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A Crise Brasileira Em Perspectiva Intern

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golpe 2016
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  1 O futuro não é mais o que costumava ser. A crise brasileira em perspectiva internacional Alvaro A Comin 1  Março/2017 Não seria exagero dizer que a última década e meia tenha se caracterizado por uma crescente polarização social e política em praticamente todas as regiões do globo. Neste período, assistimos a verdadeiras batalhas eleitorais entre governos e oposições, como no caso da Índia, em 2014, ou na Venezuela, em todos os pleitos desde 1998; movimentos separatistas no Reino Unido, na Bolívia, no Sudão, na Itália, na Espanha e na Ucrânia; guerras civis na Ucrânia, Síria, Iraque e Iêmen (todas em andamento); golpes de estado contra governantes eleitos em Honduras (2009), no Egito (2013), no Paraguai (2013), na Tailândia (2014) e no Brasil (2016); além de uma tentativa fracassada na Turquia (2016); levantes populares, como na Tunísia e no Egito (2011); repressão violenta contra movimentos pró-democracia, como na Rússia, em 2010 e no Irã, em 2009. E a lista poderia se alongar. Na maioria dos casos - se não em todos - estes cenários de polarização política, eleitoral e por vezes militar refletem explicitamente polarizações “identitárias” envolvendo oposições e hierarquias associadas a categorias como nação, raça, etnia, cor, sexo, religião e classe social. Assim temos cenários em que se chocam o “povo” (“ we, the people  ”   , os 99%, os pobres, os “sem - diploma”, o cidadão comum, os desempregados, os trabalhadores, os camponeses, os indígenas) contra as elites (os partidos mainstream  , a grande mídia, os banqueiros e advogados de Wall Street, os burocratas de Bruxelas; as corporações transnacionais, os oligarcas, os bilionários, ou os políticos); bem como conflitos entre cidadãos e imigrantes; nacionais e estrangeiros, cristãos e muçulmanos, “ sulistas ”  e “ nortistas ” , brancos e não-brancos. A tese de que a globalização e a financeirização do capitalismo levariam ao declínio dos estados-nacionais não é nova, ela está na praça desde pelo menos os anos 70 2 . Uma vez que se aceite que capitalismo   e estado   são fenômenos historicamente associados e mutuamente definidores, não é difícil aceitar a tese de que mudanças tão profundas em um deles não possam ocorrer sem ´provocar mudanças igualmente profundas no outro. Neste artigo pretendemos explorar uma dupla modulação da tese sobre o declínio do estado-nacional. A primeira, sugerindo que ao invés de declínio, puro e simples, o que está se passando são transformações importantes nas funções ou, melhor dizendo, nas prioridades dos estados-nacionais. A segunda, que os conflitos a que assistimos 1  Professor do Departamento de Sociologia na Universidade de São Paulo.   2  Wallerstein (1974)…    2 contemporaneamente estão menos ligados ao componente estatal do que ao componente nacional  , do binômio em questão. De modo mais concreto, a tese aqui desenvolvida é a de que, ao contrário de muitas análises, estes cenários de polarização não resultam de uma crise dos sistemas de representação, dos partidos políticos ou dos sistemas democráticos; ela é sim o resultado das transformações por que vem passando, nas últimas décadas, a  plataforma   que permitiu a existência dos regimes representativos, bem como da personagem moderna a que chamamos de cidadão e cidadã: o Estado-Nação; embora as análises econômicas contemporâneas tendam a priorizar apenas o primeiro termo do binômio, é no segundo que devemos buscar inteligibilidade para os conflitos políticos. Afinal, é bom lembrar que somos cidadãos ou cidadãs por pertencermos a uma nação, e não por nascer e viver em um território governado por um estado específico (que o digam curdos, palestinos, tibetanos, rohingya  ,  yanomami  , e tantos outros povos perseguidos no próprio território em que nasceram e em que suas famílias vivem há gerações). Este artigo discute, de maneira esquemática, cenários de polarização em diferentes partes do mundo, buscando ressaltar o entrelaçamento de fatores estruturais (comuns aos vários países) e de ordem identitária (“sócio - culturais”, digamos) que ajudam a entender o que há de específico em cada caso. Iniciamos nosso tour   pelos EUA e Europa (Leste e Oeste) e seguimos pelo Oriente Médio, América Latina e finalmente ao Brasil. Esperamos estimular uma perspectiva comparativa para o debate sobre a atual crise brasileira, até aqui muito concentrado no cenário doméstico. EUA e Europa: onde os desejos se tornaram recordações. A crise de 2008 é componente central de qualquer história deste período. Nos EUA,  à crise segue-se a eleição de Barack Obama, ela própria um marco polarizador, por mobilizar intensamente o racismo entre os setores mais conservadores e brancos, naturalmente, da sociedade americana 3 . Não casualmente, 2009 foi o ano em que o Tea Party   se organizou nacionalmente e começou a se envolver mais seriamente (isto é, financeiramente) no patrocínio de candidaturas, exclusivamente por meio do Partido Republicano 4 . O espírito progressista que marcou a eleição de Obama culminaria com o movimento Occupy Wall Street  , em 2011, que tinha como alvo central a concentração de riqueza e poder nas mãos das grandes corporações (e de seus executivos); assim como a captura dos sistemas políticos por estas mesmas forças. O fato de Obama ter abandonado de 3  Marc J. Hetherington & Jonathan D. Weiler  Authoritarianism and Polarization in American Politics.  Cambridge Univ. Press, 2009. 4    3 saída a promessa de enquadrar Wall Street e a certeza entre muitos eleitores liberais de que Hilary Clinton tampouco o faria foi, ao que tudo indica, fator chave para o quase sucesso do “socialista” Bernie Sanders nas primárias democratas; e certamente pesou muito na derrota final de Hilary Clinton. A longa e custosa batalha pela implantação do Obamacare (um dos sucessos de Obama) transformou-se numa das trincheiras mais populares de Trump, alinhando-o com o Tea Party  . Donald Trump venceu as eleições de 2016 sofrendo intensa rejeição entre todas as minorias étnicas e nacionais (especialmente entre os afro-americanos, 88% dos quais votaram na candidata democrata, taxa que chega a 94% entre as afro-americanas); mas capturando a maioria dos votos do eleitorado branco, mesmo e decisivamente em regiões tradicionalmente democratas, como o rust belt  ; mesmo e decisivamente entre as mulheres brancas 5 . Uma das explicações para vitória de Trump, que pelo seu alcance global nos interessa destacar, refere-se à sua crítica aos efeitos da globalização (os tratados comerciais e a manipulação de moedas pelas economias asiáticas, por exemplo) sobre o mercado de trabalho e sobre as oportunidades de vida dos americanos   (nacionalidade cuja delimitação é parte central do conflito, afinal). Em uma frase, trata-se do impacto da desindustrialização dos empregos, seja pelo deslocamento da produção para outros países (como China e México, dois dos vilões preferidos de Trump), seja pelo avanço das tecnologias. Os bons salários (por trás dos quais se esconde boa parte do sonho americano) passaram a ser capturados pelas coortes mais jovens e, sobretudo, mais escolarizadas do que aqueles que perderam seus empregos fabris; além disso, como centro universitário e tecnológico do mundo, os EUA atraem grande quantidade de estudantes e profissionais muito competitivos de todas as partes do mundo 6 , onde se incluem muitos indivíduos com srcem em países não ocidentais, não cristãos e não brancos  . Para uma larga parcela da classe trabalhadora branca americana, o emprego industrial permitiu que mesmo com credenciais educacionais relativamente modestas os seus membros desfrutassem de condições de vida e perspectivas de classe média (casa própria, carro, plano de aposentadoria, filhos na universidade); essa classe de homens, aos poucos, teve que começar a se contentar com os macjobs   instáveis, mal pagos e sem perspectivas de carreira, que as grandes cadeias comerciais oferecem e para os quais, ademais, têm que concorrer com força de trabalho composta de afro-americanos, latinos e imigrantes. A socióloga Arlie Hochschild cunhou uma boa imagem para descrever a frustração experimentada por estes americanos e o tipo de reação política resultante: imagine-se o sonho americano como uma fila em um plano inclinado que, aos poucos, permite que todos avancem rumo 5  [NOTA].   6  Para medir a importância deste suprimento de força de trabalho para a economia americana basta ver a reação das companhias de tecnologia, Google, Apple etc., frente a tentativa de Trump de restringir a entrada de estrangeiros no país.  4 a posições mais elevadas, mais próximas do topo; há algumas décadas, a retração industrial fez com que para muitos  –   e particularmente para os homens - a fila, primeiro, parecesse não andar mais; e, depois, perecesse estar sendo sistematicamente furada por elementos que antes se encontravam léguas atrás deles, como afrodescendentes, mulheres, imigrantes, deficientes físicos e homossexuais. Estes náufragos da globalização passam a enxergar as razões de seu insucesso na imigração e nas vantagens desproporcionais representadas pelas políticas sociais em apoio às minorias   e aos  pobres  , que, ainda por cima, o governo financia com os impostos que eles próprios, trabalhadores americanos  , pagam. Para a autora isto explicaria o “grande paradoxo” de  que justamente estes estratos de trabalhadores empobrecidos pelas transformações econômicas (muitos dos quais historicamente apoiadores do Partido Democrata), se voltem agora com tanta fúria contra as políticas sociais destinadas a socorrê-los 7 , aderindo maciçamente à agenda antiwelfare   servida por Trump. Ao invés de “cupons de alimentação” , Trump lhes promete trazer empregos industriais de volta para serem ocupados por americanos  ; não custa lembrar que esta última parte de sua plataforma, a reindustrialização dos EUA, é abraçada também por Bernie Sanders, o “radical” que abalou a oligarquia democrata, arrebatando os votos de jovens e minorias. A imagem e a explicação são boas por que envolvem tanto os fatores econômico-estruturais (os bons empregos industriais que as próprias corporações americanas levaram para a China e para o México; as vagas nas universidades de elite que são cada vez mais ocupadas pelos filhos das elites de outros países e pelos beneficiários de ações afirmativas, que em seguida ocuparão os melhores empregos em empresas tecnológicas e financeiras); quanto os de ordem cultural (racismo, nacionalismo, xenofobia, homofobia e sexismo). Os mesmos fatores econômico-estruturais que se manifestaram nos EUA se aplicam, mas só em parte, à Europa Ocidental . Reino Unido, França, Itália e Espanha (e mesmo a Alemanha, em sua porção oriental) são todos exemplos de países que tendo atingido elevado grau de industrialização viram muitas de suas próprias companhias deslocarem suas atividades para o mundo em desenvolvimento, em busca de menores custos e de mercados demograficamente mais promissores do que a Europa. Assim como no rust belt   americano, base eleitoral do Partido Democrata, também na Inglaterra e na França é em regiões históricas de concentração operária, que por décadas formaram sólidas bases eleitorais para partidos de esquerda, onde se verificaram recentemente os deslocamentos eleitorais mais significativos rumo a alternativas políticas conservadoras e nacionalistas (na Inglaterra isto ficou claro com o “Brexit”  - mais do que pelo desempenho do UKIP - na França com o crescimento do Front National, na Itália com o Movimento 7  Veja- se Arlie Hochschild “How the ‘Great Paradox’ of American politics holds the secret to Trump’s success”, The Guadian, 07/09/2016. Acesso: https://www.theguardian.com/us-news/2016/sep/07/how-great-paradox-american-politics-holds-secret-trumps-success.
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