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Os Fundamentos Da Ciencia Moderna Na Idade Media

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  Colecção História e Filosofia d Ciência Os Fundamentos da iência Moderna na Idade Média oordenação da olecção e Revisão ientífica na Simões e Henrique Leitão t PORTO EDITOR  321 os FUNDAMENTOS DA CI~CI MODERNA NA IDADE MÉDIA Difusão e assimilação da filosofia natural de Aristóteles A introdução das obras de Aristóteles na língua latina e a sua difusão e assimilação subsequente transformaram a vida intelectual da Europa Ocidental. Mas a influência de Aristóteles não dependeu unicamente das suas próprias obras. Para calcularmos o enorme impacto de Aristóteles, teremos de considerar os comentários às suas obras que foram elaborados por gregos na Baixa Antiguidade e por árabes durante os séculos IX a XlI. Embora as obras genuínas de Aristóteles moldassem a percepção medieval do mundo muitas obras que lhe eram erradamente atribuidas também moldaram a forma como na Idade Média eram avaliadas as suas ideias. A estas temos ainda de acrescentar tradu- ções latinas do árabe de tratados não aristotélicos contendo ideias derivadas da filosofia natural de Aristóteles, particularmente em medicina e astrologia. Este complexo conjunto de ideias e interpretações aristotélicas foi herdado pelos filósofos naturais da Idade Média Latina. Baseando-se nestas fontes, os estudiosos medievais dedicaram-se a acrescentar os seus próprios comentários às obras de Aristóteles, bem como a compor tratados especializados em que as ideias de Aristóteles detinham lugar proeminente. A totalidade deste corpus literário -a herança e as adições a esta -é aquilo a que hoje chamamos Aristotelismo . Este termo, que nunca foi utilizado na Idade Média, caracteriza de forma adrnirável o mais importante componente da vida intelectual do período que com- preende os séculos XlI e XV (a Idade Média propriamente dita) e mesmo para além deste, até ao fim do século XVII. Contribuições dos comentadores gregos Através de comentários aos trabalhos de Aristóteles, o mundo grego da Baixa Antiguidade contribuiu significativamente para a filosofia natural. Traba- lhando entre os anos 200 e 600 d. c. os comentadores gregos deixaram nume- rosos tratados que totalizam aproximadamente quinze mil páginas de texto grego, na edição conhecida por Comentários a Aristóteles em Grego Antigo Commentaria in Aristotelem Graeca). Dos autores que comentaram Aristóteles, uns eram aristotélicos e outros neoplatónicos, sendo estes últimos muito críticos em relação à obra de Aristóteles. Deste grupo, aqueles que maior influência tiveram sobre a ciência e a filosofia islâmicas e latinas foram Alexandre de Afrodisias (fl. 198-209), Temistio (fl. finais da década 40 do ano 300-384/385), Simpl1cio (ca. 5OO-f. 533) e João Filopão (ca. 490-década de 70 do século VI), ~.. ......~.~ 't;. , NOVO rNICIO A ERA DA TRADUÇÃO NOS S~ ULOS XII E XIII 133 um neoplatónico que era também cristão. A influência exercida por Alexandre e Temístio sobre a filosofia natural na Idade Média Latina veio em grande parte através dos comentários aristotélicos de Averróis, o famoso comentador muçulmano que citava frequentemente passagens das suas obras. O comen- tário de Simplício a Sobre os Céus De caelo), que Guilherme de Moerbeke tra duziu para latim no século XlII, transmitiu importantes ideias sobre cosmologia e física. Embora a maior parte das obras de João Filopão permanecesse desconhecida no Ocidente Latino até ao século XVI, algumas das suas ideias eram conhecidas através da tradução parcial de Guilherme de Moerbeke do seu comentário a Sobre a Alma, através dos ataques que Simplício lhe dirigiu no seu comentário a Sobre os Céus de Aristóteles e ainda através de citações ocasionais das suas ideias nos comentários aristotélicos de A vercóis. Filopão é importante na história da ciência na medida em que criticou as ideias de Aristóteles sobre fisica e cosmologia. A teoria do impetus, ou a doutrina da força impressa. que desempenhou um importante papel na fisica árabe e na física medieval latina, derivou a em última análise do comentário de Filopão à Física de Aristóteles. Filopão insistiu também contra Aristóteles, em que o movimento finito era possível no vácuo e que dois pesos desiguais, deixados cair de uma dada altura, embateriam no solo quase ao mesmo tempo. No seu comentário ao Génesis De opificio mundi), rebateu o conceito da eternidade do mundo de Aristóteles e insistiu também em que as matérias celeste e terrestre são idênticas, ao invés de radicalmente diferentes, como afirmara Aristóteles. Nos últimos anos, o trabalho dos comentadores gregos tem vindo a ser muito mais apreciado e, em última análise, as suas contribuições para a história da ciência medieval e da ciência moderna podem revelar-se mais importantes do que em tempos se julgou. Contribuições dos comentadores islâmicos Quando as obras de Aristóteles foram traduzidas do grego (ou mesmo do siríaco) para o árabe durante os séculos IX e X pouco demorou para que os eruditos islâmicos estudassem essas obras e escrevessem comentários sobre elas. Os comentários e discussões islâmicos sobre as ideias e as obras que influenciaram o Ocidente foram escritos antes de 1200. Dado que vários comentários gregos sobre Aristóteles inspirados no neoplatonismo tinham sido traduzidos para o árabe, muitas vezes eram introduzidas ideias neoplatónicas nos comentários islâmicos a Aristóteles. Entre os eruditos  34 os FUNDAMENTOS DA CI1':NCIA MODERNA NA IDADE MEDIA muçulmanos que escreviam sobre Aristóteles em árabe e que tinham obras traduzidas para latim, os mais importantes foram al-Kindi (ca. 801-ca. 866), al- -Farabi (ca. 870-950), Avicena (lbn Sina) (980-1037), al-Ghazali (1058-1111) e Averróis lbn Rushd) (1126-1198). Deste grupo, Avicena, al-Ghazali e Averróis foram os que tiveram o maior impacto sobre a ftlosofia natural aristotélica no Ocidente. O erudito hebraico mais influente no Islão e que contribuiu para o saber europeu foi Moisés Maimónides (1135-1204), que escreveu em árabe. Na sua obra Kitab al Shifa (O Livro da Cura [da Ignorância]), uma enci-clopédia ftlosófica traduzida no século XII por Domingo Gundisalvo e Avendaut (Abraham ibn Daud), Avicena comentou muitos aspectos da filosofia natural de Aristóteles. A segunda parte dessa obra era dedicada à física que, na tradução latina incompleta do século XlI, foi chamada Sufficientia e era constituída por oito partes. Nas secções de que os filósofos naturais medievais dispunham, Avicena expunha as suas ideias sobre os céus, a geração e a corrupção, os elementos, os meteoros, os animais, os minerais e a alma. A sua grande obra de medicina, Cânone de Medicina, terá sido talvez mais importante nas escolas médicas das universidades medievais do que foram as obras de Galeno. Embora al-Ghazali tivesse um impacto significativo no Ocidente, isso não se deveu às suas próprias opiniões e interpretações. Al-Ghazali escrevera uma súnlula das opiniões filosóficas de al-Farabi e de Avicena seguida por uma critica severa às opiniões de ambos. Mas só a primeira foi traduzida para latim Deste modo, as opiniões de al-Farabi e de Avicena foram atribuídas a al-Ghazali. A sua crítica filosófica não traduzida, A Incoerência dos Filósofos, tornou-se conhecida no Ocidente através da crítica que lhe fez Averróis em A Incoerên- cia da Incoerência, que foi traduzida para latim. Entre todos os autores islâmicos, Averróis foi aquele que mais influenciou o panorama aristotélico no Ocidente Latino. Um eminente erudito observou que Se existe um processo de naturalização em literatura correspondente ao da cidadania, os escritos de Averróis pertenciam tanto à língua em que foram escritos, como à língua em que foram traduzidos e através da qual exerceram a sua influência sobre o curso da filosofia mundial .5 É uma das grandes ironias da história que as obras escritas em árabe de Averróis fossem praticamente ignoradas pelo mundo de expressão árabe nos paises islâmicos, ao passo que muitas dessas mesmas obras viriam a exercer uma grande influência na Cristandade através das traduções latinas. O NOVO INICIO: A ERA DA TRADUÇÃO NOS slicuws Xli E Xlll 35 Até ao momento, foram identificados trinta e oito comentários de Averróis, em árabe, sobre obras de Aristóteles. Este número extraordinário resulta do facto de Averróis ter escrito pelo menos dois, e frequentes vezes três, diferentes tipos de comentários sobre qualquer tratado de Aristóteles. A propósito da Física, por exemplo, escreveu um epítome, ou breve súmula; um comentário médio, ou paráfrase do texto; e um comentário longo, que era a discussão pormenorizada, sequencial, das sucessivas secções de todo o texto. Aplicou este mesmo tratamento tripartido a Sobre os Céus e à Metafísica. Noutros casos, por exemplo, Sobre a Geração e a Corrupção e Meteorologia, escreveu só comentários médios e longos. Dos trinta e oito comentários em árabe, quinze foram traduzidos para latim durante a primeira parte do século XIII (por Miguel Escoto e outros) e dezanove foram ainda traduzidos do hebraico para latim durante o século XVI (os comentários de Averróis foram ainda mais influentes na tradição aristotélica hebraica do que na latina). Nos seus comentáríos, Averróis procurou purgar o pensamento aristotélico das interpretações neoplatónicas que, no seu entender, tinham distorcido o verdadeiro significado de Aristóteles. Estava convencido de que Aristóteles conseguira compreender tanta verdade acerca do mundo quanto era possível a um ser humano fazê-lo, utilizando a prova demonstrativa. Obras pseudo-aristotélicas Iniciando-se cerca de duas gerações após a morte de Aristóteles, a atribuição ao filósofo de obras apócrifas começou com dois títulos gregos: Sobre as Cores De coloribus) e Medtnica Mechanica). Com o passar do tempo, surgiram outros apócrifos em grego. Porém, isto foi apenas o começo. O processo de falsas atribuições foi repetido em todas as línguas para as quais as obras de Aristóteles eram traduzidas, o que incluía siríaco, árabe, latim, hebraico, arménio e algumas línguas vernáculas europeias. Muitas das obras apócrifas debruçavam-se sobre pseudociência, principalmente alquimia, astrologia, quiromancia e fisionomia. A astronomia estava também representada. Muitas destas obras apócrifas foram traduzidas do árabe para o latim. No mundo latino, a maioria circulava independentemente das obras genuínas de Aristóteles. Parecem ter atraído um grupo social diferente do das universidades, onde, com poucas excepções, tinham pouco impacto e eram raramente citadas em obras sobre filosofia natural. Entre as excepções contam-se: Livro das Causas Liber de causis, traduzido por Gerardo de Cremona), que se  36 os FUNDAMENTOS DA cIllNClA MODERNA NA IDADE MllDIA baseava nos Elementos de Teologia de ProcIo e teve particular influência entre teólogos, dando srcem a comentários de Alberto Magno e São Tomás de Aquino; Das causas das Propriedades dos Elementos De causis proprietatibus ele- mentorum) que surge em numerosos códices dos livros de filosofia natural de Aristóteles e exerceu maior influência nos séculos XIII e XIV; e finalmente, embora menos importante para a filosofia natural do que os dois primeiros tratados, o Segredo dos Segredos Secretum secretorum), o qual apresenta muitas máximas que encerram ostensivamente a sabedoria que se dizia ter sido transmitida por Aristóteles aos antigos governantes. De todos os apócrifos atribuídos a Aristóteles, o Segredo dos Segredos foi o mais popular, como o comprovam pelo menos seiscentos manuscritos existentes, dos quais cerca de vinte terão circulado com uma ou mais das obras genuinas de Aristóteles. Recepção das traduções Os textos de Aristóteles eram difíceis e as traduções nem sempre claras, dando ocasionalmente azo a acusações de obscuridade. Assim, os comentários de Avicena e Averróis foram entusiasticamente acolhidos como guias para a interpretação dos exigentes textos de Aristóteles. A influência de Aristóteles no pensamento ocidental começou muito antes das traduções em larga escala, em grande parte devido a duas tradu- ções em latim do tratado em árabe sobre astrologia de Abu Ma xar, uma datada de 33 e a outra de 1140. A Introdução à Astronomia de Abu Ma xar era um trabalho astrológico que incluía numerosas ideias e conceitos dos livros sobre filosofia natural de Aristóteles. Foram muitos os estudiosos do século XII que tiveram o seu primeiro contacto com as doutrinas de Aristóte les através do tratado de Abu Ma xar. Mas este gotejar de ideias aristotélicas isoladas foi rapidamente submergido pelas traduções das suas obras. Apesar das novas traduções d s obras de Aristóteles do século XII, poucos manuscritos desse período sobreviveram, o que indica que os tratados de Aristóteles tiveram pouca influência directa nesse século. Contudo, a situação alterou-se de modo dramático em meados do século XIII, altura em que surgiram em grande número manuscritos das obras de Aristóteles. Nessa altura já a influência deste se tornara significativa e viria ainda a aumentar com o passar do tempo. Uma indicação importante do seu impacto reside na produção de comentários latinos aos seus trabalhos, assunto que será tratado num capítulo posterior. I I f O NOVO INICIO: A ERA DA TRADUÇÃO NOS sllCULOS lOl E lOll 137 Quase todos os antigos tratados gregos, traduzidos do grego ou do árabe, ou de ambas as línguas, para o latim eram anteriormente desconhecidos da Europa Ocidental Cristã. Como foi recebido este vasto corpus de ciência pagã e de filosofia natural? Como reagiram os Cristãos a um corpus literário a que eram totalmente alheios e que apresentava potenciais problemas para a fé? Embora esses tratados fossem novos para a Europa Ocidental, a experiência da literatura pagã não o era. Os Cristãos já há muito se tinham adaptado a ela. Tinham sido expostos ao pensamento pagão quase a partir do momento em que a religião cristã fora difundida para além da Terra Santa. O pensamento pagão era familiar não só para a parte oriental do Império Romano, de expressão grega, como também para os autores latinos no Ocidente, tais como Santo Agostinho, Santo Ambrósio e os encicIopedistas. Graças à experiência prévia do Cristianismo face à literatura pagã, as traduções latinas da ciência greco-árabe dos séculos XII e XIII podem ser encaradas como um segundo, e muito mais extenso, fluxo de pensamento pagão para os cristãos da Europa OcidentaL Se bem que a ciência e a filosofia natural da segunda vaga do pensamento pagão tenha provocado algum atrito entre fé e razão, os filósofos naturais cristãos, muitos dos quais teólogos, ficaram encantados por acolhê-la. Com a lógica e a filosofia natural de Aristóteles como seu núcleo, o novo conhecimento veio prover às necessidades do currículo das universidades então emergentes, que formaram um dos mais duradouros legados institucionais da Idade Média e que devo agora descrever.
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