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A diferença e a contradição: A crítica deleuzeana à dialética e as questões da dialética a Deleuze Vladimir Safatle – Universidade de São Paulo Things floating like the first hundred flakes of snow Out of a storm we must endure all night Out of a storm of secondary things, A horror of thoughts that suddenly are real, We must endure our thoughts all night, until The bright obvious stands motionless in cold Wallace Stevens Deleuze certa vez caracterizou sua filosofia da diferença como resultante
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  A diferença e a contradição: Acrítica deleuzeana à dialética e asquestões da dialética a Deleuze Vladimir Safatle –  Universidade de São Paulo Things floating like the first hundred flakes of snowOut of a storm we must endure all nightOut of a storm of secondary things,A horror of thoughts that suddenly are real,We must endure our thoughts all night, untilThe bright obvious stands motionless in cold Wallace Stevens Deleuze certa vez caracterizou sua filosofia da diferença comoresultante de um “anti-hegelianismo generalizado” (Deleuze, 1969,p. 1). Era uma forma de dizer que haveria uma incompatibili-dade ontológica fundamental entre seu projeto e a dialética. Noentanto, devemos nos perguntar se sua maneira de ler a dialéticahegeliana é condizente com aquilo que a dialética realmente écapaz de produzir. Poderia o Hegel de Deleuze ser confrontadocom os textos do próprio Hegel, no que diz respeito à potenciali-dade destes? Ou seria um modo de acertar contas com leiturasrecorrentes no pensamento francês do século XX? 123  124  discurso 46/2  A questão não é meramente historiográfica. Caso a críticade Deleuze parta de uma leitura inadequada para dar contada maneira com que a dialética pensa a produtividade da ex-periência da diferença, ou seja, se a compreensão dialética dadiferença, em Hegel, for mais complexa do que aquilo sugereDeleuze, então não se tratará de um simples reparo de leitura,pois poderemos medir com mais precisão as proximidades e asdistanciamentos entre a dialética hegeliana e a ontologia deleu-zeana. Tal reordenação tópica servirá para esclarecer melhor oque a dialética é capaz de produzir e quais questões ela podecolocar ao pensamento deleuzeano. No entanto, não se trataaqui simplesmente de defender Hegel contra Deleuze. Tentar-se-á mostrar como a discussão entre dois grandes filósofos dadiferença está mal colocada, deixando na penumbra o que, emmeu entender, é o verdadeiro problema, a saber, determinar asdiversas modalidades de inscrição ontológica da diferença e deseus embates. Teoria do falso movimento Um dos eixos da crítica deleuzeana à dialética hegeliana giraem torno da centralidade dada nesta à contradição. Deleuzecompreende a contradição como uma figura inadequada da dife-rença. Questão absolutamente central, se lembrarmos que Hegel,quando indagado por Goethe o que entendia por dialética, afir-mou: “é o espírito de contradição organizado” (Arantes, 1996).A maneira com que a dialética compreende o movimento, a cons-tituição de determinações e o redimensionamento contínuo docampo da experiência, é indissociável da possibilidade de “orga-nizar a contradição”. Para Deleuze, no entanto, os conflitos or-ganizados sob a forma da contradição são um “falso movimento”  A diferença e a contradição   | Vladimir Safatle  125 (Deleuze, 1969, p. 16). Daí a afirmação: “A diferença só im-plica o negativo e só se deixa ir até a contradição na medidaque continuamos a subordiná-la ao idêntico” (Ibid., p. 1).Mas não se deve a Deleuze a ideia da dialética como um pensa-mento da identidade fundado através da possibilidade de sempreconstruir mediações entre contraditórios, mediações que, por se-rem mediações, só podem confirmar o que estava inicialmentepressuposto no interior de um sistema prévio de possibilidades.Heidegger, por exemplo, já dissera: “o que Hegel pensa com apalavra  experiência   diz primeiramente o que é a  res congitans  enquanto  subjectum co-agitans  . A experiência é a apresentaçãodo sujeito absoluto desdobrando-se na representação, e assim seabsolvendo” (Heidegger, 1998). A experiência seria, em Hegel,a absorção contínua no campo de um sistema de representaçõesem cujo fundamento sempre encontramos o sujeito em sua con-firmação de si: a contradição seria a mera oposição contínuado sujeito a si mesmo, movimento interno do qual os aconteci-mentos são a mera confirmação de possíveis de uma substânciaque permanece idêntica a si mesma. Uma ideia semelhante seencontra em Althusser, que afirma que Hegel tem um conceitosimples e unificador de contradição que opera por interiorizaçãocumulativa:Com efeito, a cada momento de seu devir, a consciên-cia vive e prova sua própria essência (que correspondeao grau que ela alcançou) através de todos os ecos dasessências anteriores que ela foi e através da presençaalusiva de formas históricas correspondentes (...) Mastais figuras passadas da consciência e seus mundos la-tentes (correspondentes a tais figuras) nunca afetam aconsciência presente enquanto determinações diferen-  126  discurso 46/2  tes dela mesma. Tais figuras e mundos só a concernemcomo ecos (lembranças, fantasmas de sua história) doque ela se tornou, ou seja, como antecipações de si oualusões a si. (Althusser, 1986, p. 101)Althusser pode dizer que as figuras do passado nunca afetama consciência como uma determinação diferente, que o passadofoi desde sempre “digerido previamente” (Ibid., p. 115), porqueHegel pensaria o movimento histórico a partir de uma contra-dição simples própria à noção de uma unidade srcinária quese cindiria em dois contrários: “desenvolvendo-se no seio de simesma graças a virtude da negatividade e sempre restaurando-se, em todo seu desenvolvimento, cada vez em uma totalidademais ‘concreta’ que tal unidade e simplicidade srcinárias” (Ibid.,p. 202). Para tanto – e Althusser pensa principalmente na  Feno-menologia do Espírito  –, seria necessário que todos os elementosda vida concreta de um mundo histórico fossem reduzidos a umprincípio único compreendido como a exteriorização e aliena-ção da forma abstrata da consciência de si referida a tal mundo(como Roma, reduzida por Hegel à manifestação do princípio dapersonalidade jurídica abstrata). Daí a ideia de uma “contradi-ção simples” a animar a dialética hegeliana, como se a totalidadepossuísse uma unidade no interior da qual todas as diferençasseriam postas apenas para serem negadas enquanto a expressãodo mesmo princípio espiritual transcendente. Na totalidade he-geliana: “cada elemento é  pars totalis  , e as esferas visíveis sãoapenas o desdobramento alienado e restaurado do dito princípiointerno” (Ibid., p. 210). Esta “causalidade expressiva” transfor-maria toda experiência da diferença em uma forma simples decontrariedade.Essas duas leituras certamente influenciaram de forma direta
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