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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ NÚBIA PAROL MARIAS E JOSÉS: PRÁTICAS NOMINATIVAS NOS EXTREMOS DA AMÉRICA PORTUGUESA, BELÉM DO PARÁ E PORTO ALEGRE, SÉCULOS XVIII-XIX. CURITIBA 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ NÚBIA PAROL MARIAS E JOSÉS: PRÁTICAS NOMINATIVAS NOS EXTREMOS DA AMÉRICA PORTUGUESA, BELÉM DO PARÁ E PORTO ALEGRE, SÉCULOS XVIII-XIX. CURITIBA 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ NÚBIA PAROL MARIAS E JOSÉS: PRÁTICAS NOMINATIVAS NOS EXTREMOS DA AMÉRICA PORTUGUESA, BELÉM DO PARÁ E PORTO ALEGRE, SÉCULOS XVIII-XIX. Monografia apresentada como requisito parcial para a conclusão do Curso de Licenciatura e Bacharelado em História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná Orientador: Professor Doutor Sergio Odilon Nadalin Coorientadora: Professora Doutora Martha Daisson Hameister CURITIBA 2015 Para o meu saudoso pai, Paulo Parol. AGRADECIMENTOS Quatro anos e meio de olhares esbugalhados e pidonhos dos companheiros felinos que decidiam exigir atenção, justamente nos momentos das leituras acadêmicas. Esta monografia encerra um período de árduas batalhas, medos, ansiedades, descobertas, superações e aprendizados ininterruptos. Agradeço aos meus pais pelo apoio incessante ao longo dessa intensa caminhada. Dedico especial carinho a minha mãe, imensamente amada, Zilda Parol, pelo incentivo a licenciatura. Este trabalho não seria possível sem o meu querido orientador, Professor Sergio Odilon Nadalin. Obrigada por acreditar em mim e me ensinar a amar este tema de pesquisa. Aproveito o ensejo, para agradecer as Professoras Martha Daisson Hameister e Maria Luiza Andreazza pelo incentivo prestado. Agradeço imensamente a prontidão e paciência dos Professores André Akamine Ribas do CEDOPE e Dario Scott, do NEPO (UNICAMP). De madeira geral, gratidão a todos que, indiretamente e diretamente, estiveram comigo durante a graduação. Com incalculável afeto, dedico algumas linhas ao companheirismo da amiga Juliane Terres que por três anos e meio esteve ao meu lado todos os dias da semana. Cursar História teria sido um tédio sem você, Ju. Por falar em amizade, Daniela Linkevicius foi um dos presentes mais lindos que a vida me trouxe. Dani, obrigada por estar comigo do início ao fim. Agradeço pelos ombros benevolentes nos momentos melancólicos, pelos sorrisos ternos nas horas de alegria e pela lealdade inquestionável. Terres e Linkevicius, amo e admiro profundamente vocês duas, obrigada por fazerem parte da minha vida, assim será para sempre, independente do que o futuro nos reserve. Ao melhor amigo, Eduardo Alexandre de Oliveira, gratidão, carinho e todo meu amor. Agradeço a Lívia Fortes Couceiro, a quem tanto amo, por compreender meus sumiços repentinos nos momentos conturbados da graduação. Um agradecimento ao amigo Augusto Maynardes, pelas saudosas tardes com gosto de canelinha. Me lembro às vezes de você, meu bom José, meu pobre amigo Que desta vida só queria ser feliz com sua Maria. Georges Moustak RESUMO Atribuir nome a um recém-nascido não se limita unicamente a escolha pessoal dos pais. Eleger um prenome envolve fatores vinculados as sociabilidades, tradições e religiosidade. O estudo sistemático das práticas de nominação indica a repetição de determinados antropônimos, muitas vezes de etimologia religiosa, em localidades distanciadas geograficamente da América Portuguesa. Assim, se antenomes fossem eleitos meramente por acaso, a reiteração persistente de determinados nomes próprios ao longo do tempo, seria minimamente implausível. Entretanto, ao que tudo indica, os prenomes de etimologia secular também compõe parte significativa dos acervos onomásticos analisados, assinalando um problema historiográfico. Concernente as práticas de nominação em Belém do Pará e Porto Alegre, entre períodos dos séculos XVIII e XIX, o intuito desta pesquisa consiste em comparar os estoques onomásticos das populações livres, forras e escravas, averiguar a origem dos nomes que compõem os acervos e elencar os antroponimos mais usuais, afim de verificar a existência de uma identidade cultural comum. Palavras-chave: Práticas de nominação, religiosidade, identidade cultural ABSTRACT Give a name to a newborn child does not depend exclusively on the parents choice. It involves factors linked to sociability, tradition and religiosity. The study of nominatives practices shows the reccurence of some anthroponyms, often of religious origin, in faraway places of portuguese America. Thus, if names were chosen at random, there would not be high incidence of these names. However, it seems that secular names also represents a significant portion of the onomastic stock analyzed, showing a historiographical problem. Regarding to the practices of nomination in Belém and Porto Alegre (Brazil) in 18th and 19th centuries, the aim of this study is to compare the onomastic stocks of free men, freedmen and slaves, analyze the originof the names that are part of the stocks and list the most frequent names, in order to verify the existence of a common cultural identity. Keywords: Nominatives practices, religiosity, cultural identity SUMÁRIO INTRODUÇÃO... 1 CAPÍTULO ASPECTOS GERAIS DA AMÉRICA PORTUGUESA CAPÍTULO IDENTIDADE CULTURAL CAPÍTULO ANÁLISE DOS DADOS Variações dos nomes de batismo Prenomes favoritos Etimologia dos prenomes CONCLUSÃO FONTES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXOS Nomes de etimologia bíblica Porto Alegre: livres, prenomes arrolados por quinquênios Porto Alegre: forros, prenomes arrolados por quinquênios Porto Alegre: escravos, prenomes arrolados por quinquênios Belém: prenomes dos meninos arrolados por quinquênios Belém: prenomes das meninas arrolados por quinquênios Porto alegre: prenomes arrolados por séculos Belém: prenomes arrolados por séculos INTRODUÇÃO Raramente questionamos o que motivou nossos pais a escolher determinado prenome. Os antenomes se introjetam de tal maneira em nossas consciências que chega a ser estranho pensar que poderíamos ser chamados de outra forma. Prenomes organizam os nossos pensamentos e auxiliam a edificar nossa identidade, seja ela individual ou social. Meus pais decidiram criar uma lista de prenomes favoritos para me batizar, somente após o resultado da ecografia. O nome mais provável seria Ana Paula, homenagem a minha avó paterna e ao meu pai. A prática de homenagear antepassados queridos através de prenomes era ainda incipiente em minha família. Mesmo assim, meu primo Jan, ganhou este nome em homenagem ao avô. Então, se eu fosse Ana, meus pais dariam continuidade a embrionária cessão. Entretanto, isso não aconteceu. Porém, como informa a historiografia, o sistema de transmissão de nomes é uma tradição seguida ao pé da letra. No passado, principalmente, como ocorreu entre 1772 e 1810 na Freguesia de Nossa Senhora da Madre de Deus em Porto Alegre, havia um alto percentual de homônimos, comum entre pais e filhos (CAMILO, 2011: 10-12). Assim sendo, quando vigora o sistema de homenagem, o prenome de batismo constitui um bem simbólico vinculado ao patrimônio familiar, ao local de origem, a memória. Voltando a história do meu prenome, certo dia minha mãe assistiu um programa de TV, para o qual a cantora Núbia Lafayette era convidada. Minha mãe não conhecia a cantora e achou o nome dela desusado, mas anotou na lista, mesmo assim. Entretanto, foi meu pai quem optou por abolir as homenagens e me batizar com o nome artístico da cantora, conhecida pela Voz de Ouro da TV Tupi. Em 2013, um levantamento dos 100 nomes mais populares na Inglaterra apontou que series norte americanas, como: Game Of Thrones, Breaking Bad e Homeland, têm inspirado os pais ingleses no momento de atribuir um nome ao rebento. Esta mesma pesquisa demonstra uma diminuição da popularidade de nomes da realeza, entre 1 eles: Kate, William e Charles 1. Desse modo, personagens de programas de televisão, novelas, séries e filmes, podem servir de inspiração aos pais contemporâneos no momento de batizar os filhos. Apesar do relativo sucesso da Núbia Lafayette, parece que meu prenome nunca foi moda. Faço parte do grupo que precisa repetir o nome e, às vezes, até mesmo soletrar. Não, não é Rúbia, é Núbia! Meus pais jamais se preocuparam com o seu teor não cristão. Aliás, eles nunca refletiram sobre esse detalhe. Com efeito, Núbia é um nome de origem egípcia que significa ouro ou dourada. O termo Nub designava a deusa do ouro, Hathor 2. Desse modo, como mencionei, meu nome não possui proveniência bíblica e não identifica nenhum Santo Católico; muito pelo contrário, o vocábulo designava uma entidade pagã. Como veremos mais detalhadamente adiante, no período colonial o poder da religião influenciava a escolha do prenome elegido pelos pais no momento do batismo. Com a ascensão do Estado laico, após a Proclamação da República, o catolicismo deixou de ser a religião oficial do Brasil, traduzindo uma gradativa diminuição da influência religiosa na sociedade. Então, já no final do século XX, meus pais, que nunca foram religiosos, não tinham motivos de preocupação quanto ao teor irreligioso do meu nome. A maior limitação de grande parte dos genitores contemporâneos no momento da escolha de um prenome são as regras impostas pelo Estado. Recentemente, no México foi proíbido que pais e mães batizassem seus filhos com uma série de nomes considerados estranhos ou depreciativos, entre eles Burger King, Robocop, , Batman, Hitler, e outros 3. No Brasil, o Art. 55 da Lei 6015/1970, enuncia: Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo aos seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de quaisquer emolumentos a decisão do Juiz 1 Disponível em: Acesso em 04/12/ Disponível em: http://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nubia/ Acesso em: 03/12/ Disponível em: Acesso em: 03/12/2014 2 competente 4. Assim, é válido assinalar que a limitação dos pais no momento de escolher um prenome aos filhos, varia de acordo com a temporalidade analisada. Portanto, da mesma forma que aconteceu comigo e meus pais, nomear é um ato intrínseco ao homem. Todas as comunidades humanas se identificam através de prenomes 5. Naturalmente, as práticas, os significados simbólicos e as necessidades de nomeação se regulamentam de acordo com os parâmetros culturais de cada grupo. Segundo Viveiro de Castro, o sistema de nomeação ameríndio possui uma categoria denominada endonímica. Neste modelo, vinculado aos Jê, os prenomes são bens herdados e se concentram no interior do grupo; desse modo possuem natureza classificatória e hierarquizante (VIVEIROS,1986: ). De acordo com Levi Strauss, os Sauke e os Osage, tribos indígenas localizadas na América do Norte, formam seus nomes individuais a partir da denominação de clãs. Assim, os nomes próprios são constituídos a partir de um epônimo animal que representa o clã. Denominações como: clã Urso, clã do Bisão, clã do Lobo, clã do Peru, clã do Peixe, entre outras, são recorrentes. Para o etnógrafo, cada clã ou subclã possui um conjunto de nomes cujo uso é reservado a seus membros e, da mesma forma que o indivíduo é uma parte do grupo, o nome individual é uma parte da denominação coletiva. A América do Sul oferece ilustrações do mesmo fenômeno, notadamente, entre os Tupis Kawahib, cujos clãs possuem nomes próprios derivados de um epônimo. Também entre os Bororos, os nomes próprios parecem ser propriedade de certos clãs ou, mesmo, de linhagens poderosas aqueles que, para ter um nome, dependem da boa vontade de outros clãs são tidos como pobres (LEVI STRAUSS,2011: ). Não são apenas comunidades indígenas que criam sistemas hierarquizantes a partir da nominação. A pesquisa de Antónia Pedroso de Lima 4 Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/topicos/ /artigo-55-da-lei-n-6015-de-31-dedezembro-de-1973 Acesso em:30/10/ Segundo Leite de Vasconcelos, é comum a confusão terminológica entre determinadas classes semânticas. Sendo assim, o autor define as categorias de nomes. O primeiro conceito é chamado de Nome Próprio ou Individual e designa o prenome atribuído ao rebento na pia de batismo. Em seguida, o Sobrenome representa uma expressão religiosa, ou um nome de pessoa, que se junta ao nome individual, por exemplo: o caso do santo São Francisco Xavier, no qual Xavier, é sobrenome. Adiante, o termo Alcunha consiste numa designação inspirada em traços físicos ou morais do indivíduo que a recebe. A quarta categoria se intitula Apodo é equivalente a alcunha, contudo possui um caráter efêmero. Por fim, o Patronímico é a representação do nome que o filho herda do pai. Ao longo da Idade Média o patronímico designava filiação, por exemplo: Vaz designa; o filho de Vasco (VASCONCELOS, 1928:12-15). 3 destaca como os prenomes podem enfatizar questões relacionadas à manutenção de tradição e distinção social. A autora analisou a árvore genealógica de famílias pertencentes à elite lisbonense do século XXI e percebeu que, entre estes núcleos familiares, os nomes atribuídos aos varões se repetem sistematicamente em várias gerações, com o intuito de preservar a linhagem, o patriarcalismo e inserir o recémnascido no seio familiar (LIMA, 2007: 66-61). Concernente a contemporaneidade, nota-se a crescente influência de nomes estrangeiros, especialmente estadunidenses, no estoque onomástico brasileiro. Os nomes terminados em on, ganham a preferência dos estratos populares a cada dia. Alisson, Dalton, Helton, Jaison, Welinton, e tantos outros que compõem a interminável lista (TOLEDO, 2009). Em contrapartida, a Proscore Bureau realizou um levantamento com aproximadamente 165 milhões de CPF s de brasileiros e brasileiras, para elencar os 50 nomes mais usados no país 6. Surpreendentemente, Maria, José, Antônio e Ana estão no ranking dos dez prenomes favoritos na atualidade. Ao que parece, apesar da relativa influência norteamericana no estoque onomástico brasileiro, os nomes ditos tradicionais ainda são os prediletos. De um lado, estão os pais que buscam conservar tradicionalismos por intermédio de prenomes clássicos, homenagear um ente querido, batizar o filho com um antenome considerado forte. Enfim conforme os versos de uma celebre canção: Meu filho vai ter nome de Santo. Quero o nome mais bonito 7, ainda há os que são inspirados por motivos religiosos. No entanto, tratando-se do Brasil contemporâneo, muitos pais simplesmente atribuem nomes considerados religiosos por influência da moda, independente do sentimento de devoção. Do outro lado, o objetivo dos pais que batizam o filho com o nome de um indivíduo famoso traduz a aproximação de um universo de glamour, a identificação do rebento com um nome chique; significa diferenciá-lo dos demais através da originalidade; isto é, evitar que o filho seja um João de Nada ou uma Maria Ninguém 8. Resumindo, os motivos psicológicos que levam os pais a batizarem os 6 Disponível em: Acesso em: 12/11/ RUSSO, Renato. As Quatro Estações. Pais e Filhos. EMI; GILBERTO, João. Chega de Saudade. Maria Ninguém.ODEON; filhos com determinados nomes são incontáveis e se perdem diante dos olhos dos pesquisadores como grãos de areia. Cabe ao historiador analisar recorrências e divergências contextualizando-as devidamente. Como já disse Levi Strauss: Os nomes próprios fazem parte integrante de sistemas tratados por nós como códigos: modos de fixar significações, transpondo-as para os termos de outras significações. (LEVI STRAUSS,2011: 201. Grifo meu). Também para o linguista Mansur Guérios, os nomes podem ser criados sob influxos políticos, históricos, literários e religiosos; desse modo, transparecem modismos populares. Escolher um prenome para uma criança não envolve, unicamente, a decisão do casal; de fato, elementos muito mais complexos estão por trás deste momento. Entre eles, tradições, crenças, costumes, sistema de parentesco, imposições da moda, a atuação da Igreja e do Estado. Nesse sentido, pode-se apontar a relevância do prenome Maria durante o século XVIII e XIX em Belém do Pará e Porto Alegre. Sem dúvida os pais não conheciam o significado etimológico deste nome, mas o atribuíam às suas filhas, movidos pela sensibilidade simbólica remetente a personagem bíblica da mãe de Jesus. Para muitos, conceder ao rebento o nome Maria poderia influenciar na composição da personalidade da criança. Assim sendo, pais e padrinhos desejavam reproduzir às qualidades da mãe de Deus em seus filhos, por influência da onomatomancia. Segundo o autor, esse fenômeno remonta à Antiguidade Clássica. Por exemplo, atribuir o nome de Gentil 9 sugere que os pais desejariam essa qualidade ao filho (GUÉRIOS, 1981: 09-24). Seguindo está perspectiva, é valido apontar a diferenciação conceitual entre conotativo e denotativo, no âmbito da história dos processos de nominação. Maria teria um significado conotativo, na medida em que se pretendia, para a criança e como foi mencionado acima, as qualidades próximas da mãe de Deus. Entretanto, Maria perde parte da sua conotatividade ao se tornar moda : assume, portanto, função denotativa. Da mesma maneira, os nomes compostos: sem dúvida, Maria da Graça, conotativo, torna-se moda, denotativa (Maria-da-Graça); ou como Maria Ana, que pode assumir uma denotatividade sob a forma de Mariana. Entretanto, é necessário apontar que um nome conotativo também pode possuir atribuição denotativa, e vice-versa. O que importa é a primazia de um 9 Gentil, sobr.port: gentil, delicado. It. Gentile.Fr.Gentil (GUERIOS, 1981:130). 5 significado sobre outro que, naturalmente, muda de acordo com o contexto explanado. De certa forma, mesmo tomando cuidado com a distinção tradicionalmoderno, o conotativo e a onomatomancia se adequam melhor às sociedades ditas tradicionais, e o denotativo às sociedades modernas . Assim, de acordo com o contexto, figuras religiosas, heróis literários e personalidades proeminentes, inspiraram e inspiram as pessoas no momento de atribuir um prenome ao rebento. Desse modo, o nome possuí duas finalidades no âmbito da identificação: a primeira visa a individualização do seu portador: nome identifica, singulariza; já a função secundária evidencia a família e (ou) a comunidade a que pertencem os pais e o portador do prenome. Escolher um nome usual revela a adesão dos pais ao grupo; é sinal de pertencimento e conservadorismo. Já o desprezo pelo estoque onomástico tradicional, pode significar um avanço e distanciamento em relação à comunidade de origem (MERCER e NADALIN, 2008:12). É uma outra forma de referência à dialética tradicional-moderno, mencionada acima. Assim, prenomes podem ser analisados a partir de diversas perspectivas, sejam elas linguísticas, etnográficas ou sociais. Pelo intermédio da antroponímia e da toponímia, é possível compreender a origem dos nomes de pessoas e lugares, respectivamente. A etnografia proporciona maior entendimento sobre os significados culturais dos nomes, principalmente entre grupos indígenas. Por fim, a perspectiva social facilita a compreensão das relações de distinção socioeconômica, preservação de tradições, construção de identidades; e, por fim, influências políticas e religiosas, dependendo do o contexto referido. Desta forma, estoques onomásticos podem revelar traços culturais de uma coletividade. O sentimento de identidade situa-nos como indivíduos, exalta nossas singularidades e diferenças, mas também destaca uniformidades coletivas, acentuando a sensação de pertencer a um determinado grupo. Segundo Denys Cuche, o conceito de identidade é, frequentemente, associado ao conceito de identidade cultural. O autor explica que estas formulações não podem ser confundidas, pois a cultura pode existir sem a consciência de identidade, enquanto a identidade está vinculada a procedimentos estritamente conscientes. (CUCHE, 2002: ). 6 Enfim, a identidade é um ponto de coesão entre o individual e o social, é o encadeamento entre o subjetivo e o comunitário. Assim, o levantamento estatístico dos estoques de prenomes que foram eleitos em determinado momento pelos pais das crianças batizadas, possibilita ao historiador do social perceber traços marcantes da identidade cultural do grupo analisado. Seguindo a mesma perspectiva, de acordo com Maria Dick,
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