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A Dimensão Lúdica Na Criança de 0 a 3 Anos Na Creche

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BONDIOLI, Anna. A dimensão lúdica na criança de 0 a 3 anos na creche. IN: BONDIOLI, Anna e MANTOVANI, Susanna. Manual de educação infantil: de 0 a 3 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 9ª edição.
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  BONDIOLI, Anna. A dimensão lúdica na criança de 0 a 3 anos na creche. IN: BONDIOLI, Anna e MANTOVANI, Susanna. Manual de educação infantil: de 0 a 3 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 9ª edição, 1998. p.212-227. Página 212 A Dimensão Lúdica na Criança de 0 a 3 Anos e na Creche Anna Bondioli Após a reavaliação do jogo como modalidade fundamental de aquisição e organização da experiência das crianças pequenas, encontrável em cada contexto cultural e até no mundo animal, derivou-se a idéia de que haja uma relação entre jogo e possibilidades evolutivas. A partir daí foi delineando-se uma pedagogia do jogo que se casava bem com uma concepção de maturação do crescimento, do tipo: deixem as crianças brincarem e certamente seu desenvolvimento motor, lingüístico, intelectual e social melhorarão , Em recente entrevista, Garvey desmente essa convicção radicalizada, sustentando que se é verdade que as pesquisas confirmam o binômio jogo/saúde psicofísica da criança, elas ainda não conseguiram estabelecer a função e o papel do jogo no desenvolvimento infantil (Mayer, 1985). Tal constatação parece-nos salientar que o jogo pode ser considerado, com razão, um aspecto normal do desenvolvimento optimal, mas que ainda há muito o que se estudar, aprofundar e experimentar acerca das condições que fazem do jogo um instrumento evolutivo e, com maior razão, um espaço privilegiado da educação pré escolar. Existe pois o risco de querer considerar jogo cada manifestação infantil ou, ao contrário, de pensar que se pode transformar em jogo cada situação de experiência das crianças pequenas. Uma segunda idéia atravessou o debate relativo à formulação de uma pedagogia do jogo nas instituições para a primeira infância, a que considera os objetos, os materiais, os brinquedos em primeiro plano, na organização das atividades lúdicas, visto que a curiosidade infantil, em relação ao mundo externo, parece um fenômeno tão geral e precoce que faz pensar ser ela inata e que não necessita de condições particulares para que se manifeste. Algumas pesquisas contribuíram bastante para desmentir essas concepções de caráter tanto psicanalítico quanto interativo-cognitivista que, mesmo partindo de premissas diferentes, evidenciaram como a relação com os objetos, e o desejo de exploração que constitui a sua motivação, não seja um impulso primário, mas que se constitua a partir de situações sociais compartilhadas com o adulto que funciona como medium (meio) em relação às coisas e aos eventos do mundo físico. Tais pesquisas mostram que existe uma outra criança, antecedente à piagetiana, Página 213   descobridora e construtora da realidade, e que o jogo apresenta, desde o início, uma forte qualidade social. Isso também fez repensar ou, pelo menos, conter dentro de limites mais restritos a idéia piagetiana do egocentrismo infantil que vê a criança em idade pré-escolar interagir com os coetâneos por períodos de tempo prolongados de maneira completamente solipsística e não social. Uma linha de pesquisa, que está amplamente apresentada em um outro ensaio desta parte da antologia (cf. Musatti, neste volume), corrige essa hipótese, evidenciando as conotações peculiares das trocas entre crianças em situações de jogo. Dessas breves considerações surge a necessidade de delinear uma seqüência evolutiva do jogo de zero a três anos que esclareça, para cada etapa considerada, o entrelaçamento entre criança, objetos, pessoas no jogo, e evidencie a inter-relação entre aspectos cognitivos, afetivos e sociais. A partir dessa progressão, apresentada na primeira parte deste trabalho, serão discutidos alguns traços de uma pedagogia do jogo na creche, setting (ambiente) educacional absolutamente particular que se caracteriza pela presença de várias crianças aproximadamente da mesma idade e de figuras de referência diversas das parentais, com uma preparação pedagógica que deveria permitir a organização e administração de maneira consciente das situações de jogo oferecidas às crianças. Mas, para que essa possibilidade se traduza em realidade, é necessário iniciar a discussão - pelo menos no que diz respeito às atividades lúdicas, que é o tema que aqui nos compete - sobre as modalidades com as quais objetos e pessoas do setting creche são colocados para fazê-los interagir no jogo. Portanto, analisaremos algumas pesquisas no campo da avaliação de experiências de jogo na creche e, sem nos determos nas também importantes questões relativas à escolha dos materiais, aos tipos de atividades e à organização temporal da vida cotidiana na creche, identificaremos como problema principal o comportamento e o papel do adulto nas situações lúdicas. Já na família, primeira agência de socialização infantil, o espaço de jogo deveria ser estudado e potencializado. Ainda com maior razão, na creche, que se caracterizou, durante todos estes anos, pela busca de estratégias e modelos pedagógicos na medida da criança. Em particular, a interação adulto/criança e adulto/grupo de crianças constitui um elemento fundamental para caracterizar qualitativamente a creche como espaço educacional sobretudo em relação ao jogo, que é um dos mais difundidos e espontâneos comportamentos infantis. A espontaneidade de tal comportamento não deve, porém, fazer com que se esqueça que o espaço do jogo é, desde o início, um espaço que se constrói, uma experiência que se adquire enquanto compartilhada, que se enriquece através da incorporação de modelos culturais participados.   1. A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO DE JOGO ENTRE ADULTO E CRIANÇA: O OBJETO DE TRANSIÇÃO Enquanto Piaget está atento em estudar o modo com o qual a criança chega, de um estado de indiferenciação inicial, a distinguir a si mesma do mundo externo, compreendido sobretudo no seu aspecto físico, a discriminar entre meios (as próprias ações) e fins (efeitos produzidos pelas ações sobre os objetos), a especificar-se como objeto entre objetos no espaço, o interesse dos psicanalistas infantis está voltando, em primeiro lugar, à questão de como um recém-nascido, partindo de uma total indiferenciação, constrói progressivamente, através das trocas que realiza Página 214 com o ambiente - compreendido não somente em sentido físico, mas também e sobretudo social - o sentido da sua própria identidade pessoal. Este percurso é descrito por Winicott (1971) como a passagem de um estado de fusão total com o ambiente (a mãe) àquele onde a criança começa a ter consciência da própria individualidade (uma pessoa entre tantas pessoas, uma pessoa diferente de todas as outras); de um estado de não-integração primária, na qual aquele que posteriormente se tornará um Eu é um conjunto de sensações fragmentárias e desconexas, a um estado de integração caracterizado pela percepção de possuir um dentro e um fora ; de um estado de não-personalização a um estado de personalização, caracterizado pela conquista da unidade psicossomática de um estado de dependência absoluta a uma situação de independência. Esse percurso, se bem realizado, leva à construção do Eu que confere ao indivíduo o sentido de ser real. É no jogo recíproco entre mãe e criança que, de forma totalmente paradoxal, a criança encontra o Eu através da descoberta do outro (a mãe), experimentando a frustração conseqüente à perda da sensação inicial de fusão. Tal frustração é compensada por um sentimento de onipotência que dá à criança a impressão de ter ela mesma criado o objeto de que tinha necessidade. Quando o recém-nascido sente fome, pode vencer essa sensação desagradável imaginando de maneira mágica e onipotente o objeto que saciará a sua fome: o seio materno. Se a mãe, em tempo razoável, satisfizer o impulso da criança, ela contribuirá para que se crie na criança a ilusão de ter ela mesma criado o objeto. Quando a adaptação da mãe às necessidades da criança é suficientemente boa, ela fornece à criança a ilusão de que exista uma realidade externa que corresponde à capacidade da criança de criar (ibidem, p.39). Este espaço da ilusão - e o sentimento de onipotência que provoca na criança - constitui a base da experiência lúdica.  Paradoxalmente, é justamente essa ilusão inicial que, fornecendo um grande reforço do Eu embrionário infantil, permite suportar mais tarde a desilusão, isto é, a descoberta da mãe como um ser fora da criança, como não-Eu, como objeto separado. O objeto de transição (um pedaço de lençol, a franja de um cobertor e, mais adiante, um bichinho de pelúcia, um brinquedo) - e o seu uso por parte da criança - assinala, justamente para a criança, a passagem de um estado de fusão com a mãe a um estado no qual, vendo-a como algo separado, pode entrar em relação com ela. O brinquedo de transição é de fato, para a criança, ao mesmo tempo, eu e não eu; é um objeto possuído, mas que parece gozar de vida própria. O seu valor lúdico é simbólico: substitui algo (a ausência da mãe), está no lugar da mãe, mas ao mesmo tempo não é a mãe, é um objeto independente dela. Se os cuidados maternos são suficientemente bons e dão segurança à criança, o objeto de transição pode tornar-se mais importante do que a própria mãe (a criança leva-o sempre consigo, o quer na cama, o procura ativamente se lhe for subtraído) e contribui, assim, para o nascimento de uma independência afetiva e para o interesse em relação ao mundo externo. O instaurar-se da relação com o objeto, realizada através da área de jogo que une a mãe à criança, permite ao pequeno brincar sozinho, seguro de que a pessoa que ama esteja disponível e continue a sê-lo mesmo quando é lembrada depois de ter sido esquecida (Ibidem, p.93). Outros estudos também de caráter psicanalítico, em particular os de Spitz e de Klein, tiveram o mérito de evidenciar que o impulso epistemofílico deriva de uma relação mãe/criança exitosa salientando a importância dos cuidados maternos Páginas 215 e a qualidade da interação adulto/criança nos primeiros meses de vida [Nota: 1]. O fato de que tais cuidados não fossem somente físicos mas que tivessem qualidades afetivo-emocionais era fortemente evidenciado nos autores mencionados; muito menos a descrição detalhada dessas habilidades complexas que as mães parecem possuir de maneira completamente natural. As pesquisas relativas aos cuidados maternos são, por outro lado, extremamente interessantes para quem, não como mãe, mas como educadora, tem relação com crianças pequenas, pois, demonstrando a possibilidade de estudo e de análise, mostram que são competências sob certos aspectos reproduzíveis, adquiríveis, melhoráveis também por quem interage com as crianças pequenas em contexto extra familiar. 2. O ADULTO COMO BRINQUEDO
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