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A Audiação (Genealogia Do Conceito e Avaliação Crítica Dos Seus Benefícios)

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A Audiação (Genealogia Do Conceito e Avaliação Crítica Dos Seus Benefícios)
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   1 A “ a udiação”: g enealogia do conceito e avaliação crítica dos seus benefícios Trabalho realizado para a unidade curricular de Didática da Formação Musical II do Mestrado em Ensino de Música (2.º ano)  por António João César (20170206) sob orientação do Professor Bernardo Mariano 21 de janeiro de 2019    No presente trabalho procurarei traçar a genealogia do conceito “ audiação ”  de Edwin Gordon, bem como avaliar criticamente os benefícios expostos pelos seus defensores. Alicerçarei a presente reflexão sobretudo na leitura e análise do artigo “ Audição e audiação: o contributo epistemológico de Edwin Gordon para a história da pedagogia da escuta ”  (Caspurro, 2007). Estruturarei o texto em dois blocos. No primeiro bloco,  procurarei apresentar uma genealogia do conceito “ audiação ” . No segundo bloco,  procurarei avaliar criticamente os benefícios da “ audiação ” . Genealogia do termo “ audiação ”   Desde, sobretudo, o princípio do século XX, encontramos inúmeros pedagogos que  procuraram compreender e enunciar os princípios subjacentes a um processo de ensino- -aprendizagem musical relevante e efetivo. Em 1913, Tobias Matthay - pianista, professor e compositor britânico  –   estabeleceu uma clara distinção entre ouvir e escutar: “ there is nothing more fatal for our musical sense, than to allow ourselves  –   by the hour  –   to hear musical sounds without listening to them ”  (apud Caspurro, 2007). Qual será a diferença, então, segundo Matthay, entre ouvir e escutar? Como resposta a esta questão surge frequentemente, ao longo do século XX, a expressão “ audição interior  ”  - por exemplo, nos discursos de Willems, Orff, Kodály, Martenot e Mainwaring - com o propósito de designar a capacidade de pensar o som musical, sobretudo de compreendê-lo e não tanto de o imitar ou de o reproduzir mecanicamente, sem a ocorrência de qualquer processo  profundo de absorção da sua essência musical.   2 Mais tarde, convicto da insuficiência da noção “audição interior”, James Mursell desenvolveu várias ideias relacionadas com esta problemática, nomeadamente os conceitos de “apreensão”  e de “padrão  sonoro ” : “ what is important in listening is not to try to hear everything, but to select the right things ”  (apud Caspurro, 2007). Para Mursell a verdadeira interiorização dos sons depende mais da mente do que do ouvido. Por último, ainda no âmbito da geneologia do conceito “ audiação ” , convém mencionar a importância de alguns princípios da psicologia da gestalt de Wertheimer  –    para se compreender as partes é preciso, previamente, compreender o todo. Segundo Caspurro (2007), a ideia de que a música não é percecionada nota a nota, mas sim através da apreensão de organizações sonoras, nomeadamente padrões de altura, de durações ou de ambos, é defendida por inúmeros autores como, por exemplo, Mursell (1958, 1971) e ainda Bamberger (1986, 1994), Dowling (1973), Lerdahl & Jackendoff (1983), Dowling & Harwood (1986), Cuddy (1993), Deutsch & Feroe (apud Cuddy, 1993), Sloboda (1993), Aiello (1994), Bharucha (1994), Tillmann, Bharucha & Bigand (2000), Deliège (apud Temperley, 2001), Krumhansl (2001), Temperley (2001), McPherson (in McPherson & Gabrielsson, 2002), Povel & Jansen (2002a e b). Deste modo, segundo a autora, os processos de perceção são fundamentados com base nos princípios da semelhança e da proximidade, ou seja, a tendência do sujeito para percecionar objetos ou factos através de sistemas de agrupamento de associação de elementos, conjuntos ou  padrões unidos por características comuns ou próximas (cf. Cuddy, 1993, p. 20; Caspurro, 2007). Avaliação crítica dos benefícios da “ audiação ”   De acordo com a autora, o conceito “ audiação ”  significa “ a capacidade de ouvir e compreender musicalmente quando o som não está fisicamente presente. Por exemplo, quando se evoca mentalmente um tema, quando se lê uma partitura, quando se improvisa, quando se escreve ou compõe música sem auxílio de instrumento ”  (Caspurro, 2007). Impõe-se, então, a questão  –   quais serão os benefícios da “ audiação ” ? A este propósito cito e subscrevo algumas perspetivas enunciadas por Helena Caspurro: 1) o desenvolvimento de uma apropriação da música de forma a que seja possível exprimir ideias sem o condicionamento do que, por exemplo, está escrito na pauta; 2) o desenvolvimento de uma perceção da música como uma organização sonora complexa; 3) o estímulo das capacidades de generalizar, transferir e descobrir; 4) ultrapassar uma filosofia de ensino baseada quase exclusivamente nas capacidades de ler música, de   3 escrever música, de memorizar e de executar tecnicamente um instrumento; 5) a  promoção e a recuperação do significado psicológico, pedagógico e curricular da criatividade; 6) a promoção de uma consciência educativa na qual a imitação ou a mera reprodução musical, apesar de serem dimensões fundamentais no plano da assimilação de vocabulário, não podem constituir, em si mesmas, as finalidades últimas da educação musical. Um aspeto menos positivo - contudo, exterior às teorias e conceitos propostos por Gordon - prende-se com a forma como as suas ideias foram recebidas e postas em prática  por um número considerável de professores de música. Nalguns casos, à semelhança daquilo que se passou com grande parte das teorias do ensino da música durante o século XX, aquilo que é, de facto, um profundo e alicerçado modelo analítico da aprendizagem musical foi, frequentemente, recebido não como uma ferramenta para o professor pensar de forma científica e criativa a sua atividade educativa, mas sim como uma espécie de “ método instantâneo ”  para ensinar música, alheio, muitas vezes, à necessária reflexão crítica sobre a atividade docente exercida quotidianamente. Por último, gostaria de destacar e subscrever as seguintes palavras da autora: É significativo como a insistência por estratégias de ensino baseadas em escalas e intervalos  –   note-se que estes assuntos são continuamente repetidos ao longo dos oito ou mais anos de ensino do conservatório  –   não é suficiente para gerar no aluno a capacidade de generalizar e criar. É significativo, por fim, que a prática continuada e repetida de leituras e ditados não sirva para evitar os elevados níveis de insucesso escolar, concretamente no plano da leitura e escrita notacional. Enfim: parece que é na própria compreensão sintáctica da música, tal como é exigida pelo fenómeno de audiação, que é possível encontrar-se uma das fontes pertinentes para a explicação e realização daquilo que, desde há longa data, anda afastado do ensino artístico: a descoberta, a criação, enfim, o pensamento... o tal outro ouvido. (Caspurro, 2007)   4 Referências bibliográficas Aiello, R. (1994). Music and language: parallels and contrasts. In R. Aiello & J. Sloboda (Eds.),  Musical Perceptions . New York: Oxford University Press, 40-63. Bharucha, J. J. (1994). Tonality and expectation. In R. Aiello & J. Sloboda (Eds.),  Musical Perceptions . New York: Oxford University Press, 213-239. Bamberger, J. (1986). Cognitive issues in the development of musically gifted children. In R. Sternberg & J. Davidson (Eds.), Conceptions of giftedness . Cambridge: Cambridge University Press, 388-413. Bamberger, J. (1994). Coming to hear in a new way. In R. Aiello & J. Sloboda (Eds.),  Musical Perceptions . New York: Oxford University Press, 131-151. Caspurro, H. (2007). Audição e audiação: o contributo epistemológico de Edwin Gordon  para a história da pedagogia da escuta.  Revista de Educação Musical , 127, pp. 16-27. Cuddy, L. L. (1993). Melody comprehension and tonal structure. In T. J. Tighe & W. J. Dowling (Eds.), Psychology and music: The understanding of melody and rhythm . N. Jersey, London: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 19-38. Dowling, W. J. (1973). The perception of interleaved melodies. Cognitive Psychology , 5,  p. 322-337. Dowling, W. J. & Harwood, D. L. (1986).  Music cognition . Orlando: Academic Press. Gordon, E. (2000). Teoria de aprendizagem musical: Competências, conteúdos e padrões  (Ed. Trad.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1980). Krumhansl, C. L. (2001). Cognitive foundations of musical pitch . Oxford: Oxford University Press, (1990).
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