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A “basicalidade” da crença em Deus segundo Alvin Plantinga: uma apresentação A “basicalidade” da crença em Deus segundo Alvin Plantinga: uma apresentação (The basicity of the belief in God according to Alvin Plantinga: a presentation) Guilherme V. R. de Carvalho*
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  A “basicalidade” da crença em Deus segundo Alvin Plantinga: uma apresentação 97 Horizonte  , Belo Horizonte, v. 4, n. 8, p. 97-113, jun. 2006 A “basicalidade” da crença em Deus segundoAlvin Plantinga: uma apresentação (The basicity of the belief in God according toAlvin Plantinga: a presentation) Guilherme V. R. de Carvalho * R  ESUMO O artigo apresenta a defesa da racionalidade da crençaem Deus desenvolvida pelo filósofo reformado Alvin Plan-tinga, a partir de sua redefinição como “crença apropri-adamente básica”. Após uma breve introdução, que situaa epistemologia religiosa de Plantinga no contexto dastransformações recentes no campo da filosofia analíticada religião, expõe-se a crítica de Plantinga ao fundacio-nalismo clássico, cujo colapso teria reaberto a viabilida-de epistemológica da crença em Deus. Segue-se a defesaplantingiana da crença em Deus como crença apropria-damente básica, que teria bases experienciais identificá- veis, mas dispensaria qualquer evidência ou demonstra-ção racional, mostrando a orientação firme da constru-ção plantingiana em direção a uma forma plenamenteexternalista de epistemologia. O final do artigo ofereceuma breve reflexão sobre o significado cultural e espiri-tual da epistemologia reformada de Plantinga.Palavras-chave:Crença; Epistemologia; Externalismo; Fée razão; Filosofia reformada; Fundacio-nalismo. P LANTINGA    E   SUA    POSIÇÃO   NO   DEBATE   CONTEMPORÂNEO  A filosofia analítica, em seus primórdios, caracterizava-se poruma crítica violenta à metafísica e à teologia, em busca de umcritério rigidamente empirista de verdade (TALIAFERRO, 1996,p. 446). A crise do logicismo e o colapso do critério positivistade verificação 1  abriram o caminho para o retorno de projetoscentrais da filosofia da religião clássica, e um vigoroso rio defilosofia analítica da religião começou a se formar após a Segun-da Guerra Mundial, atingindo enormes proporções. 2 ã  Texto recebido emmaio/2006 e aprova-do para publicaçãoem junho/2006. *  Graduado em Teo-logia (UniversidadePresbiteriana Mac-kenzie) e mestre emTeologia (FaculdadeTeológica Batista deSão Paulo). Bolsistado CNPq no progra-ma de mestrado emCiências da Religiãoda Umesp. Coordenaa Associação Kuyperpara Estudos Trans-disciplinares (Aket);e-mail: guilhermefilo-religio@yahoo.com.br. 1  “A acusação de queo próprio positivismoé desprovido de sig-nificado ocorreu por-que o critério positi- vista de significadoparece não envolver arelação forma entreidéias nem com tau-tologias, nem ser em-piricamente verificá- vel” (TALIAFERRO,1996, p. 446). 2  Incluindo um cres-cente número de es-tudiosos e abrangen-do uma ampla varie-dade de assuntos, co-mo o problema dalinguagem religiosa,a teologia natural, arelação entre religião Horizonte n 08 art 06.pmd22/3/2007, 06:2597  Guilherme V. R. de Carvalho 98  Horizonte  , Belo Horizonte, v. 4, n. 8, p. 97-113, jun. 2006 Um dos principais “afluentes” desse rio é o chamado movi-mento da “epistemologia reformada” ( reformed epistemology ),liderado por William Alston, Alvin Plantinga, George Mavrodese Nicholas Wolterstorff. Desses, Plantinga – o “teísta analítico”– é, provavelmente, o mais importante. 3  Plantinga desenvolveuum sistema srcinal de epistemologia, com importantes implica-ções para a interpretação da religião. Neste trabalho vamos con-siderar apenas um pequeno trecho desse afluente: a epistemolo-gia religiosa de Alvin Plantinga, com foco na sua teoria da “basi-calidade” da crença em Deus. A epistemologia contemporânea tem utilizado amplamente adefinição de conhecimento como crença verdadeira justificada(  justified true belief  , ou JTB). De acordo com a teoria JTB, umapessoa X sabe que p se e apenas se:(i)p é verdadeiro;(ii)X acredita que p, e(iii)X está justificada em acreditar que p.Há um consenso na tradição epistemológica ocidental de quecrenças justificadas são epistemologicamente superiores às cren-ças não justificadas, e passíveis de serem consideradas conheci-mento. A grande questão é: como X pode estar justificada emcrer que p? A posição clássica tem sido afirmar que X está justi-ficada em sua crença se ela tem bases evidenciais. Tal teoria temsido denominada de evidencialismo.Essa teoria epistemológica tem sido aplicada na reflexão so- bre o teísmo e a experiência religiosa. No que se refere à crençaem Deus, os filósofos vêm escolhendo entre as três opções se-guintes:(a)Apresentar evidências para a crença em Deus;(b)Rejeitar o evidencialismo como via única de justificação;(c)Rejeitar a teoria JTB.Um exemplo dos primórdios desse debate pode ser encontra-do na disputa entre William Clifford e William James. Clifford,no famoso artigo “A ética da crença”, argumenta que haveria umaspecto normativo no conhecimento que proibiria a crença di-ante da evidência insuficiente. Daí sua famosa frase: “É errado,sempre, em todo lugar e para qualquer pessoa, crer em algumacoisa sobre base insuficiente” (HARRIS, 2002, p. 43). WilliamJames rejeitou esse raciocínio. Segundo ele, nossas decisões sem-pre têm relação com o que cremos; e em diversos momentos, adecisão é fundamental. Os limites da justificação evidencial não e ciência, o problemamente/corpo, o pro- blema do mal, o pro- blema do particula-rismo/universalismoreligioso, a teoria da verdade etc. 3  Formado no CalvinCollege e em Yale, éprofessor de filosofiana prestigiada NotreDame University,membro fundador daSociety of ChristianPhilosophers e ex-presidente da Ameri-can Philosophical As-sociation. Horizonte n 08 art 06.pmd22/3/2007, 06:2598  A “basicalidade” da crença em Deus segundo Alvin Plantinga: uma apresentação 99 Horizonte  , Belo Horizonte, v. 4, n. 8, p. 97-113, jun. 2006 são os limites da vida, e a vida não pode ser paralisada quandohá opções contraditórias e sem evidência conclusiva. James acre-ditava que suspender a crença quando não há evidência é por simesmo um ato de paixão e de decisão que tem implicações paraa vida e que corre todos os riscos da crença positiva. Para vencer batalhas, é preciso correr riscos. Assim, o naturalismo deve sercircunscrito às ciências naturais, e nas outras áreas da vida deve-mos exercitar a vontade de crer. O que James faz é redefinir acondição (iii), incluindo considerações não epistemológicas nanoção de justificação – isto é, ele escolhe a opção (b).Os evidencialistas teístas contemporâneos têm-se esforçadopara manter viva a tradição da teologia natural, 4  apresentandoargumentos com o fim de provar a existência de Deus; igual-mente os evidencialistas ateístas – ou ateólogos, como sugerePlantinga – têm desafiado o teísmo em bases evidenciais. Mas osdesenvolvimentos recentes da epistemologia levaram a discus-são sobre a justificação das crenças religiosas a novas dimen-sões. A partir da segunda metade do século XX, as respostasteístas começaram a abandonar a tentativa de responder ao evi-dencialismo diretamente (como na teologia natural clássica), 5 optando por negar sua força contra a crença teísta, ou seja, esco-lhendo as opções (c) ou (b), como o fez William James. A pro-posta de Alvin Plantinga se insere aqui como uma das mais im-portantes alternativas ao evidencialismo.Dewey Hoitenga, também filósofo reformado, examinou asperspectivas da relação entre fé e racionalidade em Platão, natradição bíblica em Abraão, em Agostinho, Calvino e finalmenteem Plantinga, procurando traçar as raízes de sua proposta. Se-gundo ele, Alvin Plantinga rejeitou a concepção platônica, pre-sente na República , de que o conhecimento seria, essencialmente,um reconhecimento direto de um objeto (PLATO, 1963, p. 477  et seq .  apud  HOITENGA, 1991, p. 6) e seguiu, a princípio, aoutra sugestão de Platão, presente no Teeteto , de que o conheci-mento seria uma crença verdadeira justificada (  justified true belief  ,ou JTB) (PLATO, 1981, p. 202-210  apud  HOITENGA, 1991,p. 10). Mas sua teoria epistemológica incorporou esse insight  pla-tônico a partir de uma teoria mais srcinal de “crenças apropria-damente básicas” (  properly basic beliefs ; HOITENGA, 1991, p.175-176). Mais recentemente, Plantinga superou a teoria do conhe-cimento como JTB e criou um sistema srcinal de epistemologia,sistematicamente exposto em Warrant and proper function  (1993). 4  Em termos simples:a tentativa de de-monstrar a racionali-dade da crença emDeus a partir de pro- vas racionais e/ouevidências empíricasde sua existência, istoé, a tentativa deconstruir o conheci-mento de Deus oucertos aspectos doconhecimento deDeus a partir da na-tureza (ou da revela-ção natural), semapelo direto à graça(ou à revelação re-dentiva). 5  Embora vários im-portantes filósofos dareligião, na Américado Norte, tenham de-senvolvido versõesnovas e interessantesdos argumentos evi-dencialistas e racio-nalistas clássicos. Osmais proeminentesna atualidade são J.P. Moreland e Willi-am Lane Craig. Entreos temas tratados poresses filósofos estãoo argumento cosmo-lógico, argumentosteleológicos, a possi- bilidade da alma ima-terial, milagres, ex-clusivismo religioso,a crítica ao naturalis-mo filosófico. Umadas obras mais im-portantes desses au-tores está acessívelem português: More-land, J. P.; Craig, Wi-lliam Lane, Filosofiae cosmovisão cristã .EVN, 2003, comquase 800 páginas. Horizonte n 08 art 06.pmd22/3/2007, 06:2599  Guilherme V. R. de Carvalho 100  Horizonte  , Belo Horizonte, v. 4, n. 8, p. 97-113, jun. 2006 Segundo Hoitenga, a idéia de que a crença em Deus, enten-dida aqui como crença no sentido intelectual de uma proposiçãoaceita como verdadeira, uma crença apropriadamente básica, seriao coração da epistemologia religiosa de Plantinga e de seus cole-gas, e o lugar onde se manifesta a influência da teologia refor-mada sobre o seu pensamento. Vamos fazer agora uma breveexposição do núcleo da epistemologia religiosa de Alvin Plantin-ga, começando por sua crítica ao fundacionalismo clássico. O COLAPSO   DO   FUNDACIONALISMO   CLÁSSICO Uma crença pode ser descrita como uma proposição aceitacomo verdadeira ou como a atitude humana de aceitar a propo-sição como verdadeira, mas os dois enfoques estão sempre uni-dos. O fundacionalismo baseia-se na observação de que boa partedas crenças que alguém sustenta baseia-se em outras crenças,ou seja, funda-se nelas, mas isso não pode ser verdade para to-das as crenças; pelo menos algumas delas são aceitas sem baseem outras (PLANTINGA, 1992 [1981], p. 133).Uma crença básica seria a proposição na qual alguém crê sem basear essa crença em outras proposições em que crê. A crençade que 72 x 71 = 5.112 não é imediatamente óbvia, sendo deriva-da de uma série de outras proposições mais óbvias: que 1 x 72 =72, que 7 x 2 = 14, que 7 x 7 = 49, e outras. Já a crença de que1 + 1 = 2 é mais básica para mim, de tal modo que não creio nes-sa proposição com base em outras. Assim a relação entre crenças básicas e não básicas pode ser considerada uma operação men-tal, na qual a atitude de concordar com uma proposição baseia-se na minha atitude de aceitar outra proposição. Além disso, paraque essa operação seja realizada, é necessária uma terceira cren-ça: de que certa proposição está realmente baseada em outra.O conjunto das crenças que sustentamos pode ser divididoconforme essas categorias elementares e é denominado por Plan-tinga como nossa “estrutura noética”. A estrutura noética seria“o conjunto de proposições que alguém crê juntamente com certasrelações epistêmicas entre essa pessoa e aquelas proposições”(HOITENGA, 1991, p. 178). Essas relações envolvem o graude certeza com que cada crença é sustentada, sua influência noconjunto da estrutura e, em especial, o modo como uma pessoafundamenta algumas proposições em outras. Horizonte n 08 art 06.pmd22/3/2007, 06:25100
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