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UMA INTRODUÇÃO AO TEMA DO ENSAIO - A PARTIR DA LEITURA DO TEXTO “O ENSAIO COMO FORMA” DE THEODOR ADORNO, 1958

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Apresentarei aqui uma leitura do texto de Theodor Adorno “O ENSAIO COMO FORMA”, escrito entre 1954 e 1958, e incluído na coletânea Notas de Literatura I. A escolha do autor e do assunto se deu em função especificamente do texto e do tema do ensaio. Interessa-me o ensaio sob duas formas: há alguns autores e pesquisadores que tem buscado uma relação entre o cinema e a forma do ensaio, como Arlindo Machado com o conceito de filme-ensaio, e também André Brasil que aponta uma proximidade entre a forma do ensaio e o vídeo. Por outro lado, como pesquisador e artista, eu tenho pensado na forma do ensaio e em suas características como sendo importantes para situarmos a pesquisa em arte realizada hoje, colocando a pesquisa em artes e o texto do artista em paralelo (ou em analogia) com a filosofia e a forma do ensaio (a escrita do filósofo), assim como o entende Adorno
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  1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RGS   INSTITUTO DE ARTES   PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS  FILOSOFIA DA ARTE PROF. ÁLVARO VALLS 2005/2 UMA INTRODUÇÃO AO TEMA DO ENSAIO -    A PARTIR DA LEITURA DO TEXTO “O ENSAIO COMO FORMA”  DE THEODOR ADORNO, 1958    Marcelo Roberto Gobatto / janeiro 2006  2 APRESENTAÇÃO Apresentarei aqui uma leitura do texto de Theodor Adorno “ O ENSAIO COMO FORMA ”, escrito entre 1954 e 1958, e incluído na coletânea Notas de Literatura I. A escolha do autor e do assunto se deu em função especificamente do texto e do tema do ensaio. Interessa-me o ensaio sob duas formas: há alguns autores e pesquisadores que tem buscado uma relação entre o cinema e a forma do ensaio, como Arlindo Machado com o conceito de filme-ensaio, e também André Brasil que aponta uma proximidade entre a forma do ensaio e o vídeo. Por outro lado, como pesquisador e artista, eu tenho pensado na forma do ensaio e em suas características como sendo importantes para situarmos a pesquisa em arte realizada hoje, colocando a pesquisa em artes e o texto do artista em paralelo (ou em analogia) com a filosofia e a forma do ensaio (a escrita do filósofo), assim como o entende Adorno. O ensaio teria assim algumas características que sem dúvida interessam ao  pensamento contemporâneo, fundamentalmente ao pensamento artístico e visual.  3 INTRODUÇÃO - O ENSAIO COMO FORMA CRÍTICA Em certo momento do texto, escrito entre 1954 e 1958, Adorno afirma ser o ensaio uma forma anacrônica, e estaria naquele momento historicamente situado entre a ortodoxia da ciência e uma filosofia abstrata. Em suas palavras: Ele [o ensaio] se vê esmagado entre uma ciência organizada, na qual todos se arrogam o direito de controlar a tudo e a todos, e onde o que não é talhado segundo o padrão do consenso é excluído ao ser elogiado hipocritamente como “intuitivo” ou “estimulante”; e por outro lado, uma  filosofia que se acomoda ao resto vazio e abstrato, ainda não completamente tomado pelo empreendimento científico, e que justamente por isso é visto  pela ciência como objeto de uma ocupação de uma segunda ordem  (2003, p. 43).  Neste texto Adorno se posiciona em relação ao contexto em que a filosofia se encontra, criticando o positivismo de uma filosofia da “srcem” , idealista. A filosofia estaria  perdendo sua autonomia ao ser subordinada aos princípios e a uma lógica da ciência  positiva. Para Adorno, o ensaio, ao priorizar não só o conteúdo da filosofia, mas também a sua forma, está valorizando a liberdade de pensamento do filósofo e uma filosofia crítica.  Nas suas palavras: “O ensaio continua sendo o que foi desde o início, a forma crítica par excellence; mais precisamente, (...) o ensaio é crítica da ideologia ” (p. 38). Adorno defende a forma do ensaio em contraposição à forma do tratado, tradicionalmente usada pelos filósofos. Arlindo Machado, no artigo O filme-ensaio, no qual ele vai tentar uma categorização do ensaio na forma audiovisual a partir da noção de cinema intelectual desenvolvida por Eisenstein, aponta a importância do texto de Adorno na definição do que seja o “ensaio” e ao mesmo tempo mostra a situação limite em que ele se encontra: Porque busca a verdade e, em decorrência disso invoca uma certa racionalização da démarche, o ensaio é excluído do campo da literatura, onde se supõe suspensa toda descrença. Por outro lado, porque insiste em expor o sujeito que fala, com sua mirada intencional e suas formalizações estéticas, o ensaio é também excluído de todos aqueles campos do conhecimento (filosofia, ciência) considerados objetivos (2003, p.64) . Ou seja, por ser considerado literário o ensaio é desqualificado como “  fonte de saber  ” já que supostamente não tem o rigor necessário ao empreendimento científico nem sua pretensa objetividade, e por outro lado, o seu caráter racional ou sua busca de uma “verdade” não se encaixaria no âmbito da literatura, onde o texto deve ser supostamente arbitrário e irracional...  4 Machado aponta algumas das características do ensaio, que podem introduzir para nós uma primeira definição do ensaio. Conforme o autor, o ensaio seria uma certa modalidade do discurso científico ou filosófico, geralmente apresentado na forma escrita e em que podemos ver vários atributos ditos literários, entre eles: - a subjetivação do enfoque (explicitação do sujeito que fala), - eloqüência da linguagem (expressividade do texto), - a liberdade do pensamento (concepção da escritura como criação, em vez de simples comunicação de idéias). O ensaio distingue-se do método científico no qual a linguagem é utilizada apenas instrumentalmente, e do tratado que visa à sistematização integral de um campo do conhecimento e a axiomatização da linguagem, conforme Machado. Mas ele também nos aponta o lugar próprio do ensaio, aquele ao qual deveríamos alçá-lo: “Situando -se, portanto, numa zona ao mesmo tempo de verdade e de autonomia formal, o ensaio não tem lugar dentro de uma cultura baseada na dicotomia das esferas do saber e da experiência sensível, e que desde Platão, convencionou separar poesia e filosofia, arte e ciência ” (2003, pág. 65). O próprio Adorno cita Lucáks neste sentido: “A forma do ensaio ainda não conseguiu deixar para trás o caminho que leva à autonomia, um caminho que sua irmã, a literatura, já  percorreu há muito tempo, desenvolvendo-se a partir de uma primitiva e indiferenciada unidade com a ciência, a moral e a arte” (Lukács, 1911, p. 29 citado por Adorno, 2003, p. 15) .  Não devemos então cair nesta armadilha e buscar uma diferenciação entre o ensaio literário e o ensaio científico, ou querer forçá-lo a enquadrar-se em um ou outro campo. Passou-se o tempo em que se tentava resguardar a arte como uma “reserva de irracionalidade, identificando o conhecimento com a ciência organizada”,  como cita Adorno. Se por um lado há certos autores que como Lucáks estão equivocados por definir o ensaio como uma forma artística, limitando a extensão do ensaio e ao mesmo tempo reduzindo à arte ao meramente irracional (como vimos acima), o positivismo nega a subjetividade do autor (do filósofo) e vê qualquer traço de expressão como um desvio da objetividade. Adorno observa que segundo o pensamento positivista “ os escritos sobre arte não devem jamais almejar um modo de apresentação artístico, ou seja, uma autonomia da  forma ”. Conforme ainda Adorno:
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