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A Censura e Outras Questões Da Internet

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Na edição de 19/5/97 esta seção [ Espaço Aberto ] publicou interessante artigo do Prof. Sílvio Meira, da UFPe. Nela, o Prof. Meira protesta contra possível decisão da Corte Suprema dos EEUU, que talvez introduza restrições à divulgação, pela Internet, de material pornográfico. Não pense o leitor que iremos nos posicionar contrários ao nosso colega. Queremos aqui chamar a atenção para o fato de que a questão não é tão trivial quanto ele coloca, merecendo mais reflexão e discussão, e aproveitamos para abordar outros problemas da Internet.
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  2017-5-4 Censura e outras questões da Internethttps://www.ime.usp.br/~vwsetzer/estadao.html 1/2 A CENSURA E OUTRAS QUESTÕES DA INTERNET Valdemar W. Setzer [Artigo enviado em 21/5/97 ao jornal O Estado de São Paulo , que nem se dignou a acusar o recebimento,quanto menos a publicar...] Na edição de 19/5/97 esta seção [ Espaço Aberto ] publicou interessante artigo do Prof. Sílvio Meira, daUFPe. Nela, o Prof. Meira protesta contra possível decisão da Corte Suprema dos EEUU, que talvezintroduza restrições à divulgação, pela Internet, de material pornográfico. Não pense o leitor que iremos nos posicionar contrários ao nosso colega. Queremos aqui chamar a atenção para o fato de que a questão não étão trivial quanto ele coloca, merecendo mais reflexão e discussão, e aproveitamos para abordar outros problemas da Internet.O Prof. Meira afirma, com razão, que existe uma liberdade total na Internet (se bem que, se não nosenganamos, já existem leis restritivas na Alemanha). Isso é uma absoluta novidade em termos decomunicações. Ele também afirma que hoje já existem várias formas de impedir o acesso a determinadosweb sites da Internet. Só que ele não diz que esses meios devem ser introduzidos pelo próprio provedor do site (como sistemas de senhas de acesso) ou então instalados no computador do usuário por este próprio(como os chamados filtros ). No primeiro caso, é ingenuidade crer que um provedor vá restringir de livre eespontânea vontade o acesso às informações que ele coloca à disposição. Essa situação lembra bem o casodas TVs. Enquanto deixarmos por conta das emissoras, elas nunca irão censurar-se, pois em geral elas nãovendem programas, mas sim telespectadores aos anunciantes. Assim, quanto mais gente assistir aos seus programas violentos e com cenas de sexo melhor para elas. Só se os telespectadores se organizassem e boicotassem esses programas eles deixariam de ser transmitidos. Do mesmo modo, não se pode esperar quetodos os locais públicos da Internet com material impróprio a crianças e jovens sejam providos de senhas.Além disso, que impediria uma criança de criar sua própria senha? Quanto aos filtros, se os pais não põemquase restrições ao que seus filhos vêm na TV, como se pode esperar que eles introduzam filtros em seusmicros para impedir seus filhos de fazerem determinados acessos?Liberdade é hoje em dia essencial ao ser humano. Só que ela só faz sentido se usada com critério eresponsabilidade. Temos uma grande dúvida se a humanidade chegou ao ponto de poder contar com algo queinvolva uma liberdade irrestrita. Nesse sentido, a Internet pode ser uma manifestação de uma das possíveisatitudes negativas dos seres humanos: adiantar o futuro antes que estejamos maduros para isso. A atitudenegativa oposta é muito mais freqüente: voltar ao passado, isto é, pensar, sentir e agir como se aindaestivéssemos em épocas anteriores. Manifestações disso abundam: racismo, nacionalismo, sexismo,fanatismo religioso, diminuição da consciência (como na propaganda), etc. Queremos deixar bem claro queadmiramos profundamente a liberdade introduzida pela Internet. Ela parece maravilhosa, e deveria levar auma maior responsabilidade e consciência. Mas temos dúvida se ela já é adequada à nossa constituiçãohumana presente. Seria necessário mais experiência e reflexão para se chegar às conclusões do Prof. Meira,isto é, que é benéfico manter sua total liberdade.Abordemos ainda brevemente dois outros problemas, ligados às crianças e jovens, já que a preocupação écom eles. A Internet, se usada educacionalmente, introduz uma espécie de Educação Libertária, isto é, oaluno ou criança em seu lar ou escola tem total liberdade de, através da rede, fazer o acesso a informações. No entanto, essas podem não ser próprias para sua maturidade e ambiente. Toda educação, no lar e na escola,tem sido tradicionalmente altamente contextual, isto é, teoricamente apropriada a quem a recebe. Os pais emgeral escolhem os livros que seus filhos deveriam ler, escolhem os ambientes onde levá-los, etc. Os professores sempre dão aulas levando em conta a maturidade dos alunos, o que eles ensinaram ontem e nasemana anterior, o que os outros professores estão ministrando, etc. Se uma criança ou jovem usa a Interneteducacionalmente, entra em um sistema sem nenhum contexto em relação a ele. Elimina-se assim umaspecto fundamental da educação: a orientação, isto é, o fato dos adultos saberem melhor do que as criançaso que é bom e adequado para elas. Nossa recomendação é que se um pai acha indispensável que seu filhoaprenda a usar a Internet (o que para nós é uma falácia), que pelo menos ele esteja permanentemente ao ladoda criança ou jovem, orientando-o no uso.Finalmente, mais um problema: a Internet exige um enorme esforço de auto-controle. O lixo informativonela armazenado está crescendo exponencialmente. É preciso muito critério para uma pessoa concentrar-se e buscar apenas o que lhe é útil, não ser atraído por baboseiras perniciosas, e despender apenas o tempo  2017-5-4 Censura e outras questões da Internethttps://www.ime.usp.br/~vwsetzer/estadao.html 2/2 necessário para obter as informações procuradas (quantos dos leitores cibernautas não vararam a noiteligados à Internet, sem um proveito mínimo?). Do ponto de vista de educação de nossos jovens, isso exigiriadeles um auto-controle que deveria ser próprio de adultos.Esses dois casos, liberdade exagerada e necessidade de auto-controle, forçam crianças e jovens a secomportar como adultos. Usando o título de um magnifico livro do Prof. Neil Postman, do Depto. deComunicações da Univ. de New York, diríamos que o uso da Internet (e de computadores em geral, mas issoé um outro tema) por crianças contribui para o desaparecimento da infância - e da juventude também. Oque tende a levar a futuros adultos aleijados emocional e psiquicamente. Um futuro socialmente ainda maistrágico do que o presente nos aguarda.Valdemar W.Setzer foi Prof. Titular do Depto. de Ciência da Computação da USP, onde se aposentou. Éconsultor da PCA Engenharia de Software. vwsetzer@ime.usp.br - http://www.ime.usp.br/~vwsetzer
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