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O Processo de Intelectualização Em Shakespeare - Uma Análise de Hamlet Em Três Planos - Hugo Neri

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Shakespeare para iniciantes
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  O Processo de Intelectualização em Shakespeare: Uma análise de Hamlet em três planos  Hugo Neri “A possibilidade de se questionar acerca do sentido do mundo  pressupõe a capacidade de se abismar com o curso dos eventos”  Max Weber – O Judaísmo Antigo  I. Introdução Este trabalho, sobre a dramaturgia de William Shakespeare, e em especial uma de suas obras,  Hamlet  , busca demonstrar o  processo de intelectualização , circunscrito temporal e contextualmente, em uma dimensão considerada limítrofe da objetividade das criações humanas: a literatura. O processo de intelectualização é uma tentativa de explicação da maneira   pela qual as ideias humanas, uma vez objetivadas, comportam-se no contexto e no tempo. O conjunto de ideias que constroem o processo de intelectualização se srcinou da reconstrução da teoria sociológica da religião de Max Weber 1 . Esta tentativa de demonstração serve, portanto, como uma primeira verificação da possibilidade de autonomização do processo de intelectualização enquanto produto da reconstrução da teoria sócio-histórica de Weber. A hipótese central, que pode levar a demonstração do processo de intelectualização como um todo, é a de que  Hamlet   conteria em seu interior o produto final de um processo de constituição de uma ideia objetiva 2  , fruto de uma interpretação  positiva 3 : a interioridade psicológica e existencial em um personagem de ficção 4 . Ao passo que procuro explicar o desenvolvimento dessa ideia objetiva pelo processo de intelectualização. A criação de  Hamlet  , assim como uma série de outras peças de dramaturgos contemporâneos e conterrâneos de Shakespeare, foi possibilitada pelo 1  Que é o primeiro objetivo da minha pesquisa de mestrado. 2  Isto é, uma ideia que possui algum fundo de objetividade para além do valor atribuído a ela. 3    Interpretação positiva  seria um processo de objetivação da subjetividade compreendendo as seguintes etapas: compreensão, revisão, sistematização e, finalmente, objetivação, que como objetivação, não mais pertencerá ao sujeito. O sujeito que realiza este tipo de ação, em dado momento, é considerado como sendo o intelectual do processo de intelectualização. 4  Um  processo de interiorização , termo cunhado pelo crítico literário e especialista em Shakespeare, Harold Bloom. Todavia, esta ideia não é exclusiva de Bloom, outros especialistas atuais em Shakespeare, de correntes bastante diferentes, estão de acordo com esta ideia, como é o caso de Stephen Greenblatt, Andrew Gurr e James Shapiro.  ambiente de alta concorrência 5   que caracterizou o teatro elisabetano. As criações (literárias, filosóficas e científicas) são compreendidas enquanto novas interpretações.  A situação de concorrência impulsionaria o desenvolvimento interno das novas interpretações, das ideias contidas nas peças. Haveria, por outro lado, a necessidade de adaptação da criação a um dado público, no caso da peça do teatro elisabetano, adaptação às audiências frequentadores do teatro. A adaptação é contingencial e não pode aniquilar o núcleo duro de dada criação, mas apenas em suas construções ideias auxiliares. Shakespeare, por exemplo, tinha grandes preocupações com a execução e recepção de todas suas peças incluindo  Hamlet  , que a adaptara à forma teatral, o que limita a extensão de certas falas e também limita os personagens a certo enredo. Contudo, o grau de complexidade da construção subjetiva do personagem Hamlet, além das mais de seiscentas novas palavras criadas para expressar o que desejava em  Hamlet  , mostram tendência não adaptativa do conteúdo interno ao receptor da obra 6 . Com isso, as criações humanas fundamentadas na linguagem, que em algum momento tiveram sua existência objetivada (potencialmente na escrita), não podem ser reduzidas, em sua integridade, ao contexto de srcem 7  e ao contexto motivacional de seu criador (inserindo-se aqui a recepção do público), mesmo se for suposto que todos os elementos que compõem o produto da criação tenham srcem nesses contextos; tampouco, podem ser esgotados pelo conjunto de análises e interpretações feitas a posteriori 8  .  Em relação à hipótese sobre  Hamlet  , identifico a existência de três planos 9  diferentes de análise que além de se interrelacionam, mantêm certa independência dos demais. O primeiro seria um  plano biográfico , que expressaria a perfilação ou perspectiva de um mundo intersubjetivamente compartilhado, no qual o sujeito, que cria e objetiva (de preferência textualmente) suas ideias, está inserido. É o mundo intersubjetivamente compartilhado que fornece as motivações de um sujeito, partindo desde um sentido ontológico e metafísico, algo difusamente captável, em direção a uma maior pragmaticidade (do sentido do mundo em geral a uma atividade econômica 5  O principal mecanismo impulsionador do desenvolvimento do processo de intelectualização é a concorrência, competição ou luta . Um dos principais produtos da concorrência é a maior consistência interna de certas interpretações. 6  Afinal, Shakespeare era um exímio conhecedor e criador de linguagem; no total de suas obras estima-se que empregou algo em torno de 18.000 palavras diferentes. 7  Jamais poderíamos reduzir o espaço social da obra ao espaço social do autor, como tenta Bourdieu em Flaubert e as regras da arte . 8  Este trabalho procura, assim, defender certa objetividade das ideias. 9  Esta tentativa de estabelecer três níveis de análise é uma contribuição direta para o trabalho desenvolvido no mestrado.  prática). Este plano biográfico para a análise do processo de intelectualização deve ser circunscrito em função do momento (prolongado) de objetivação de   nova interpretação , fazendo com que os fatos mais amplos sirvam para fornecer uma base de compreensibilidade da ação do sujeito. No caso deste trabalho, o corte temporal gira em torno dos anos de 1599-1601, época, mais ou menos estabelecida pelos especialistas em Shakespeare, da criação efetiva de  Hamlet  . Desta maneira, o mundo intersubjetivo estará perspectivado em relação a Shakespeare desse momento 10 . Todavia, seria incompreensível tentar captar neste plano as forças de motivação de Shakespeare sem considerar alguns processos históricos mais cruciais que formam seu mundo: a Inglaterra do final do século XVI que passou por uma Reforma Protestante em dois níveis, uma legal-estatal com a fundação da Igreja Anglicana e outra mais longa e difusa de um processo de esgotamento da Igreja Católica medieval e a conversão ao protestantismo; a língua inglesa; um processo de crescimento demográfico e urbanização significativa, sobretudo em Londres (onde os trabalhos de Shakespeare serão realizados); a constituição dos teatros em Londres por companhias de teatro e garantidos pela legislação real, fazendo da encenação das peças o principal entretenimento londrina e criando acirrada concorrência entre as companhias de teatro. O segundo seria o  plano da objetificação . A objetivação se dá na passagem do primeiro para o segundo plano, tornando objetivo  sentimentos e concepções razoavelmente difusos. A criação de uma obra envolve o primeiro plano e também outras interpretações já objetivadas neste segundo plano. A existência e persistência de uma criação objetivada ocorrem enquanto ela existir em sua materialidade, podendo uma obra dada como perdida ser resgatada no futuro. Neste segundo plano, além de haver a construção de um contexto interno da obra, onde certas ideias, personagens e conceitos se desenvolverão, há sempre uma relação intertextual com outras obras. Este é, portanto, um plano de relação entre obras de outrem, como, também, das obras de um mesmo autor. Um exemplo é notar como  Hamlet de Shakespeare tem seu enredo advindo de um possível Ur-Hamlet  11 , de autoria desconhecida, encenado por volta de dez anos antes do  Hamlet de Shakespeare; este Ur-Hamlet  , por sua vez, teria sua srcem na tragédia de Hamlet do francês Belleforest em 1570, que teria sido uma interpretação das estórias dinamarquesas de Saxo Grammaticus escrito em Latim no século XII. Os 10  “O que se oferece a ambos, ao atuante e ao observador que interpreta, não é somente o simples ato significativo e o contexto ou configuração de sentido a que este pertence, senão todo o mundo social em perspectiva” (Schutz, 1975 , p.38) 11  “ Ur” é um prefixo da língua alemã que significa “primordial”, no sentido de ser o primeiro de algo.    elementos intertextuais, somados aos elementos e forças do primeiro plano levam os diferentes autores a realizarem uma nova interpretação , como o é, claramente,  Hamlet de Shakespeare. E, por fim, o terceiro plano, que seria o momento de criação e consolidação de ideias objetivas , isto é, uma ideia nova que tem sua srcem a partir do contexto da obra, mas que também não pode ser reduzido ao contexto da obra (no  plano de objetivação ) nem ao  plano biográfico . Contudo, as ideias objetivas necessitam dos dois primeiros planos para que seja possível sua srcem. Após sua srcem, ela possuiria uma transcendência que influenciaria os outros dois planos em um momento de tempo posterior, incluindo seu próprio autor. A ideia objetiva que  Hamlet expressa é a interiorização do personagem. Após sua constituição, sua influência será visível e decisiva para as próximas peças de Shakespeare assim como para outros autores de ficção, e ainda, mais tardar para a interpretação do próprio homem, como farão Nietzsche e Freud. Divido a análise em três momentos que seguem a divisão dos três planos. No primeiro plano ( biográfico 12 ), considero, brevemente, fatores macrossociológicos como o problema da religião (que fornece o sentido ao mundo) e a urbanização. Este último serve para fundamentar a srcem do fenômeno mais localizado do teatro elisabetano. A ideia ai é mostrar a concorrência  viçosa que se forma em torno de um mercado teatral que impulsiona (e financia) o desenvolvimento das peças teatrais. O segundo plano ( objetivação ) é separado em três momentos: a) da objetivação de elementos do primeiro plano; b) das relações intertextuais; c) da definição do núcleo do contexto interno. O terceiro plano ( ideias objetivas ) procura definir o momento anterior do processo de desenvolvimento do processo de interiorização do personagem.  II. Primeiro Plano Nos anos em que Shakespeare foi para Londres e se estabeleceu como um dramaturgo e poeta, nas últimas duas décadas do século XVI, a maior instituição europeia, a Igreja Católica, tinha entrado em colapso na Inglaterra por conta de duas reformas (uma estatal e outra fruto de um processo paulatino de mudança de fé). A religião era considerada a base de uma sociedade bem organizada e a preservação da unidade religiosa era presumida como essencial para a manutenção do Estado. Esta 12  Biográfico/intersubjetivo.
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