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Os Maias e Cesário Verde

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MEP - Escola Profissional da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada Ano Letivo 2011/2012 O Realismo Génese do Realismo Na segunda metade do século XIX, a Europa vê-se sacudida de lés a lés por novos ventos políticos, científicos, sociais e religiosos: a Espanha proclama a república em 1868; a França imita-a pouco depois; Vítor Manuel destrói os Estados Pontíficios em 1870; anos atrás desfazia-se a Santa Aliança, último reduto contra a expansão do Liberalismo. Lamark insiste na evolução dos
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  MEP - Escola ProfissionaldaSanta Casa da Misericórdia de Ponta DelgadaAno Letivo 2011/2012 O RealismoGénese do Realismo  Na segunda metade do século XIX, a Europa vê-se sacudida de lés a lés por novos ventos políticos, científicos, sociais e religiosos: a Espanha proclama a república em 1868; aFrança imita-a pouco depois; Vítor Manuel destrói os Estados Pontíficios em 1870; anosatrás desfazia-se a Santa Aliança, último reduto contra a expansão do Liberalismo.Lamark insiste na evolução dos seres por influência do meio; Darwin apregoa a mesmaevolução pela selecção natural; Huxley aplica as doutrinas transformistas ao própriohomem; Mendel descobre as leis da hereditariedade. Começa desta maneira a gerar-seuma visão materialista, pampsiquista e monista do Cosmos ao mesmo tempo que se abreo caminho para o estudo do homem sob os aspectos psíquico e físico.A Revolução Francesa tinha conduzido ao apogeu a burguesia capitalista. Para maior desequilíbrio económico, o motor de explosão e o eléctrico lançam agora no desempregomilhares de braços. O proletariado começa a ser um facto alarmante. Engels e Carl Marxapontam a solução comunista para a questão social . Saint Simon, Proudhon, Fourier eoutros preferem o socialismo utópico. A luta de classes prepara-se para deixar naliteratura o seu rasto de dor e sangue. O cristianismo histórico e racionalista curva-sesobre as fontes do cristianismo. Harnach, Renan, Reinach e outros, sem negarem o factocristão, desvirtuam-no e procuram explicá-lo pela fé puramente idealista.Depois de 1850 os homens de letras constatam que a Química, a Física, a Biologia, aZoologia, a Botânica, para não falarmos da Matemática, numa palavra, constatam quetodas as ciências procuravam alicerçar-se em comprovadas certezas e que até os cultoresda Arte se esforçavam por serem verídicos. Desta maneira, em todos os ramos do saber seia dizendo adeus a velhas teses, outrora admitidas sem discussão mas agora arrumadas jácomo falsidades. Ora, sendo estas coisas assim, porque é que os literatos haviam decontinuar presos a um sentimentalismo doentio, a um idealismo aéreo, divorciado darealidade, a uma expressão hipócrita da paixão amorosa, a um carpir inútil de saudades, àidealização de um mundo ideal? Sentindo que perdiam um comboio a correr vertiginosamente para o campo da verdade nua e crua, reagiram. Como as restantesactividades do espírito humano, a literatura começou a buscar a realidade, não adeformada pelos românticos, mas a autêntica, tal qual se apresenta sem artifícios, semretoques. Ainda por analogia com a técnica, a indústria e a ciência, que não conhecemfronteiras mas são as mesmas em qualquer clima, a nova arte literária deixou de ser nacionalista e revestiu-se de carácter cosmopolita. Como consequência desta reacção,nasceu o Realismo na literatura. O Realismo em Portugal Portugal, nesta época, já não estava separado do resto da Europa. O caminho de ferroencurtara a distância Coimbra-Paris em meses. A barreira dos Pirinéus era ineficaz parasuster o avanço rapidíssimo destas novas ideias. Por isso, a sua influência entre nós não sefez esperar. No primeiro período do Romantismo, como dissemos, os escritores portugueses sofreraminfluências do romance histórico de Walter Scott e Vítor Hugo (Nossa Senhora de Parissobretudo), da poesia sentimental e tradicionalista de Lamartine da evocação histórico- Praça 5 de Outubro 9500-153 Telf: 296 306420 Fax: 296 306428E.mail: geral@mep-escolaprofissional.com  MEP - Escola ProfissionaldaSanta Casa da Misericórdia de Ponta DelgadaAno Letivo 2011/2012 religiosa de Chateaubriand, do espiritualismo filosófico de Vítor Cousin, da teoria daliteratura de Madame de Staël e de Shlegel. Agora, novas influências vão entrar em acção.De França, sobretudo, chegam a Coimbra livros onde se aponta à literatura umaorientação muito diferente da seguida nas décadas anteriores. E todas as especializaçõesdo pensamento humano e da cultura vão ser afectadas em Portugal por doutrinasinovadoras nascidas no estrangeiro. 1. Irreligiosismo : os novos de Coimbra comentam asserções de Loisy e de Renan, que no seucriticismo bíblico separavam o Cristo da história do Cristo da fé. Agrada-lhes sobretudo umareligião sem dogmas, de cunho panteísta. Assumem atitudes vincadamente anticlericalistas.2. Inconformismo com a tradição : graças ao avanço da ciência e da técnica, os nossos escritoresconvencem-se de que o homem pode superar muitas limitações que paralisaram os antigos; e,conseguindo o nivelamento de classes, acreditam que a consciência humana não mais seimportará com os entraves que lhe opunha outrora a sociedade absolutista, burguesa e feudal.Sob traçado de Michelet, muitos escritores nossos (Eça, Antero, Oliveira Martins) tentamdesmontar peça por peça a sociedade lusa, apeá-la do pedestal da tradição e alicerçá-la em novos princípios de justiça e dinamismo.3. Supremacia da verdade física : as ciências exactas e experimentais, secundadas pelo avanço datécnica, levaram os estudiosos a considerar a verdade física como a única válida. Facto que nãose demonstre empiricamente, será facto para arrumar. Esta posição materialista ante a realidadeabortou nas teorias filosóficas a que nos vamos referir em seguida.4. Novas teorias filosóficas : a Geração Coimbrã de 70 estuda com avidez o idealismo de Hegel, osocialismo de Proudhon, o positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin e Lamarck.5. Materialismo optimista : ao mesmo tempo, todos se deixam contaminar por uma esperançafirme no bem estar material dos tempos futuros, devido ao auxílio da máquina. E explicam oatraso do passado por os homens se terem deixado conduzir por forças espirituais, sobretudo pelareligião. Daí o manifestarem-se contra todos os cultos revelados. Características do Realismo  Numa conferência proferida no Casino , disse Eça de Queirós a respeito do Realismo: É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático, do piegas. É aabolição da retórica considerada arte de promover a emoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestação dos tropos. É a análise com o fito naverdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é uma reacção contra o Romantismo: oRomantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter, é acrítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para condenar o quehouver de mau na nossa sociedade . E sobre os preceitos a seguir na nova escola,acrescentou o mesmo romancista: A norma agora são as narrativas a frio, deslizandocomo as imagens na superfície de um espelho, sem intromissões do narrador. O romancetem de nos transmitir a natureza em quadros exactíssimos, flagrantes, reais .Estas frases do autor de Os Maias são elucidativas. Aí se encontram as principaiscaracterísticas do Realismo, que podemos resumir nas alíneas que seguem: 1.Análise e síntese da objectividade, da realidade, da verdade, em oposição ao subjectivismo eidealismo românticos;2.Indiferença do eu subjectivo e pensante diante da Natureza que deve ser reproduzida comexactidão, veracidade e abundância de pormenores, num retrato fidelíssimo; Praça 5 de Outubro 9500-153 Telf: 296 306420 Fax: 296 306428E.mail: geral@mep-escolaprofissional.com  MEP - Escola ProfissionaldaSanta Casa da Misericórdia de Ponta DelgadaAno Letivo 2011/2012 3.Neutralidade do coração e do espírito diante do bem e do mal, do vício e da virtude, do belo e dofeio;4.Análise corajosa dos aspectos baixos da vida, sobretudo dos vícios e taras, não os ocultando echamando-os pelo seu nome;5.Relacionação lógica entre as causas (biológicas e sociais) do comportamento das personagens doromance e a natureza (exterior e interior) desse comportamento;6.Admissão na literatura do país de temas cosmopolitas em vez dos nacionais e tradicionais dosromânticos;7.Uso de expressão simples e tom desafectado, de modo que as ideias, sentimentos e factostranspareçam sem esforço e sem convencionalismos (o oposto ao tom declamatório dosromânticos). Lembramos que o romance romântico é, por vezes, absolutamente verosímil e podemesmo propugnar uma tese. Mas, na sua base, é todo fruto da imaginação e dosentimentalismo do autor, que, por isso, lança mão de lugares comuns arredados daobjectividade: o quimérico e o prodigioso, o ideal e o sentimento, o monstro e o super-homem. Nisto se afasta do romance realista. A Estética Naturalista A filosofia positivista de Comte, as doutrinas de Taine, afirmando que a virtude e o víciosão produtos como o vitríolo e o açúcar , as teorias de Darwin e Haeckel sobre ahereditariedade, a adaptação ao meio e a luta pela vida levaram Zola a uma concepçãodeterminista da existência humana.Por causa disso, o citado escritor entendeu que o romancista não devia limitar-se aobservar os acontecimentos e expô-los, como faziam os realistas; teria de mostrar, comrigor próprio da ciência, que os factos psíquicos estão sujeitos a leis rígidas como osfenómenos físicos. Então o romance adquirirá valor social e cientifico.Tal foi o princípio da chamada estética naturalista, muito afim, sem dúvida, do Realismo,a qual cedo entrou em Portugal também. Júlio Lourenço Pinto publicou na revista Estudos Livres (dirigida por Teófilo Braga e Teixeira Bastos) uma série de artigos sobreesta matéria, os quais depois reuniu em volume com o título de Estética Naturalista(1885). Os seus princípios podem considerar-se como características da nova corrente: 1.Não há distinção entre Realismo e Naturalismo;2.A literatura naturalista é a expressão dos progressos da ciência (Fisiologia, Sociologia, estudodos caracteres, da evolução, da influência do meio, etc.);3.O romance naturalista inspira-se na vida quotidiana, comum;4.O Naturalismo deve usar o método psicológico, isto é, deve descrever as emoções através dassuas manifestações físicas, com base no estudo dos fisiologistas. Início do Realismo em Portugal Em Portugal, os princípios do Realismo foram um pouco turbulentos. Isso deve-se aofacto de Castilho ser o mentor de grande parte dos literatos nacionais e não estar dispostoa transigir com novidades que achava perigosas e condenadas a um desaparecimento próximo. Por outro lado, a mocidade de Coimbra, que considerava ultrapassado o Praça 5 de Outubro 9500-153 Telf: 296 306420 Fax: 296 306428E.mail: geral@mep-escolaprofissional.com  MEP - Escola ProfissionaldaSanta Casa da Misericórdia de Ponta DelgadaAno Letivo 2011/2012 didactismo do poeta cego, desvencilhou-se das redes em que o grupo de Lisboa a queria prender, e seguiu o seu caminho, a golpes de polémica acesa e nem sempre calma. Estaesgrima entre os discípulos de Castilho e os irrequietos moços de Coimbra ficouconhecida na história pelo nome de Questão Coimbrã . 1. A Questão Coimbrã 1. Castilho aprecia mal Teófilo e os realistas : em 1864, Teófilo Braga publicou Visão dos Tempose Tempestades Sonoras; e, no ano seguinte, saíram as Odes Modernas de Antero. Talvez por deferência para com o velho romântico e não por desafio, Teófilo ofereceu a CastilhoTempestades Sonoras. Castilho leu. Gostou dos versos mas ficou alarmado com as teorias daescola realista expostas no prefácio. Escreveu então ao jovem poeta uma careta, onde diz nãoatinar com a revolucionária doutrina do prólogo, que condena abertamente. Ao contrário,confessa que nas poesias encontrou milhares de belezas de primeira ordem e assomos de umaverdadeira inspiração . Parafraseando o título da obra, classifica as teorias do prólogo como tempestades que ensurdecem, desorientam, terrificam ; as poesias, essas considera-as sonorase mais e melhor do que sonoras, lustrosas e sólidas de oiro incandescente e de diamante emontanhas de luz.2. Castilho apresenta O Poema da Mocidade : em 1865, Pinheiro Chagas publicou O Poemada Mocidade , Castilho apadrinhou a obra e o autor numa carta endereçada ao editor AntónioMaria Pereira, apensa ao volume. Alude nessa carta aos caminhos perigosos por onde tentavamarrastar a Literatura alguns grupos de Coimbra (por exemplo, a Sociedade do Raio, emigrada noPorto, constituída contra medidas tomadas pelo Reitor da Universidade). Remédio para essadesorientação afirma só conhecer um: a nomeação de Pinheiro Chagas para professor deLiteratura no Curso Superior de Letras. Pretendiam também o lugar Antero, Teófilo e Vieira deCastro. Como bom patrono de Pinheiro Chagas, Castilho pôs objecções a todos estes. Enquantoreconheceu talento e futuro a Vieira de Castro, apodou Antero e Teófilo de jovens semexperiência, entusiasmados por teorias deletéreas, que, passados dez anos, como diz, nãodeixarão de repudiar. Critica-os asperamente e quase lhes pede em troca agradecimentos, que acrítica que lhes estava fazendo só contribuía para lhes antecipar, e muito, a experiência, etc.3. Reacção de Antero : num opúsculo em forma epistolar, conhecido pelo nome de Bom Senso eBom Gosto , Antero de Quental respondeu nesse mesmo ano de 1865 às críticas de Castilho.Examinando uma por uma as obras do velho poeta, disse mal de todas; atacou as concepçõesromânticas a que estava preso o Bardo da Primavera ; e desceu ao insulto, negando-lheexperiência e confessando-se sem nenhuma consideração por ele.4. Intervenções pró e contra Castilho : a defender Castilho vieram à liça Pinheiro Chagas, José deCastilho, Júlio de Castilho, Brito Aranha, Camilo Castelo Branco. Ao lado de Anteroenfileiraram Teófilo Braga, Oliveira Martins, Eça de Queirós e outros. Antero escreveu um segundo opúsculo, A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (1865) e Teófilo outro com o título Teocracias Literárias (1866). A questão foi-seavolumando, tendo saído pró e contra Castilho 44 folhetos.Entretanto Ramalho Ortigão, durante algum tempo neutral, lembrou-se de intervir comoárbitro e escreveu o panfleto Literatura de Hoje (1866). Aí critica a escola de Castilho,vaga de conteúdo; mas não perdoa a Antero o ter insultado um velho cego e chama-lhecobarde. Antero não gostou nada do insulto e mete-se a caminho do Porto para dar umatareia em Ramalho. Deambulando pelas ruas do velho burgo portuense, foicumprimentado efusivamente por Camilo, que tinha no prelo um folheto contra ele eTeófilo - Vaidades Irrritadas e Irritantes (1866) - e que, por isso, também ficou cheio demedo. Convenceu o autor das Odes Modernas a citar Ramalho para um duelo formal, emvez de o desancar à bengalada. Antero acabou por aceitar o duelo. Travou-se na Arcad'Água, ficando Ramalho Ortigão ligeiramente ferido. A teimosia e a convicção de Praça 5 de Outubro 9500-153 Telf: 296 306420 Fax: 296 306428E.mail: geral@mep-escolaprofissional.com
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