Documents

9_Entre_o_documento_e_a_ficcao_1.pdf

Description
Ano  3,  n°  4  |  2013,  vol.2       [REVISTA  CONTEMPORÂNEA  –  DOSSIÊ  HISTÓRIA  &  LITERATURA]   ISSN  [2236-­‐4846]     Entre o documento e a ficção: experimentalismo, denúncia e resistência na prosa de Ivan Angelo Agnes Rissardo*
Categories
Published
of 18
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  ! #$%&'( *+,'#-.+ /,#( 0 1+&&%2 3%&'4 %( 5 6%'# ('7 (8   (9: ;< 9= > ? @AB;< C:DE@ %&&, !@@;FG>H>F8 Entre o documento e a ficção: experimentalismo, denúncia e resistência na prosa de Ivan Angelo  Agnes Rissardo *   Em meio a tantas obras literárias de denúncia ou de autorreflexão, um romance nada convencional surgia no ora engajado, ora “alienado” horizonte literário da década de 1970 no Brasil.  A festa (1976), de Ivan Angelo, surpreende até os dias de hoje com uma bem arquitetada combinação das duas vertentes, em uma narrativa que conjuga simultaneamente engajamento político, fabulação e questionamentos sobre o fazer literário. História, jornalismo e ficção se encontram por intermédio da colagem de vários documentos, sejam eles fragmentos de jornais, livros, depoimentos registrados ou certidões, numa clara mistura entre real e imaginário. O romance, no entanto, viria à lume em um momento conturbado para a literatura e as artes de um modo geral no país, já que, desde a instauração do AI-5, em dezembro de 1968, a sociedade convivia com a censura e o medo: a ditadura militar então vigente repreendia vozes indignadas, amordaçava a imprensa, condenava obras de arte e repudiava toda forma de crítica ao regime, punindo e relegando ao silêncio seus opositores. Sobre esse contexto sombrio, Roberto Schwarz ressalta que o período de 1968 até 1975, ano em que o governo Geisel divulgaria a Política Nacional de Cultura, seria devastador sobretudo para a produção cultural no país. Se em 64 fora possível à direita ‘preservar’ a produção cultural,  pois bastara liquidar o seu contato com a massa operária e camponesa, em 68, quando o estudante e o público dos melhores filmes, do melhor teatro, da melhor música e dos melhores livros já constitui massa politicamente perigosa, será necessário trocar ou censurar os professores, os encenadores, os escritores, os músicos, os livros, os editores – noutras palavras, será necessário liquidar a  própria cultura viva do momento. (SCHWARZ, 1978, p. 63) *  Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) / Université Sorbonne Nouvelle – Paris III.   # E como toda repressão em princípio gera resistência, enquanto, ao longo da década de 1970, a ditadura militar impunha censura e autoritarismo à sociedade, alguns escritores, sobretudo aqueles que exerciam a profissão de jornalistas, ensaiavam uma forma de reação ao darem vida a uma prosa com vocação política. Com a música, o teatro e o jornalismo amordaçados, era o momento de gritar por intermédio da literatura verdade , como Flora Süssekind (1985) denominaria a  produção que aproximava reportagem e crônica jornalística, romance e conto, real e ficcional, para driblar a censura e denunciar os desmandos do governo. De acordo com a ensaísta, tais escritores, ao verem-se impedidos de publicar denúncias contra o regime nos jornais, decidem escrever romances, de modo a incluir, em suas páginas, as notícias sob um verniz ficcional (SCHØLHAMMER, 2011, p. 26).  Nessa linha de literatura engajada, também denominada por Silviano Santiago como romance-reportagem , destacam-se os títulos  A infância dos mortos  (1977) e  Lúcio Flávio, o passageiro da agonia  (1977), de José Louzeiro; Violência e repressão  (1978), de Persival de Souza; e  A república dos assassinos  (1976), de Aguinaldo Silva 1 . Em seu célebre ensaio “Poder e alegria: a literatura brasileira pós-64” (1989), Santiago mostra que a literatura produzida no Brasil a partir do golpe de 1964 começa a se afastar daquela praticada nos anos anteriores, em que “otimismo e utopia se aliavam para mostrar a vitória definitiva das forças da esquerda” (SANTIAGO, 1989,  p. 11-12). Tal mudança, segundo ele, deve-se não apenas à instauração da ditadura no  período como também ao agravamento das desigualdades sociais, o que provocaria um desencanto nos intelectuais de esquerda. Nesse sentido, a literatura brasileira aos  poucos abandona como tema principal e dominante a exploração do homem pelo homem e desloca, já nos anos 1970, o foco da luta política: passa a representar o modo como funciona o poder em países cujos governantes orientam-se pelo modelo capitalista “selvagem”. Assim, toda forma de autoritarismo, especialmente aquela em vigor nas ditaduras latino-americanas, seria alvo de crítica. Sem expectativas de redenção coletivista, uma saída possível era desarmar estrategicamente o discurso do opressor. A palavra surgia, então, com credibilidade transformadora, impulsionada por uma atitude de negação do caos. Como forma de 1  Süssekind também identifica, no mesmo período, outra vertente literária, que ela chamará de literatura do eu . Mais intimista e existencial, essa prosa daria continuidade à obra de Clarice Lispector, morta em 1977. Dentre os principais romances figuram  Avalovara (1973), de Osman Lins;  Lavoura arcaica  (1975) e Um copo de cólera  (1978), de Raduan Nassar.  ! #$%&'( *+,'#-.+ /,#( 0 1+&&%2 3%&'4 %( 5 6%'# ('7 (8   (9: ;< 9= > ? @AB;< C:DE@ %&&, !@@;FG>H>F8 $ escapar ao olhar impiedoso da censura, a produção cultural no Brasil pós-64 é marcada por um tom de denúncia escamoteada do autoritarismo, ora por via da metáfora, ora pela alegoria. É justamente nessa direção que caminha o romance de Ivan Angelo, um dos  poucos 2  produzidos na década de 1970 a figurar “como obra verdadeiramente artística”, nas palavras de Regina Dalcastagnè (1996, p. 15). De acordo com a ensaísta, Em 21 anos de ditadura foram tantos os mortos, os torturados e os humilhados que faltaria espaço onde refugiar toda a sua dor. A memória, terreno tão propício, é demasiadamente instável para semelhantes horrores... É nos romances que vamos reencontrar, com maior intensidade, o desespero daqueles que foram massacrados por acreditarem que podiam fazer alguma coisa pela história do país. (DALCASTAGNÈ, 1996, p. 15)  A festa , de Ivan Angelo, apresenta forte conteúdo politizado, mas, por intermédio da ambiguidade, da multiplicidade de sentidos e da experimentação formal, o romance conseguiu não apenas driblar a censura como alcançar um resultado com verdadeiro rendimento estético e literário. O livro surpreende com alternância estilística, lançando mão tanto da objetividade documental quanto da subjetividade e da autorreflexividade, explorando os vazios no texto e dando oportunidade de expressão às várias vozes das diferentes personagens que compõem a narrativa. A partir de uma narrativa fragmentada, em que a alternância ou fusão de gêneros a todo instante desafia e desestabiliza o leitor, pode-se ter uma ideia da totalidade de um mundo estilhaçado, onde os indivíduos, atordoados, não encontram refúgio, somente o caos. O quebra-cabeça 2  A ensaísta se refere às obras engajadas ou romances-reportagens publicados no período. Vale destacar, portanto, outros romances de reconhecida qualidade estética do período, tais como O caso  Morel   (1973), de Rubem Fonseca;  Zero , de Ignácio Loyola Brandão; e  A hora da estrela  (1977), de Clarice Lispector, além dos já citados  Avalovara (1973), de Osman Lins,  Lavoura arcaica  (1975) e Um copo de cólera  (1978), de Raduan Nassar, entre outros.   % Belo Horizonte, 30 de março de 1970. Roberto Miranda, o mais velho dos novos artistas da cidade, comemora seu aniversário de 29 anos. 21 horas e 18 minutos: vai começar a festa em seu apartamento, localizado em um bairro nobre. Na mesma noite e no mesmo perímetro urbano, o caos. Na praça da Estação, cerca de 800 retirantes nordestinos estão prestes a embarcar involuntariamente num trem de madeira que os levaria de volta ao Nordeste quando um incêndio em quatro vagões começa repentinamente. O incidente detona a tentativa desesperada de fuga dos flagelados e tiros disparados pela polícia. Os líderes do tumulto, acusados de dar início ao incêndio: Marcionílio de Matos, um nordestino de 53 anos, e Samuel Aparecido Fereszin, repórter do suplemento literário do Correio de Minas . É a partir dessa premissa repleta de contrastes que se forma o esqueleto de  A  festa . De um lado, a comemoração de aniversário de um jovem artista da pequena  burguesia mineira. De outro, o desespero de retirantes pobres da seca nordestina, vítimas da opressão policial e do preconceito da sociedade. Dois mundos aparentemente opostos que, ao longo da narrativa, se entrelaçarão e, cada um à sua maneira, serão vítimas do poder abusivo do Estado. Para representar esse universo fragmentado e constantemente tenso, Ivan Angelo manipula com habilidade pistas falsas e estratégias narrativas não lineares  para construir um romance que mais se assemelha a um quebra-cabeça cujas peças serão aleatoriamente lançadas na mesa para que o leitor pacientemente as reúna. Algumas peças são determinantes nesse processo. A primeira delas é o recurso da intertextualidade com o documento, seja ele histórico ou jornalístico. Ivan Angelo estabelece aqui um diálogo que instiga filósofos, teóricos, críticos literários e historiadores desde tempos remotos e perdura até os nossos dias: história e literatura apresentam semelhanças e diferenças já identificadas no século IV a.C. por Aristóteles, para quem poeta e historiador difeririam entre si “porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido” (2007, p. 43). Ao contrário do historiador, o poeta estaria, portanto, livre da necessidade de subordinação ao verídico e poderia fazer uso de uma intencionalidade seletiva ao escrever: “ao compor a Odisséia , [Homero] não deu acolhida nela a todos os acontecimentos da vida de Ulisses” (p. 41), mas escreveu o texto “em torno de uma ação única”, isto é, “agrupou ele os elementos da Odisséia  e outro tanto fez para a  Ilíada ”, afirma Aristóteles (p. 42) ao se referir à combinação de mito e história das duas epopeias. Porém, tanto
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks