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  See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/328676076 Cidade aberta, resenha do livro Construir e habitar de Richard Sennett  Article  · November 2018 CITATIONS 0 READS 790 1 author:Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Right to the city   View projectBianca TavolariInsper Institute of Education and Research 39   PUBLICATIONS   13   CITATIONS   SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Bianca Tavolari on 01 November 2018. The user has requested enhancement of the downloaded file.  18   Quatro cinco um outubro 󰀲󰀰󰀱󰀸 Urbanismo atuação como planejador. Assim, re-solver o enigma entre ville e cité   não passa só pela criação de categorias conceituais mais complexas, mas tam- bém — e principalmente — por um sa- ber e um fazer iminentemente práti- cos. Resolver este enigma é repensar o planejamento urbano de cima a baixo. O ponto de partida não poderia dei- xar de ser a obra de Jane Jacobs, auto- ra do livro de urbanismo mais influen-te de todos os tempos, que, já em 󰀱󰀹󰀶󰀲, criticava todo o planejamento urba-no que não tivesse por base necessi- dades e desejos sociais concretos. Sen- nett conta uma de suas conversas com a amiga de longa data, em Toronto: “Certa vez, quando tentava entender a relação entre cité e ville , comentei com  Jane Jacobs que ela acertava mais com a cité que Mumford, ao passo que ele acertava mais com a ville . [...] Talvez nossas discussões servissem para ani- má-la, evocando lembranças da velha torrente verbal incontrolável que ani-mava suas incursões semanais. Mas dessa vez, lembro que ela resumiu a coisa sumariamente, perguntando- -me: ‘Mas o que você faria?’”O próprio Sennett também pergun-ta: “O urbanismo deve representar a sociedade tal como ela é ou tentar mudá-la?”. A questão é problemáti-ca. Totalizar e fixar uma essência a uma sociedade ou a uma cidade é o contrário do que deveria ser o traba- lho de um urbanista. “Mas o que você faria?” A questão de  Jacobs permanece. Valendo-se da ex- periência de Délhi, Xangai e Medellín, Sennett tenta responder formulando o que chama de uma ética para uma cidade aberta. Abertura que se dá em muitos planos: no combate à hostili-dade às diferenças, na busca por su-primir os efeitos embotadores da tec-nologia, no desejo de levar o meio ambiente a sério e sobretudo aumen- tar a densidade da experiência urbana. Sennett fornece pistas que todos aqueles que se preocupam com o fu-turo das cidades deveriam conhecer. Mas o pano de fundo já é conhecido há muito tempo: toda tentativa de conciliação entre ville  e cité não pode vir apenas dos desejos e das vontades de um planejador bem-intenciona- do, por melhores que sejam as inten- ções. O planejador é apenas mais um, a técnica é somente um dos elemen- tos. Talvez Jacobs abrisse um sorriso ao chegar ao final deste livro. Richard Sennett. Construir e habitar. Tradução de Clóvis Morris.Record ã 410 pp ã R$ 59,90 Todos guardamos fragmentos de me-mória das cidades que já visitamos. Uma rua larga e agitada, cheia de pe- destres em ritmos e direções variados, uma esquina diferente de todas as ou- tras, uma arquitetura inconfundível, um caminho repetido inúmeras vezes, com todas as suas pequenas variações cotidianas. Se fecharmos os olhos, tal- vez seja possível não só acessar ima- gens e ritmos, mas também fazer um recenseamento de cheiros, perfumes, texturas, sons, sabores e relações. Uma cidade interessante é necessa-riamente torta: são as irregularida-des, as marcas distintivas, as estrutu-ras incompletas e a diversidade que atraem o olhar. Padrões urbanos or-denados, homogêneos e fixos são per-cebidos como monótonos e inautênti-cos, seja para o visitante, seja para o morador. Em seu novo livro, Richard Sennett se propõe justamente a pen-sar nesses elementos tortos e abertos que conformam a experiência urbana. Sennett faz uma distinção entre vil- le  e cité  , que ilustram as diferentes ga- mas de sentido atribuídas a “cidade”. Cidade é tanto um espaço construí-do, com prédios, ruas, parques, pon-tes e passagens, quanto um modo de viver. É um lugar 󰁦ísico e concreto — ville  —, mas também uma experiência, uma consciência coletiva, uma cultu- ra — cité  . Para evocar o título do livro, construir, por um lado, e habitar, por outro. Cité   também faz referência à ci-dadania, ao lugar da democracia e de uma esfera de sociabilidade, ao vivi-do no cotidiano. Ville , por sua vez, as-socia-se à técnica e à tecnologia, aos modos de configurar a forma urbana. Em português, “cidade” é palavra polissêmica: abarca todos esses senti-dos sem anunciar a diferenciação, de maneira muito semelhante à memória, que já vincula, de saída, aquela esqui-na específica aos encontros que tive-mos nela, consolidando espaço cons- truído e modos de vida numa coisa só. Mas, para Sennett, marcar a diferen- ça não é apenas importante — é fun- damental. Isso porque modos de cons- truir e modos de habitar nem sempre caminham juntos. Exemplos dessa desconexão são os projetos desenvol-vidos por Haussmann, Cerdà e Olms-ted, tido por Sennett como os “três Cidade aberta  Richard Sennett critica modelos de urbanização icônicos para atualizar a relação entre a maneira de morar e construir Bi󰁡n󰁣󰁡 T󰁡vol󰁡ri P  a ul  L  o wr  y /   C r  e a t  i   v e C  omm on s  O viaduto Riverside Drive, a oeste de Manhattan, que teve a área inferior, historicamente degradada, reativada  fundadores ocidentais” do urbanis-mo. A abertura de grandes bulevares por cima de ruas tortuosas e irregula-res em Paris, habitadas pela popula- ção mais pobre e utilizadas para mon-tar barricadas, foi uma das principais marcas do barão de Haussmann. Em forma de rede, a nova cidade privile- giava a circulação e a ordem política, num arranjo em que o espaço cons- truído faz terra arrasada da vida asso- ciada ao lugar — a ville desbanca a cité  .  Já a trama das ruas que Ildefons Cerdà implementou em Barcelona pretendia estimular a sociabilida-de, o acolhimento e, principalmente, a igualdade entre classes sociais, por meio de quarteirões octogonais inter- valados, cujas esquinas surgiam como potencial lugar de encontro. A preten-são era igualar a cité igualando a ville . O Central Park de Frederick Law Olmsted foi concebido para reunir classes, raças e etnias diferentes, afir-mando que a inclusão social pode ser fisicamente planejada — ao integrar a ville , seria possível integrar a cité  . Esses urbanistas tentaram moldar o espaço construído para resolver ques- tões sociais, ainda que os valores de fundo de cada um fossem distintos. Para Sennett, revisitar essas propos- tas mostra suas inúmeras limitações e consequências inesperadas — as gran- des avenidas de Haussmann acabaram se tornando um enorme espaço de so-ciabilidade, as tramas de Cerdà impri- miram monotonia e não exatamente igualdade social, o Central Park pas-sou por um período de abandono e, hoje, é um lugar predominantemente frequentado pela elite de Manhattan. Boas intenções Construir para destruir espaços exis-tentes de sociabilidade, na tentati-va de criar uma ordem social do zero, decerto já não é um caminho acei-tável, seja na versão de Haussmann, seja no modernismo de Le Corbusier. Mas, como mostra Sennett e a histó-ria do planejamento urbano, o urba-nista bem-intencionado que preten-de vincular ville e cité pode alcançar resultados desastrosos. Essa relação é um enigma que precisa ser explorado e compreendido para ser solucionado. Além de ser um dos principais soció- logos urbanos contemporâneos, Sen-nett também tem uma importante View publication statsView publication stats

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Oct 7, 2019
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