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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC - SP. Alessandro de Oliveira Campos

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1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC - SP Alessandro de Oliveira Campos SOBRE A TRADIÇÃO E SUA APROPRIAÇÃO CRÍTICA: METAMORFOSES DE UMA AFROAMERICALATINIDADE EM LUTA. DOUTORADO EM PSICOLOGIA
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1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC - SP Alessandro de Oliveira Campos SOBRE A TRADIÇÃO E SUA APROPRIAÇÃO CRÍTICA: METAMORFOSES DE UMA AFROAMERICALATINIDADE EM LUTA. DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL São Paulo 2013 2 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC - SP Alessandro de Oliveira Campos SOBRE A TRADIÇÃO E SUA APROPRIAÇÃO CRÍTICA: METAMORFOSES DE UMA AFROAMERICALATINIDADE EM LUTA. DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Psicologia Social sob a orientação do Prof. Dr. Antônio da Costa Ciampa. São Paulo 2013 3 COMISSÃO EXAMINADORA Orientador 4 Dedico esse trabalho a todos que resistiram e resistem há mais de cinco séculos no território que hoje é conhecido como América Latina. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço a meu orientador e amigo Antonio da Costa Ciampa que desde o mestrado me ajudava a desvendar os caminhos da identidade e da metamorfose. Pesquisador comprometido e com o pensamento crítico que sempre me inspirou a observar a escuta da inquietação e a evitar todo e qualquer fundamentalismo. Obrigado Mestre! Aos professores do Programa de Psicologia Social da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo que com seu espírito crítico e atento colaboraram de muitas formas em meu posicionamento diante o mundo enquanto psicólogo social. As professoras que colaboraram com esse trabalho por acasião do exame de qualificação: Profa. Dra. Carmen Junqueira e Profa. Dra. Ana Kiyan que com atenção, pertinência e sensibilidade puderam debater minha pesquisa. Agradeço ao prof. Dr. Nicanor Rebolledo da Universidad Pedagogica Nacional do México que desde o primeiro contato sempre esteve disponível e com enorme cuidado me recebeu no México durante minha estadia para meu sanduíche. Sua colaboração foi fundamental para iniciar a jornada pelo Mexico Profundo. Agradeço a minha família: minha mãe Lozani Sampaio Campos e meu pai Toniroberto de Oliveira Campos. A meu irmão Junior, minha cunhada Ana Augusta e minha sobrinha Nicoli. O amor de vocês é fundamental em minha vida. Agradeço especialmente a Moa do Katendê, Cidinha da Silva, Godo e Irma Piñeda. Porta-vozes de tradições únicas e grandes exemplos de resistência e da dignidade rebelde. A coragem, a sinceridade e o modo como falarem de suas vidas e culturas são inspirações para todos que acreditam em um mundo melhor. A todas as pessoas do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhô de São Paulo que há anos me fazem ser um capoeirista e uma pessoa mais comprometida com a vida e meu povo, especialmente ao Mestre Plínio e sua família. Agradeço também aos Mestres Gaguinho, Bigo, Jogo de Dentro e Limãozinho. Aos colegas do NEPIM pelas considerações e conversas sobre essa pesquisa, especialmente à Simone Nogueira e Mariana Serafim. Muito obrigado a minha querida irmã Myrna Coelho pelas incontáveis horas de conversa sobre essa pesquisa, por suas considerações sobre o texto, por seus comentários mais que pertinentes observando o que meus olhos já não alcançavam, e principalmente por seu carinho. Aos amigos que sempre me ajudaram e me acolheram durante esse trabalho: Giselli Gonçalves, Ana Paula Santos, Gabriela Gramkow e Guilherme, Elisa Ximenes e Silvio Rhatto, Karine Foz, Raphael Tim, Henrique Parra, Patricia Villas Boas, John Laudenberguer 6 III, André Takahashi, Alessandra Gomes, Nuno Gonçaves e Maíra. Aos inspiradores companheiros do Coletivo de Psicólogos Negros do SinPsi. A Mãe Caçulinha amorosa dirigente do Abaça Oxum-Oxóssi e a todos os seus membros, especialmente Cris Moscou. Obrigado ao Mexico Lindo e aos povos de Oaxaca, especialmente aos Mixes de Santa Maria de Tlahuitoltepec (gracias Damian e família). Aos Zapotecos de Juchitán e aos amigos professores Victor e Hiram da UPN de Ixtepec. Aos Mazatecos de Hualtla de Jimenez (gracias Melquiades, Lupita, Aida e a todos da rádio comunitária Nhãndia). Gracias a todos do Proyeto PAPIITI do Centro de Investigaciones sobre América Latina y el Caribe-UNAM, particurlamente Jesús Serna Moreno e Rosalva Ros pelo apoio e pelas conferências. À Profa. Dra. Norma Durán por seu trabalho e sua influência. À querida Elvira e Eduardo por el temazkal. Ao Maestro Zilakatzin e los danzantes del sol. Ao grande apoio recebido de Kay Cid e sua família pelos primeiros passos em DF. A Lucia Reyes por todos os ritmos e sabores que me fizeram entender um pouco mais do Mexico Profundo rural e urbano, assim como pelas transcrições. À Cesar Ortega pelo inestimável apoio com as traduções e nas transcrições das entrevistas. A CAPES pelo apoio institucional e financeiro. 7 RESUMO Esta tese de doutorado realiza uma investigação sobre a identidade na América Latina com ênfase na apropriação crítica da tradição. Busca-se pensar a construção de experiências de resistências na manifestação da Capoeira Angola como expressão de parte da tradição afrobrasileira e também experiências de resistências presentes em alguns grupos indígenas do sudeste mexicano enquanto expressão ameríndia. Essa aproximação se conceitualizou pelo que chamamos aqui de afroamericalatinidade. Trata-se de uma interlocução que considera a pluralidade afrolatina como força criativa e crítica para os desafios do mundo contemporâneo perante os interesses e aprisionamentos do capitalismo. O sintagma identidade-metamorfose-emancipação desenvolvido pelo psicólogo social Antônio da Costa Ciampa é o fio condutor conceitual desse trabalho que busca dialogar com as contribuições de Elias Canetti, Paul Ricoeur, Andre Comte-Sponville, François Julien, Subcomandante Marcos, Hampaté Bâ, Boaventura Souza Santos e outros pensadores considerados pós-colonialistas na América Latina. Essa investigação sobre a apropriação crítica da tradição levou a constatação da capacidade do indivíduo em escolher livremente permanecer na tradição mesmo que esta revele dentro de si elementos contraditórios, conflitivos e até mesmo opressivos. São enfrentamentos para compreender a tradição como mesmice, mas também considerá-la como produtora de sentidos emancipatórios. É desenvolver a habilidade para lidar com a discordância onde só se busca a concordância, manejando a tradição enquanto possibilidade de espaço produtor de afetividades com expressões políticas e autonomia. Objetivamos, a partir de uma série de observações de campo no Brasil e no México, notar a capacidade de suportar a manutenção do residual da tradição em conflito com o emergente sem rechaçá-lo. Foi de interesse constante investigar como o que se convencionou chamar de América Latina vem investindo em um projeto emancipatório considerando sua identidade como metamorfose. Palavras-chaves: Crítica, tradição, afroamericalatinidade, metamorfose, identidade. 8 RESUMEN Esta tesis de doctorado realiza una investigación sobre la identidad en América Latina, con énfasis en la apropiación crítica de la tradición. Se busca pensar la construcción de experiencias de resistencias en la manifestación de la Capoeira Angola, como expresión de parte de la tradición afro-brasileña y también en experiencias de resistencias presentes en algunos grupos indígenas del sureste mexicano en tanto expresión amerindia. Esa aproximación se conceptualizó aquí desde lo que denominamos afroamericalatinidad. Se trata de una interlocución que considera la pluralidad afrolatina como fuerza creativa y crítica para los desafíos del mundo contemporáneo frente a los intereses y aprisionamientos del capitalismo. El sintagma identidad-metamorfosis-emancipación desarrollado por el psicólogo social Antônio da Costa Ciampa es el hilo condutor conceptual de este trabajo que busca dialogar con las contribuciones de Elías Canetti, Paul Ricoeur, Andre Comte-Sponville, François Julien, Subcomandante Marcos, Hampaté Bâ, Boaventura Souza Santos y otros pensadores considerados pos-colonialistas en América Latina. Esta investigación sobre la apropiación crítica de la tradición llevó a la constatación de la capacidad del individuo de escoger libremente su permanencia en la tradición, aunque esta revele dentro de sí elementos contradictorios, conflictivos e incluso opresivos. Son enfrentamientos para comprender la tradición como mismidad, pero también para considerarla como productora de sentidos emancipatorios. Es desarrollar la habilidad para lidiar con la discordancia donde sólo se busca la concordancia, manejando la tradición en tanto posibilidad de espacio productor de afectividades con expresiones políticas y autonomía. Destacamos, a partir de una serie de observaciones de campo en Brasil y México, la capacidad de fortalecer la conservación de los residuos de la tradición en conflicto con lo emergente sin rechazarlo. Fue de interés constante investigar como lo que se ha convenido en llamar América Latina está apostando en un proyecto emancipatorio, considerando su identidad como metamorfosis. Palabras-llave: Crítica, tradición, afroamericalatinidad, metamorfosis, identidad. 9 ABSTRACT This thesis conducts an investigation into identity in Latin America with an emphasis on the critical appropriation of tradition. It aims to think the construction of experiences of resistance in the manifestation of Capoeira Angola as part of the expression of Afro-Brazilian tradition and also experiences of resistance present in some indigenous groups of southeast Mexico as an Amerindian expression. This approach was conceptualized by what is here called afroamericalatinity. It is a dialogue that considers Afro-Latino plurality as a critical and creative force for the challenges of the contemporary world facing the interests and imprisonments of capitalism. The syntagm identity-morphing-emancipation developed by social psychologist Anthony da Costa Ciampa is the conceptual thread of this study that seeks to dialogue with contributions from Elias Canetti, Paul Ricoeur, Andre Comte-Sponville, François Julien, Subcomandante Marcos, Hampaté Bâ, Boaventura Souza Santos, and other thinkers considered as postcolonialists in Latin America. This investigation regarding the critical appropriation of tradition led to the affirmation of the individual's ability to freely choose to remain in the same tradition that reveals within itself contradictory, conflicting, and even oppressive elements. They are confrontations in order to understand the tradition as sameness, but also consider it as producing emancipatory meanings. It is to develop the ability to handle the disagreement which only seeks agreement, handling tradition as a possibility of space producer of affectivities with political and autonomous expressions. We seek, from a series of field observations in Brazil and Mexico, to note the ability to support the maintenance of tradition's residue in conflict with the emerging without rejecting it. It was of constant interest to investigate how what is conventionally called Latin America is investing in an emancipatory project considering its identity as metamorphosis. Key Words: Critique, tradition, Afroamericalatinity, metamorphosis, identity. 10 Sumário INTRODUÇÃO p. 12 Da necessidade desta pesquisa p. 15 O sintagma identidade-metamorfose-emancipação enquanto justificativa p. 21 PARTE I: CONCEPÇÕES TEÓRICAS E ALGUMAS NOTAS DE CAMPO p. 33 Capítulo 1: Sobre a narrativa e a tradição p. 34 Narrativa p. 37 Um lugar para os posicionamentos da tradição p. 40 Capítulo 2: Apontamentos e aproximações da metamorfose humana e a memória p.45 Um lugar para a memória p. 49 Marcações e o que se conserva dos pressentimentos e anunciações. p. 52 Pertencimento, repetição e crítica: o enraizamento e o contemporâneo p. 55 A apropriação crítica da tradição p. 59 Capitulo 3: O emocionar e a tradição: uma reflexão sobre a Capoeira Angola. p.65 Capoeira com o humor que liberta p. 66 Com o corpo que expressa p. 70 A política que resiste p. 72 A respeito do conflito p. 78 Indo em direção ao mar p.83 Capítulo 4: Uma palavra que é cor: algo de uma história mexicana reparadora p. 86 Os zapatistas pela poesia e os excessos do esquecimento p. 87 11 A dificuldade para conhecer p. 92 A Flor da Palavra p. 95 Capítulo 5: Considerações a respeito da sabedoria p. 103 Conhecimento e compreensão como síntese p. 104 A sabedoria e a experiência p. 107 O problema da mestiçagem para a sabedoria p. 112 Ritmo e mais algumas considerações sobre o corpo p. 119 O esquecimento p. 122 PARTE II: CONHECENDO AS METAMORFOSES DO BOM COMBATE E A LUTA POR RECONHECIMENTO DO BRASIL AFRODESCENDENTE E DO MÉXICO INDÍGENA. p. 124 Geografias p. 125 Territórios e histórias brasileiras p. 128 Algumas considerações para a superação do ressentimento como parte da luta para o reconhecimento negro p. 129 Vozes da tradição: Brasil p. 136 Entrevista com Mestre Moa do Katendê p. 137 Entrevista com Cidinha da Silva p. 155 Territórios e histórias mexicanas p. 162 A vida no México p. 167 Vozes da tradição: México p. 172 Entrevista com Irma Piñeda p. 174 Entrevista com Godo p. 182 CONSIDERAÇÕES FINAIS p. 202 REFERÊNCIAS p. 210 12 Introdução Seguir o caminho, cumprir o preceito, salvar o respeito guardar o segredo e manter o Axé Muniz Sodré Liberdade: Diz Durito que a liberdade é como o amanhecer. Alguns o esperam dormindo, mas outros acordam e caminham durante a noite para alcançá-lo. Eu digo que nós, zapatistas, somos viciados em insônia e deixamos a História desesperada. Luta: O Velho Antônio dizia que a luta é como um círculo. Pode começar em qualquer ponto, mas nunca termina. História: A História não passa de rabiscos escritos por homens e mulheres no solo do tempo. O poder traça o seu rabisco, elogia-o como escrita sublime e o adora como se fosse a única verdade. O medíocre limita-se a ler os rabiscos. O lutador passa o tempo todo preenchendo páginas. Os excluídos não sabem escrever ainda. Subcomandante Marcos Os debates em torno da tradição e da identidade, independentemente de sua origem, nos remetem a problemas da autonomia e da captura dos sujeitos que fazem parte da tradição. Esse trabalho faz referência às possibilidades de apropriação crítica da tradição na América Latina. Para tanto, há duas questões a serem trabalhadas: um ponto marcado pela tradição afro-brasileira da capoeira angola e outro ponto marcado por grupos autonomistas e indígenas mexicanos. Essas duas expressões geográficas, localizadas tanto ao norte quanto ao sul da América Latina, voltaram a ser protagonistas de lutas e possibilidades de emancipação entre sociedade e política nas últimas décadas. A partir daí, meu principal interesse na presente pesquisa é compreender a relação entre tradição e metamorfose numa subjetividade produtora de autonomia a partir de ambas as manifestações. Percebo o acúmulo de críticas à própria ideia de identidade quando esta remete a cristalização dos papéis sociais e a um modelo único para entender e falar sobre seres humanos. Com a tradição é semelhante, especialmente quando entendemos a repetição de determinados aspectos da cultura (falarei sobre esse aspecto posteriormente). Entretanto, mesmo quando concordo com essas críticas, não posso deixar de notar o crescente interesse 13 no debate sobre as políticas de identidade por parte da comunidade acadêmica, governos e sociedade civil (Ciampa, 2005). As questões do reconhecimento e de seus processos de luta são cada vez mais evidentes nas sociedades contemporâneas. Tomemos como exemplo o que vem acontecendo em lugares como México e Brasil 1 nas últimas décadas. Nesse último caso, especialmente com a criação dos chamados Pontos de Cultura 2, com as ações afirmativas 3 e com o reconhecimento das comunidades tradicionais ou/e originárias (quilombolas, indígenas etc.), vemos debates que, em alguma proporção, dizem respeito às lutas por reconhecimento, tradições, memória e autonomia. Preciso então dizer como surgiu a ideia para esse trabalho. Defendi meu mestrado numa sexta-feira de um mês de carnaval de 2007 e, dois dias depois, tomei o avião para Nova York. O destino final era o Japão, terra que, há muitos anos, desejava conhecer. Antes, porém trabalhei como educador e professor de capoeira em Peekskill NY, graças a um convite de outro professor, Scott, um antigo conhecido com quem havia trabalhado no Brasil anos atrás. Retornar a estrada para além das fronteiras nacionais tornava-se realidade. Tomei a decisão de viver no Japão sem data certa para retornar ao Brasil. Durante este período, estive presente em oito países: Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Irlanda, Espanha, Canadá, Japão, China e África do Sul, em dezenas de cidades. O objetivo foi, além de encontrar meios para minha subsistência, conhecer as comunidades locais, alguns projetos de educação comunitária e grupos de defesa de direitos humanos diversos, principalmente de imigrantes. Era uma ação ativista. Conheci e pude colaborar com grupos como No Borders, No Más Muertes, Independent Media Center, e em outros casos, com atividades de educação e arte que envolviam alguma matriz africana. 1 Também são emblemáticas as questões relacionadas a Bolívia, Canadá e Austrália. Stephen Baines, desde 1996, vem realizando trabalhos comparativos nas políticas de identidades indígenas entre Brasil, Canadá e Austrália. Ele sugere para introdução e uma reflexão comparativa sobre a Austrália e o Canadá, por exemplo, Weaver (1984, 1985); Hodgins, Milloy, & Maddock (1989). Para um trabalho detalhado sobre a história do Serviço de Proteção aos Índios no Brasil, ver Lima (1995). Para reflexões sobre a política indigenista na Austrália, ver Weaver (1993); Beckett (1988; 1992). 2 Segundo levantamento do ano de 2012, existe um pouco mais de pontos de cultura no Brasil. Na época de sua criação, 2003, o então Ministro da Cultura Gilberto Gil disse: Para fazer uma espécie de do-in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do País. Enfim, para avivar o velho e atiçar o novo. Porque a cultura brasileira não pode ser pensada fora desse jogo, dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa encruzilhada de matrizes milenares e informações e tecnologias de ponta. GIL, G. Discursos do Ministro da Cultura Gilberto Gil. Brasília, Ministério da Cultura, Disponível: 3 Ver Ação afirmativa: história e debates no Brasil , Sabrina Moehlecke, Cadernos de Pesquisa nº. 117, p , novembro/2002. Também Ação afirmativa e o combate ao racismo institucional no Brasil , Valter Roberto Silvério, Cadernos de Pesquisa nº. 117, p , novembro/2002 14 A Capoeira Angola sempre foi uma importante porta de entrada em todos os países que estive. Ser brasileiro, conhecer e praticar a capoeira possibilitava uma imersão rápida nos grupos sociais locais espalhados pelo mundo. Essa identificação como capoeirista gerava uma grande empatia entre determinados grupos sociais, mesmo quando existia uma limitação linguística ou imposta pelas diferenças culturais. O que me leva a pensar que a Capoeira proporciona uma comunicação particular relacionada a sua tradição, independente da nacionalidade de seus praticantes. Fui notando que, em uma roda de capoeira fora do Brasil, o senso de pertencimento àquela arte era mais importante do que em países de origem das pessoas. A capoeiragem, junto com o ativismo, ajudava meu trânsito por terras distantes, em culturas completamente diferentes da minha. O interessante é que a percepção dessa inserção mediada por caracteres da tradição no pertencimento à capoeira era facilmente notada e compartilhada por outros imigrantes, particularmente, pelos brasileiros que encontrei ocasionalmente. Conheci algumas pessoas que, quando no Brasil, nunca cogitaram a possibilidade de praticar capoeira ou se envolver com manifestações populares e, depois de certo tempo distantes de suas casas, passaram a participar de algum desses grupos, a fim de estar junto às muitas comunidades brasileiras espalhadas pelo mundo e, manterem sua identificação como brasileiros. Entretanto, essa tende a ser uma condição de muitos imigr
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