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O Povo nas Ruas. O Povo Nas Ruas

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O Povo Nas Ruas 1 Copyright 2015 (1ª Edição) Todos os direitos desta edição reservados a autora. Impresso no Brasil Printed in Brazil Depósito Legal na Biblioteca Nacional, conforme decreto nº 1.825, de
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O Povo Nas Ruas 1 Copyright 2015 (1ª Edição) Todos os direitos desta edição reservados a autora. Impresso no Brasil Printed in Brazil Depósito Legal na Biblioteca Nacional, conforme decreto nº 1.825, de 20/12/1907. Projeto Editorial Diagramação: Antônio Ramos da Silva Capa: Vanessa Ramos Mengatto Revisão técnica e ortográfica: Ivanilde Kiem Dranka DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Elaborada por: Andréa Blaskovski CRB 14/999 S586p O Povo nas ruas / Antônio Ramos da Silva [et al.]. 1. ed. [S.l.] : Bookess, p. ; il. color. ISBN: Jornalismo. I. Silva, Antônio Ramos da II. Título. CDD: 070 É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art. 184 e Parágrafos, e Lei nº 6.895, de 17/12/1980) sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei nº 9.610/98). 2 O Povo Nas Ruas 1ª edição 3 Reflexão Deixei de lado a literatura para escrever e observar de perto o meu país. Tenho dúvidas! Optei por ficar mais atenção a ele, pois não posso deixar a minha poesia adoecer em meio a essas mazelas. Afie as garras! Mostre-as agora. É hora de outra pacífica batalha. Lembre-se sempre com humildade e entre nessa bandarra, sem ódio sem algazarra, sem violência, só farra. Que volte a alegria, a esperança, a justiça e a igualdade. Poxa! Não tenho mais idade. Quero ver essas mudanças num Brasil de realidades. O Povo Nas Ruas 4 Entre céu, terra e mar uma imensidão múltipla e um horizonte preenchido de oportunidades para conectar-nos com o mundo. Não hesitei, elevei meus pensamentos ao infinito, contemplei o céu... o silêncio se fez presente e lentamente as sensações de vazio foram embora não fiz questionamentos; não tentei decifrar os segredos, nem os mistérios. Simplesmente percorri nesse imenso universo dos meus sonhos escondidos. Permiti-me voar em pensamento e levemente ouvi o sussurro do vento. Senti a brisa tocar-me e trazer-me o frescor que renovou todo meu ser. A leveza daquele momento era tão enigmática, indecifrável me levando a plenitude que foi encontrar a outra parte de mim. Deixei-me envolver pela força e energia invisível que adentrou minha alma extraindo os sentimentos mais puros da minha essência permitindo-me traduzi-los aqui em cada linha do horizonte azul anil do meu Brasil.. Antônio Ramos da Silva 5 Sumário A rebelião das massas: A origem dos movimentos sociais 7 a 14 Independência partidária é analfabetismo político 15 a 23 O povo tem nome: Manifestante 24 a 25 Manifestantes incendeiam praça de pedágio 26 Militantes sem militância 27 a 37 Black Blocs: Articulação pela internet 38 a 40 Criminosos infiltrados entre os manifestantes 41 a 42 Fechando as ruas para abrir caminhos 43 a 44 Manuel Castells 45 a 49 Por que o povo acordou e está na rua? 50 Fala da senadora Lúcia Vânia 51 a 53 Plebiscito 54 a 55 Governo/empresa - Novo marco na política 56 Corrupção é crime hediondo 57 a 59 Organização criminosa 60 Responsabilização de empresas por atos de corrupção 61 a 62 Ficha Limpa - Comissionados e Concursados 63 Inclusão de autoridades na malha fina 64 a 65 Emendas populares 66 OAB lança projeto por reforma política 64 a 70 Plebiscito 71 a 73 Consulta popular custará 500 milhões 74 Mensagem da Presidente 75 a 76 TSE recebe consulta discute plebiscito 77 Visita do Papa é em momento oportuno 78 a 80 Preso Deputado federal Natan Donadon 81 a 82 Meta a 84 O outro lado do Mensalão 85 a 89 O Príncipe atual - Nicolau Maquiavel 90 Ensaio geral - Eleições a 93 Datafolha - Saúde pública o principal problema 94 a 98 Base aliada - Despencou em a 100 Joaquim Barbosa - Não sou candidato a nada 101 a 102 Aprovação - O governo Dilma despenca 103 a 107 Governo não entendeu o recado das ruas 108 a 110 OAB intensifica mobilização - Projeto Eleições Limpas 111 a 112 Equipe da Rede Globo expulsa por manifestantes 113 Grupo invade nova sede da CBF 114 Grupo cobrou a saída de José Maria Marin 115 Royalties do petróleo para Educação e Saúde 116 a 117 O Brasileiro acredita 118 Dívida externa brasileira cresce 60% 119 a 123 O Povo nas Ruas 124 Procissão 125 Ruas 126 De novo 127 Fotografia 128 a 131 6 A rebelião das massas: A origem dos movimentos sociais É bastante fácil fazer surgir sentimentos na alma das multidões, mas é dificílimo refreá-los. Desenvolvendo-se, converte-se em forças que não são possíveis dominar. Gustave Le Bom Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana ( ); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França. Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer. Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando: Eu me oriento em que o Weltgeistes (O Espírito do Mundo) deu a palavra de ordem para o avanço: tal palavra de ordem é obedecida sem hesitação; esse ser se movimenta como uma falange encouraçada, fechada, irresistivelmente e com um movimento tão imperceptível quanto o sol quando se move, para frente, venha o que vier... 7 Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848, a Primavera dos povos , movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina. Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de Desde então foram incontáveis os estouros que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão. Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas e somente a elas; e não aos heróis das classes tradicionais, cabia mudar o mundo, conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram as massas quem fazem a história. Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870). A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado. Em Paris, a Massa tornara-se poder mesmo que fora por apenas 72 dias. 8 Ela tomara o céu de assalto , segundo ele. O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 outubros de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder. São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais. A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, têm como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio à mão-de-obra. 9 Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social. Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc. Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para quando do primeiro censo oficial em Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão. Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das mega concentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história. Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e parecia não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram. 10 Quem por primeiro usou o termo classes perigosas foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes). Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas. Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, império do vulgar na terra, e a consequente apologia da elite. Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). 11 O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contrarrevolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura contra as massas que surgiu na transição do século 19 para o século 20. Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social. E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à alma da multidão . O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. 12 O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o individuo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana (o lobo do homem é o outro homem). A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação. Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o espontaneismo das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira. 13 Vladmir Lenin chegou à outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força. Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora do vapor e do êmulo . A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução. Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi à plena adesão das massas aos movimentos nazifascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contrarrevolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério. 14 Independência partidária é analfabetismo político O Povo nas Ruas Se pintar de verde e amarelo é se decorar com as cores do fascismo! Essas foram algumas das conclusões que os militantes mais engajados tiraram das manifestações brasileiras. Se estivessem certas, o Movimento Occupy seria um projeto analfabetização mundial, Oakeshott seria assinatura de pichador e o topete do Itamar deveria inspirar tanto pavor quanto à calvície do Mussolini. A militância que ontem deflagrou a onda de protestos brasileiros hoje passou para a concorrência. Ela agora toma as ruas num esforço para substituir a espontaneidade massiva das manifestações pela organização tradicional de movimentos retrasados. Para evitar um progresso do debate público para temas e valores do século XXI, ela tenta manobrar a agenda política de volta para o século XX. Como se deu essa mudança? Essa pergunta se responde colocando o dedo no ponto onde psicologia, ideologia, retórica e estratégia se cruzam dentro da cabeça do perfeito militante latino-americano. No The New York Times de 29 de abril de 2013, o colunista David Brooks traçou uma distinção entre escritores engajados e escritores desapegados. O escritor engajado é aquele que se alinha intimamente com um time. Seu trabalho é fornecer argumentos a favor de seu partido, e apontar os erros e transgressões cometidos pelo outro lado. O engajado está disposto a ser repetitivo porque sua tarefa não é tanto persuadir o outro lado quanto mobilizar e energizar as pessoas que já concordam com ele. 15 Já o escritor desapegado teme que a mentalidade de time ofusque sua visão. Ele vê a política partidária como uma competição entre verdades pa
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