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Tinha Um Gênero No Meio Do Caminho. a Relevância Do Gênero Para a Constituição Do Estilo Em Textos de Escolares

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  409 Sínteses - Revista dos Cursos de Pós-GraduaçãoVol. 11p.409-4222006TINHA UM GÊNERO NO MEIO DO CAMINHO. A RELEVÂNCIA DOGÊNERO PARA A CONSTITUIÇÃO DO ESTILO EM TEXTOS DEESCOLARES. 1 Márcia Helena de Melo PEREIRA RESUMO :  Esta tese parte da consideração de Bakhtin (1997) [1952-1953] de que oestilo individual está ligado ao enunciado e aos gêneros do discurso e procura discu-tir essa relação contígua com base em dados do processo de construção de textosescritos por alunos do ensino Médio. Para Bakhtin, todo e qualquer gênero de discur-so constitui um estilo próprio de enunciação, a que ele denomina de estilo funcional.O estilo individual é construído no interior de estilos socialmente compartilhados. Logo, há uma estreita relação entre estilo individual e gênero. Alguns gêneros, noentanto, permitem mais contribuições estilísticas do que outros, como é o caso típicoda literatura. Dentro da perspectiva bakthiniana, pelos dados que analisamos, postu-lamos que o trabalho com os gêneros do discurso é que fundaria e fundamentaria ostrabalhos estilísticos. Discutiremos essa relação intrínseca tendo como objeto de aná-lise dados do processo de construção de seis textos escritos por duas duplas de alunosdo Ensino Médio. ABSTRACT : This thesis develops under Bakhtin’s consideration (1997) [1952-1953]in which the individual style is connected with the enunciation and with the discoursegenres and seeks to discuss such contiguous relationship based upon data derived  from the construction process of texts written by secondary students. For Bakhtin, alland any discourse genre constitutes a particular style of enunciation, which hedenominates functional style. The individual style is constructed within the sociallyshared styles. Therefore, there is a close connection between individual style and genre.Some genres, however, allow more stylistic contributions than others, as the typicalcase of literature. Having analysed the data within Bakhtin’s perspectives, we claimthat the work with discourse genres is indeed the foundation and fundament of the 1  Texto resultante da Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Lingüística Aplicada do Instituto deEstudos da Linguagem, da Unicamp, no dia 20 de abril de 2005, sob orientação da Profa. Dra. RaquelSalek Fiad.  410 stylistic works. We shall discuss such intrinsic relation based upon the data derived  from the creational process of six texts written by two couple of Secondary students. 1. INTRODUÇÃO Bakhtin (1997) [1952-1953] define gêneros do discurso como “tipos relativa-mente estáveis de enunciados” do ponto de vista temático, composicional e estilístico.Ao dar uma visão sócio-histórica aos gêneros, Bakhtin afasta a idéia de seu determinismo,dando aos sujeitos a possibilidade de criar e modificar um gênero de discurso. Segundoo autor, é o estilo que oferece essa possibilidade de alteração de um gênero. Um deter-minado gênero produz enunciados relativamente típicos, que carregam o estilo dessegênero.Para Bakhtin (op.cit.), todo enunciado verbal, oral ou escrito, é, em princípio,individual. Entretanto, o enunciado pode ou não refletir essa individualidade, caracte-rizada como um estilo individual. Segundo o autor, nem todos os gêneros seriam propí-cios a esse estilo. Por exemplo, uma notícia apresenta uma certa rigidez em seus ele-mentos constitutivos, o que torna esse gênero mais estável. Já outros gêneros, como osliterários, propiciam, de maneira mais maleável a emergência e o desenvolvimento doestilo individual. Portanto, há uma estreita relação entre estilo individual e gênero, poiso sujeito deve movimentar-se no interior de um gênero discursivo e o estilo individualemerge dentro da organização desse gênero. Sendo assim, o estudo do estilo não deve-ria deixar de também considerar a questão do gênero discursivo.Partindo dessas considerações de Bakhtin de que o estilo individual está ligadoao enunciado e aos gêneros do discurso, pretendemos discutir essa relação com baseem dados do processo de construção de seis textos escritos por duas duplas de estudan-tes do ensino Médio.A questão da emergência do estilo na aquisição da escrita tem sido debatida pelaspesquisadoras Maria Bernadete, Maria Laura e Raquel, desde pelo menos 1997. Elasmantêm um Projeto Integrado financiado pelo CNPq com esta finalidade. Tal Projetoencontra-se, nesse momento, discutindo a relação entre os estilos dos gêneros e osestilos individuais, investigando a possibilidade de construção transgenérica do estilo.Nossa pesquisa tem ligações diretas com esse Projeto Integrado e pretendeu ser umtrabalho a mais realizado no seu interiorAcreditamos que a maior contribuição que podemos dar para as discussões quetêm sido feitas, ultimamente, a respeito desse assunto, está nas possibilidades presentesno material de pesquisa que possuímos. Eles são de natureza processual, o que nospermite fazer uma análise além da análise do produto final, o texto. Em geral, quandose fala em estilo na linguagem verbal, sua natureza e função, pensa-se da perspectivade um produto lingüístico esteticamente acabado, considerado um  fato de estilo; difi-cilmente se considera o seu processo de constituição. Nossa pesquisa pretende mostrar  411que dados processuais podem ser, também, uma importante fonte de informação parase averiguar a existência de traços de estilo, tanto individuais quanto genéricos, emtextos de escolares.Em suma, contamos, também, com os registros processuais dos seis textos queanalisaremos para averiguarmos a emergência do estilo. Esses registros serão nossaporta de entrada para o tratamento das questões que discutiremos, nosso argumentopara fazer propostas.Os textos foram escritos por duas duplas de estudantes do Ensino Médio, sendouma dupla de escola pública e outra dupla de escola particular. Cada dupla escreveutrês textos, em três diferentes gêneros do discurso, a saber: narrativa ficcional, notíciae carta argumentativa. Esses dados nos permitiram recortar as seguintes questões, ten-do em vista duas situações: 1)   Situação 1 : mesma dupla se apropriando de gêneros diferentes ã É possível depreender um estilo de escrita próprio da dupla, ou o estilo dos gêneros(no sentido bakhtiniano) impera sobre o estilo da dupla? Neste caso específico, seráque poderemos dizer que o estilo da dupla é transgenérico? 2) Situação 2:  duas duplas se apropriando do mesmo gênero ã As duas duplas usam as mesmas estratégias para se apropriarem de um mesmo gêneroou as estratégias utilizadas são diferentes de dupla para dupla? O estilo dos gênerosprevalece sobre o estilo das duas duplas? 2. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS Operacionalizar um trabalho que envolve a apreensão do processo de construçãode textos não é tarefa fácil. Para que o processo de produção desses textos pudesse serapreendido da maneira mais completa possível, três etapas foram utilizadas. Primeira-mente, fizemos uso de um software  francês chamado genèse du texte, desenvolvidopela  Association Française pour la Lecture, em 1993, com objetivos pedagógicos.Com tal software,  pudemos ter acesso a todas as idas e vindas, as substituições, asnovas ordenações, as pausas etc., efetuadas pelos alunos ao longo da construção dostextos, pois ele nos disponibiliza relatórios contendo todas essas operações de reescri-ta, proporcionando-nos a apreensão da linguagem em seu statu nascendi.  Em nossasegunda etapa, filmamos todo o momento de elaboração dos textos em vídeo com oobjetivo de capturarmos o diálogo mantido entre os sujeitos a respeito deles: suas re-flexões, suas dúvidas, suas escolhas lingüísticas em detrimento de outras etc. Na tercei-ra e última etapa, fizemos uma entrevista com os próprios alunos, desta vez gravada emáudio, questionando os motivos que os levaram a apagar, substituir, adicionar etc. A  412entrevista foi feita após uma análise prévia dos relatórios gerados pelo programa genèsedu texte  e análise da fita de vídeo.Diante de tais dados processuais, necessitávamos de um arsenal conceptual-metodológico que nos fornecesse subsídios para enfrentá-los e lê-los. Encontramosesse amparo em duas áreas do conhecimento, a saber: nos postulados da crítica genéti-ca, uma área ligada à literatura, que tem se ocupado da análise dos rascunhos, manus-critos, notas de pesquisa etc. deixados por um determinado escritor, para tentar seguiro percurso de criação por ele executado, desde os primeiros esboços até o texto im-presso; e, também, encontramos respaldo nos pressupostos teórico-metodológicos doparadigma indiciário proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg (1939) e daleitura que dele fazem Abaurre et alii (1992, 1995) incluindo-o no âmbito de umateoria da linguagem. Através dos pressupostos teóricos do paradigma indiciário, temosa possibilidade de examinar, via pistas, sinais, os pormenores e as marcas individuaispresentes nas atividades humanas em geral e, dentre elas, a linguagem.Quanto aos sujeitos, as duas duplas foram formadas por estudantes do sexo femi-nino. Eles tinham 16 anos e estavam cursando a primeira série do Ensino Médio quan-do a pesquisa foi realizada, em 1999. 3. NOÇÕES TEÓRICAS BÁSICAS Duas noções teóricas nos serviram de base: estilo e gênero. Em relação à questãodo estilo, desafortunadamente, no domínio dos estudos lingüísticos, ele tem sido visto,também, de forma reducionista, ligado às características individuais ou como desvioda norma. Estes tratamentos dados ao estilo não levam em conta o sujeito em sua açãona linguagem. Por isso, abraçamos o conceito adotado por Possenti (1988) que, partin-do de Granger (1968), concebe estilo enquanto escolha e enquanto marca de trabalhodo sujeito na linguagem. Adotar a postura de que o sujeito tem espaço para escolhasindividuais e que pode, portanto, constituir um estilo individual, implica postular que osujeito não está livre das regras lingüísticas nem das sociais, mas que essas regraslingüísticas e sociais lhe permitem também a manifestação de sua subjetividade; impli-ca adotar uma teoria da subjetividade que encare o sujeito como um articulador detextos, discursos e linguagens, o que o coloca numa posição fortemente ativa e atuante.Sobre a questão dos gêneros discursivos, nosso suporte teórico está ancorado,como não poderia deixar de ser, no conceito formulado por Bakhtin (1995, 1997). Parao teórico russo, as relações entre os parceiros da enunciação não se dão em um vácuosocial; elas são estruturadas e determinadas pelas formas de organização e de distribui-ção dos lugares sociais nas diferentes instituições e situações sociais de produção dosdiscursos. Em cada uma das esferas comunicativas aludidas pelo autor, os parceiros daenunciação podem ocupar determinados lugares sociais, estabelecer certas relaçõeshierárquicas e interpessoais, abordar certos temas, ter determinadas intenções comuni-
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