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Os Limites dos Limites da Representação Historiográfica do Holocausto: Um Exercício Hermenêutico *

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[REVISTA CONTEMPORÂNEA DOSSIÊ CONTEMPORANEIDADE] Ano 1, n , inverno ISSN [ ] Os Limites dos Limites da Representação Historiográfica do Holocausto: Um Exercício Hermenêutico * Pedro Spinola
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[REVISTA CONTEMPORÂNEA DOSSIÊ CONTEMPORANEIDADE] Ano 1, n , inverno ISSN [ ] Os Limites dos Limites da Representação Historiográfica do Holocausto: Um Exercício Hermenêutico * Pedro Spinola Pereira Caldas ** Nos últimos dias de abril de 1990, a Universidade da Califórnia abrigou uma importante série de conferências, denominada Nazismo e a solução final: testando os limites da representação. Posteriormente, algumas das apresentações seriam reunidas em um livro (FRIEDLÄNDER, 1996) cuja relevância teórica é inestimável. Vários historiadores de peso, como Perry Anderson, Dominick La Capra, Carlo Ginzburg, Hayden White, entre outros, contribuíram com reflexões preciosas sobre um tema que não poderia ser abordado por suas respectivas especialidades. De modo algum quero discutir a iniciativa em se convocar historiadores que não se debruçam diariamente sobre as fontes e a literatura concernentes à história do Terceiro Reich, mas fica pressuposta uma questão, em si relevante: como parte do campo historiográfico, o tema é abordado por especialistas, mas, ao contrário da maioria das especializações, merece a atenção de todos os historiadores. Em jogo está, portanto, a própria forma de se escrever história. Mas o que diferenciaria a Solução final dos demais fatos históricos, mesmo quando bastante controversos e decisivos, como as revoluções francesa e bolchevique, ou a Primeira Guerra Mundial, a ponto de ser capaz de convocar historiadores de todas as tendências e áreas? De acordo com Saul Friedländer: O que faz da solução final um evento-limite é o próprio fato de ser a mais radical forma de genocídio encontrada na história: em plena sociedade ocidental do século XX, testemunha-se o esforço deliberado, sistemático, industrialmente organizado e amplamente bem sucedido em exterminar todo um grupo humano (FRIEDLÄNDER, 1996: 3). O caráter surpreendente da solução final precisa ser compreendido como uma empresa ocidental (fruto da vontade organizada e burocraticamente planejada), mas que não pode ser aceita dentro da tradição ocidental: a racionalidade instrumental e eficaz * Autor convidado. Artigo recebido em novembro de ** Professor Adjunto do Departamento de História da UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e Pesquisador do CNPq. 156 [OS LIMITES DOS LIMITES DA REPRESENTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA DO HOLOCAUSTO: UM EXERCÍCIO HERMENÊUTICO * PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS] parece haver conturbado o humanismo ocidental, que busca reconhecer a natureza humana fundada em uma racionalidade comum e abstrata. Ou seja, a solução final implica já a cisão entre as ações dos homens ocidentais (a racionalidade instrumental) e sua capacidade em explicar suas próprias ações. Dentre várias possibilidades de elaboração do problema, é bastante comum a abordagem do caráter único da Solução Final e de suas subseqüentes implicações teóricas para a historiografia. Meu propósito consistirá, portanto, em perceber, no final das contas, a partir de que momento não se consegue mais dizer algo sobre o Holocausto. Onde está o impedimento, qual o critério de (auto)censura? Procurarei, portanto, dar dois passos. No primeiro, deter-me-ei nas reflexões de Jörn Rüsen. O tratamento será o seguinte: mediante um paralelo entre a teoria das crises e sua teoria tropológica de formas narrativas, será possível identificar um déficit hermenêutico pressuposto na comparação entre as duas teorias. Em um segundo momento, tentarei examinar este déficit hermenêutico a partir do método compreensivo desenvolvido por Johann Gustav Droysen, de modo a realizar um exercício que procure enfatizar positivamente o que pode ser dito, ao invés de afirmarmos imediatamente o primado do trauma. Jörn Rüsen e o déficit hermenêutico Para tentar expor as idéias de Jörn Rüsen, lanço mão de partes do último volume de sua trilogia Fundamentos da ciência histórica, denominado História viva, e de um artigo seu ( Krise, Trauma, Identität / Crise, Trauma e Identidade ), publicado em seu livro Zerbrechende Zeit ( Tempo estilhaçado ). As duas obras se articulariam da seguinte maneira: Em História viva (Cf. RÜSEN, 2007: 43-84), Rüsen trata justamente da função e sentido na narrativa e da representação para o conhecimento histórico. Rüsen é bem mais do que um formalista, pois sua teoria expõe como cada forma narrativa é responsável pela elaboração de variadas identidades históricas. Em Krise, Trauma, Identität (RÜSEN, 2001: 170), Rüsen propõe, entre outros assuntos, uma teoria das crises. Crise, para ele, é a experiência das contingências no tempo. Contingente é tudo que se sucede para além das expectativas e das intenções do homem, sendo sempre um sinal de que a tentativa de controle é avisada desde logo de seu limite. Haveria, segundo Rüsen, três tipos de crise a normal, a crítica e a catastrófica. A normal, segundo ele, é assimilada a partir das possibilidades já existentes de consciência histórica e 157 [REVISTA CONTEMPORÂNEA DOSSIÊ CONTEMPORANEIDADE] Ano 1, n , inverno ISSN [ ] é integrada sem dificuldades dentro de uma narrativa histórica. A crise crítica se define quando novos elementos são necessários para que se renove de maneira radical o quadro anterior de possibilidades narrativas. Uma crise catastrófica, por sua vez, aniquila qualquer possibilidade de atribuição de sentido. Ela é proveniente de um trauma. E seu sintoma foi muito bem definido por Frank Ankersmit: A experiência traumática é terrível demais para ser admitida conscientemente. Esta experiência excede, por assim dizer, nossas capacidades de dar sentido à experiência. Enquanto normalmente os poderes de associação nos permitem integrar a experiência à estória de nossas vidas, a experiência traumática permanece dissociada da narrativa de nossa vida (...) Característico do trauma é a incapacidade de realmente sofrer com a própria experiência traumática (ANKERSMIT, 2005: 335). Ou seja, a partir da definição de Ankersmit (que arriscadamente aplico às teorias de Rüsen), a crise traumática não aparece explicitamente como crise. Portanto, a própria afirmação de que há uma crise catastrófica é interessante: afinal, Rüsen não a pensara explicitamente quando formulou sua tipologia da narrativa de alguma maneira, seria como se ele próprio, Jörn Rüsen, ainda não a houvesse pensado como uma crise latente. As narrativas, de acordo com Rüsen, atribuem sentido à história de quatro maneiras: a primeira seria a atribuição tradicional de sentido, em que um princípio originário, quase mítico, se repete formalmente ao longo da história. A identidade se estabelece acima de tudo através da imitação deste princípio. É um princípio orgânico, estático. Diria que, nesta forma narrativa, não há qualquer brecha para se falar em crise. A atribuição exemplar de sentido se mostra sempre que um determinado evento do passado se destaca do mar revolto de contingências e adquire um caráter normativo. A identidade se constrói a partir da tentativa de se buscar a semelhança com a sabedoria objetiva. Nesta acepção poderíamos falar de crise, mas de uma crise normal, ou seja, é problemático somente o que se desvia de tal sabedoria exemplar. Conhece-se sem dificuldades o caminho da recuperação e do retorno à normalidade. Se no primeiro tipo narrativo, a crise não existia (e, se afirmada, poderia ser tida como ilusão ou falsidade), aqui ela passa a existir, mas como acidente de percurso. Segundo Rüsen, há também a atribuição crítica de sentido, ou seja, as formas anteriores de vida histórica são colocadas em questão e a memória é freqüentemente um local de reprovação, sendo algo diametralmente oposto à exemplaridade acima exibida. É uma narrativa baseada em rupturas. Entramos aqui na crise crítica, uma etapa necessária, a 158 [OS LIMITES DOS LIMITES DA REPRESENTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA DO HOLOCAUSTO: UM EXERCÍCIO HERMENÊUTICO * PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS] instância em que o passado precisa ser julgado para que a situação de impasse presente se altere positivamente. Por fim, a atribuição genética de sentido. A narrativa genética não nega o tempo, tampouco o dissolve em normas atemporais. A narrativa genética vê no tempo a forma de constituição de identidade, seu próprio processo de elaboração: Tempo, como mudança, adquire uma qualidade positiva, torna-se qualidade portadora de sentido. (RÜSEN, 2007: 58). Trata-se, pois, de um processo em que diferenças e diversidades devem ser elaboradas positivamente (RÜSEN, 2007: 47). Os estudos baseados na idéia de estética da recepção, por exemplo, ilustram bem o caso. A diferença entre passado e presente não representa um obstáculo, a repetição atualiza o original, dando-lhe um sentido impensável no contexto em que fora primordialmente criado. Seria a cultura alemã, ou a ocidental como um todo, capaz de reconstituir suas forças perdidas? Seria o dito trauma justamente o processo de enfraquecimento em que a formação da identidade torna-se impossível? Uma primeira resposta deve ser necessariamente afirmativa, pois salta aos olhos que a crise traumática não encontra nenhuma forma equivalente de elaboração e cura narrativa. É, portanto, motivo de inquietação o fato da constituição genética de sentido não encontrar equivalência na tipologia da crise elaborada posteriormente por Rüsen. É isto que chamo de déficit hermenêutico, ou seja, a clareza da insuficiência da forma de interpretação em que o tempo se torna portador de sentido. É sabido que cada modalidade histórica, para Nietzsche, ao mesmo tempo em que era útil, implicava desvantagens para a vida: a visão crítica redundaria em um elogio niilista do progresso; a antiquaria, em uma incapacidade de estabelecer diferenças entre os testemunhos históricos; e a monumental, por sua vez, iludiria por meio de analogias anacrônicas debilitantes e moralistas. O esforço de Rüsen foi mostrar, sobretudo, o potencial das narrativas como formadoras de identidade, como maneiras de elaborar a fugacidade da experiência humana no tempo. Conforme procurei demonstrar, a forma de constituição de sentido faltante é, claramente, a de caráter hermenêutico mais pronunciado. Neste sentido, sem querer de modo algum deixar de reconhecer as dificuldades inerentes à representação do Holocausto, proponho um exercício, no qual serão testados níveis e acepções possíveis da verdade histórica, aplicando-os ao caso do Holocausto a partir de uma pequena amostragem de pesquisas já feitas sobre o assunto. 159 [REVISTA CONTEMPORÂNEA DOSSIÊ CONTEMPORANEIDADE] Ano 1, n , inverno ISSN [ ] Pode soar anacrônico e até mesmo reacionário falar de verdade histórica, mas aqui a compreendo justamente como uma derivação do aspecto traumático. Ou seja, a verdade, no caso, tem uma função reguladora, na medida em que mesmo a postura epistemológica mais cética da historiografia não nega a realidade concreta das câmaras de gás. Nas palavras de Márcio Seligmann-Silva: A Shoah é o superlativo por excelência da história. Enquanto morte de milhões de pessoas realizada sob uma organização industrial a Shoah abala a visão relativista da história tanto por causa de sua unicidade como também devido à impossibilidade de se reduzir esse evento ao meramente discursivo (SELIGMANN-SILVA, 2000: 77). O risco, contudo, consiste em transformar a prudente fuga do reducionismo em mutismo e afasia. Prefiro, portanto, seguindo afirmação de Giorgio Agamben, evitar a apologia do silêncio (cf. AGAMBEN, 2008: 41). O Silêncio, afinal, como muito bem disse Peter Haidu (cf. HAIDU, 1996: 278), é recurso tanto do poeta como do ditador. O que foi efetivamente feito e conquistado com a pesquisa histórica sobre o Holocausto? Com que sentidos de verdade os historiadores dedicados ao tema já trabalharam? Como a bibliografia sobre o tema é inesgotável, evidentemente não tenho a pretensão de fazer de tal exame uma prova definitiva. Repito: é antes um exame pelo qual pode ser viável obter alguma lucidez sobre o uso do conceito de verdade no âmbito da historiografia, no qual poderemos insinuar suas possibilidades e suspeitar de seus limites. Agora, é o caso também não somente de afirmar os limites da representação, mas de testar os limites do limite da representação por meio de um exame hermenêutico, justamente aquele implicitamente impotente na teoria das crises de Rüsen. Critérios para a Verdade Histórica Em seu Historik, de 1857, Johann Gustav Droysen elaborou uma tipologia de formas de interpretação histórica. Droysen pertencia à tradição hermenêutica, muito forte na Alemanha desde Chladenius e Schleiermacher, e, apesar de ter sido feita há 150 anos, a tipologia continua a fornecer um excelente critério para avaliação da construção de sentido histórico. Droysen distinguia quatro níveis (cf. DROYSEN, 1977: ): (a) interpretação pragmática; (b) interpretação das condições; (c) interpretação psicológica; (d) interpretação 160 [OS LIMITES DOS LIMITES DA REPRESENTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA DO HOLOCAUSTO: UM EXERCÍCIO HERMENÊUTICO * PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS] das idéias. A interpretação pragmática remete ao sentido original da palavra grega pragma, ou seja, objeto. Trata-se da interpretação dos vestígios, de resíduos históricos que restaram no presente, que resultará no conhecimento de uma verdade empírica. Por exemplo: ao tentar reconstruir da maneira mais fiel possível uma estátua antiga quebrada, o historiador poderá, evidentemente, na falta de um desenho original ou da peça irreversivelmente ausente, procurar outras estátuas do mesmo escultor, ou ainda outras estátuas de escultores da mesma época no lugar de origem da estátua partida e em outros lugares onde o escultor tenha estado, etc. Sua pretensão é a mais objetiva possível, mas o procedimento de comparação já é, em si, um ato subjetivo, porquanto não está dada na fonte (a estátua quebrada) a remissão a outras fontes. Portanto, é necessária a criação de um campo mais abrangente de fontes (podemos chamá-lo de contexto) para que seja elucidado um aspecto altamente objetivo, factual e pontual. Passa-se daí à segunda etapa, qual seja, a interpretação das condições, isto é, dos fatores históricos existentes para que tal aspecto objetivo e factual adquira sentido. Tal interpretação chega a uma verdade lógica, quer dizer, aquela que busca identificar as determinações causais necessárias (mas muitas vezes insuficientes) para o entendimento de uma situação histórica ou mesmo para a existência da fonte fixada como verdade empírica. Droysen as percebe no tempo e no espaço. Mas a história, por ser feita de ações humanas, não é uma coleção de reações a condições dadas. A ação do homem não é condicionada naturalmente e pode se dar de maneira distinta mesmo em de situações semelhantes. Portanto, o historiador não pode entender nomologicamente, como se fosse mero verificador leis naturais, mas como alguém que precisa compreender o sentido da ação em uma determinada condição necessária ainda que não suficiente. Daí o terceiro nível: a interpretação psicológica, a tentativa de reconstruir as intenções dos agentes históricos em dadas circunstâncias que dariam, portanto, uma verdade intersubjetiva, baseada nas ações dos homens. Geralmente, considera-se esta a etapa final da interpretação hermenêutica, ou seja, a reconstrução de intenções dos agentes, possibilitada pela empatia intersubjetiva. Nada mais apressado. Afinal, se fosse o caso de meramente se transpor para o passado, tentando entrar na pele do objeto, o intérprete se anularia. E mais: Droysen percebe que, para ser considerada definitiva, a interpretação psicológica precisaria partir de dois pressupostos: o de que o agente histórico tenha total lucidez de suas decisões de modo a fazer que sua intenção corresponda ao verdadeiro significado histórico de sua ação; e o de que um sujeito tenha permanecido idêntico a si mesmo durante toda a sua vida, de modo que se possa tomar 161 [REVISTA CONTEMPORÂNEA DOSSIÊ CONTEMPORANEIDADE] Ano 1, n , inverno ISSN [ ] uma biografia como base segura, estável e essencial para interpretar o que não deixa de ser outro paradoxo, diz Droysen, pois se a reconstrução das intenções visa ser o sintoma da independência da ciência histórica perante as ciências da natureza (que, ao menos no XIX, lidam com objetos que não se alteram de acordo com tempo e lugar), é estranho que seja atribuído ao objeto da história a mesma característica essencialista. Daí a necessidade da etapa final de interpretação, na qual ela se perfaz: a interpretação das idéias, ou seja, o sentido mais profundo que está em curso a partir das ações dos agentes históricos. O exemplo preferido de Droysen é Alexandre Magno: ao unir ocidente e oriente, de modo algum ele poderia imaginar que estava preparando o terreno para o cristianismo, religião originalmente oriental que se tornou ocidental. Ou ainda podemos pegar um exemplo de Weber: jamais diríamos que Lutero desejava criar o capitalismo, mas, ao menos segundo Weber, este é impensável sem o protestantismo (daí o uso da palavra idealista por definição: o espírito). O ponto é que isto é dado somente ao historiador verificar e perceber. Este tipo de interpretação será a propiciadora da verdade espiritual. O Teste hermenêutico Aparentemente mais fácil de ser afirmada, a forma empírica da verdade, no caso do Holocausto, precisa lidar, em primeiro lugar, com a própria noção de testemunho. A leitura de Os Afogados e os Sobreviventes, de Primo Levi, mostra que a real dimensão do Holocausto foi feita pelos que morreram. O próprio Levi assume: não somos nós, os sobreviventes, as autênticas testemunhas (...) somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, não tocamos o fundo. Quem o fez (...) não voltou para contar, ou voltou mudo; mas (...) são eles as testemunhas integrais. (LEVI, 1990: 47) Algo semelhante, mas, desta feita, a propósito dos algozes, foi dito por Christopher Browning. Ao relatar sua experiência de pesquisa sobre o Batalhão de Reserva de Operações Policiais 101, na cidade de Jozefów, o autor comenta que os historiadores do Holocausto lidam com ausências de outra natureza às habitualmente enfrentadas pelos historiadores. Ao estudar as intenções de homens comuns, dotados de muito menos poder político do que os líderes do Terceiro Reich, mas que se tornaram assassinos em massa, Browning encarou uma dificuldade insanável: 162 [OS LIMITES DOS LIMITES DA REPRESENTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA DO HOLOCAUSTO: UM EXERCÍCIO HERMENÊUTICO * PEDRO SPINOLA PEREIRA CALDAS] O primeiro e maior problema é o das fontes. Para o meu estudo de caso do Batalhão 101, por exemplo, não há virtualmente qualquer documentação contemporânea disponível. Diferentemente dos assassinos de gabinete, os policiais de reserva não deixaram rastro de um mísero papel (BROWNING, 1996: 28). Para além desta ausência da integridade da experiência, há outra ausência, bem mais concreta, cuja menção é indispensável para a reflexão sobre a verdade empírica. Um dos documentos mais relevantes para o estudo da organização do genocídio de massa, o Protocolo de Wannsee, foi produzido em uma conferência na qual Adolf Hitler sequer estava presente. Para piorar a situação do historiador, documentos importantes foram destruídos e, como relata Mark Roseman, [...] bem no topo do sistema nazista não havia arquivos. Hitler nunca pôs no papel ordens sobre assuntos judaicos. Himmler também era extremamente cauteloso. (ROSEMAN, 2003:10). Alguns historiadores, como David Irving (cf. KERSHAW, 2000:95), se apressaram em dizer que Hitler não tinha conhecimento do fato. Felizmente, a voz de Irving não só é isolada, como foi duramente criticada pelas duas grandes tendências interpretativas sobre a participação de Hitler no extermínio dos judeus europeus. Mas a unanimidade contra a afirmação de Irving não implica homogeneidade nas interpretações. Embora outros fatos evidentemente compliquem a análise do processo decisório morbidamente concluído nos fornos crematórios, a ausência de um registro documental como uma ordem explícita de Hitler é, de fato, algo que suscita todo tipo de debate. Mas, se não há um
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