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23 - Os Usos Do Feminino - Marta Mega

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  Os usos dofeminino Oudaparticipaçãodamulhernapólisdosateniensesnoperíodoclássico MartaMegade ndrade Resumé Cetarticleestissud unecommunicationpresentéeàI occasiondeIarencontre nationaledeI ANPUHàI UFMGen 1997. OnproposeiciuneréflexionsurIa présencefémininedansIadimensionpubliquedeIa polis, moyennantles témoignagesduthéátred Euripideetd Aristophane.Pourapprofondirledébat,   s estfaitnécessairedeconsidêrerd abordquelquestravauxplusrécentsdans lechampdeI histoiredegenre,inserésdansunetraditionhistoriographiquequi aeupouobjetIaconditionfémininedansI Antiquité,remontantparfoisau XVII m< siécle. Ensuite,onsedémandesur I  éxperiencemêmedeIapolitique:peut-ellese comprendre d unemaniére plusmultiple,plusmouvanteetplus hétérogêne quedansIaperspectiveduconceptmoderned état?Onopereaveccettepossibilité pourdévelopperIarelationdufémininavecleterritoireetIapatrie,àtraversle pathos, maisaussi   traversI espacedeI habitation,I espacevécuau kat'oikian, dansIaviecomunne   aujourlejour. Esteartigopretendeexploraralgumasdasimplicaçõesdaquestão dolimiarentreolugarapropriadoeaparticipaçãopolíticadasmulheres naGréciaAntiga.Seuenfoqueéassistemático,privilegiandoaAtenasdo períodoclássicoeposterior,eéclaro,sempretensãoaesgotarumassunto quemereceumaprofundamentomaior. Trata-sedediscutirporqueafiguradamulherétãoexploradapoli- ticamente,emumperíodoemqueacidadeévista,ou querservista, comoum clubedehomens .Aquestãomaisdiretaquesenoscolocaéada relaçãoentreofemininoeacidade.Ora,seráqueoimperativodeconsta- taramulhernosquadrosdeumapóliscomoAtenasapartirdoestatutode uma eternamenor (Mossé,1989)sustenta-sehistoricamente?Ouserá quepartimosdeumavisãopré-concebidatantodaexploraçãodogênero feminino,quantodaquiloqueseriaouniversodapolítica?Aquestãoque Phoinix, RiodeJaneiro,4:389-401,1998. 389  devemosnoscolocaréadesaberseainsistênciaemfalardamulher,em darfalaàmulher,eemrepresentarosexofemininonaAtenasclássica, podeserumsinaldequeháparticipaçãopolíticadofeminino,eentender assimqueparticipaçãoéessa.   Mulher Feminino Estado Política Aquestãodapresençaedoestatutodamulhernacidadegreganão énova.Algumasdaspremissasqueaindanorteiammuitosestudosaesse respeitooriginaram-sedeconsideraçõesacercadopapeldamulherna cidadegrega,aindanocontextoiluministadoséculoXVIII.Osilêncio,o recato,aadscriçãodamulheraoespaçodoméstico,sãoalgumasherançasdeumaépocaemqueostextosfalavam averdade ,semmediações;de umaépocaque,elamesma,procuravaindagarsobreoespaçodamulher nasociedadeliberalburguesa.Odesafioàperspectivailuministaveiosomentenopós-guerra(e principalmentenopós-68),quandoosmovimentosfeministas,alutapela liberdadesexual,eaimensaimportânciaadquiridapelapsicanálise,de- ramsentido à buscadaMulhercomocategoriahistoricamenteproduzida einvestidadeidentidade,esignificado.Umadasrespostasaessabuscase encontranosestudosdeSarahPomeroy,principalmente Godessess, Whores,WivesandSlaves (1975),ondeseenfatizaamulherreal,grupo socialdiferenciadoeheterogêneo,comportandomúltiplasfunções,esta- tutos,identidades,pertenças:deusas,prostitutas,virgens,aristocratas,etc. Estetipodeabordagemfoidecisivopararompercomacrençanaverdade literaldotexto,eaomesmotempodescobrirumaidentidadehistóricae umapresençarealdamulhernapólis,aoinvésdamulhera-históricae genéricadasprimeirasreflexões.Categoriascomo mulher e feminino sofreramaindaváriasproblematizações,comoporexemplolevando-se emconsideraçãoocampodaantropologiaque,porumlado,desintegrou acorrelaçãoimediataentreosexofisicoeogênerosocial(Héritier,1987), eporoutroajudouatransformaraquestãodamulheredohomemnuma questãodegênero,maisdoquedefunçãoemacordocomafisiologia. Questãodegênero:masculino,feminino.Istoenvolveapropriação docorpo,formasdeinteraçãosocial,formasdeexercíciodepoder,em umapalavra,tensões,negociações.Masenvolvetambém,comoaliásnão poderiadeixardeenvolver,umaexperiênciasocialdogênero,eumima- ginário.Aproblematizaçãodemasculinoefemininoapartirdacompreen- 390  sãodogênero-conceitorelacionalesocialmenteproduzido-constitui umdoscamposhistoriográficosmaisfrutíferosnosúltimosanos. IstotemsidofeitoporhistoriadorescomoFromaZeitlin(1996),J. Winkler(1990),PaulineSch.-Pantel(inDubyetaI.,1990),NicoleLoraux (1989),AlineRousselle(inDubyetaI.,1990),PierreVidal-Naquet(1993), entreoutros.Essesautoresdescobriramaambigüidadedaexperiênciado gênero.Descobriramaaçãodo operador femininonodiscursogrego, comoporexemplonasmetáforasque,emPlatão,fazemequivalerodes- velamentodareminiscênciaaoparto(Loraux,1989;tambémRousselle, 1990),aoposiçãomasculino/femininonaéticadocidadãoenaidentida- demasculina(Loraux,1991),abuscaincessantedo pathos, feminino, peloteatrotrágicoateniense(Zeitlin,1996;Winkler,1990);descobriram, enfim,queaofemininofoidadaafala,apossibilidadelatentedepartici- parnacidade,querinaugurandoumaginecocracia,querativamentelutan- doedecidindoemcasodedissenção,de stásis (Vidal-Naquet,1993). Essesestudoscontribuíramparademonstrarcomo,nosmomentosenas formasmaisinesperadasdaculturagrega,recorria-seàsprerrogativasfe- mininas,aofemininocomofiguradeimaginário,eoperadordesentido. Descobriu-sequeamulherera bonneàpenser (Katz, in Hawley   Levick,1995)7Expressãopejorativaesta,cujaessência,porém,muitos dosestudosmaisrevolucionáriossobreaexperiênciafemininaconstituin- tedacidadaniamasculinanãoconseguiramsuperar,namedidaemque nãoselevouodesafioadiante. Não se colocouoproblemadapolítica,ou domodelodepolíticaaplicado   compreensãodacidadania e dacidadegrega,namesmamedidaemque se problematizouacondiçãofeminina e ogênero. Aosereferiràcidadaniaeàpolítica,NicoleLoraux,porexem- plo,negaapossibilidadedeparticipaçãoativafeminina,namedidaem queamulhernãorecebeonomedeAtenas(1991),eafirmaqueacidade gregaéefetivamenteum clubedehomens . Acompreensãomodernadapolíticaantiga,edascidades-estados daAntiguidade,écadenciadapelateoriadoEstadocujaorigemremonta tambémaoséculoXVIII:inseridanatipologiadoEstadocomoformade governo,apólistemsuacompreensãodirecionadapelaquestãodademo- cracia,daparticipaçãodireta,dovoto,dacidadaniapolítica(ouseja,dos cidadãoscomoogrupodosquedecidemosrumosdoestadoatravésdo voto),dofuncionamentodospoderes(magistraturas)edoespaçopúbli- co.Nãopodemosdeixardemarcarque,peloviéstradicional,apólisé umaentidadepolítica,eacidadeétratadacomoespaçopolítico,deexer- cíciodacidadania.Epeloquenosatraiao sistemapolítico grego-a participaçãodireta,oua militância (Veyne,1982)-observamosas 391  relaçõessociaisnapólisnadireçãodomaioroumenorgraudeparticipa-çãonasatividadesdeumEstado,eenfim,daexclusãodosmetecos,mu-lheres,escravos.Nessaperspectiva,émaisoumenosclaroqueouniversoreservadoaofemininonãoéodacidadaniaativa. À mulherreserva-seoespaçodacasa,equandomuitoosilênciopúblico.Alémda evidencia dostextos,comoo Econômico deXenofonte,alógicadoEstadonosimpediriadeafirmaraexistênciadeumadimensãoamaisnaperspectivadeencontrodofemininocomacidade.Ora,estamosdiantedamesmalógicaquelevaestudiososcomoNicoleLoraux(1991),ClaudeMossé(1989),eClaudeVatin(1984),aaceitaragrandeimportânciadasmulheresnoqueserefereàspráticasreligiosasnapóliscomoumaespéciede cidadaniacivil, le-vandoparaaGréciaAntigamaisumconceitoabsolutamentemoderno,dificildeseconceberemumasociedadequenuncaseparoureligião,polí-tica,ecomunidade. Acreditamosqueaexperiênciadapolíticanasociedadeatenienseantigapodeterseconstituídocomoalgomuitomaisfluido,maisligadoàexperiênciadacidadecomoespaçourbanoeterritório,doconvívio,eda comunidade,doqueàspráticasdanossapolítica,noestadomoderno.Oestadocapitalistamodernoéaquelequeseproduziueseproduzapartirdeumanovacompreensãodesociedade,segundoaqualpodemosfalaremumlapsoespaço-temporalentreocoletivoeosubjetivo,opúblicoeopessoal,asolidãoeoconvívio,aexposiçãodocorpoearepulsaaotoque.Conceitualmente,éaqueleemquetemsentidosefalarempolíticoecivil,representatividade,soberaniadopovo,contratosocial,indivíduo.Foige- radodeumateoriapositivaqueprocuravaarticularadinâmicadointeres-segeralàscapacidadesindividuais,àdefesadaliberdadedeaçãoedapropriedade,ou,sesequiser,aosparâmetrosdeumasociedadedehege-moniaburguesa.Eapólisgrega,maisespecificamentenocasoateniensequenosocupaagora,nãoemergiusequercomorespostapolíticaaumateoria,quealiáséalgumascentenasdeanosposterioràemergênciada pólis. Tambémnãosurgiuapartirdavontadeconscientedeumgrupopreexistente,querdeindivíduos,querdefamílias(Snodgrass,1986;dePolignac,1984),deumaespéciede contratosocial ideal.Apolíticafoi inventada, paraqueapólispudesseexistir;eessainvenção,naépocaarcaica,éumarespostabemrealeeficazaosembates,astensõessociais,queopunhamumasociedadebaseadanopoderdereisenobres,nojogodeprestígioentrefamíliasaristocráticas,aogrupomaisamplodoshabi- tantesdeumterritório,lutandoemcomum,indoasantuárioscomuns, ouvindoasmesmasverdadesreligiosas,míticas,esperandodaslideranças 39
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