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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA (UFRB) Reitor/ Rector Sílvio Luiz de Oliveira Soglia Vice-Reitora/Vice-Rector Georgina Gonçalves dos Santos

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1 1 Caderno Sisterhood. Vol. 2, n. 1 (maio, 2017) Universidade Federal do Recôncavo da Bahia UFRB, Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Raça e Saúde NEGRAS, Semestral ISSN: Permite-se
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1 1 Caderno Sisterhood. Vol. 2, n. 1 (maio, 2017) Universidade Federal do Recôncavo da Bahia UFRB, Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Raça e Saúde NEGRAS, Semestral ISSN: Permite-se a reprodução das informações publicadas, desde que sejam citadas as fontes. Allows reproduction in published information, provided that sources are cited. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA (UFRB) Reitor/ Rector Sílvio Luiz de Oliveira Soglia Vice-Reitora/Vice-Rector Georgina Gonçalves dos Santos EDITORES CIENTÍFICOS/SCIENTIFIC EDITORS Denize de Almeida Ribeiro, Dra. (UFRB) Emanuelle Freitas Goes, Mst. (ODARA Instituto da Mulher Negra) Liliane de Jesus Bittencourt, Dra. (UFRB) Rosa Cândida Carneiro, Dra. (UFRB) EDITORES EXECUTIVOS/EXECUTIVE EDITORS Ana Maria Silva Oliveira, Esp. (UFRB) Naiana de Carvalho Guimarães Oliveira, Me. (UFRB) ENDEREÇO/ADDRESS UFRB: Av. Carlos Amaral, 1015, Cajueiro, Santo Antônio de Jesus - BA, CEP: Fone: Website: www2.ufrb.edu.br/negrasccs COMPROMISSO O Caderno Sisterhood, com periodicidade semestral, tem como compromisso incentivar e divulgar artigos científicos, resenhas, relatos de experiências, entrevistas e outras modalidades de produção que tenham como escopo a saúde da população negra e suas interfaces. PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Ana Maria Silva Oliveira Naiana de Carvalho Guimarães Oliveira ARTE GRÁFICA Geraldo Pereira Neto ENDEREÇO/ADDRESS Avenida Carlos Amaral, 1015, Cajueiro, Santo Antônio de Jesus - BA, BRASIL Fone: Website: www2.ufrb.edu.br/negrasccs ÍNDICE CONTRA O RACISMO, A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER É QUE MARCHAM AS MULHERES NEGRAS 10 EU MARCHO, TU MARCHAS, ELAS MARCHAM. POR QUE MARCHAMOS? 23 MULHERES NEGRAS EM MARCHA: ESSES PASSOS VÊM DE LONGE 25 PARADAS DO ORGULHO DE LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS 28 DEPOIMENTOS MARCHA DAS MULHERES NEGRAS CONTRA O RACISMO, A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER UMA EXPERIÊNCIA SOBRE A MARCHA DAS VADIAS DE ITABUNA- BA 33 MARCHA DO ORGULHO CRESPO E MARCHA DAS MULHERES NEGRAS 36 MARCHA DAS MULHERES NEGRAS EU A MARCHA 42 MARCHA DAS MULHERES NEGRAS EM BRASÍLIA 45 MARCHA DAS MULHERES NEGRAS: UMA DAS EXPRESSÕES DA LUTA CONTRA O RACISMO, VIOLÊNCIA, DESIGUALDADE SOCIAL E DE GÊNERO NO BRASIL 46 POESIAS ESCURO 50 VAGANDO EM VERSO EU VIM 51 POESIA PRA QUEM? 53 FOTOGRAFIAS 55 NORMAS DE SUBMISSÃO 60 EDITORIAL As mulheres sempre estiveram envolvidas nas lutas contra as opressões no mundo, no entanto, esse engajamento sempre foi invisibilizado, ou melhor falando, desvalorizado, colocando os homens como responsáveis das conquistas históricas relacionadas à diminuição das iniquidades. Em se tratando das mulheres negras, essa minimização de sua participação em fóruns e espaços importantes de lutas fica mais marcada, colocando-as como seres à margem dessas disputas ideológicas. Segundo Patrícia Hill Colins, Por muito tempo mulheres negras têm ocupado posições marginais em ambientes acadêmicos. Argumento que muitas intelectuais negras têm feito uso criativo de sua marginalidade, do seu status de outsider within, para produzir um pensamento feminista negro capaz de refletir um ponto de vista especial em relação ao self, à família e à sociedade (2016, p.99) 1. São diversos os nomes que integram essa confraria de mulheres poderosas, destemidas, que utilizavam e utilizam de diversas estratégias para defender uma sociedade mais justa e equânime. Desde Maria Felipa de Oliveira, passando por Carolina de Jesus, Nilma Lino Gomes, são vários os exemplos de mulheres gloriosas, mas desconhecidas por boa parte da sociedade. É por isso, que essa segunda edição do Caderno Sistehood vem homenagear uma dessas mulheres, à frente do seu tempo, forte nas suas concepções, engajada politicamente, que nos deixou em matéria no ano passado, mas continua conosco como ser de luz, brilhando e trilhando os passos de quem pretende ir mais longe, Luíza Bairros. Nada melhor para expressar a força dessas mulheres e reverencia-las do que falar sobre a marcha das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver. São textos que refletem as impressões, reflexões, sentimentos daquelas que vivenciaram essas manifestações e que ao escrever sobre isso ressignificam o vivido e empoderam para novos movimentos. Seguindo o compromisso assumido pela linha editorial do Caderno Sistehood valorizamos as escrivecências das mulheres em diversos formatos, por isso nessa edição temos relatos, depoimentos, poesias e fotografias que expressam a importância da marcha das mulheres negras para enfrentamento das lutas que vivenciamos nesse período histórico do nosso país, tão conturbado e ameaçador dos direitos já conquistados. Boa leitura a todas e todos! Liliane de J. Bittencourt 1 COLLINS, P.H. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado, v.31, n.1, Janeiro/Abril 2016. Caderno Sisterhood: Rotas e Pensamentos de Mulheres Negras Caderno Sisterhood, 2ª Edição 9 As marchas das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver Realizações, impactos e perspectivas Fotografia: Tânia Palma Caderno Sisterhood, 2ª Edição 10 CONTRA O RACISMO, A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER É QUE MARCHAM AS MULHERES NEGRAS Denize de Almeida Ribeiro 1 Em um momento histórico desafiador, vamos nos lembrar que nós somos centenas de milhares, milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres. Nós representamos forças poderosas de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente (Ângela Davis, 2017). Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio, em seu tempo histórico. de marchas dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser (Paulo Freire, TV PUC-SP, 1997). Introdução O ato de marchar historicamente tem a ver com uma prática militar que antigamente era associada a desfiles de guerra, quando num ritmo constante e com certa música de ordem os soldados marchavam e anunciavam suas conquistas. Marchar tornouse um item importante do treinamento militar, na maioria dos países, e, para estes, os exércitos marcham obedecendo a um comando específico e ensina-se a marchar como parte da disciplina. O passo constante, regular e organizado das marchas foi uma característica adotada no passado, pelas legiões romanas e por outros exércitos europeus, que se tem notícia. Em lugares como a Irlanda do Norte, por exemplo, marchar faz parte da cultura local, onde centenas de marchas acontecem todos os anos, organizados por grupos de ONG's que levam para as ruas a maioria de seus integrantes e suas respectivas pautas. Do exercício militar às ruas, as marchas passaram a ser imprescindíveis nos protestos e manifestações, por organizar em um único direcionamento um contingente considerável de pessoas que lutam em torno de uma mesma causa. 1 Professora do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Coordenadora do NEGRAS-Cnpq. Caderno Sisterhood, 2ª Edição 11 No que se refere às marchas de negros e negras, estas se inserem como simbólicas de lutas, insurreições, levantes, denúncias contra a condição de escravidão, o machismo, sexismo, condições de trabalho insalubres e principalmente contra o racismo, problemas a que tal população esteve sempre relacionada no continente africano e na diáspora. Refletindo sobre a explosão de inúmeras marchas pelo Brasil e pelo mundo, tentei trazer nesse artigo aquelas manifestações mais conhecidas e seus significados diante das pautas a que se empenharam em representar. Reflexões sobre Nossas Marchas Na busca de tentar dar maior visibilidade as principais marchas que nos impactaram, nas lutas por igualdade, enquanto negros e negras, podemos citar inicialmente: Marcha com Zumbi para o Quilombo de Palmares O inesquecível levante feito por Zumbi dos Palmares (1580) que levou, em direção ao sonho de uma sociedade mais igualitária e justa, dezenas de negros e negras, indígenas e mesmo brancos, a fugirem entre as florestas e marcharem em direção ao Quilombo de Palmares. A que se entender, na atualidade, que a realidade das marchas para as tocaias dos quilombos foi uma estratégia de sobrevivência comum na diáspora escravocrata. Diante da realidade das inúmeras comunidades remanescentes de quilombos, que lutam por reconhecimento e direito às suas terras hoje, percebemos o quão comum foi e é essa estratégia de aquilombar-se. Muitos terreiros de candomblé pertenciam a antigos quilombos, enquanto centros religiosos dessas comunidades. Tal estratégia resguardou um patrimônio incomensurável de conhecimentos e práticas da matriz cultural africana, impossíveis de sobreviver em outros contextos, inclusive em alguns países de África. Nesse sentido, que bom que nossos antepassados marcharam na direção contrária ao seu extermínio e pelo Bem Viver, buscaram enquanto povo, territórios que os acolhessem e onde pudessem ser pessoas livres e conscientes da barbárie a que foram expostos. Caderno Sisterhood, 2ª Edição 12 Irmandade da Boa Morte - Marcha de Mulheres Negras pelo Bem Viver Denunciar, ir às ruas, marchar, tornou-se ao longo dos tempos um ato revolucionário, mas não é de agora que tais manifestações acontecem. Sob a batuta das mulheres negras brasileiras, em 1820, por exemplo, tem-se notícia da fundação da Irmandade da Boa Morte, uma organização feita exclusivamente por negras livres, de candomblé, que ressignificaram a devoção a Nossa Senhora e realizam, ainda hoje, nas ruas do Recôncavo da Bahia suas procissões, onde marcham pedindo respeito e Bem Viver, como uma das formas de se ter uma Boa Morte. O que, neste caso, chamo de marcha trata-se de um cortejo representando o falecimento de Nossa Senhora, seguido de sentinela, procissão e do enterro da santa cristã, quando as irmãs usam seus trajes de gala. Ao final temos a celebração da ressurreição de Nossa Senhora da Glória que também é seguida por procissão e missa, fechando com um festejo de rua em que todos participam, cantam, dançam e comem. Todo esse ritual é repetido a cada ano para que não se esqueçam da luta de tais mulheres negras, pela liberdade, pelo Bem Viver e para promover sepultamentos dignos aos negros no período da escravidão. Elas nos mostram através dos rituais fúnebres de Maria, como deveriam ser feitos os sepultamentos e as sentinelas para suas tradições de origem. Na atual realidade de genocídio da população negra a atitude de tais mulheres, nos faz pensar na seguinte questão: o que precisa ser feito para termos um Bem Viver e uma Boa Morte? Marchas Feministas Durante toda essa trajetória histórica de luta por direito das mulheres, não podemos deixar de lembrar o movimento feminista e suas marchas em diferentes lugares do mundo. No processo histórico de registro do movimento feminista os acadêmicos dividiram essa luta em três ondas: A primeira onda se refere principalmente ao sufrágio feminino, movimento que ganhou força no século XIX e início do XX. A segunda onda se refere às idéias e ações associadas com os movimentos de liberação sexual feminina iniciados na década de 1960, que lutavam pela igualdade legal e social para as mulheres. A terceira onda seria uma continuação - e, uma reação às falhas - da segunda onda, iniciada na década de Todas essas ondas foram protagonizadas por marchas de mulheres prioritariamente brancas (PINTO, p , 2010). Caderno Sisterhood, 2ª Edição 13 Para Gomes e Sorj (2014), esse uso da noção de ondas implica omissões e exclusões de muitas expressões do feminismo que não se enquadram nos critérios definidos como dominantes em cada época, conferindo, dessa maneira, uma idéia de uniformidade a um movimento que sempre teve visões dissonantes. O uso do termo onda cria uma aparência de neutralidade e objetividade sobre o processo de nomeação quando, na verdade, toda periodização envolve disputas de poder e lutas por reconhecimento. Vale ressaltar que, enquanto as mulheres brancas pontuam este momento como demarcador do movimento feminista pelas reivindicações trazidas pelas mulheres, as mulheres negras não pactuavam necessariamente das mesmas reivindicações, pois há muito tempo elas já ocupavam os espaços públicos, já trabalhavam e eram tratadas de forma igual aos homens negros na utilização da sua mão-de-obra pelo sistema escravocrata. Neste contexto de reivindicações, com relação ao papel das mulheres na sociedade, vale lembrar o discurso de Sojouner Truth, em 1851, que já denunciava as diferenças interraciais e apontava para a necessidade de um feminismo interseccional quando dizia: Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem desde que eu tivesse oportunidade para isso e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? (PINHO, 2014, in: Geledés). Por conta de tudo isso é que nós, mulheres negras, permanecemos em marcha pela conquista e reconhecimentos dos nossos direitos, do nosso legado histórico e pelo Bem Viver de nossas comunidades, mas pontuamos nosso movimento feminista a partir de outras falas e lutas contra o patriarcado e o racismo. O movimento feminista branco não pautou as desigualdades raciais, desconhecendo a opressão racista como um nível de opressão que precisaria ser vencido também como pauta feminista. Caderno Sisterhood, 2ª Edição 14 Marcha do Movimento Negro por Direitos Civis nos EUA A maioria dos autores faz referência que, para o movimento negro americano, a primeira marcha pelos direitos civis ocorreu em 7 de março de 1965, num evento que entrou para a história como Domingo Sangrento, onde cerca de 600 manifestantes, que protestavam contra a morte de outros ativistas e também contra a exclusão dos negros do processo eleitoral, foram atacados pela polícia local e estatal com cassetetes e gás lacrimogêneo. A segunda marcha ocorreu em 9 de março; policiais e manifestantes ficaram frente a frente, mas quando as tropas moveram-se para o lado para deixá-los passar, o Dr. Martin Luther King guiou os manifestantes de volta à igreja. A terceira marcha começou em 16 de março. Cercados por 2 mil soldados do Exército Americano, membros da Guarda Nacional do Alabama sob comando federal e muitos agentes do FBI e marechais federais, os manifestantes avançaram 16 quilômetros ao longo de todo o dia pela estrada, conhecida no Alabama como a Rodovia Jefferson Davis. Os manifestantes alcançaram Montgomery em 24 de março e o Capitólio do Estado do Alabama em 25 de março (BRANCH, 2013). Para Branch (2013), as marchas mudaram a opinião pública sobre o movimento pelos direitos civis, pois as imagens das leis do Alabama sendo aplicadas violentamente em manifestantes não-violentos foram mostradas em todo o país e no mundo por redes televisivas e jornais. O autor considera que a exposição de tanta brutalidade apoiada pelo estado do Alabama ajudou a mudar a imagem do movimento segregacionista, passando da de um movimento que tentava preservar a ordem social do Sul, para a de um sistema de terrorismo legalizado contra todos aqueles que não eram brancos (idem). Marcha Zumbi dos Palmares Em 1995, no Brasil, as manifestações comemorativas aos 300 anos da morte de Zumbi culminaram com a Marcha de Zumbi dos Palmares contra o racismo, pela cidadania e pela vida, na qual cerca de 10 mil negras e negros foram a Brasília com um documento reivindicatório entregue ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Participaram dessa marcha cerca de 30 mil ativistas vindos de muitos lugares do país. Na ocasião, foi entregue ao presidente um documento com as principais reivindicações do Movimento Negro, denunciando o racismo, defendendo a inclusão dos Caderno Sisterhood, 2ª Edição 15 negros na sociedade brasileira e apresentando propostas de mudança no quadro das desigualdades. Tais reivindicações fazem parte, até hoje, do elenco de pautas que entraram para a agenda governamental redirecionando políticas públicas para a promoção da igualdade. Marcha das Margaridas (MM) Já a Marcha das Margaridas (MM) vem sendo realizada em Brasília (DF), a cada três anos, e conta com a presença de mulheres oriundas de todas as regiões brasileiras. Ao questionar o Estado e os seus próprios movimentos, a MM rompe com estruturas sociais hierarquizadas e hegemonicamente masculinas e pauta um novo modelo de desenvolvimento para o País. Coordenada pelo Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais composto pela Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) e por 27 Federações (Fetag s) e mais de 4000 sindicatos, a Marcha das Margaridas se consolidou na luta contra a fome, a pobreza e a violência sexista. São agricultoras familiares, assentadas, quebradeiras de coco, pescadoras, quilombolas, mulheres do campo, das águas e das florestas que formam um mosaico de grande identidade política entre as trabalhadoras rurais (SILVA, p , 2008). Marcha das Vadias No que se refere à Marcha das Vadias, essa é uma marcha que começou em Toronto, em 2011, como reação à declaração de um policial, em um fórum universitário sobre segurança no campus, de que as mulheres poderiam evitar ser estupradas se não se vestissem como vagabundas, putas, vadias etc. Reconhecendo nesta declaração um exemplo amplamente aceito de como a violência sexual é justificada com base no comportamento e corpo das mulheres, a primeira marcha de Toronto teve como principais bandeiras o fim da violência sexual e da culpabilização da vítima, bem como a liberdade e a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Desde então, por meio da rápida troca de informações proporcionada pela internet, a marcha foi organizada em diversas cidades pelo mundo. No Brasil, São Paulo foi a primeira cidade a organizar uma marcha, em 2011, adotando o termo vadias. A rapidez com que a marcha se disseminou pelo país e mobilizou a juventude é indissociável das possibilidades que as novas Caderno Sisterhood, 2ª Edição 16 tecnologias de comunicação oferecem ao ativismo político. Já em 2012, no segundo ano do advento da Marcha das vadias, 23 cidades, de todas as regiões do Brasil organizaram protestos usando ferramentas como Facebook, Twitter, Youtube, blogues e s. Anualmente, cresce o número de cidades que sediam a marcha mantendo o espírito que originou o protesto canadense, mas definindo localmente outras reivindicações e modos próprios de organização (GOMES e SORJ, p. 437, 2014). Segundo Gomes e Sorj (2014), as organizadoras da marcha do Rio de Janeiro eram majoritariamente mulheres jovens, de cor branca e com nível educacional universitário. Assim, as autoras concluem que é possível afirmar que a Marcha das Vadias guarda uma linha de continuidade com o que encontramos nos registros históricos sobre a composição social das feministas, desde o movimento das sufragistas até a geração dos anos 1970, que teve presença marcante na luta pela democratização do país, na organização dos encontros nacionais feministas, na formação dos núcleos de estudos de gênero nas universidades e associações científicas e na institucionalização do feminismo no Estado. Por conta deste perfil podemos registrar tensões nesta marcha no que se refere ao movimento feminista negro, que vem questionando e reivindicando identidades contrahegemônicas dentro deste movimento. Marcha Mundial de Mulheres O Fórum Social Mundial teve uma enorme contribuição para historicizar a globalização capitalista e mudar os termos do debate. Primeiro trocando o mandamento Não há alternativa por Um outro mundo é poss
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