram a serem vistos como brasileiros contra sua vontade. A identidade brasileira foi criada pelo que foram arrancados de sua terra para se livrar da “ninguendade”; quando  milhões de pessoas passam a assumir essa identidade é que surge uma nova etnia, os brasileiros. Esta etnia que acolhe todo o tipo de gente e transforma em uma gente só anulando as suas diferenças; onde cada pessoa se torna inconfundível, mas se inclui numa identidade coletiva. O ser e a Consciência O processo de formação da etnia não teve muitos registros reconhecidos. Porém podemos citar os textos de Gregório de Matos, um dos primeiros intelectuais brasileiros que, embora desdenhasse da gente da Bahia, deixou registros importantes de como eram as coisas naquela época. Outro intelectual cujos textos são preciosos para compreensão da época é Frei Vicente do Salvador, porém este foi solidário com a gente brasileira e antecipou um sentimento de brasilidade.
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