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A acessibilidade à informação no espaço digital Elisabeth Fátima Torres INTRODUÇÃO Doutora em Engenharia - UFSC RexLab, Universidade Federal de Santa Catarina eftorres@terra.com.br A acessibilidade é um processo dinâmico, associado não só ao desenvolvimento tecnológico, mas principalmen- Alberto Angel Mazzoni
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  83 A acessibilidade àinformação no espaço digital  Resumo O trabalho aborda aspectos referentes à acessibilidade noespaço digital. Uma ênfase especial é dada às situaçõesrelacionadas à interação das pessoas portadoras dedeficiência com a informação, em ambientes de bibliotecas.O texto propõe algumas adequações para a acessibilidadeao espaço digital, conforme categorias de usuários, com ointuito de contribuir para um maior nível de acessibilidade àinformação, nesse espaço. Palavras-chave  Acessibilidade; Espaço digital; Bibliotecas; Pessoas portadoras de deficiência; Ajudas técnicas. The accessibility to the information in the digitalspaceAbstract The work approaches aspects concerning to the accessibility in the digital space. A special emphasis is given to thesituations related to the persons with disabilities and their interaction with the information, in libraries's environment.The text proposes some adaptations for the accessibility tothe digital space, according to users' categories and has theintention of contributing for a larger accessibility level to theinformation, in that space. Keywords  Accessibility; Digital space; Library People with disabilities;Technical aids. Elisabeth Fátima Torres  Doutora em Engenharia - UFSCRexLab, Universidade Federal de Santa Catarinaeftorres@terra.com.br Alberto Angel Mazzoni  Mestre em Matemática Aplicada – Unicamp,Departamento de Informática, Universidade Estadual de Maringá João Bosco da Mota Alves  Doutor em Engenharia - UFRJ,Departamento de Informática e Estatística, UFSC INTRODUÇÃO  A acessibilidade é um processo dinâmico, associado nãosó ao desenvolvimento tecnológico, mas principalmen-te ao desenvolvimento da sociedade. Apresenta-se emestágios distintos, variando de uma sociedade para a ou-tra, conforme seja a atenção dispensada à diversidadehumana, por essa sociedade, à época.A acessibilidade é um conceito que envolve tanto aspec-tos do espaço físico, o espaço em que vivemos, como doespaço digital. A legislação brasileira *  conceitua acessi-bilidade como sendo a possibilidade e condição de al-cance para utilização, com segurança e autonomia, dosespaços, mobiliários e equipamentos urbanos, dasedificações, dos transportes e dos sistemas e meios decomunicação por pessoa portadora de deficiência ou commobilidade reduzida.As primeiras batalhas e conquistas do movimento pró-acessibilidade foram referentes ao espaço físico, tais comoos projetos livres de barreiras e a inclusão da satisfaçãodo usuário com a usabilidade do produto, no ciclo dosprojetos dos produtos. Embora não se possa considerarque a acessibilidade já tenha sido alcançada, no espaçofísico, particularmente na sociedade brasileira, os movi-mentos pró-acessibilidade seguem avançando, e atual-mente consta, entre seus objetivos, alcançar a acessibili-dade no espaço digital, o espaço das comunicações viacomputador.As possibilidades que este novo espaço, o espaço digital,criado pelas tecnologias de informação e comunicação,traz para o atendimento às distintas formas de interaçãodas pessoas com a informação, respeitando as suas prefe-rências e limitações, tanto aquelas relacionadas aos equi-pamentos utilizados, quanto às limitações orgânicas, sãoapresentadas, ao longo do artigo. Atenção especial é dadaà discussão sobre a relação existente entre as bibliotecase a acessibilidade no espaço digital, apresentando-sealgumas adequações para a acessibilidade que podeme devem ser adotadas nos serviços prestados pelasbibliotecas. *  Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 83-91, set./dez. 2002  84 Elisabeth Fátima Torres / Alberto Angel Mazzoni / João Bosco da Mota Alves  O ESPAÇO DIGITAL O espaço digital pode ser considerado como um outroespaço. Embora penetre no espaço tridimensional (3D)em que vivemos, possui propriedades intrínsecas a ele,que o caracterizam como um espaço distinto do espaço3D no qual estamos imersos. Conforme De Las Heras(2000), é importante observar que o espaço digital não éum espelho do espaço tridimensional, embora, a princí-pio, por inércia, haja uma “tendência” a se repetir nele oque se faz no 3D, e assim se passam para ele os arquivos,os livros, os filmes, a música etc. Da análise que esse au-tor apresenta sobre as propriedades do espaço digital des-tacamos:ã densidade – o espaço digital é denso, mas não sofresaturação. Ou seja, possui uma alta capacidade dearmazenamento de informações, mas não se satura, poissempre é possível estender-se esse espaço, o que ocorre,por exemplo, toda vez que se cria um novo sítio web  , ouum material multimídia em CD.ã ubiqüidade – uma mesma informação está em lugaresdistintos;ã deslocação – é possível deslocar-se rapidamente nesteespaço, de um endereço em URL * , por exemplo, passa-sefacilmente a outro, em qualquer ponto da web  ;ã hipertextualidade – o texto obedece a uma nova geo-metria, sem a necessidade de páginas, e são as palavrasque vão abrindo o texto, à medida que se fixa a atençãonelas e que são utilizadas para abrir novas conexões.A presença desse novo espaço já foi incorporada emvários modelos teóricos, desenvolvidos por autores derenome internacional. Echeverria (2001) referenciavários desses autores e relaciona entre esses os trabalhosde McLuhan ( aldeia global  ), Töffler ( terceira onda  ), Gore( ciberespaço, autopistas da informação  ), informe Bangemann( sociedade da informação  ), Barlow ( nova fronteira eletrôni- ca  ), Negroponte ( mundo digital  ), De Kerckhove ( mentes interconectadas  ), Lévy ( mundo virtual  ), Castells ( socieda- de-rede  ), União Européia 2000 ( espaço eletrônico  ) etc.A esse conjunto de expressões já utilizadas como refe-rências ao espaço digital, Echeverria (2001) acrescentamais uma e propõe o termo terceiro entorno **  (E3), refe-rindo-se a um novo espaço-tempo no qual os seres hu-manos se desenvolvem (no sentido individual, comuni-tário, lingüístico etc.). E são as novas tecnologias dainformação e das comunicações (TIC) que possibilitama construção desse novo espaço-tempo social. Esse au-tor considera sete tecnologias como sendo as construto-ras do E3: o telefone, a televisão (radiotelevisão), o di-nheiro eletrônico, as redes telemáticas (tipo Internet oude outros tipos), as tecnologias multimídia (discos du-ros, cd-rom  , DVD etc.), os videojogos e as tecnologias derealidade virtual.Devido a essas características, peculiares ao espaço digi-tal, tem havido uma forte tendência a se levar para ele amaior parte dos documentos e informações importan-tes, sendo este, atualmente, o espaço srcinal em que sãoproduzidos os novos documentos e, para o qual, sãotransferidas todas as informações recuperadas, em obrasraras e outros documentos importantes, anteriormenteexistentes apenas em suportes não-digitais como o pa-pel, o papiro, as telas etc. Para De Las Heras (2000), issoocorre porque o espaço digital exerce um forte efeitoatrator sobre o espaço tridimensional e por isso vão sur-gindo as versões digitais das escolas, das empresas, dasbibliotecas, dos fóruns, das reuniões, dos bate-papos, dos jogos, dos livros, das músicas etc. Não se pode, contudo,esquecer que este espaço permite não apenas a reprodu-ção do que se faz no espaço tridimensional, mas tambémpermite a criação do “novo”, daquilo que ainda não foipossível se fazer no espaço tridimensional. Construir aacessibilidade à informação é uma dessas possibilidadesainda não alcançada. O DESENHO PARA TODOS NO ESPAÇO DIGITAL Embora pareça contraditório, pode-se afirmar que asbarreiras arquitetônicas não são o maior obstáculo en-frentado pelas pessoas portadoras de deficiência. O maiorobstáculo está no acesso à informação e, conseqüente-mente, a aspectos importantes relacionados à informa-ção, como a educação, o trabalho e o lazer. A preocupa-ção atual dos defensores da acessibilidade está em garan-tir que esses princípios sejam observados também no es-paço digital, o espaço da informática e das comunica-ções. A Internet tem sido muito usada para exemplificar *  URL – Uniform Resource Locator. **  Para o autor citado, o E1 refere-se ao entorno rural, à sociedadeagrária, e o E2, ao entorno urbano, à sociedade industrial, emboratanto em E1 como em E2 outras modalidades de organização socialtambém possam ser observadas. Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 83-91, set./dez. 2002  85 esse conceito, por conter aspectos fundamentais de ambasas tecnologias.Uma Internet acessível implica que ela esteja disponívelàs pessoas, tanto no aspecto financeiro quanto no for-mato, ou na mídia, em que as informações são divulgadas.A flexibilização da apresentação da informação em for-mas distintas, que apresentem correspondência em ter-mos de conteúdo, deve ser considerada, tanto como umaquestão de necessidade, como de preferência de algunsusuários. A necessidade pode se manifestar pela impos-sibilidade de aceder à informação divulgada de uma úni-ca forma, sempre que essa forma se torna inacessível,seja devido às características técnicas dos equipamentosdos usuários (qualidade e custo das tecnologias utiliza-das), ou pelas características corporais dessas pessoas(por exemplo: deficiências sensoriais, problemas de co-ordenação motora etc.). A preferência se manifesta quan-do os usuários optam por ter o acesso à informação atra-vés da mídia que mais lhes convém, ou mais lhes agrada,conforme seja o seu estilo de aprendizagem.Embora não existam, ainda, mecanismos intergoverna-mentais que promovam a acessibilidade dos conteúdosdisponibilizados via Internet, alguns países vêm ado-tando políticas nesse sentido, particularmente no quediz respeito aos sítios web de suas repartições públicas.Austrália, Canadá, Estados Unidos e Portugal se encon-tram entre os países pioneiros a adotar políticas nessesentido.Esforço internacional notável, pró-acessibilidade no es-paço digital, tem sido feito pelo W3C * , que atua comogestor de diretivas para a Internet. Foram definidas, poresse comitê internacional, algumas recomendações paraa construção de páginas web  , aplicáveis também a outrosdocumentos disponibilizados no espaço digital, que po-dem ser resumidas por meio da adoção desses princípios:ã Assegurar uma transformação harmoniosa da informa- ção –   Apresente a informação de mais de uma maneira.Por exemplo: o que for áudio deve ter uma versão emtexto; o que for imagem deve ser descrito. Este princípiose justifica tanto em função de possíveis limitações dosusuários quanto da existência de tecnologias de qualida-des distintas.ã Fazer o conteúdo compreensível e navegável   – Use um esti-lo bem simples, observe a estrutura lógica do documen-to, em termos da compreensão dos seus diversos pontosde enlace. O usuário pode ter dificuldades em compreen-der a informação, seja devido ao idioma, seja devido aocontexto em que ela é apresentada.Deve-se lembrar que todas as propostas apresentadas nosentido de obter a acessibilidade na Internet são aplicá-veis também a outros textos e documentos de interessepúblico, disponibilizados nas bibliotecas em outros su-portes digitais, como  cd-rom  , disquete, DVD etc.A não-observância da acessibilidade no espaço digitalpelos autores dos materiais disponibilizados nessa formapode ser considerada como uma discriminação feita amilhares de usuários, quantidade essa que se torna nãomensurável quando essa informação aparece em sítios web de acesso livre. A luta por sítios web acessíveis estáincluída entre as exigências por igualdade de condições,conduzidas pelos movimentos das pessoas com limi-tações oriundas de deficiências, nos países em que oprocesso de informatização da sociedade está mais avan-çado. ACESSIBILIDADE NO ESPAÇO DIGITAL A acessibilidade no espaço digital consiste em tornardisponível ao usuário, de forma autônoma, toda a infor-mação que lhe for franqueável (informação para a qual ousuário tenha código de acesso ou, então, esteja liberadapara todos os usuários), independentemente de suas ca-racterísticas corporais, sem prejuízos quanto ao conteú-do da informação. Essa acessibilidade é obtida combi-nando-se a apresentação da informação de formas múl-tiplas, seja através de uma simples redundância, seja atra-vés de um sistema automático de transcrição de mídias,com o uso de ajudas técnicas (sistemas de leitura de tela,sistemas de reconhecimento da fala, simuladores de te-clado etc.) que maximizam as habilidades dos usuáriosque possuem limitações associadas a deficiências.Como o espaço digital se estende por todo o espectro dascomunicações, via televisão digital, computadores e re-des telemáticas, é este o espaço no qual o direito à infor-mação, de uma forma acessível, deve ser reivindicado edesenvolvido.Existem níveis distintos de obstáculos para a acessibili-dade digital. Romañach (2002) faz uma analogia com osobstáculos criados pelas escadas no espaço físico e consi-dera a existência de três distintos degraus. Para se alcan-çar essa acessibilidade, é necessário superar os obstácu-los correspondentes aos seguintes degraus: *  W3C – World Wide Web Consortiumhttp://www.w3.org/WAI A acessibilidade àinformação no espaço digital  Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 83-91, set./dez. 2002  86 ã degrau 1 – Poder acionar os terminais de acesso à infor-mação: telefones, computadores, caixas de auto-atendi-mento bancário, quiosques virtuais etc.ã degrau 2 – Poder interagir com os elementos da interfacehumano-máquina tais como os menus de seleção, bo-tões lógicos, sistemas de validação etc.ã degrau 3 – Poder aceder aos conteúdos que sãodisponibilizados nos terminais, sejam informação finan-ceira, lúdica, geral, vídeos, imagens, áudio etc.Associada à acessibilidade dos sítios web   existem formasde verificar e certificar a qualidade dessas páginas. Sãoapresentados, como exemplo, o selo de certificação doBOBBY, o pioneiro nesse tema, e o selo do W3C, consi-derado, atualmente, como o mais completo edisponibilizado em três graus distintos de qualidade.FIGURA 1 Selos que comprovam a acessibilidade de páginas web  A preocupação com a acessibilidade digital está presentenas políticas públicas de informatização, em muitos paí-ses, e deverá, necessariamente, estar presente, quando sepensar em uma sociedade da informação para todos. As ajudas técnicas informáticas e sua contribuição para o acesso àinformação e a construção do conheci- mento  Qual é o espaço ocupado pelo ser humano? Hoje se aceitao ser humano também como um ser social, é indivíduo eé parte de um organismo maior, constituído pelas demaispessoas com as quais convive. E, como indivíduo, quaissão as fronteiras do seu ser? Essa é uma questão que temocupado os filósofos, como Georges Canguilhen (1995,p. 162),“[...] o homem, mesmo sob o aspecto físico, não se limitaa seu organismo. O homem, tendo prolongado seus ór-gãos por meio de instrumentos, considera seu corpo ape-nas como um meio de todos os meios de ação possíveis.”Essa extensão do ser humano, por meio de instrumentosé ainda mais evidenciada para as pessoas portadoras dedeficiência, e se efetiva com ajudas técnicas. Considera-se ajuda técnica qualquer produto, instrumento, equipa-mento ou sistema técnico utilizado por uma pessoa comlimitações oriundas de deficiência, fabricado especifica-mente ou disponível no mercado, criado para prevenir,compensar, mitigar ou neutralizar a deficiência, incapa-cidade ou menus valia   dessa pessoa. Essa definição foiadotada pela Organização Internacional de Normaliza-ção, em sua ISO 9999.Uma tecnologia, embora possa ter a sua concepção moti-vada por determinada categoria de deficiência, depois decriada tem as possibilidades de sua utilização ampliadas.Há pouco tempo, seria inconcebível pensar que uma pes-soa surda poderia usar, sem intermediários, um aparelhode telefone para se comunicar. Hoje, esta facilidade jáestá disponível para os usuários de telefones celulares demensagem.Uma outra tecnologia que atende a distintas categoriasde usuários são os programas de reconhecimento da fala.Embora esta tecnologia esteja sendo aperfeiçoada, váriosprodutos já estão sendo comercializados. Entre os seuspossíveis usuários, estão pessoas com deficiência de co-ordenação motora para digitar, pessoas com deficiênciavisual e qualquer pessoa que prefira ditar em vez de digitar.Falta alguém nesta relação? Sim, estão faltando os surdosque dominam a técnica da oralidade, que podem utilizareste produto simplesmente como as demais pessoas (quepensam que é mais prático ditar do que digitar) e podem,também, encontrar neste produto uma outra finalidade,utilizando-o como uma forma de exercitar e aperfeiçoara sua oralidade.Por isso, embora na prática do dia-a-dia primeiro esteja apessoa com comprometimentos no desempenho de de-terminadas atividades, e seja a partir daí que surge a mo-tivação para pesquisar por ajudas técnicas adequadas aessa pessoa, as categorizações, conforme SanchezMontoya (1999), são mais bem apresentadas a partir dadescrição da contribuição feita por essa tecnologia. É apartir daí que se analisa se haverá ou não benefícios paraas pessoas com deficiência visual, para as com deficiên-cia auditiva, para as com deficiência de motricidade, paraas com deficiência cognitiva ou, até mesmo, para as pes-soas sem deficiência.Quando se analisa a presença da informática, em siste-mas utilizados por pessoas portadoras de deficiência, épossível estabelecer algumas categorias. Apresenta-se, aseguir, uma categorização das ajudas técnicasinformáticas, conforme Mazzoni & Torres (2001). Elisabeth Fátima Torres / Alberto Angel Mazzoni / João Bosco da Mota Alves  Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 83-91, set./dez. 2002

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Jul 31, 2017
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