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A escola de Camila e Lua.doc

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A escola de Camila e Lua Sofia da Palma Rodrigues Como em todos os dias de trabalho, Augusto ia apanhar o comboio. Busca o comboio, Camila , avança . Para a frente , avança . Mas nada. Camila insistia em não cumprir a ordem e continuava imóvel. Avança, para a frente. Augusto teimava em dar um passo à frente, um passo em falso. Acabaram por cair por cair na linha, aquele não era o caminho que habitualmente percorriam. Augusto Hortas é cego e Camila foi o primeiro cão-guia treinado em Por
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  A escola de Camila e LuaSofia da Palma RodriguesComo em todos os dias de trabalho, Augusto ia apanhar o comboio. Busca o comboio, Camila , avança . Para a frente , avança . as nada. Camila insistia em n!o cumprir a ordem e continuava imvel. Avança, para a frente. Augusto teimava em dar um passo # frente, um passo em falso. Acabaram por cair por cair na linha, a$uele n!o era o caminho $ue habitualmente percorriam.Augusto %ortas & cego e Camila foi o primeiro c!o'guia treinado em Portugal. ( acidente na linha de comboio n!o passou de um susto. A culpa foi toda minha, eu & $ue insisti com ela , reconhece Augusto. )stes c!es s!o dotados de uma desobedi*ncia inteligente $ue fa+ com $ue n!o aceitem as nossas ordens se isso nos colocar em perigo. %oe, ao fim de mais de sete anos, Augusto - sabe como reagir /uando a cadela n!o $uer avançar, vou calmamente com a bengala ver o $ue se passa. Acredito nela por$ue tem $uase sempre ra+!o. Camila devolveu a Augusto a identidade $ue havia perdido aos 01 anos $uando um descolamento de retina lhe trocou as voltas. $uando entrava em $ual$uer espaço as pessoas tinham uma atitude de comiseraç!o Coitadinho do ceguinho. Audavam a sentar'me mas nem se$uer me dirigiam uma palavra, era como se eu fosse um ser sem alma . 2esabafa. Com um c!o'guia, Augusto começou a sentir $ue o di-logo se estabelecia naturalmente, sem pena ou acç3es forçadas. 4nterpelam'me na rua, falam comigo, fa+em'me perguntas 5!o giro, posso fa+er uma festinha , o c!o nunca se engana6 7!o tem medo de andar so+inho6 . Com Camila, $ue foi a sua primeira cadela e morreu no ano passado, Augusto teve de enfrentar os entraves de $uem d- os primeiros passos num caminho agreste. A Camila foi'me entregue em 8aneiro de 0999 e s em 8ulho do mesmo ano saiu o decreto'lei sobre a utili+aç!o de c!es'guia. Sem protecç!o legal, Augusto viu'se muitas ve+es impedido de entrar em locais p:blicos. Com Lua, a sua nova guia, - n!o tem esse tipo de problemas. Ando com ela de avi!o, vou ao restaurante, posso entrar em $ual$uer estabelecimento  p:blico. A minha cadela tem todos os direitos perante a lei. Se a Lua p3e as  patas no ch!o, as pessoas tamb&m p3em os sapatos. )la & limpa, escovada, tratada, por isso, pode entrar em $ual$uer lado. Augusto & t&cnico superior no Centro de ;ormaç!o Profissional de Alverca. 2epois do inconformismo, resolveu reaprender a viver. 5inha $ue me considerar cego para o resto da vida e lutei para conseguir os meus obectivos , conta. ;ormou'se em ;ilosofia e casou. (s mais de <= anos de cegueira atenuaram'lhe a revolta e a dor.Lua acompanha'o de casa, em >ila ;ranca de ?ira, at& ao trabalho. (s sentidos da cadela'guia v*m apurados ao m-@imo durante todo o percurso, por  isso, $uando chegam tem direito ao merecido descanso. (s raios de sol reflectem na anela e a labrador bee est- enroscada num dos cantos do escritrio, aos p&s da cadeira do dono. (uve'se o barulho de $uem est-  prestes a dormir a sesta. Sacode'se e volta a ressonar. )st- com preguiça 6,  pergunta Augusto. Lua desperta de imediato, ela & uma cadela muito alegre e divertida , descreve.;oi na )scola de C!es'guia de ort-gua, a :nica em Portugal, $ue Camila e Lua foram treinadas. )sta escola, criada em 0999, - entregou = c!es'guia. Recebe do )stado cerca de 1= por cento do seu financiamento, o resto do orçamento & conseguido atrav&s de doaç3es de empresas e de festas e sorteios de rifas organi+ados pela prpria escola. 5emos falta de audas financeiras $ue nos possibilitem aumentar o n:mero de educadores e conse$uentemente formar mais c!es , di+ ;ilipa Paiva, a veterin-ria da escola.Com tr*s educadores, forma anualmente 0 guias e tem uma lista de espera de cem pessoas ' o tempo previsto para a entrega de um c!o & de $uatro anos. A situaç!o começa a complicar'se , $uei@a'se ;ilipa Paiva. (s primeiros c!es $ue entreg-mos est!o a morrer e damos sempre prioridade #s pessoas $ue - tiveram um c!o'guia. Segundo os Censos de ==0, e@istir!o em Portugal mais de 0= mil deficientes visuais ' nem todos podem ter um destes guias por n!o reunirem as condiç3es necess-rias outros n!o se candidatam a ter um pois desconhecem a e@ist*ncia da escola.Lola & uma labrador preta e olhos e p*lo brilhantes. %- dois anos foi a escolhida para ser treinada de entre uma ninhada com 0 c!es. )scolhemos os mais soci-veis, $ue n!o t*m medos e s!o menos irre$uietos. 2amos tamb&m  prefer*ncia #s f*meas por$ue ad$uirem mais cedo capacidade de trabalho e s!o menos dominadoras , e@plica ;ilipa Paiva. 2epois de ter estado um ano numa famDlia de acolhimento em fase de sociali+aç!o, para se habituar #s rotinas di-rias, Lola voltou # escola para o treino t&cnico. ;altava'lhe ainda um ano para poder substituir os olhos de algu&m.E com as $uatro patas assentes no ch!o e o focinho erguido, em posiç!o de trabalho $ue Lola inicia o treino do dia. Busca o passeioF , as escadas, onde est!o as as escadas6 , avança, avança em frente, # es$uerda . Lola segue com rigor as regras $ue lhe s!o dadas. Compreende tudo o $ue lhe di+em, parece conhecer de cor as ruas de ort-gua. P-ra em cada degrau. 2esvia'se das poças e de todos os obst-culos $ue surgem. 4dentifica a  passadeira, o banco ou o caf&.Gma hora e meia por dia, cinco dias por semana, & o tempo $ue arta ;erreira, uma das educadoras da escola, e a labrador preta passam a treinar. arta n!o & cega mas fa+ como se fosse. P& ante p&, tenta imitar os gestos habituais da$ueles $ue n!o conseguem en@ergar o mundo. /uando Lola p-ra, antecipando a e@ist*ncia de um degrau, arta estica a perna e sente com a sola do sapato a altura do mesmo. 5enho de ter um comportamento o mais semelhante possDvel ao de um cego, $uem n!o v* e vai sempre confirmar se a  informaç!o $ue o c!o lhe est- a dar & correcta. )ntre arta e Lola e@iste uma $uDmica evidente. Sempre $ue a cadela identifica um local ou p-ra diante de um obst-culo, arta congratula'a Bom trabalho, Lola. Palavras meigas seguidas de festas e palmadinhas no dorso fa+em com $ue Lola abane a cauda e enrugue os olhos num gesto de agradecimento. E muito importante $ue eles  percebam $uando est!o a fa+er bem , e@plica arta para ustificar o motivo de tanta baulaç!o.Por serem c!es meigos, male-veis e soci-veis & $ue todos os guias $ue e@istem em Portugal s!o labradores. As pessoas t*m reservas mentais contra determinadas raças. Se visse um cego com um pitbull ou um rotteHeiler apro@imava'se6 , $uestiona Sabina 5ei@eira, outra das educadoras. 5odos os c!es e cadelas guias foram capados para n!o reagirem a determinados instintos.Para Sabina, & evidente $ue estes c!es t*m um lado emocional muito forte /uando ralhamos mais alto, n!o gostam e v!o'se esconder. /uando fogem &  por$ue est!o amuados. Apesar de serem c!es de trabalho, # semelhança do $ue acontece com as pessoas, gostam de mimo e brincadeira. /uem trabalha o c!o tamb&m tem de ter com ele momentos de la+er, fa+er'lhe festas, escov-'lo. Se n!o for o utili+ador a mim-'lo, acabar- por ter prefer*ncia pelos outros membros da famDlia , alerta Sabina. 7o fundo s!o animais iguais aos outros, a :nica diferença & $ue s!o treinados desde $ue nasceram. Aprendem por repetiç!o e trabalho di-rio e acabam por se tornar o melhor amigo do seu utili+ador. uitos c!es s!o os filhos $ue nunca tiveram. ICom eleJ o cego  passa a ter acç!o. Para al&m da mobilidade, devolveram'lhe a identidade , acrescenta Sabina.8udite artins tem K anos e cegou h- $uatro. )nviou a papelada necess-ria h- mais de meio ano, mas ainda nem a chamaram para a entrevista. 5al como Augusto, sofreu um descolamento de retina. /uando soube $ue iria ficar cega  para sempre pensei logo em ter um c!o'guia. 7a altura o meu c!o, de h- 0K anos, morreu e optei por tentar ad$uirir um animal $ue me pudesse audar nesta nova fase. A a$uisiç!o de um c!o'guia & totalmente gratuita. A escola cede o usufruto do animal mas este ser- sempre sua propriedade.8udite preenche os re$uisitos b-sicos impostos pela escola de c!es'guia, tem noç3es de mobilidade e condiç3es financeiras$ue lhe permitam tratar do c!o cerca de 0= euros mensaisM, pretende e@ercer uma actividade $ue a obrigue a sair diariamente de casa. ) at& tem um $uintal, pe$uenino, mas $ue d-  para ele brincar. Com um c!o, sairia muito mais, n!o estaria dependente de nada nem de ningu&m. 8udite tem saudades de sair sem dar e@plicaç3es. Sair  por$ue lhe apetece. ;a+er a$uilo $ue dantes era simples e agora - n!o pode.Apesar de a estimativa apontar para uma espera de $uatro anos, 8udite n!o desiste. Algum dia hei'de ter um bichinho destes. 2epois de ter preenchido um aut*ntico livro de $uest3es , acredita $ue o mais difDcil - passou.as n!o. A escola tem dois tipos de lista de espera. A dos $ue se candidatam a c!es'guia e podem nunca vir a ser chamadosM e a dos $ue - foram  seleccionados como futuros utili+adores, aps uma entrevista. 8udite artins ainda est- na primeira. as nem isso a demove 7!o desisto. E o meu sonho. ) os cegos sonham sempre a cores, sabia6 ;onte P:blica Para saber mais, consulteHHH.iris.org.br  , ceiNce.ufpe.br  =O0 << = 11.
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