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A. de Quental Causas Decadência Abrev

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  CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARESNOS ÚLTIMOS TRÊS SÉCULOS  Meus Senhores:A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos maisincontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizerse !ue essa decadência, se uindose !uase sem transi#$o a um período de for#a loriosa e de rica ori inalidade, é o único randefacto evidente e incontestável !ue nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo%Meus Senhores: a Península, durante os séculos &'((, &'((( e &(&) apresentanos um !uadro dea*atimento e insi nific+ncia, tanto mais sensível !uanto contrasta dolorosamente com a randeza,a import+ncia e a ori inalidade do papel !ue desempenhámos no primeiro período da enascen#a,durante toda a (dade Média, e ainda nos últimos séculos  da Anti uidade% -o o na época romanaaparecem os caracteres essenciais da ra#a peninsular: espírito de independência local eori inalidade de énio inventivo%  .a (dade Média a Península, livre de estranhas influências, *rilha na plenitude do seu énio, dassuas !ualidades naturais% / instinto político de descentraliza#$o e federalismo patenteiase namultiplicidade de reinos e condados so*eranos, em !ue se divide a Península, como um protesto euma vitória dos interesses e ener ias locais, contra a unidade uniforme, esma adora e artificial% 0esse espírito n$o é só independente: é, !uanto a época o comportava, sin ularmente democrático%0ntre todos os povos da 0uropa central e ocidental, somente os da Península escaparam ao 1u ode ferro do feudalismo% 02istia, certamente, a no*reza, como uma ordem distinta% .o*res e populares uniamse por interesses e sentimentos, e diante deles a coroa dos reis era mais umsím*olo *rilhante do !ue uma realidade poderosa% A tais homens n$o convinha mais o despotismo reli ioso do !ue o despotismo político: a opress$oespiritual repu navalhes tanto como a su1ei#$o civil% /s povos peninsulares s$o naturalmentereli iosos: s$ono até de uma maneira ardente, e2altada e e2clusiva, e é esse um dos seuscaracteres mais pronunciados% Mas s$o ao mesmo tempo inventivos e independentes: adoram com pai2$o: mas só adoram a!uilo !ue eles mesmos criam, n$o a!uilo !ue se lhes imp3e% 4azem areli i$o, n$o a aceitam feita% / nosso énio é criador e individualista: precisa reverse nas suascria#3es% (sto e2plica suficientemente a independência das i re1as peninsulares, e a atitude altivadas coroas da Península diante da cúria romana% 0ra o sentimento crist$o, na sua e2press$o viva ehumana, n$o formal e ininteli ente: a caridade e a toler+ncia tinham um lu ar mais alto do !ue ateolo ia do mática% 0ssa toler+ncia pelos Mouros e 5udeus, ra#as infelizes e t$o meritórias, serásempre uma das lórias do sentimento crist$o da Península da (dade Média% A caridade triunfavadas repu n+ncias e preconceitos de ra#a e de cren#a%  .o mundo da inteli ência n$o é menos notável a e2pans$o do espírito peninsular durante a (dadeMédia% / rande movimento intelectual da 0uropa medieval compreende a filosofia escolástica ea teolo ia, as cria#3es nacionais dos ciclos épicos, e a ar!uitectura% 0m nada disto se mostrou aPenínsula inferior 6s randes na#3es cultas, !ue haviam rece*ido a heran#a da civiliza#$oromana% As escolas de 7oim*ra e Salamanca tinham uma cele*ridade europeia% 0ntre os primeiros homens do século &((( está um, monarca espanhol, Afonso, o Sábio , espírito universal,filósofo, político e le islador% .em posso tam*ém dei2ar es!uecidos os mouros e 1udeus, por!ueforam uma das lórias da Península% A reforma da escolástica, nos séculos &((( e &(', pela 8  renova#$o do aristotelismo, foi o*ra !uase e2clusiva das escolas ára*es e 1udaicas de 0spanha% /shomens de Averróis 9de 7órdova, de (*n;ophail 9de Sevilha e os dois 1udeus Maimónides eAvice*ron ser$o sempre contados entre os primeiros na história da filosofia na (dade Média% Ao pé da filosofia, a poesia% <uanto 6 ar!uitectura, *asta lem*rar a =atalha e a 7atedral de =ur os,duas das mais *elas rosas óticas desa*rochadas no seio da (dade Média% 0m tudo istoacompanháramos a 0uropa, a par do movimento eral% .uma coisa, porém, a e2cedemos,tornandonos iniciadores: os estudos eo ráficos e as randes nave a#3es% As desco*ertas, !uecoroaram t$o *rilhantemente o fim do século &', n$o se fizeram ao acaso% Precedeuas umtra*alho intelectual, t$o científico !uanto a época o permitia, inau urado pelo nosso infante >%?enri!ue, nessa famosa escola de Sa res, de onde saíam homens como a!uele heróico=artolomeu >ias, e cu1a influência, directa ou indirectamente, produziu um Ma alh$es e um7olom*o% 4oi uma onda !ue, levantada a!ui, cresceu até ir re*entar nas praias do .ovo Mundo%'iuse de !uanto eram capazes a inteli ência e a ener ia peninsulares% Por isso a 0uropa tinha osolhos em nós, e na 0uropa a nossa influência nacional era das !ue mais pesavam% 7ontavase paratudo com Portu al e 0spanha% .o século &', >% 5o$o (, ár*itro em várias !uest3es internacionais,é eralmente considerado, em influência e capacidade, como um dos primeiros monarcas da0uropa% ;udo isto nos prepara para desempenharmos, che ada a enascen#a, um papel lorioso e preponderante% ?ouve, porém, uma primeira era#$o !ue respondeu ao chamamento daenascen#a) e en!uanto essa era#$o ocupou a cena, isto é, até ao meado do século &'(, aPenínsula conservouse 6 altura da!uela época e2traordinária de cria#$o e li*erdade de pensamento% A renova#$o dos estudos rece*eua nas suas @niversidades novas ou reformadas,onde se e2plicavam os randes monumentos literários da Anti uidade% 0ntre as B @niversidadesesta*elecidas na 0uropa durante o século &'(, 8 foram fundadas pelos reis de 0spanha% @mestilo e uma literatura novos sur iram com 7am3es, com 7ervantes, com Cil 'icente, com Sá deMiranda, com -ope de 'e a, com 4erreira% A família dos humanistas, verdadeiramentecaracterística da enascen#a, foi representada entre nós por André de esende, por >io o de;eive, pelo *ispo de ;arra ona, por >ami$o de Cóis, e por 7am3es, cu1a inspira#$o n$o e2cluíauma erudi#$o !uase universal% 4inalmente, a arte peninsular er ue nessa época um voo poderoso,com a ar!uitectura chamada manuelina, cria#$o duma ori inalidade e ra#a surpreendentes% >este mundo *rilhante, criado pelo énio peninsular na sua livre e2pans$o, passamos !uase semtransi#$o para um mundo escuro, inerte, po*re, ininteli ente e meio desconhecido% Pois *astaram para essa total transforma#$o DE ou FE anosG 0m t$o curto período era impossível caminhar maisrapidamente no caminho da perdi#$o% .o princípio do século &'((, !uando Portu al dei2a de ser contado entre as na#3es, e sedesmorona por todos os lados a monar!uia anómala, inconsistente e desnatural de 4ilipe (() ent$oaparece franca e patente por todos os lados a nossa improcrastinável 9inadiável decadência%Aparece em tudo) na política, na influência, nos tra*alhos da inteli ência, na economia social e naindústria, e como conse!uência de tudo isto, nos costumes% Ao mesmo tempo as nossas própriascolónias escapamnos radualmente das m$os: as Molucas passam a ser holandesas) na Hndialutam so*re os nossos despo1os holandeses, in leses e franceses: na 7hina e no 5ap$o desaparecea influência do nome portu uês% Portu ueses e 0spanhóis, vamos de século para séculomin uando em e2tens$o e import+ncia, até n$o sermos mais !ue duas som*ras, duas na#3esespectros, no meio dos povos !ue nos rodeiamG%%% 0 !ue tristíssimo !uadro o da nossa políticainteriorG As li*erdades municipais, 6 iniciativa local das comunas, aos forais, !ue davam a cada popula#$o uma fisionomia e vida próprias, sucede a centraliza#$o, uniforme e esterilizadora% Arealeza transformase no puro a*solutismo) es!uecendo a sua ori em e a sua miss$o, crêin enuamente !ue os povos n$o s$o mais do !ue o património providencial dos reis% / pior é !ueos povos acostumamse a crêlo tam*émG / povo emudece) ne amlhe a palavra, fechandolhe as7ortes) n$o o consultam, nem se conta 1á com ele% 7om !uem se conta é com a aristocracia I   palaciana, com uma no*reza cortes$, !ue cada vez se separa mais do povo pelos interesses e pelossentimentos, e !ue, de classe, tende a transformarse em casta% 0ssa aristocracia, impede aeleva#$o natural de um elemento novo, elemento essencialmente moderno, a classe média, econtraria assim todos os pro ressos li ados a essa eleva#$o% Por isso decai tam*ém a vidaeconómica: a produ#$o decresce, a a ricultura recua, esta nase o comércio, deperecem uma por uma as indústrias nacionais) a ri!ueza, concentrase em al uns pontos e2cepcionais, en!uanto amiséria se alar a pelo resto do país: a popula#$o, dizimada pela uerra, pela emi ra#$o, pelamiséria, diminui de uma maneira assustadora% .unca povo al um a*sorveu tantos tesouros,ficando ao mesmo tempo t$o po*reG .o meio dessa po*reza e dessa atonia, o espírito nacional,desanimado e sem estímulos, devia cair naturalmente num estado de torpor e de indiferen#a% J o!ue nos mostra claramente esse salto mortal dado pela inteli ência dos povos peninsulares, passando da enascen#a para os séculos &'(( e &'(((% A uma era#$o de filósofos, de sá*ios ede artistas criadores, sucede a tri*o vul ar dos eruditos sem crítica, dos académicos, doslimitadores% .os últimos dois séculos n$o produziu a Península um único homem superior, !ue se possa pKr ao lado dos randes criadores da ciência moderna: n$o saiu da Península uma só das randes desco*ertas intelectuais, !ue s$o a maior o*ra e a maior honra do espírito moderno%>urante IEE anos de fecunda ela*ora#$o, reforma a 0uropa culta as ciências anti as, cria seis ousete ciências novas, a anatomia, a fisiolo ia, a !uímica, a mec+nica celeste, o cálculo diferencial,a crítica histórica, a eolo ia: aparecem os .eLton, os >escartes, os =acon, os -ei*niz, os?arve, os =uffon, os >ucan e, os -avoisier, os 'ico N onde está, entre os nomes destes e dosoutros verdadeiros heróis da epopeia do pensamento, um nome espanhol ou portu uêsO <ue nomeespanhol ou portu uês se li a 6 desco*erta duma rande lei científica, dum sistema, duma factocapitalO A 0uropa culta en randeceuse, no*ilitouse, su*iu so*retudo pela ciência: foi so*retudo pela falta de ciência !ue nós descemos, !ue nos de radámos, !ue nos anulámos% Pelo caminho da i nor+ncia, da opress$o e da miséria che ase naturalmente, che asefatalmente, 6 deprava#$o dos costumes% 0 os costumes depravaramse com efeito% .os randes, acorrup#$o faustosa da vida de corte, onde os reis s$o os primeiros a dar o e2emplo do vício, da *rutalidade, do adultério: Afonso '(, 5o$o ', 4ilipe ', 7arlos ('% .os pe!uenos, a corrup#$ohipócrita, a família vendida pela miséria aos vícios dos no*res e dos poderosos% A reli i$o dei2ade ser um sentimento vivo) tornase uma prática ininteli ente, formal, mec+nica% A (n!uisi#$o pesava so*re as consciências como a a*ó*ada dum cárcere% / espírito pú*lico a*ai2avase radualmente so* a press$o do terror 9%%%% / espírito peninsular descera de de rau em de rau, atéao último termo da deprava#$oG;ais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem li*erdade, sem ri!ueza, sem ciência, seminven#$o, sem costumes% <uais as causas dessa decadência, t$o visível, t$o universal, e eralmente t$o pouco e2plicadaO 02aminemos os fenómenos !ue se deram na Península durante odecurso do século &'(, período de transi#$o entre a (dade Média e os tempos modernos% /ra esses fenómenos capitais s$o três, e de três espécies: um moral, outro político, outroeconómico% / primeiro é a transforma#$o do catolicismo , pelo 7oncílio de ;rento% / se undo, oesta*elecimento do absolutismo , pela ruína das li*erdades locais% / terceiro, o desenvolvimentodas conquistas  lon ín!uas% 0stes fenómenos assim a rupados, compreendendo os três randesaspectos da vida social, o  pensamento , a  política  e o trabalho , indicamnos claramente !ue uma profunda e universal revolu#$o se operou, durante o século &'(, nas sociedades peninsulares%0sses três fenómenos eram e2actamente o oposto dos três factos capitais, !ue se davam nasna#3es !ue lá fora cresciam, se moralizavam, se faziam inteli entes, ricas, poderosas, e tomavama dianteira da civiliza#$o% A!ueles três factos civilizadores foram a liberdade  moral, con!uistada pela eforma ou pela filosofia: a eleva#$o da classe média , instrumento do pro resso nas B  sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em !ue os destronou: a indústria , finalmente,verdadeiro fundamento do mundo actual, !ue veio dar 6s na#3es uma concep#$o nova do >ireito,su*stituindo o tra*alho 6 for#a, e o comércio 6 uerra de con!uista% /ra, a liberdade moral  ,apelando para o e2ame e a consciência individual, é ri orosamente o oposto do catolicismo do7oncílio de ;rento, para !uem a raz$o humana e o pensamento livre s$o um crime contra >eus:a classe média , impondo aos reis os seus interesses, e muitas vezes o seu espírito, é o oposto doa*solutismo, esteado 9*aseado na aristocracia e só em proveito dela overnando: a indústria ,finalmente, é o oposto do espírito de con!uista, antipático ao tra*alho e ao comércio%Assim, en!uanto as outras na#3es su*iam, nós *ai2ávamos% Su*iam elas pelas virtudes modernas)nós descíamos pelos vícios anti os, concentrados, levados ao sumo rau de desenvolvimento eaplica#$o% =ai2ávamos pela indústria, pela política% =ai2ávamos, so*retudo, pela reli i$o%>a decadência moral é esta a causa culminanteG / catolicismo do 7oncílio de ;rento n$oinau urou certamente no mundo o despotismo reli ioso: mas or anizouo duma maneiracompleta, poderosa, formidável, e até ent$o desconhecida% J !ue realmente o cristianismo e2istiue pode e2istir fora do catolicismo% / cristianismo é so*retudo um  sentimento : o catolicismo éso*retudo uma instituição % @m vive da fé e da inspira#$o: o outro do do ma e da disciplina% ;odaa história reli iosa, até ao meado do século &'(, n$o é mais do !ue a transforma#$odo  sentimento cristão  na instituição católica % Assim pois, meus senhores, o catolicismo dos últimos séculos, pelo seu princípio, pela suadisciplina, pela sua política, tem sido no mundo o maior inimi o das na#3es, e verdadeiramente otúmulo das nacionalidades% 0 a nós, 0spanhóis e Portu ueses, como foi !ue o catolicismo nos anulouO 7om a (n!uisi#$o, umterror invisível paira so*re a sociedade: a hipocrisia tornase um vício nacional e necessário: adela#$o é uma virtude reli iosa: a e2puls$o dos 1udeus e mouros empo*rece as duas na#3es, paralisa o comércio e a indústria, e dá um olpe mortal na a ricultura em todo o Sul da 0spanha:a perse ui#$o dos crist$osnovos faz desaparecer os capitais: a (n!uisi#$o passa os mares, e,tornandonos hostis os índios, impedindo a fus$o dos con!uistadores e dos con!uistados, tornaimpossível o esta*elecimento duma coloniza#$o sólida e duradoura: na América despovoa asAntilhas, apavora as popula#3es indí enas, e faz do nome de crist$o um sím*olo de morte) oterror reli ioso, finalmente, corrompe o carácter nacional, e faz de duas na#3es enerosas hordasde fanáticos endurecidos, o horror da civiliza#$o% A educa#$o 1esuítica faz das classes elevadasmá!uinas inteli entes e passivas) do povo, fanáticos corruptos e cruéis% ;al é uma das causas, sen$o a principal, da decadência dos povos peninsulares% 4eriu o homem no !ue há de mais íntimo,nos pontos mais essenciais da vida moral, no crer, no sentir N no  ser  : envenenou a vida nas suasfontes mais secretas% 0sta causa actuou principalmente so*re a vida moral: a se unda, o a*solutismo, apesar de sereflectir no estado dos espíritos, actuou principalmente na vida política e social% =asta dizer !ue ocarácter dessas monar!uias durante a (dade Média contrasta sin ularmente com o !ue lheencontramos no século &'( e nos se uintes% /s reis ent$o n$o eram a*solutos) e n$o o eram por!ue a vida política local, forte e vivaz, n$o só n$o lhes dei2ava um rande círculo de ac#$o% Ali*erdade era ent$o o estado normal da Península% .o século &'( tudo isto mudou% / poder a*soluto assentase so*re a ruína das institui#3es locais%A*ai2ou a no*reza, é verdade, mas só em proveito seu: o povo pouco lucrou com essa revolu#$o%/ !ue é certo é !ue perdeu a li*erdade% A centraliza#$o monár!uica, pesada, uniforme, caiu so*re 

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Aug 1, 2017
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