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A consciência segundo Spinoza (Cláudio Ulpino)

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A consciência segundo Spinoza. Aula de Cláudio Ulpiano de 10 de setembro de 1995 LADO A da fita. Esta é uma aula trágica. Trágico não quer dizer sofrimento – não é nada disso; mas uma aula fundada num homem que esteve neste planeta durante quarenta e cinco anos. Nesses quarenta e cinco anos de vida, ele se preocupou em compreender e em observar se há ou havia saída para o sofrimento da alma humana. Esse homem chamase Espinosa. Espinosa viveu no século XVII: nasceu em 1632. Ele foi injuriado e o
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  A consciência segundo Spinoza. Aula de Cláudio Ulpiano de 10 de setembro de 1995LADO A da fita.Esta é uma aula trágica. Trágico não quer dizer sofrimento – não énada disso; mas uma aula fundada num homem que esteve nesteplaneta durante quarenta e cinco anos. Nesses quarenta e cinco anosde vida, ele se preocupou em compreender e em observar se há ouhavia saída para o sofrimento da alma humana. Esse homem chama-se Espinosa.Espinosa viveu no século XVII: nasceu em 1632. Ele foi injuriado eodiado durante a sua vida… e acusado de materialista e de ateu.Quando diziam que ele era materialista e ateu, ele, sim, sentia umaenorme alegria, porque ele era materialista e ateu. Mas nãoconsiderava isso uma desonra. Pelo contrário! Uma posição, para ele,a mais elevada que o homem poderia ter.Eu usei uma expressão perigosa – “a posição mais elevada que ohomem poderia ter”. Dizer: a posição mais elevada que o homempoderia ter – não tem uma significação moral. Significa que aqueleque tem a posição mais elevada venceu todos os medos, todas asangústias e todos os sofrimentos. Ou seja: o homem mais elevado, noconceito de Espinosa, é aquele que, através do seu pensamento,descobriu que a vida pode se dar sem angústia ou depressão.Então, dizer “o homem mais elevado”, não é um elogio pelosdiscursos que Espinosa proferiu; mas um fato, que ele teve comoquestão da vida dele - e os mais jovens talvez não entendam a forçaexistencial do que eu estou dizendo -, que ele teve como questãoprimacial da obra dele o sofrimento da humanidade. Diante dessesofrimento – e não é o sofrimento do corpo que preocupou Espinosa –é o sofrimento da alma: a alma humana envolvida com o medo damorte, das angústias, dos terrores que a acompanham desde onascimento.Se nós, literalmente, não tivéssemos tido Espinosa – quer dizer, esteEspinosa que eu vou começar a dar pra vocês -, o homem seria umser sem saída Ele seria um ser definitivamente mergulhado naangústia. Ou melhor: tudo aquilo que está dentro do tempo… nasce,desenvolve-se e morre. O que leva qualquer criatura dentro do tempo- se não houvesse Espinosa -, a estar condenada a um sofrimentoinsuportável.  Essas afirmações que estou fazendo antes de começar a apresentarEspinosa pra vocês, é porque a obra dele tem como principaladversário – e aqui as palavras começam a ficar um pouco difíceispara serem entendidas -, o principal adversário da obra de Espinosa éa ignorância. Ele considera a ignorância o pior inimigo da vida.Ignorância quer dizer ignorar. E quando você encontra um ser –Atenção pela beleza e pela dificuldade do que eu vou dizer! – quandovocê encontra um ser que é ignorante por acidente, significa que esseser é ignorante, mas pode deixar de ser. Ou seja: ignorância poracidente significa que esse ser, dependendo de determinadasocorrências, deixaria de ser ignorante. A questão de Espinosa não éessa! A questão do Espinosa é com aquele ser que é ignorante poressência. E que nada, jamais nada no universo pode modificar aquelaignorância. É um ser que tem como elemento inseparável de simesmo a ignorância.Espinosa diz que este ser, que tem como elemento inseparável de simesmo a ignorância, que este ser é o maior inimigo da vida. E elechama esse ser do mesmo nome que nós costumamos chamar – aconsciência. Essa afirmação aqui é uma afirmação inicial.Intervenção de aluna.: Ele chama a ignorância….A consciência, para Espinosa, é um ser absolutamente ignorante e aignorância da consciência… – não adianta mandar a consciência paraum internato na Suíça, porque ela não tem cura. O Espinosa estádizendo que ela é ignorante por essência, e não por acidente.É nesse momento que começa uma obra que dada a filosofia…???……esquece para sempre a consciência. Ela é declarada a ignorante semcura. E a partir dessa denúncia que Espinosa está fazendo para todosos homens – ele está dizendo para todos os homens: “Olhem, aconsciência, ela é… a ignorância absoluta!” Evidentemente que oshomens, que são governados pela consciência, não entendem o queele diz.A gente ouve essa afirmação que Espinosa está fazendo – que aconsciência é ignorante – e, inicialmente, acha que são meraspalavras ou jogos de palavras que vão aparecer para nós – comoaconteceu durante toda a história do homem – que é ir se deparandocom jogos de palavras. Não é essa a questão! A questão de Espinosaé… de uma radicalidade assustadora! Ele diz e afirma que aconsciência jamais poderá deixar de ser ignorante. E, a partir dessaafirmação, eu vou mostrar pra vocês o que é a consciência.  Em primeiro lugar, o que é algo fácil de ser entendido, o homem éconstituído de duas coisas – e as palavras aqui podem serprejudicadas pelas influências religiosas… – o homem é constituído deum corpo e de um espírito. Essa noção de espírito é a afirmação deque o homem é capaz de tentar – se ele consegue ou não é outroproblema! – entender a natureza; capaz de sofrer pelo sofrimento dosoutros e dos seus próprios; e é capaz de inventar novos objetos.Inventar novos objetos, sofrer e procurar entender a natureza sãoíndices de que o homem possui um espírito.Possuir um espírito é o fato de que o homem avalia, julga, sente,projeta, recorda-se, lamenta, sente alegria, sente tristeza… – todosesses componentes indicam, exaustivamente, que o homem não seesgota no corpo: que ele tem um espírito!Então, Espinosa começa por essa afirmação: o homem é corpo eespírito! Essa afirmação, pelo menos aparentemente, não é muitosrcinal, porque todas as religiões disseram a mesma coisa: o homemtem um corpo e um espírito.A srcinalidade começa quando Espinosa diz que o espírito apareceno mundo por uma forma chamada consciência. Ou seja, nossoespírito – não vou dar exemplos porque vocês não iriam entender –aparece no mundo por uma forma que se chama consciência –Atenção! – e essa forma, a consciência, tem por função recolher em situdo o que ocorre na natureza. A consciência é como que… oresultado dos acontecimentos da natureza. A consciência sofre, seangustia, tem depressões. A consciência é um órgão do espírito, ouum órgão no espírito humano que teria a função de conhecer anatureza das coisas. Teria a função de conhecer a natureza dascoisas… mas ela não pode conhecer a natureza das coisas.Atenção! Espinosa diz que a natureza das coisas são relações causais.O que são relações causais? São relações de forças que percorrem anatureza.A natureza são as forças dos corpos, ou melhor, diz Espinosa, oinfinito inteiro da natureza é constituído por dois afetos – acomposição e a decomposição dos corpos.Quando você conhece a natureza, você conhece – diz ele - que anatureza só tem dois afetos: a composição e a decomposição. Maisnada!Então, a natureza se explicaria pelos corpos que se compõem e peloscorpos que se decompõem. Para Espinosa a natureza não tem maisnenhuma lei, só essas duas; só esses dois afetos: composição edecomposição.  A consciência – sendo um órgão do conhecimento – teria a função deconhecer as regras que organizam a composição e a decomposição.Mas ela não pode fazer isso – e esse é o momento mais difícil e maissofisticado para vocês entenderem - porque ela, a consciência, é umefeito da composição e da decomposição [dos corpos]. Ou seja, sóporque há composição e há decomposição é que há consciência. Aconsciência não é primária; ela é secundária – um produto dasrelações causais da natureza. Por isso, a natureza é toda constituídapor relações causais, nas suas composições e nas suasdecomposições; e ela, a natureza, só tem um efeito: esse efeitochama-se… consciência!A consciência é um efeito; e sendo um efeito (ela é como se fosse aComlurb) – só recolhe os acontecimentos causais da natureza. Então,quando a consciência pertence a um corpo que está em composiçãocom outro corpo, a natureza recolhe alegria; quando está emdecomposição com outro corpo, ela recolhe tristeza. A consciêncianão compreende a natureza: ela sente a natureza!(Atenção, para o que eu estou dizendo:)A consciência não compreende os movimentos causais que anatureza efetua. Ela não compreende, mas sente esses movimentos.Por isso, a consciência é constituída pela variação das composições edas decomposições da natureza, que dão à consciência variação desentimentos.A consciência é uma interminável sucessão de sentimentos. Ela passade um sentimento para outro, em função das composições e dasdecomposições que existem dentro da natureza.Pergunta de aluno.: Uma interminável consciência dessesmovimentos? É como se fosse um movimento continuado, não é?REPOSTA DO PROFESSOR.: O que a consciência tem são sentimentos.Ela não sabe o que são as composições e as decomposições danatureza; ela tem apenas sentimentos.Então, por exemplo, o meu corpo se compõe com outro corpo, aminha consciência sente alegria. O meu corpo e outro corpo sedecompõem, ela sente tristeza. Quando a composição permanece pormais tempo, ela sente amor. Quando a decomposição demora maistempo, ela sente ódio. Então, a consciência vai variando desentimentos. Ela é uma variação permanente de sentimentos.
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